MORTA!

Ella morreu?... Pois d'ella nada existe?...

Triste do sêr que só na vida colha

Os resquicios da flor que se desfolha,

E o riso que desmaia!... Ai, triste, triste!...

Que tudo o que eu amar logo se extingue!

No cuidado jardim dos meus amores,

Que nem uma só flor, de tantas flores,

Heide vêr e querer que vice e vingue!

Que sina é pois, meu Deus, a minha sina?

Parece que ando sempre adstricto á morte;

Fujo do que é vivaz e alegre e forte,

Busco tudo o que chora e a fronte inclina.

Mais quero ao pôr do sol que á rósea aurora;

Mais que ao botão acceso, á flor que pende;

Mais que ao peito que lucta, ao que se rende;

Mais que ao riso feliz, á voz que implora.

Não sei que tem a pallidez do outono,

E o frémito das folhas desbotadas;

Lembra-me em noites no prazer passadas

Um sonho de ternura antes do somno.

Alguma cousa vaga e transparente

Que enlaça co'a visão a realidade,

Que affaga e que sorrí, mas faz saudade

Por que enche d'agua os olhos do vidente.

Eu vi-a e senti n'alma que a adorava,

Que fragancia! que flor! que novidade!

É que a mystica luz da eternidade

Já da entre-aberta campa a illuminava.

E eu louco ante visão tão pura e bella,

Nem via em tanta luz sombra da morte,

Nem me lembrei da minha ingrata sorte,

E eu sabia que amal-a era perdel-a!

Adeus!... Se existe o céo... a eternidade?...

Se nos veremos no paiz risonho?...

A vida transitoria e a morte... é sonho?...

Meu Deus! porque nos dás esta saudade?

1869 Thomaz Ribeiro, Grinalda, t. VI, p. 7.