O DOIDO

Passei!—O povo na praça

Se apinhava todo alli;

Olha-me a turba devassa,

E chama-me doido, e rí.

Retiniu a gargalhada,

Soturna, fria, pausada,

Perdeu-se ao longe,—pensei

Um momento em mim;—vaidade!

Á turba dei, por piedade,

O meu desprezo, e passei!

Porque luctas, sociedade,

Contra o genio?—Não venceu

Teus sophismas a verdade

Nos labios de Galileu?

E era um doido! De demencia

Alcunhaste a intelligencia

Cujo peso te esmagou;

Não chamaste louco ao Tasso

Por fender n'um vôo o espaço

Que o talento lhe apontou?

E eu, doido; porque sósinho

Não imploro amor, nem dó!

Firme trilho o meu caminho,

Mas quero trilhal-o só.

Ver-me só n'este degredo,

Não profanar um segredo,

Nem ir, mendigo servil,

Pedir gloria; não careço

De vender-me pelo preço

De um sorriso estulto e vil.

Se soffrí muito... calei-me,

Repreza ficou a voz;

No inferno d'alma abrazei-me...

Mas eu era e a dor a sós.

A ninguem pedi esmola

De uma lagrima que rola

Nas faces por compaixão;

Foram só meus gemidos,

Não quiz vêr prostituidos

Mysterios do coração.

Tantas fui n'esta alma ardente

Visões lindas conceber!...

Que desengano pungente!

Encontrei uma mulher

Em vez das visões divinas,

Colloquei-me entre as ruinas

Do meu passado e porvir;

Olhei a vida de perto,

Tinha um horisonte incerto,

Quiz força para reagir;

E tive-a. Da dependencia

As algemas quebrei eu;

Nem sequer a esta existencia

Pedí o influxo do céo;

Porque uma vez, não me esquece,

Balbuciei uma prece,

D'angustia soltei um ai,

Da magoa o brado no anceio

Que não teve ecco no seio

De um senhor, que é Deus... que é pae!

Ao soffrimento puz termo,

Suffoquei n'alma as paixões,

E no peito achei um ermo

De affectos, de sensações;

Parto de um golpe as cadeias

Que me anciavam: e nas veias

Livre o sangue tem calor;

Encontro-me só, mas forte,

Salvo o espirito da morte,

De um marasmo assustador.

D'estes hombros, n'um momento,

Arrojei ao longe a cruz;

E pedí ao pensamento

Em vez das trevas a luz.

Quiz ver e vi: que não sente

Ninguem, que a palavra mente

Que quer dizer—coração;

É o homem meu inimigo,

E ao que me bradou—amigo,—

Recusei volver lhe a mão.

Da mulher á face impura

Que me fallou em amor

Com hypocrita candura,

Com calculado fervor,

Com mentido enthusiasmo,

Cuspi acerbo sarcasmo;

Forcei-a aos olhos baixar;

E a mulher e o homem vingáram

Tamanha affronta e bradaram:

Deixem o doido passar!

O doido passa; não venha

Ser-lhe de estorvo ninguem,

N'um abysmo se despenha

Rindo ao mal e rindo ao bem!

Que vos importa se espande

Sua alma assim?—se elle é grande

Porque em si é grande a fé;

Se vós tremeis por bem pouco...

Porém vêdes sempre o louco

Firme, impassivel, de pé.

Ernesto Marecos, Primeiras Inspirações, p. 119. Lisboa, 1865.