NA RÊDE

Nas horas ardentes do pino do dia

Ao bosque corri;

E qual linda imagem dos castos amores,

Dormindo e sonhando cercada de flores

Nos bosques a vi!

Dormia deitada na rêde de pennas,

O céo por docel,

De leve embalada no quieto balanço,

Qual nauta scismando n'um lago bem manso,

N'um leve batel.

Dormia e sonhava;—no rosto, serena,

Qual um seraphim;

Os cilios pendidos nos olhos tão bellos,

E a brisa brincando nos sôltos cabellos,

De fino setim!

Dormia e sonhava—formosa, embebida

No doce sonhar,

E doce e sereno, n'um magico anceio

Debaixo das roupas batia-lhe o seio

No seu palpitar.

Dormia e sonhava,—a bocca entre-aberta,

O labio a sorrir;

No peito cruzados os braços dormentes,

Compridos e lisos quaes brancas serpentes,

No collo a dormir!

Dormia e sonhava—no sonho d'amores

Chamava por mim;

E a voz suspirosa nos labios morria

Tão terna e tão meiga qual vaga harmonia

De algum bandolim!

Dormia e sonhava—de manso cheguei-me

Sem leve rumor,

Pendi-me tremendo e, qual fraco vagido,

Qual sopro da briza, baixinho ao ouvido

Fallei-lhe de amor!

Ao halito ardente o peito palpita...

Mas sem despertar;

E como nas ancias de um sonho que é lindo,

A virgem na rêde córando e sorrindo...

Beijou-me a sonhar!...

Casimiro de Abreu, Ibid., p. 95.