NO DIA DO ENTERRO DE...
A vida é uma comedia sem sentido,
Uma historia de sangue e de poeira,
Um deserto sem luz...
A escara de uma lava em craneo ardido...
E depois sobre o lodo... uma caveira,
Uns ossos e uma cruz!
Parece que uma atroz fatalidade
A mente insana no provir alenta
E zomba da illudida!
O frio vendaval da eternidade
Apaga sobre a fronte macilenta
A lampada da vida.
Não digas, coração, que alma descança
Quando as ideias no prazer enfurda
O escarneo zombeteiro...
Que loucura!... a manhã o peito cansa,
Resta um enterro... e uma resa surda...
E depois... o coveiro!
Fermente a seiba juvenil do peito,
Vele o talento n'uma fronte santa
Que o genio empallidece...
Embalde! á noite, ao pé de cada leito
O phantasma terrivel se levanta...
E seu bafo entorpece!
E comtudo essa morte é um segredo
Que gela as mãos do trovador na lyra
E escarnece da crença;
Um pesadêllo—uma visão de medo...
Verdade que parece uma mentira
E inocula a descrença!
E quem sabe? é a duvida medonha!
Quem os véos arregaça do infinito
E os tumulos destampa?
Quem, quando dorme, ou vela, ou quando sonha
Ouviu revelações no horrendo grito
A rebentar da campa?
E quem sabe? é a duvida terrivel:
É a larva que aos labios nos aperta
Entreabrindo o sudario!
A realidade é um pesadêllo incrivel!
Semelha um sonho a lápida deserta
E o leito mortuario!
E quando acordarão os que dormitam?
Quando estas cinzas se erguerão tremendo
Em nuvens se expandindo?
Perguntae-o aos cyprestes que se agitam,
Ao vento pela treva se escondendo,
Nas ruinas bramindo!
E comtudo parece um desvario,
Blasphemia atroz o cantico atrevido
Que rugem os atheus;
Sem a sombra de Deus é tão vasio
O mundo—cemiterio envilecido!...
Oh! creiamos em Deus!
Creiamos, sim; ao menos para a vida
Não mergulhar-se n'uma noite escura...
E não enlouquecer...
Utopia ou verdade, a alma perdida
Precisa de uma ideia eterna e pura
—Deus e céo... para crêr.
Consola-te! nós somos condemnados
Á noite de amargura: o vento norte
Nossos pharoes apaga...
Iremos todos, pobres naufragados,
Frios rolar no littoral da morte
Repellidos da vaga!
Alvares de Azevedo, Ibid., t. I, p. 335.