O LEQUE

(De Tan-Jo-Lu)

Na perfumada alcova a esposa estava,

Noiva ainda na vespera. Fazia

Calor intenso; a pobre moça ardia,

Com fino leque as faces refrescava.

Ora, no leque em boa lettra feito

Havia este conceito:

«Quando, immovel o vento e o ár pesado,

Arder o intenso estio,

Serei por mão amiga ambicionado;

Mas volte o tempo frio,

Ver-me-heis a um canto logo abandonado.»

Lê a esposa este aviso, e o pensamento

Volve ao joven marido:

«Arde-lhe o coração n'este momento

(Diz ella) e vem buscar enternecido

Brandas auras de amor. Quando mais tarde

Tornar-se em cinza fria

O fogo que hoje lhe arde,

Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»

Machado Assis, Phalenas, p. 121.