O PRISIONEIRO
(Diante de uma cabeça de Miguel Angelo)
Uma palavra diz toda a desgraça:
—Ter por si a rasão, eis o seu crime!—
O despota o conhece; busca traça
Para esconder a victima que opprime.
Ferros! vossos anneis encadeados
Venham soldal-o para sempre ao muro;
Abobadas! calae-lhe ardentes brados,
Trevas! summi-o no estertor do escuro.
Mas tudo é pouco. O prisioneiro pensa
No rancor do tyranno e adormece;
A natureza é mãe: na dor immensa
Accolhe o que nas ancias desfallece.
Então, em somno longo e descuidoso
Aos sitios mais queridos d'outras éras,
A mente vôa e aviva com repouso
Passadas illusões, doces chimeras.
Quem cuidará que o inerme prisioneiro
Esquecido do peso das algemas
Ouve os colloquios do amor primeiro?
Do adeus final as expressões extremas?
Ali lhe transparece sobre os labios
O arpejo ignoto de suave riso,
Sereno como a profundez dos sabios,
Triste como o luar quando indeciso.
Pensa que é livre! o somno é liberdade
Para esse a quem nenhum consolo reste;
Qual será mais feliz? a auctoridade
Nunca logrou um instante como este.
Vela o tyranno, tendo álerta os guardas,
Entre canhões, muralhas, torres, fossos;
Lá quando o somno chega em horas tardas,
Ouve ais, vê sangue, estrepitos, destroços:
Escuta os gritos surdos da revolta
Do povo que a si mesmo faz justiça;
É negro o pezadello, o horror o escolta,
Quer despertar, remorso o infeitiça.
Este, dormindo, já se sente escravo,
Arrastado por praças, com vergonha;
Mas quem jaz mudo sob o iniquo aggravo
Que é livre, livre, ai prisioneiro, sonha.
Qual será mais feliz? um quando dorme,
É só para sentir terror, fraqueza;
E áquelle que succumbe ao peso enorme
Diz-lhe ser livre, a santa natureza.
Bem haja a eterna força que lhe inspiras
Que não conhece algemas—a vontade!
Prepotentes! quebrae ante ella as iras,
Embalem-nos os sonhos da verdade.
(Junho, 25—1872.) Theophilo Braga.