NAPOLEÃO MORIBUNDO

Como o grande astro, pallido e já frio

Vae a afundar-se lento no horisonte!

Olhos vagos, de extremo desvario

Dão um sinistro aspecto áquella fronte!

A fronte sombra gélida a cobriu

Como os nimbos no vertice do monte;

Aguia, que vae morrer sacode as azas,

Tal se agitou, e disse então:

—Las-Casas!

Estás ahi? És sempre o egual amigo,

Mais vinculado a mim pela desgraça!

Attenta nas palavras que te digo...

A custo sae a voz já surda e baça!

Um pezo enorme aqui, duro castigo,

Me opprime o peito, augmenta e ameaça.

Repara, arquejo de agonia e medo,

Tira de sobre o peito este penedo!

Sim, um penedo! alguem o detem sobre

O peito exhausto para meu desdouro;

Serei eu como o sapo que se encobre

Sob a pedra? ou recondito thezouro?

Mais opprime! sem ár e luz que sóbre

Acovarda-me o pezo d'esse agouro...

A pedra o gello seu me communica,

E como a pedra o corpo inerte fica!

Ouve. Acordei de um sonho longo e aziago

Na vertigem da febre que devora;

Prostra-me o pezadello máo, persago,

Que me levou alem dos mundos fóra.

Por onde eu ia me seguia o estrago,

Pude então meu destino ler; e agora

A mim voltei; ah, sobre mim o bloco

Assim encontro... E como o palpo e toco!

Fatalidade immensa; fim medonho!

Menos que Prometheu, do mundo antigo!

Como Sysipho á fraga não me opponho,

Nem faço como Ajax da rocha abrigo.

Sucumbo! escuta o tenebroso sonho,

Attenta na visão que aqui te digo,

Verás d'onde caíu este penedo

De que fiz pedestal... guarda segredo: