VISÃO DO PAROXISMO

Vi-me perdido, como outr'ora Dante,

Não na floresta escura, mas bem perto

D'uma montanha que encontrei diante

Do passo temerario, vão, incerto;

No flanco da montanha, a mais gigante,

Deparei antro lóbrego e aberto,

Quiz conhecer o goso de ir perdido,

E entrei, com esperança, destemido.

Era um algar profundo, escuro, mudo,

Gotejando a humidade e a doença;

Frio, como o terror! e mais que tudo

Ermo, como o que nunca teve crença!

Com a audacia da edade o passo ajudo,

Através da visagem feia e densa;

Quero ir lá dentro ouvir a Pythonissa

Na solidão dos que só tem justiça.

Era a via subterrea, má, sem tento,

Debaixo da Montanha aos céos erguida,

Interminavel como o soffrimento,

Desconhecida como o entrar da vida.

Foi impavido adiante o pensamento,

Quem romperia a tétrica avenida?

Oh, não foram por certo as alimarias

Sim, bem o sei, foi geração de Párias.

Parecia que o pezo da montanha

Já o sentia no offegar cansado;

A crassa escuridão era tamanha

Que ultrapassava os dogmas do peccado.

A tristeza que o peito ali me banha

Similhava a do homem ultrajado;

Silencio, egual ao seculo confuso,

Que não deixou protesto contra o abuso.

E tacteando trépido prosigo

Como o que deu por falta, e em vão procura;

Mas como a tradição de um tempo antigo

Paralisou-me uma humidade escura!

Senti-me vérme dentro de um jazigo,

E vi que a vida quer a luz só pura;

E dentro, lá nos infimos cancéllos

Ouvi ruido como de martellos;

Pancadas longas, de quem rompe e escava

Na compacta pedreira e a derruba,

O som pela caverna retumbava;

Fui avançando! quer eu desça ou suba

Mais se distingue a varia faina brava,

Como o leão, quando sacode a juba!

Ais e vivas, lamentos e cantigas

Soam como animando nas fadigas.

Cheguei mais perto. Vi-os! eram tantos...

Cataduras de Cyclopes, de athletas!

Rostos sulcados por calados prantos,

Peitos transidos por ignotas setas;

Na expressão moral, brutos e santos;

Tão ingenuos como almas de poetas;

Rudes, leaes, e rotos mas contentes;

Chamam isto—trabalho—aquellas gentes:

Levantavam os malhos contra a rocha,

Responde ella com afiadas lascas;

E quando no trabalho a força afrouxa,

Um canto anima as vacillantes vascas!

O canto ou grito da agonia roxa,

Çà ira! voz das intimas borrascas,

Vinha ao bater dos malhos dar compasso,

Trazer alento no mortal cansasso.

Muitos caíam já sem força, em terra,

Mudos, outros ficavam sepultados

Nas barreiras por culpa d'este que erra

Indo minar em perigosos lados.

Mas que poder sublime o canto encerra!

Çà ira! levam eccos prolongados;

E ao trabalho de novo metem hombros,

Na dor e na coragem sempre assombros.

Cheguei mais perto, ao perto dos mineiros:

—Oh raças condemnadas ao trabalho,

Criadas na fadiga, e os primeiros

Que procuraes romper tão duro atalho!

E para quem do Golgotha o madeiro

Só produziu o secco e esteril galho,

Que sentença condemna a essa luta

De vencerdes a natureza bruta?

«Vamos minando o alteroso Monte.

Temol-o atravessado pela base!

Procuramos a luz d'outro horisonte,

Nós sentimol-a! é esta a nossa phrase.

Sem um astro que a via nos aponte,

Vamos errantes, acertando quasi,

Mergulhados no frio e escuridade,

Dá-nos calor o ideal da liberdade.

«Ha gerações que aqui nasceram méstas;

E que se nasce livre aquella ignora!

Outra trabalha equiparada ás bestas,

E pensa que só vive quando chora.

Umas cáem na vala, restam estas

Na esperança de achar a nova aurora!

Sobre nós a montanha peza horrenda

Na tradição de seculos tremenda.

«Çà ira! Pois Encélado palpita,

Sacudindo a montanha sobre o dorso;

A montanha é a tradição maldita,

Immovel como os dogmas do remorso,

Impassivel como uma lei escripta...

Nós proseguimos no baldado esforço

Porque os filhos de nossos filhos vejam

A luz que os nossos olhos tanto almejam.

«Nós transmittimos o fatal legado

Que herdámos sem saber como nem quando...»

E quando olhava para aquelle lado

Lá onde o Çà ira! ia levando,

De repente ficou tudo calado!

Vi transluzir clarão suave e brando...

Jôrros de luz, que as trevas longe sómem,

Eu conhecí, era—Os Direitos do Homem!

Por ti, que gerações foram á vala

Afirmando o que a tradição mais nega!

E emquanto o pranto em cada rosto falla,

E a vêr a claridade cada um chega;

Lembrou-me a mim dever eu gradual-a,

A diáphana luz que a olhos céga;

—Oh, parae um instante! sabei que essa

Luz repentina é como a treva espessa.

Confiae hoje em mim; que eu vá adiante

A vêr se algum abysmo aí está aberto;

Quem sae da escuridão não vê distante,

Sustae o passo trépido e incerto!—

Como entra o mensageiro alegre, ovante

Na Promissão, saindo do dezerto,

E emquanto choram n'uma effusão terna,

Cheguei então á bocca da caverna.

Que mundo extranho, que planicie infinda,

Que ár saudável, tépido e fagueiro!

Que céo azul, que paizagem linda,

A harmonia embalava o mundo inteiro.

Bloco enorme de pedra estava ainda

Na bocca da caverna sobranceiro,

Cresceu-me esta ambição danada minha,

E vi a fragil lasca que o sustinha.

Á posse d'esse mundo a mente eu alço;

Sentí o egoismo de querer tal mundo

Só para mim; e eu, misero e falso,

Inda escutava o cantico jocundo,

De prompto o bloco intrepido descalço!

Rolou o pedra da caverna ao fundo;

Como se entaipa n'uma furna o urso,

Pensei interromper do tempo o curso.

Sepultos outra vez deixei em trevas

Miseraveis que seculos luctaram;

Abafei-te, hymno ardente, que sublevas,

Puz um dique aos golphões que extravasaram;

Cobri o quadro das angustias sévas

Que a tradição e a ordem ameaçaram;

Sobre essa pedra eu presenti a gloria

Fiz o meu pedestal perante a Historia.

Ouves, Las-Casas? choras, fiel amigo?

A custo sae-me a voz já surda e baça...

O meu destino foi, á força o digo,

Missão de um blóco em sua inerte massa.

Eu o sinto opprimir-me por castigo

O peito, e com seu pezo me ameaça;

No estertor de Job, ai se me ouvissem!

Melius erat si natus non fuissem.


Como se afunda do alto no oceano

A mó do Apocalypse amaldiçoada,

Tal para sempre no desprezo humano

Se imerge essa existencia egoista, errada.

Vomitou destruição o ignobil cano,

Da morte e do que é morto fez parada!

E se a dor sente alivio no improperio,

Sirva-lhe de alvo sua vida e imperio!

1874 Theophilo Braga