ÁS MÃES

Oh santas, que embalaes os berços das crianças,

E assim lh'o revestis de floreas esperanças;

Que andaes sempre a cuidar das almas por abrir,

E a verter-lhes no seio o germen do porvir!

Sois vós que, pela mão, da gloria á vida inquieta

Levaes um vosso filho, um pallido propheta,

Que é Newton ou Petrarcha, Angelo ou Raphael,

Com o pincel e a pena, o compasso e o cinzel,

Fazendo enobrecer quem lhes seguir o exemplo!

Sois vós que o conduzis ao portico do templo

Onde o porvir corôa os genios immortaes,

E mal chegadas lá de todo o abandonaes

Sem aguardar sequer, nas sombras d'uma arcada,

A grande acclamação que festeja a entrada!

E modestas que sois! tornaes a vosso lar

E só vos contentaes em vel-o atravessar

Coroada de laureis a frente scismadora,

Um arco triumphal, que o cérca d'uma aurora.

Mas nós, cabeças vans, escravos pelo amor,

Andamos a dizer; «Beatriz! Leonor!»

E o nome vosso, oh mães, não lembra um só instante.

Quem sabe o nome vosso, oh mães de Tasso e Dante?

Oh santas! perdoae; lá tendes o Senhor

Que vos cobre de luz, de bençãos e de amor,

Fazendo abrir ao sol as vossas esperanças!

Oh santas, emballae o berço das crianças!

1864
Guilherme Braga, Grinalda t. V, p. 25.