AMIGOS...
Era da Terra-Nova: um formidavel cão.
O homem que m'o vendeu, chamava-lhe—Sultão,
E creio que o trazia ha dois annos comsigo;
Eu só lh'o quiz comprar para ter um amigo ...
Depois que lh'o paguei, o soberbo animal
Lançou-lhe um triste olhar d'estes que fazem mal,
Que envolvem um adeus, talvez o derradeiro!
O dono, distrahido a contar o dinheiro,
Nem mesmo reparou n'essa muda afflícção,
E disse-me a sorrir; «É um bravo, este Sultão!
Bem nutrido e leal: dedicado e robusto!
Mas... pode acreditar que lh'o dou pelo custo...
Já me salvou a vida uma vez no alto mar.»
Disse isto, e cortejou-me e partiu...
A scismar
N'aquella ingratidão, que tantas me recorda,
Do pescoço do cão desamarrando a corda,
Em voz alta eu bradei: Bem o dizias tu,
Oh poeta immortal: Le chien c'est la vertu
Qui ne pouvant se faire homme, s'est faite bête.
E como em todo o olhar uma alma se reflecte,
A alma d'aquelle sêr que vinha atraz de mim...
Curvo, humilde, ou talvez resignado por fim,
No olhar que então lhe vi, das sombras do seu nada
Parecia dízer-me:—Obrigada, obrigada!
1866
Guilherme Braga, Heras e Violetas, p. 239. Porto, 1869.