PLATÃO
Quando ao cair das sombras, o sol já semi-morto
Tornava côr das rosas o anil do mar Egeo
Onde veleiras cymbas singravam para o porto
Abrindo as azas brancas, como as aves do céo;
Do promontorio Sunium ao viso magestoso,
Que banha o pé nas aguas, ascendia Platão;
E, como lendo as folhas de um livro mysterioso
Derramava seus olhos na infinita amplidão...
O sol desce! o sol desce! seu derradeiro lume
Diz aos montes e ás vagas melancolico adeus,
E o sabio sempre immovel no purpurado cume,
Com a vista no espaço finge a estatua de um deus.
Sobre a roca de Egina, vem surgindo a seu turno
Vésper, tingindo as aguas de azulado fulgor;
As estrelas despontam, e o sabio taciturno
Com o dedo nos labios pensa no infindo Amor.
Mas, eil-o que estremece! n'um transporte impetuoso
Do seu negro, amplo manto se desembuça então,
Depois estende os braços ao plaino rumoroso,
E brada, erguendo os olhos á etherea solidão:
«D'este grande poema, portentos, harmonias,
D'esta hora, só d'esta hora, mysteriosa assim,
Só d'esta hora de doces e santas alegrias,
Eu aprendo o que podes, oh Potencia sem fim!
És tu, oh Natureza que a rigidez me ensinas,
Que os sophistas da Eschola, na Eschola assombrará,
Em ti bebo a Sciencia, que das coisas divinas
Tenho, que o mundo busca, mas no mundo não ha!
Que logar fica á duvida em corações, que o effeito
Mago d'estes momentos faz d'amor palpitar?
Oh virações do empyreo, purificae-me o peito,
Para que os meus bons Genios o possam habitar.
Descei, oh meus patronos! descei do excelso empyreo!
Já minha alma está pura! homem novo já sou!
Não pezam em mim sombras e duvida e delirio!
A luz da eterna aurora para mim já raiou.
Chamma d'amor celeste me aquece a intelligencia,
Minha rasão, qual aguia, paira no extremo céo,
E, á luz mysteriosa da minha consciencia,
Vejo através da tumba, da morte rasgo o véo!
Immortal! que presagios. Immortal! que delirio,
Immortal! que alegrias. Que crêr e que esperar!
Purificae-me o peito, vós, virações do empyreo,
Para que os meus bons Genios lá possam habitar!»
Diz—e do Promontorio deixa o cume elevado,
Que dos Genios da Noite já cercam turbilhões,
E, ao rir da nova aurora, com a voz de inspirado,
Descreve á turba absorta suas grandes visões!
1871
Leonel de Sampaio (Vicente de Faria) Grinalda, vol. III, p. 88.