OS CINCO SENTIDOS
São bellas, bem o sei, essas estrellas,
Mil côres divinaes tem essas flôres;
Mas eu não tenho, amor, olhos para ellas;
Em toda a natureza
Não vejo outra belleza
Se não a ti, a ti!
Divina, ai! sim, será a voz que afina
Saudosa, na ramagem densa, umbrosa,
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Se não a ti, a ti.
Respira, n'aura que entre as flôres gira,
Celeste incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira
Não percebe, não toma
Se não o doce aroma
Que vem de ti, de ti.
Formosos são os pômos saborosos,
É um mimo de nectar o racimo;
E eu tenho fome e sêde... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti, de ti.
Macia, deve a relva luzidia
Do leito ser, por certo, em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras caricias,
Tocar n'outras delicias
Se não em ti, em ti!
A ti! ai, a ti n'os meus sentidos
Todos n'um confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti, a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.
Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 169. Lisboa, 1869.