RETRATO
(N'um album)
Ah! despreza o meu retrato
Que eu lhe queria aqui pôr!
Tem medo que lhe desfeie
O seu livro de primor?
Pois saiba que por despique
Eu sei tambem ser pintor:
Co' esta penna por pincel,
E a tinta do meu tinteiro,
Vou fazer o seu retrato
Aqui já de corpo inteiro.
Vamos a isto. Sentada
Na cadeira moyen-âge,
O cabello en chaitellaines,
As mangas soltas. É o traje.
Em longas prégas negras
Caía o velludo e arraste,
De si com desdem regio
Com o pésinho o affaste...
N'essa attitude! Está bem:
Agora mais um geitinho;
A airosa cabeça a um lado
E o lindo pé no banquinho.
Aqui estão os contornos, são estes,
Nem Daguerre lh'os tira melhor;
Este é o ar, esta a pose, eu lh'o juro
E o trajar que lhe fica melhor.
Vamos agora ao difficil:
Tirar feição por feição;
Entendel-as, que é o ponto,
E dar-lhe a justa expressão.
Os olhos são côr da noite,
Da noite em seu começar,
Quando inda é joven, incerta
E o dia vem de acabar.
Tem uma luz que vae longe,
Que faz gosto de queimar:
É uma especie de lume
Que serve só de abrazar.
Na bocca ha um sorriso amavel,
Amavel é... mas queria
Saber se é todo bondade
Ou se meio é zombaria.
Ninguem m'o diz? O retrato
Incompleto ficará,
Que n'estas duas feições
Todo o sêr, toda a alma está.
Pois fiel como um espelho
É tudo o que n'elle fiz;
E o que lhe falta, que é muito,
Tambem o espelho o não diz.
Almeida Garrett, Folhas Cahidas, p. 208.