PORTUGAL VELHO NO SECULO XIX

Os nossos avós jarretas,

Lá nos tempos carunchosos,

Ao lume, contando pêtas,

Entre creados idosos,

Passavam noutes seletas.

Polkas, chás e contradanças

São cousas que nunca viram!

Todas as suas mestranças

D'Africa os mouros sentiram

Na ponta das fortes lanças.

Tinham barbas não pequenas,

Bigode em fórma avultada;

Cabelleiras nazarenas,

Nunca usaram nem pomada

Que lhes ungisse as melenas.

Vinha o padre capellão

As vidas dos santos lêr,

E muitas vezes então,

Quem a Asia fez tremer

Chorava de compunção!

Crença tão sincera e pia

Creou quasi homens divinos!

Da descrença hoje a mania

Cria apenas figurinos

Com fórmas varias de enguia!

Môsca subtil hoje pende

Sob mesquinho bigode...

Quem a tal miséria attende

Com razão duvidar póde

D'onde esta barba descende!

Palavra de um portuguez

Valia como escriptura:

Da barba cabellos trez

Hypotheca eram segura

Quando o grande Castro a fez!

Palavras hoje, aos milhões,

Não faltam,... isso é verdade;

Mas vê-se tremer sezões,

Quem teve tanta bondade

Que emprestou os seus tostões!

No castello de Faria

Sustentou leal soldado

Essa herdada valentia,

Com que um cidadão honrado

A vida á patria offer'cia!

Soube n'Africa o Menezes,

Soube n'India o Mascarenhas,

Mostrar ao mundo, mil vezes,

Que eram mais firmes que penhas

Os peitos dos portuguezes.

Hoje a walsa e a contradansa ...

Suprem bem Tanger e Diu;

Foi outr'ora o Gama um pança,

E o Albuquerque um sandio

Que nem merecem lembrança!

Do bom Faria a firmeza

Faz hoje morrer de riso!

Imbecil por natureza

Cuidava, o pobre sem siso,

Achar na morte a nobreza!

Que parvo! Se se entregára

Com geitinho aos castelhanos,

Talvez dinheiro alcançára

Com que rico aos lusitanos

Para outra vez se passára!

Com estes passos e trespasses

Descobriu-se um grande int'resse!

Os heroes são os cachaços,

Que onde dinheiro apparece

A honra lhes cae nos braços!

Sópre o norte com excesso,

Sópre o sul, leste ou poente,

É bom vento, e bom succeso!

Quem crava melhor o dente

Toca a méta do progresso!

Ao antigo Portugal

Parece estar bem provado

Quanto o louvor caiba mal...

Que é tontura ser honrado

Sem n'isso ganhar real.

1867 Visconde de Azevedo, A Grinalda, t. VI, p. 20.