A ESMOLA DO POBRE

Nos toscos degráos da porta

De egreja rustica e antiga,

Velha trémula mendiga

Implorava compaixão.

Quasi um seculo contado

De atribulada existencia,

Eil-a, enferma e na indigencia,

Que á piedade estende a mão.

Duas crianças brincavam

A distancia, na alameda;

Uma trajava de sêda,

Da outra humilde era o trajar!

Uma era rica, outra pobre,

Ambas loiras e formosas,

Nas faces a côr das rosas,

Nos olhos o azul do ár.

A rica, ao deixar os jogos,

Vencida pelo cançasso

Viu a mendiga,—e ao regaço

Uma esmola lhe lançou.

Ella recebe-a; e a criança,

Que a soccorre compassiva,

Em préce fervente e viva,

Aos anjos encommendou.

De um ligeiro sentimento

De vaidade possuida,

Á criança mal vestida

Disse a do rico trajar:

«O prazer de dar esmolas

A ti e aos teus não é dado;

Pobre como és, coitado,

Aos pobres o que has de dar?»

Então a criança pobre,

Sem más sombras de desgosto,

Tendo o sorriso no rosto

Da egreja se aproximou,

E após, serena, em silencio,

Ao chegar junto da velha,

Descobrindo-se, ajoelha,

E a magra mão lhe beijou.

E a mendiga, alvoroçada,

Ao collo os braços lhe lança,

E beija a pobre criança,

Chorando de commoção!

É assim que a caridade

Do pobre ao pobre consola;

Nem só da mão sae a esmola,

Sae tambem do coração.

Julio Diniz, (Gomes Coelho) Grinalda, t. VI, p. 115.