A TROCA DA MINHA LYRA

Uma vez que eu recolhia,

Para dar aos meus amores,

No jardim da poesia

Um ramo de varias flores,

Trouxe, pousada na rosa,

Leve e gentil mariposa.

Olhando-a então mais de perto,

Reconheci que a belleza

Excede muito, de certo,

Nos reinos da natureza

Aquella que um vate gera,

E á qual eu já culto déra!

Vi as escamas subtis

Em forma de bellas pennas,

Que dão ás azas matiz,

E as delicadas antennas:

E comecei a ver mais,

Estudando os animaes.

Vi a próvida formiga,

Vi a aranha tecedeira,

Vi a abelha nossa amiga,

Vi a vêspa carniceira:

E o sirgho, que a sêda tece,

Com que os homens enriquece.

Vi as conchas variadas

Na fórma, grandeza e côres,

Umas nas aguas salgadas,

Lá vivem com seus amores;

Outras nos rios e fontes;

E outras nos valles e montes.

Que bizarra a creação!

Que o cantinho mais escuro

Não deixara na exempção

D'um habitante seguro!

Que as entranhas d'outros têm

Entes com vida tambem.

Se á lyra desafinada

Já cantei a noite e o sol,

Hoje, sem lyra, sem nada,

Serei tambem rouxinol:

Cantarei da natureza

Solida graça e belleza;

E porque amor não me inspira,

Já troquei a minha lyra

Pela casca d'um caracol.

1862

Augusto Luso, Grinalda, t. VI, p. 103.