A FILHA DA MOLEIRA
Oh senhora mãe,
Deixe-me ir á festa,
Que não ha nenhuma
Mais linda do que esta.
Arcos, fogo e musica,
Arraial tão lindo!...
E moços e moças
Conversando e rindo.
Ir lá tambem posso;
Já não sou pequena,
Sou da mesma edade
Da Rita Morena.
Estou já crescida,
Sou quasi da altura
Da Rosa, que em breve
Casa o senhor Cura.
Já sei molinhar
Como um bom moleiro,
No moinho do milho,
E mais no alveiro.
Já posso co' trigo;
Já chego á moéga,
Vou mesmo ao travouco,
Se ás vezes adrega.
Se no tremonado
A farinha é grada,
Sei dar na estadêa
Geitosa pancada.
E se o grão cae pouco
Sobre a segurelha,
Desando o torno,
Desço mais a quelha.
Quem faz d'estas cousas
Já não é criança:
Já póde ir ás festas,
Já canta e já dança.
Dê-me o chapéu fino,
E a roupa asseada,
Que eu ir lá não devo
Toda enfarinhada.
Heide ir de chinellas,
De meias de linho,
Camisa mui branca...
Mas não de farinha.
Não quero se ria
De mim todo o povo;
Dê-me a saia verde,
Quero o gibão novo.
Que se eu levo o outro
Tão coçado e antigo,
Não virão os moços
Conversar commigo.
Eu quero mostrar-me
No largo da egreja,
E mordam-se as outras
Embora de inveja.
E se perguntarem
Quem é a gaiteira,
Saibam pois que é filha
Da Thereza moleira.
Henrique Augusto, A Grinalda, t. III, p. 7. Porto, 1860.