QUEM SABE? TALVEZ!
Existe uma virgem que o céo me destina,
Com quem delirante meu peito já sonha;
Eu vejo-a na fórma da virgem risonha,
Do céo nas estrellas, na flôr da campina,
Á noite, do bosque por entre a mudez;
Na brisa que passa por entre os palmares,
A voz bem lhe escuto que falla inda a medo...
Eu sinto na fronte seus meigos olhares!...
Quem dera-me ao peito cingil a bem cedo...
Quem sabe? talvez!
E tu nada sentes? tu nada procuras?
Nos quadros tão lindos que tu phantasias
Um dia brilhante de occultas magias,
De amores ardentes, de infindas venturas,
Ó virgem! não viste siquer uma vez?
Nos breves delirios, nos teus devaneios,
Nos vagos desejos da mente inquieta,
Que o peito te abalam, arfando-te os seios,
Não sonhas ás vezes o amor de um poeta?
Quem sabe? talvez!
Tu sonhas; que virgem não sonha de amores?
Tu sonhas um doce viver duplicado,
Viver como os anjos de amor exaltado,
Viver de perfumes, de luz, como as flores,
Que Deus como as flores e os anjos te fez;
E uma alma formada de amor como a tua
No mundo que habitas procuras de certo...
Debalde... tua vista vacilla, fluctua...
E esse ente, quem sabe si existe bem perto?
Quem sabe? talvez!
Quem sabe si a virgem que o céo me reserva,
Que pura e formosa diviso na mente,
Que o peito me pede, que o peito presente,
P'ra quem puro, isento, fiel se conserva,
Quem sabe si és tu? no riso, na tez,
Nos olhos... na face tão pallida e bella...
Uns áres, uns visos comtigo lhe noto...
Nos longos cabellos... Quem sabe si és ella?
Aquella a que em sonhos minha alma já voto?
Quem sabe? talvez!
Quem sabe? de tarde seguindo teus passos
O anjo dos sonhos parece que vejo,
Meu peito palpita, e vem-me o desejo,
De, louco de amores, voar a teus braços,
Beijar-te os cabellos, morrer a teus pés!...
E tu não presentes, oh virgem! que eu ardo
E quando teus olhos de encanto celeste
Os olhos ardentes encontram do bardo,
No peito de virgem tu nunca disseste:
Quem sabe? talvez!
Ah! dize... si és tu, fugir-me não tentes,
És tu que procuro? ah! dize, que eu creio...
Tu flores bem frescas abrigas no seio?
Bastantes perfumes no peito tu sentes?
Um céo de ternura tu tens que me dês?
Ah! falla, responde, teu dito me traga
Um mar de delicias, de amor, de ventura;
Ah! dize-me—-sim,—do peito me apaga
A phrase terrivel, que a mente murmura:
Quem sabe? talvez!
A. J. Franco de Sá, Poesias, p. 63. S. Luiz do Maranhão.