O AMOR UM DIA NOS PRENDEU, QUERIDA

O amor um dia nos prendeu, querida,

Como dous élos de uma só cadêa;

Sômos dous sôpros de uma mesma vida,

As duas azas de uma mesma idéa:

Dous pensamentos n'uma mesma alma,

Nascendo juntos e sorrindo apoz;

Somos dous ramos de uma mesma palma,

Somos dous eccos de uma mesma voz.

As duas aves que em jardim volteiam,

Buscando flores para o ninho olente,

Ou duas nuvens que nos céos vaguêam

Illuminadas pelo sol nascente.

Se cantas, gemo, e no scismar suspira

Minha alma em sonhos ideaes, azues;

Somos dous cantos de uma mesma lyra,

Somos dous raios de uma mesma luz.

Se ris, me rio, e no prazer unidos,

O mundo diz-nos: «São felizes, sabios...»

Se soffres, chóro; somos dous gemidos

De um mesmo peito a nos morrer nos labios.

Quaes duas vagas que tu vês, rolando,

N'uma se unir, no mesmo mar correr,

Os nossos peitos foram-se abraçando

No mesmo affecto que nos faz viver.

Deos nos fizera de uma egual natura,

Nós nos sentimos como irmãos no amor;

Somos dous risos de uma só ventura,

Somos dous prantos de uma mesma dôr:

As duas folhas, de pureza francas,

Do livro santo onde tu lês—amar!

Que somos nós? as duas velas brancas

Ardendo vivas, sobre um mesmo altar.

Que as nossas almas, uma á outra unida

Vôem no sonho de um eterno afago,

Bem como vogam na indolente vida

Dous brancos cysnes sobre um mesmo lago.

No mesmo fogo o nosso olhar queimemos:

Na mesma fé as nossas almas crentes;

No mesmo aperto as nossas mãos liguemos,

No mesmo beijo os nossos labios quentes.

Filgueiras Sobrinho, Consoladoras, p. 52. Paris, 1876.