A SÉSTA

Na rêde, que um negro moroso balança,

Qual berço de espumas,

Formosa creoula repousa e dormita,

Emquanto a mucamba nos áres agita

Um leque de plumas.

Na rêde perpassam as trémulas sombras

Dos altos bambús;

E dorme a creoula de manso embalada,

Pendidos os braços da rêde nevada

Mimosos e nús.

A rêde, que os áres em torno perfuma

De vivos aromas,

De subito pára, que o negro indolente

Espreita lascivo da bella dormente

As tumidas pômas.

Na rêde suspensa dos ramos erguidos

Suspira e sorri

A languida moça cercada de flores;

Aos guinchos dá saltos na esteira de côres

Felpudo saguí.

Na rêde, por vezes, agita-se a bella

Talvez murmurando

Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,

Que triste colono por noites formosas

Descanta chorando.

A rêde nos áres de novo fluctua,

E a bella a sonhar!

Ao longe nos bosques escuros, cerrados,

De negros captivos os cantos magoados

Soluçam no ár.

Na rêde olorosa, silencio! deixae-a

Dormir em descanço!...

Escravo, balança-lhe a rêde serena;

Mestiço, teu leque de plumas acena

De manso, de manso.

O vento que passa tranquillo, de leve,

Nas folhas do engá,

As aves que abafem seu canto sentido;

As rodas do Engenho não façam ruido,

Que dorme sinhá.

A. C. Gonçalves Crespo, Miniaturas, p. 14. Coimbra, 1871.