O FILHO DA LAVANDEIRA

Um dia, nas margens do claro Atibáia,

Estava a cativa sósinha a lavar;

E um triste filhinho do rio na praia,

Jazia estendido no chão a rolar.

A pobre criança que o vento açoitava,

De frio e de fome chorava e chorava.

A misera negra, co'o rosto banhado,

No pranto que d'alma trazia-lhe a dor,

Prendeu-a com força no seio abrazado

De magoas, de angustia, de susto e de amor.

Pendendo a cabeça no collo da escrava

A pobre criança chorava e chorava.

«Meu filho querido, no meio dos mares,

Lá onde governa sómente o meu deus,

Lá onde se estendem mais lindos palmares,

Porque não nasceste cercado dos meus?»

E a pobre criança no seio da escrava,

Fitando-a tristinha, chorava e chorava.

«Meus paes lá ficaram; são livres, cantando

Que vida contente que passam por lá!

E tu, meu filhinho, commigo penando,

Esperas a morte nas terras de cá.»

Os ventos cresciam: o sol declinava,

E a pobre criança chorava e chorava.

«Ai, não! que dos pretos as almas não morrem!

Havemos ainda p'ra os nossos voltar:

As aguas tão mansas dos rios que correm

Nos levam bem vivos ao largo do mar.»

Nas aguas já meio seu corpo nadava,

E a pobre criança chorava e chorava.

«As aves, os bosques, as serras que vemos,

Não são como aquellas de onde eu nasci!

Tão doces folgares risonhos quaes temos,

Tão bellos, tão puros não ha por aqui.»

E os fundos gemidos o ecco levava,

E a pobre criança chorava e chorava.

«Oh vamos, meu filho, ao sólo jocundo

Aonde a existencia nos corre gentil;

Emquanto cativos houver n'este mundo

Os negros não devem viver no Brazil.»

A casa era perto; chamavam a escrava,

E a pobre criança chorava e chorava.

Assim soluçou! e no seio estreitando

O caro filhinho, nas aguas caiu;

Depois, muito tempo de leve boiando,

Sumiram-se os corpos nas voltas do rio.

Debalde procuram, procuram a escrava,

Se a pobre criança nem mais lá chorava!

F. Quirino dos Santos, Estrellas errantes, p. 75, 2.ª ed. Campina, 1876.