RASTO DE SANGUE
É a hora do crepusculo,
Que viração tão grata!
Geme o riacho quérulo,
Nem um cantor na mata.
Desce a ladeira ingreme
Um touro de repente,
E vae nas frescas aguas
Fartar a sêde ardente.
Os juncos tremem, subito
Sôa, medonho ronco,
E o jaguar precípite
Pula de traz de um tronco.
Debalde o touro curva-se,
Recúa, dá um salto,
E o jaguar mais flacido
Sabe pular mais alto.
O touro parte célere
Soltando um grito horrendo!
Sobre elle a féra escancha-se,
Tambem lá vae correndo.
Vôam por esses páramos,
O touro em grandes brados;
Soltar querem das órbitas
Os olhos inflammados.
Espuma, arqueja! a lingua
Da bocca vae pendente!
Garras e dentes crava-lhe
A fera impaciente.
Largo rastilho rubido
Embebe-se na areia,
O sangue jorra calido
Da lacerada veia.
Contrae-se a forte victima
Luctando com braveza!
Porém o algoz impavido
Lá vae... não deixa a prêza!
Correram mais! que insania!
Que scena pavorosa,
Passada no silencio
Da selva escura, umbrosa.
Emfim n'um precipicio
Os dois vão baquear...
Cahiram lá exânimes
O touro e o jaguar.
Joaquim Serra, Quadros, pag. 45. Rio de Janeiro, 1873.