TASSO NO HOSPITAL DOS DOIDOS

São negras estas arcadas,

Sepulchral este lagedo,

Lugubres estas escadas,

Estas paredes põem medo;

Estas prisões são soturnas,

São medonhas como as furnas,

Escondidas sob o chão;

Nenhum bem aqui me afaga,

Tudo aqui a mente esmaga,

Tudo opprime o coração!

Nem do norte a meiga brisa,

Nem um lampejo da lua,

Nem raio do sol deslisa

N'esta caverna tão núa:

Lá d'essas grades do fundo

Vem-me, n'um côro profundo

Gargalhadas infernaes;

Surgem lá rostos desfeitos,

Que em visagens, em tregeitos

De loucura dão signaes.

Santo Deus, que sina a minha!

Onde estou ninguem m'o disse,

Mas um poeta adivinha;

É nas covas da doudice:

Vivo n'esta horrivel casa,

Onde a mente se me abrasa

Té o martyrio tocar;

Onde a rasão se entibia,

Onde triste, dia a dia,

Vejo as forças acabar:

Onde a mudez mais pungente

Me torna vil a pobreza,

Onde ninguem se consente

Que me afague na tristeza;

Onde a sêde me devora,

Onde debalde se implora

Uma palavra d'amor;

Onde o frio me consomme,

Onde, longe em longe, a fome

Vem augmentar este horror.

Eu, doudo! Dizei-o, montes

De Solima encantadora!

Fallae, vastos horisontes,

D'essa Asia abrasadora!

Dize-o tu, oh Godofredo,

Ou tu, valente Tancredo,

Que em meus versos exaltei!

Dizei, Armida formosa!

Dizei, Clorinda famosa!

Dizei todos que eu cantei!

Eu doudo! Erguei-vos juntos,

Defendei vosso cantor!

Fallae, oh santos assumptos

Que eu cantei com tanto amor!

Falla tambem Aguia d'Éste,

Que por mim teu vôo ergueste

Inda dos mundos alem!

Fallae, sepulchro de Christo,

Falle o canto nunca visto,

Falla tu, Jerusalem!

Tasso, Tasso que fizeste

Para tal condemnação?

Á corôa os olhos ergueste

Sem te importar o brazão!

Foste amar uma princeza,

Não tendo tanta riqueza,

Não tendo nobreza egual;

Teu amor é o teu crime,

É o grilhão que te opprime

N'esta masmorra fatal!

Sou doudo por ter amado

A bella irmã de um reinante!

Sou doudo por ter logrado

Da princeza amor constante!

Doudo, sim, doudo por ella,

Por ella que é minha estrella,

Por ella, por mais ninguem;

Por ella, que é minha vida,

Sim por ella, a mais querida

Das damas que o mundo tem.

Por ella, que o viu pobre

Só das musas bemfadado,

E desceu do solio nobre,

Deu amor ao desgraçado;

Por ella, tão extremosa,

Que rejeita desdenhosa

D'altos principes a mão,

Para não ir n'outros braços

Partir nossos doces laços,

Dar a outro o coração.

Eis o crime, o crime horrendo,

Que me deu prisão tão dura,

Onde entre doudos gemendo

Vou correndo á sepultura!

Eu amei e fui amado,

Era assás. Sou desgraçado,

Não nasci para o prazer;

No livro do sello eterno

Estava escripto este inferno,

Na desgraça heide morrer.

Não importa! é minha herança

Soffrer sempre e não gosar;

Se a Affonso cabe a vingança,

Ao Tasso cabe o chorar:

Se a elle um peito de féra,

Onde só vingança impera,

Se a elle a corôa ducal,

Ao Tasso cabe a poesia,

Cabe a fonte da harmonia,

Cabe a corôa que mais val.

Eu não troco a sorte avara,

Que é meu mesquinho condão,

Por teu sceptro de Ferrara

Manchado de ingratidão.

Se não morres, é que eu pobre

Dei a penna á casa nobre,

Em cantos a celebrei;

Eu não morro, porque o céo

Eternos versos me deu

Com que as Cruzadas cantei.

A. Xavier Rodrigues Cordeiro.