LUIZ DE CAMÕES

Que poeta que não era

Da linda Ignez o cantor!

Quem mais de que elle dissera

D'esse fero Adamastor!

Era um astro fulgurante,

Era um poeta gigante,

Tinha mais alma que o Dante,

Cantava com mais amor!

No peito coberto de aço

Lhe batia um coração,

Que nem os cantos do Tasso

Sonharam maior paixão!

Era um cantor e soldado,

Era um vate enamorado,

Foi um poeta inspirado,

Como os de hoje já não são.

Bem nos cantos se lhe marca

O signal do seu pensar;

Nascera, como Petrarcha,

Já fadado para amar!

Vêde bem o sentimento

Com que dá, sôltas ao vento,

Queixas mil do seu tormento,

Tristezas do seu trovar!

A sorte fel o poeta,

Das cinzas da pobre Ignez;

O mundo fel-o propheta

Do destino portuguez!

Poeta da desventura,

Previu a sorte futura,

Escreveu com mão segura

A prophecia que fez!

Deus, que deu aos portuguezes

D'alem mar as regiões,

Que nos livrou dos revézes,

Deu-nos o rei das canções,

Fômos o povo escolhido;

O nosso nome temido

Hoje só é conhecido

Pelos cantos de Camões.

Foi-se-lhes a vida em desgosto,

Ao que a patria assim cantou;

Mais poeta que Ariosto,

Que belleza nos legou!

Pungido de acerbas dores,

Pelo Tejo, seus amores,

Foi o rei dos trovadores,

Foi o cysne que expirou.

Como Ovidio, desterrado

Lá na gruta de Macáo,

Só tem o pranto enxugado

Pela mão do pobre Jau;

De escravo tornou-se amigo,

E no peito, só comsigo,

Supportou cruel castigo,

Mas nunca se tornou máo.

Debruçados sobre os Cantos,

Da nossa fama padrão,

Bem juntos verteram prantos

Sobre a nossa escravidão!

Mas Camões... a vil tutella

D'essas hostes de Castella...

Não pôde chorar sobre ella,

Morrera-lhe o coração.

Que poeta! e que soldado!

Que trovador tão leal!

De todos abandonado

Só achou um hospital!

Mas a fama portugueza,

N'este sec'lo de torpeza,

Só tem por toda a grandeza

A Camões por pedestal.

Alli vivem as victorias

Já do povo, já do rei;

Alli vivem as memorias

Alcançadas pela lei;

É pharol de nossa fama,

Alli vive o Castro e o Gama,

Em versos alli proclama

Triumphos da nossa grey.

A Camões por monumento

Só resta um livro, não mais;

D'aquelle genio portento

Não temos outros signaes;

Mas que importa, se a memoria

Do cantor da nossa gloria

Alcançou maior victoria

Nos seus cantos colossaes!

L. A. Palmeirim, O Trovador, p. 323.—Poesias, p. 112.