INFANCIA E MISERIA

Se eu tivera o pincel omnipotente

De Raphael, de Rubens ou d'Apelles;

Se o milagroso escôpro de Canova

A minha dextra ousada manejasse;

Se na pedra ou na téla a vida eterna

Eu podésse infundir c'um leve sôpro,

Que magestoso, que eloquente grupo

Ou na téla ou na pedra hoje criára!

Era um grupo formoso, um quadro augusto,

Qual antes nunca vi, qual vejo ainda

No fulgor da verdade ante meus olhos,

Que de vêl-o e descrel-o se não cançam;

Não, não era, não foi visão nem sonho,

Mas verdade sómente... a existencia

N'uma phase commum... a humanidade

No relêvo dos factos cinzelada!

Era um grupo formoso, um quadro augusto,

Não de amor, de ventura ou de alegria,

Mas de infortunio e dôr, e de miseria,

Casados por ludibrio á innocencia!

Era a infancia dormindo na desgraça,

Esquecendo risonha a voz da fome,

Era a vida a raiar entre os andrajos,

A indigencia assentada ao pé do berço!

Quasi ás portas de um templo consagrado

Ás artes, ao prazer, ao luxo, aos ricos,

Quando a turba pejava as aureas portas

Do marmoreo edificio... ao pé, bem perto

Sobre as humidas pedras do lagedo,

Jaziam abraçadas tres crianças

Cujo anjo tutellar, e cujo amparo

Era apenas o somno da innocencia!

Dormiam todas tres; quanto era bello

Vel-as unidas, enfeixadas n'uma,

Repartindo o calor dos tenros corpos,

Como o pão que despertas mendigavam!

Quanto era bello o vel-as—como a ave

Que em presença da morte esconde n'aza

A plumosa cabeça—reclinadas

No regaço da fome e da miseria!

Dormiam todas tres; talvez bem doce

Roçando levemente aquellas almas

Um breve, meigo sonho de alegria

Fizesse palpitar-lh'os debeis peitos!

Mas não, não pode ser... não pode o Eterno

Deslumbrar-nos em sonhos co' a ventura

Quando se hade acordar á voz da fome

Estendendo a quem passa a magra dextra!

Como eram já sombrios, macilentos,

Aquelles infantis, serenos rostos

Onde a vida em botão abria a custo,

Como a flôr que desponta em plaga extranha!

Nas pallidas feições como se liam

De um precoz soffrimento os negros traços?

Como a livida fome lhes roubava

O placido sorriso da innocencia!

Que triste sorte e amargurada vida

Arrastavam sem queixa aquelles anjos!

Em logar dos brinquedos innocentes

E dos gosos sem par da curta infancia,

Mendigavam, coitadas, no abandono

O pão negro e acerbo da indegencia,

Sem um tecto a não ser o céo da patria,

E sem mãe... se não tu, oh caridade!...

Até quando, oh meu Deus, até que dia

Se hade ver no banquete da existencia

Um manjar que não seja para todos,

Um logar de que alguem possa expulsar-se?

Até quando será o mundo inteiro

Patrimonio d'alguns, e para os outros

A penuria, a nudez, o desamparo,

E por só privilegio a fome e o carcere?

Dormiam todas trez; que meigo somno

O veneno da vida lh'adoçava!

Como em cada feição se via impresso

O benefico olvido da existencia!

Irmãs no sangue, e na desgraça gémeas,

Embaladas talvez no mesmo berço,

Dormiam todas tres na mesma pedra

Igual somno da infancia e desconforto!

Eu vi aquelle grupo! era formoso

De soffrimento e graça; illuminava-o

De um extranho fulgor a magestade

Sinistra, mas augusta, da miseria!

Eu vi aquelle grupo! assim não visse

N'aquelle estreito quadro a negra historia

De muitas gerações... assim não lesse

Teu pungente epigramma, oh sociedade!

Augusto Lima, Murmurios, p. 91. Lisboa, 1851.