El Cativo
Preguntando esta Flerida
A su esposo placentera
En un vergel asentada
Junto á uma verde ribera:
—Digasme tu, esposo amado,
De dónde eres? de que tierra?
Y a dónde te captivaron?
Y liberdade quien te diera?
«Yo os lo diré, dulce esposa,
Estando atenta síquiera:
Mi padre era de Ronda,[14]
Y mi madre de Antequera;
Captiváronme los moros
Entre la paz y la guerra,
Y llevaroume á vender
A Velez de la Gomera.
Siete dias com sus noches
Anduve en el almoneda:
No hubo moro ni mora
Que por mi una blanca dera,
Si no fuera um perro moro
Que cien doblas offreciera,
Y llevárame á su casa,
Echárame una cadena;
Dábame la vida mala,
Dábame la vida negra;
De dia majaba esparto,
De noche molia cibera,
Echóme un freno á la boca,
Por que no comiese d’ella.
Pero plugo á Dios del cielo
Que tenia el ama buena:
Cuando el moro se iba á caza
Quitabame la cadena;
Echabame en el regazo,
Mil regalos me hiciera,
Espulgabame y limpiaba
Mejor que yo mereciera;
Por un placer que le hice
Otro mayor me ofreciera,
Dierame casi cien doblas,
En libertad me pusiera,
Por temor que el moro perro
Quiza la muerte nos diera.
Asi plugo a Dios del cielo
De quien mercedes se espera,
Que me ha vuelta á vuestros brazos
Como de primero era.
Timoneda na Rosa de Amores, Fernando Wolf na Rosa de Romances, e Duran no Romancero General, n.º 258, trazem este romance typo de todos os romances de cativos. Agora pode-se confrontar a nossa lição manuscripta, aonde falta o principio e fim que justifiquem as narrações do cativo. Do Cancionero de Romances, de 1581, creio ter-se elle derivado para a tradição portugueza.
Os piratas do mar, os cativeiros de Argel, a tomada de Constantinopla pelos turcos, absorvem o sentimento e a imaginação da alma popular no seculo XVI. Ha o terror e a incerteza da aventura, quer no espirito da empreza maritima, quer nas descubertas scientificas; os sabios, os artistas e o povo andam na inquietação de uma genese prodigiosa—a Renascença. Espalham-se grandes lendas dos trabalhos e dos amores dos prizioneiros. Cervantes foi heroe; Lope de Vega, em uma das scenas mais lindas das suas comedias, appresenta a anciedade e a grandeza da abnegação na hora do resgate. Os trinitarios levam as esmolas, obtidas por meio de contos dolorosos, e pela recordação dos amigos e parentes que gemem nos ferros.
Como é possivel tanta delicadeza de sentir na alma popular? Sobretudo este final:
Ó mi padre, oh mi padre,
Deixe ir el Christiano,
Que el no me debe nada,
Debe-me a flor de mi bocca,
Dou-lh’a por bem empregada
é de um mimo capaz de fazer desesperar o mais gracioso artista. Que mysterios de amor apenas esboçados, deixados adivinhar n’estas palavras—Debe-me a flor de mi bocca? E que saudade e resignação da princeza na despedida do cativo, em que dá por bem empregada essa flor, por ser elle que a leva!
43—Jesus Mendigo—É uma daquellas verdades moraes revestida das formas de uma parabola, e tão simples como Christo as ideava, quando queria fazer-se entender pelo povo. Pertence propriamente aos povos do Meio Dia da Europa, quer se busque a sua origem na Legenda Aurea, ou nos Cancioneiros. Falámos especialmente d’ella na Historia da Poesia popular, pag. 123 a 128. Corre no Minho e na Beira-Baixa, d’onde nos veio mais completa. Vejâmos os paradigmas:
La ballade de Jésus Christ
Jesus Christ s’habille en pauvre }
«Faites moi la charité, } bis
Des miettes de votre table
Je ferai bien mon diner.»
—Les miettes de notre table, }
Les chiens les mangeront bien; } bis
Ils nous rapportent des lièvres,
Et toi ne rapporte rien.
«Madame, qu’et’s en fenêtre, }
Faites-moi la charité, } bis
—Ah! montez, montez, bon pauvre,
Un bon souper trouverez.
Après qu’ils eurent soupé, }
Il demande à se coucher. } bis
—Ah! montez, montez bon pauvre,
Un bon lit frais trouverez.
Comme ils montaient les degrés }
Trois beaux anges les éclairaiant. } bis
«Ah! ne craignez rien, Madame,
C’est la lune qui parait.
Dans trois jours vous mourerez, }
En paradis vous i ez; } bis
Et votre mari, Madame,
En enfer irá brûler.»
Esta ballada é popular na Picardia, e Champfleury a recolheu nas Chansons populaires des Provinces de France, p. 5. A nossa lenda piedosa é mais primitiva, não tem o sêlo ecclesiastico da maldição: o marido e a mulher, como Philemon e Baucis da antiguidade classica, gosam ambos a bem-aventurança.
44—Romance de Santo Antonio e a Princeza—Esta lenda de Santo Antonio e a Princeza devemol-a ao cuidado do sr. S. P. M. Estacio da Veiga, que a recolheu no Algarve, e appareceu no n.º 11 da Estrella d’Alva, Lisboa 1861.
A lenda piedosa, recolhida da tradição oral, é um dos muitos milagres do santo mais popular de Portugal. Eis como ella se encontra na Chronica dos Frades Menores de Frei Marcos de Lisboa: «Uma Rainha de Leão de Hespanha, a qual era natural de Portugal, e devotissima de Santo Antonio, teve uma filha de onze annos morta tres dias, contra vontade de el-rei seu marido, e dos principes do seu reino, e fazia oração ao Santo, dizendo—Bemaventurado Santo Antonio, eu sou vossa natural, e vim de vossa patria, dai-me minha filha viva.» A cujos devotos clamores resurgiu a filha e reprehendeu a mãe, dizendo: «Oh, senhora mãe, nosso Senhor vos perdoe, porque eu estando êntre as virgens na gloria, o bemaventurado Santo Antonio, com tanta instancia, por amor de vós rogou a Deos, que me restituiu a vida, e me mandou que viesse a vós; mas senhora mãe, sabereis que o Senhor me não deu licença para estar comvosco mais que quinze dias.» Os quaes quinze dias acabados, a Infante se tornou á gloria.—Chr. Tom. I, Liv. V, c. 33, fl. 157, etc.
45, 46 e 47—Romances de Santa Iria—A lenda, appareceu pela primeira vez colligida o publicada por Garrett no tomo II, pag. 35 das Viagens na minha terra. Com aquelle grande senso artistico, discute elle as origens monasticas da tradição da padroeira de Santarem; a differença que ha na versão popular não é um resultado do duas formações diversas; o povo quando recebe uma tradição simplifica-a, redul-a aos traços mais geraes, e é justamente a parte mais bella e inmorredoura da creação individual que elle perpetúa. Tambem se encontra no Porto esta lenda piedosa, aonde ouvimos alguns fragmentos com o titulo de Iria a Fidalga; o sentimento popular não podia deixar do perdoar: é, sobre tudo, isto o que torna a variante da Beira-Baixa superior á lição de Garrett.
A variante do Minho,ainda que appresentada por um auctor que fez de lavra sua varias composições-rifacimentos do gosto popular, pertence ao genio anonymo, e por isso a incluimos. Lê-se na Revista Universal Lisbonense, t. III, p. 329. Esta versão distingue-se das precedentes por que é narrada impessoalmente. O nome de Helena é uma confusão de Irene ou Iria. O final estava assim truncado, mas o leitor pode completal-o por qualquer das versões da Beira Baixa ou Santarem.
48—Romance da Devota da Ermida—Foi aqui pela primeira vez recolhido da tradição oral. O cantar da criança que nasce na sepultura faz lembrar aquella ballada bretã dos Tres monges vermelhos, feita pelo povo contra os Templarios.
49—Oração do Dia de Juizo—A poesia do christianismo é inteiramente popular, como se vê pelas palavras de Sam Jeronymo: «Ecclesia non de Academia, sed de viti plebecula orta est.» Que são os Evangelhos apocryphos senão os cantos dos primeiros neophytos? O Livro dos pecados, que hade apparecer no dia do juizo, é uma tradição rabbinica e mussulmana tornada popular nos primeiros seculos da egreja, como se vê pelo Evangelho de José o Carpinteiro. Os rabbinos admittiam que era S. Miguel quem appresentava as almas a Deos. No Ensaio sobre as lendas piedosas da Edade Media, por Alfred Maury, vem um eruditissimo estudo sobre a psychostasia e o uso das balanças no Juizo final (pag. 17 a 84), que trataremos de resumir, para mostrar como a lenda portugueza é formada de tradições primitivas. Nos monumentos egypcios e etruscos se encontra este symbolismo da alma pezada em uma balança, a que alludem tambem Homero e Virgilio. Dherma na religião dos Indous, pesa as boas e más acções. Na Biblia e nos Santos Padres encontra-se esta mesma allusão metaphorica, bem como nos hymnos de Prudencio e Fortunato. Principalmente nas obras de arte da edade media, baixos relevos, pinturas e miniaturas dos manuscriptos, se encontram differentes representações de Sam Miguel pesando as almas.
Quando o diabo fazia pender a balança para o lado das más acções, era a Virgem quem fazia prevalecer o pequeno numero das acções boas, como se vê em Herm. Com. Chr. apud Eccard. Cf. Michelet, Hist. de França, p. 310. D’este mesmo sentimento se inspira o drama de Bartolo: L’Homme par devant Jesus, le diable demandeur et la Vierge defendeur. (Vid. Maury, loc. cit.)
50—Romance do Terremoto de Villa Franca do Campo—Foi este romance extraído do celebre manuscripto intitulado Saudades da terra por Gaspar Fructuoso, primeiro historiador insulano. Do cap. V, o copiou Jorge Cardoso para o Agiologio Lusitano, t. 3, p. 415.
51—Xacara da linda Pastorinha—Com titulo quasi identico publicou Garrett (Romanceiro, t. III, p. 187) uma variante dos arredores de Lisboa, em que o guapo galanteador não é irmão, nem vem preoccupado por alguma aposta. É ali incompleta, e está mal classificada; muitas outras cantilenas d’este genero temos encontrado na tradição oral, em forma de descante ou desafio. O povo só conhece na sua poesia a redondilha maior e menor; e de todas as lições que recebemos do Porto, Trás-os-Montes e Beira Baixa nenhuma trazia os versos dispostos em forma alexandrina. De todas as variantes a mais verdadeira é aquela que vem precedida de um preambulo em prosa, contando como um irmão chegado do Brazil á sua terra, antes de se dar a conhecer a sua irmã, começou a falar-lhe de amores, por aposta contra os que lhe diziam ser ella a mais esquiva de todas as raparigas do logar.
52, 53—Xacaras dos Conversados—Aqui está um quadro dos amores do povo, entre dois conversados, como é estylo de campo; a scena é bíblica; a Samaritana do poço percebe todas as allusões e responde com não menos frescura. Na versão de Penafiel, o moço pede de beber por um pucarinho novo, e tocadinho de amor. É uma expressão pittoresca, tirada do usual da vida, por que é tocando que se vê se a louça está sã. As fórmas, que o apaixonado furtivamente observa, a rosa com que symbolisa o seu desejo, e que a cantareira guarda para deixar apanhar a quem for do seu gosto, dão a este idyllio um colorido tão delicado, que a mesma naturalidade quasi que faz passar desappercebido.
54—Os Estudos de Coimbra—Este canto foi recolhido em Penafiel; pertence a genero de despique de conversados. Nas aldeas os rapazes e raparigas namoram-se por cantigas. As quadras improvisadas, lançadas ao vento, e que os viandantes escutam, são as que ficam na tradição oral, formando assim naturalmente um pequeno conto de amor.
55—Xacara do Cego andante—Garrett determina os paradigmas da presente xacara em duas balladas escossezas de el-rei James V, intituladas The Gaberlunzieman, e The Jolly Beggar (Percy’s, Reliques of ancient english poetry, Series II, book I, 10).
56—Xacara da Moreninha—Esta xacara, anda na tradição popular da Extremadura e Beira; de Castello Branco foi a versão publicada por Garrett (Rom. t. III, p. 54) «mas aproveitou-se de outras lições provinciaes o que foi necessario para lhe dar complemento.» A Moreninha tem a vantagem do ser recolhida da genuina tradição oral do Porto. O tal Frei João é tão antigo na lenda portugueza, como o Frei Jean des Entommeures do Gargantua de Rabalais, se não proveiu d’esta creação comica, foi por certo tirado das aventuras da vida claustral, que em ocio santo e beatifica estupidez era consummida. O retrato do frade da versão popular é similhante ao esboçado em Rabelais; «En l’abbaye estoit pour lors un moine claustrier nommé frère Jean des Entommeures, jeune, galant, frisque, debait, bien à dextre, hardi, adventureux, delibéré, hault, maigre, bien fendu de gueule, bien advantagé en nez, beau despecheur d’heures, beau debrideur de messes, beau descreteur de vigiles: pour tout dire sommairement, vrai moine si ouques en fut depuis que le monde moinant moina de moinerie; au reste, elere jusque ès dents en matière de breviaire.» (Gargantua, C. 27). Em algumas versões do romance portuguez descreve-se como: Frei João se levantou ’numa fresca madrugada; Rabelais diz: «Mais le moine, ne faillit onqués à s’esveiller avant la minuit, tant il estoit habitué à l’heure des matines claustrales. (Id. cap. 41.) Na versão colhida por Garrett o manteo de cochonilha, e a circumstancia dos pretos que vão buscar agua fazem a tradição portugueza do seculo XVI, e por isso contemporanea do romance de Rabelais. Nos Ineditos de Alcobaça, publicados por Frei Fortunato de Sam Boaventura, encontra-se frequentes vezes empregada a palavra gargantuice nos monumentos em prosa do seculo XIV e XV; o que prova existirem entre nós vislumbres da tradição a que Rabelais deu desenvolvimento. Na versão de Garrett não vem o milagre do calix.
57—Xacara do Soldado—Foi pela primeira vez recolhida por Almeida Garrett da tradição oral de Trás-os-Montes, aonde achou tres copias, sendo uma mais completa do que as outras. Não se encontra nas collecções castelhanas. Garrett assigna-lhe a data «pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por meado do seculo XVII.» (Rom. t. III, p. 167). Nos modernos contos de Don Antonio de Trueba respira-se este mesmo sentimento popular.
58—Xacara do Toureiro namorado—Foi pela primeira vez aqui recolhida da tradição oral; tem o merecimento de ser um resultado dos costumes dos dois povos da Peninsula, que se fazem notar pela paixão dos divertimentos tauromachicos. Não se encontra nada similhante nos Romanceiros hespanhoes.
59—Xacara da Tecedeira—Tem toda a desenvoltura e licença de um fabliaux francez. A influencia dos troveiros do norte da França não chegou até nós sómente pelo Arcipreste de Hita, guardado na Livraria de Dom Duarte, ou traduzido em portuguez; na alma popular apparecem de longe em longe estas reminiscencias tambem. A xacara é da Beira-Alta; Garrett porem fundiu-a dentro do romance de Dom Claros d’alem-mar (Rom. t. II, p. 192) por mera diversão artistica, porque nas lições castelhanas, d’onde as versões portuguezas se derivaram, não apparece tal situação.
60—Despedida de Lisboa—Com dois tostões venci a repugnancia de um rhapsodo popular para me dictar estas coplas. Assim ficou salva do esquecimento uma reliquia pura do sentimento das aventuras maritimas da alma portugueza. A primeira parte faz lembrar as velhas narrações dos mareantes, como se lêem na Historia Tragico-marítima. Será talvez a abertura de algum romance maritimo já obliterado na tradição? A despedida do marinheiro não é de saudade, é de sêde do goso de que se sente privado pela viagem demorada e tormentosa. Esta xacara é como um truncado florão de architectura manuelina.
61—A Freira arrependida—Estas coplas foram recebidas da Beira-baixa em duas lições fragmentadas, que mal deixavam perceber o sentimento profundo que encerram. No Manuscripto n.º 338 da Biblioteca da Universidade existe uma outra lição em letra do seculo XVII, intitulada Queixas de uma Freira, pela qual podémos coordenar as lições da Beira-Baixa. Eis um grito doloroso do povo contra a direcção monachal, que a egreja queria dar á sociedade; é um grito inspirado pelo sentimento da natureza que a Renascença veiu acordar na alma humana. Sempre uma verdade immensa na poesia do povo.