II

Para poder tratar da sciencia e da arte do marinheiro com a provada exatidão e superior proficiencia, que se observam nas suas obras, devia Camões ter tido um longo tirocinio maritimo, pois só com largas viagens sobre o mar poderia elle adquirir esses conhecimentos tão variados.

Se ainda hoje, com tantos tratados e livros ao alcance de todas as intelligencias, é comtudo difficil, a quem não viu o mar e os seus trabalhos, fazer d'elles uma idéa aproximadamente exacta, muito mais acontecia isso no tempo do Poeta, quando a geographia, a astronomia e a nautica eram sciencias, alem de atrasadas, possuidas por poucos, de modo que a maioria das pessoas, ainda mesmo das classes illustradas, faziam de tudo o que dizia respeito á navegação, idéa vaga e por vezes muito afastada da verdade, confundindo-se no seu espirito os verdadeiros perigos do mar com os horrores e medos imaginarios, que eram ainda restos da tradição do Mar Tenebroso. Os escriptores, que não tinham navegado, ao descreverem scenas maritimas, serviam-se de um padrão uniforme, successivamente copiado ou imitado, e em que a natureza muitas vezes tinha pouca parte. E realmente, como poderá descrever com exactidão uma tempestade quem nunca tenha visto alguma? Como poderá descrever com verdade o alvoroço sentido pelo marinheiro ao avistar terra, depois da longa e trabalhosa navegação, aquelle que nunca saiu do remanso da patria e do conchego da familia?

Mas o nosso Poeta foi n'esse ponto mais feliz que nenhum outro, porque navegou e viajou muito, e de si podia dizer o que poz na bôca do Gama:

Os casos vi, que os rudos marinheiros, Que tem por mestra a longa experiencia, Contam por certos sempre e verdadeiros, Julgando as cousas só pela apparencia; E que os que tem juizos mais inteiros, Que só por puro engenho e por sciencia Vêm do mundo os segredos escondidos, Julgam por falsos ou mal entendidos.

(Lus. v, 17.)

Antes, pois, de vermos como o Poeta tratou das cousas do mar, recordemos da sua biographia o que diga respeito ás navegações que fez.

Luiz de Camões embarcou pela primeira vez pelos annos de 1546. Este primeiro embarque parece ter sido um castigo motivado ou pelos seus malfadados amores com D. Catharina d'Athayde ou por qualquer outra causa, talvez um duello dos muitos que lhe originava o seu genio ardente e cavalheiroso, que lhe valeu dos companheiros e quiçá dos emulos a alcunha de Trinca-fortes. Certo é que partiu para Ceuta, e em tão boa ou má hora que, logo n'essa viagem, teve um recontro com corsarios barbarescos, suppondo-se que foi então que perdeu o olho direito.

Voltou de Africa em 1549 em companhia de D. Affonso de Noronha, que tinha sido capitão de Ceuta, e que, chegado a Lisboa, foi nomeado vice-rei da India por D. João III. Vinha o Poeta já com tenção de se alistar para a India, o que fez com effeito em 1550 na nau dos Burgalezes, que pertencia á armada em que D. Affonso de Noronha devia seguir viagem. Não partiu, porém, n'essa occasião, mas sim tres annos depois, a 24 de março de 1553, na armada que levava por capitão-mór Fernão Alvares Cabral. Era tal o seu desejo de partir, ou para deixar a patria onde o perseguiam os desgostos, ou para ver se melhorava de fortuna e podia realisar as aspirações do seu coração, que trocou com outro homem d'armas, e embarcou na capitaina, que era a nau S. Bento.

N'esta viagem experimentou Camões os duros trabalhos do mar, porque a armada, poucos dias depois de saír de Lisboa, foi assaltada por um temporal que a dispersou. Chegado ás alturas do Cabo pagou o Poeta o tributo devido ao Genio d'aquellas paragens, que elle havia de immortalisar. Essa tormenta, que elle descreveu na sua elegia III, inspirou-lhe com certeza o bello episodio do Adamastor. Não podendo já seguir a viagem pelo canal de Moçambique, ou por ter passado a monção ou por causa das correntes contrarias, a nau S. Bento fez a derrota por fóra da ilha de Madagascar, correndo n'aquelle parallelo até á latitude da India. Finalmente, em setembro, chegou o Poeta a Goa, depois de seis mezes de uma viagem, que, parcendo-nos hoje aborrecida e longa, não foi comtudo das peores para aquelle tempo.

A vida dos militares portuguezes na India era um tecido de continuas expedições ora terrestres ora maritimas, predominando comtudo estas ultimas. Por isso, mez e meio depois de ter o Poeta chegado a Goa, já o vemos acompanhar o vice-rei em uma d'essas expedições, que tinha por fim soccorrer o rei de Cochim. Ahi teve elle occasião de observar desembarques e combates em terra. Logo em seguida a esta viagem ao sul de Goa fez o Poeta outra ao norte, embarcando na armada que foi correr a costa meridional da Arabia e cruzar no golfo de Aden, a qual era commandada por D. Fernando de Menezes, filho do vice-rei. N'esta expedição teve Camões desembarques, assaltos de fortalezas, combates navaes, e um cruzeiro enfadonho em que muitas vezes contemplou com desgosto a triste aridez do Guardafui, até que em setembro de 1554 regressou a Goa.

Dois annos depois, sendo já governador da India Francisco Barreto, foi o nosso Poeta para a China, na armada de Francisco Martins, para occupar o cargo de provedor dos defuntos e ausentes.

O nosso primeiro estabelecimento na China tinha sido na cidade de Liampó, e chegou a tão grande altura de riqueza e prosperidade commercial, como se póde ver das descripções que Fernão Mendes Pinto faz das festas com que ali foi recebido o famigerado Antonio de Faria. Perdeu-se este estabelecimento em 1542, por causa das desordens provocadas pelo negociante Lançarote Pereira. Em 1544 conseguiram os portuguezes estabelecer-se em Chincheu, mas tambem d'ahi foram expulsos em 1547 por causa das malversações e expoliações de Ayres Botelho de Sousa, capitão-mór e prevedor dos defuntos. Finalmente, faziam o seu commercio em Lampacau, quando em 1557 obtiveram dos chinas o estabelecerem-se na peninsula de Macau, como premio de terem expulsado dos seus portos um temivel pirata? É, pois, provavel que o nosso Poeta fosse ainda tomar parte n'esse combate, que deu aos portuguezes a posse d'aquelle estabelecimento, e a elle a do logar para que ía nomeado.

Querem a maior parte dos escriptores, que tratam da vida de Camões, que a ida d'elle para a China fosse degredo imposto por Francisco Barreto, por causa da critica acerba que o genio mordaz e independente do Poeta fazia ás cousas da India, mas o erudito biographo de Camões e seu editor moderno, a quem nos encostamos n'estes apontamentos, defende a memoria do governador, e julga que se não deve considerar castigo a nomeação para um logar tão rendoso.

Foi o Poeta infeliz em Macau, porque, dois annos depois de chegar, nos primeiros mezes de 1558, veiu preso para Goa, á ordem do governador, por accusações sobre a sua administração dos bens dos defuntos e ausentes. Quem sabe se elle vinha pagar as culpas do seu antecessor Ayres Botelho? Foi n'esta viagem de regresso a Goa que elle naufragou na costa de Camboja na Cochinchina, salvando-se a nado com o seu poema, e perdendo tudo o mais que possuia. A este naufragio allude elle quando diz que o rio Mé-kong

receberá placido e brando No seu regaço o Canto, que molhado Vem do naufragio triste e miserando, Dos procellosos baixos escapado, Das fomes, dos perigos grandes, quando Será o injusto mando executado Naquelle, cuja lyra sonorosa Será mais afamada do que ditosa.

(Lus. X, 128.)

Chegado a Goa, onde já estava o novo vice-rei D. Constantino de Bragança, foi o Poeta solto, tendo-se justificado das accusações por que vinha preso. Desde então até 1567 succederam-se as suas viagens por todo o Oriente, e é provavel que acompanhasse D. Diogo de Menezes a Malacca e d'ahi fosse percorrer as Molucas e chegasse mesmo ao Japão.

Voltou a Goa pelo meiado de 1567, e foi agraciado pelo vice-rei D. Antão de Noronha com a sobrevivencia no cargo de feitor de Chaúl, logar de representação e bom ordenado. Não chegou, porém, o Poeta a tomar posse d'elle, porque, cansado de perseguições e soffrimentos, aproveitou o offerecimento de passagem que lhe fez Pedro Barreto, o qual ía por capitão-mór para Moçambique, e com elle deixou Goa em 1567, fazendo assim a sua ultima viagem no oceano Indico. Em Moçambique esteve cerca de dois annos, e foi ahi que terminou e aperfeiçoou o seu poema, feito quasi todo já durante o tempo em que elle esteve em Macau, já durante as suas viagens e expedições, pois diz elle dirigindo-se ás Nymphas do Tejo e do Mondego:

Olhae que ha tanto tempo que cantando O vosso Tejo e os vossos Lusitanos A fortuna me traz perigrinando, Novos trabalhos vendo e novos damnos, Agora o mar, agora exp'rimentando Os perigos mavorcios inhumanos; Qual Canace, que á morte se condena, N'uma mão sempre a espada e n'outra a penna.

(Lus. VII, 79.)

Finalmente, em 1569, arribou a Moçambique a armada que regressava ao reino, e na qual íam os amigos do Poeta, os quaes, tendo pago as suas dividas, o trouxeram a Portugal na nau Santa Clara, «nau a mais rica, diz o sr. visconde de Juromenha, que tinha vindo de carreira da India, pois trazia a seu bordo Luiz de Camões e Diogo do Couto.»

Fundeou a nau na bahia de Cascaes em abril de 1570, e assim terminaram as longas perigrinações do Poeta.

Dez annos depois, a 10 de junho de 1580, morria Luiz de Camões, pobre e desamparado, e «vereis todos, escrevia elle pouco antes de deixar o mundo, que fui tão affeiçoado á minha patria, que não sómente me contentei de morrer n'ella, mas de morrer com ella!»