III
Temos visto como Luiz de Camões percorreu em repetidas viagens o Oceano Atlantico e o Indico, o mar da China e os Estreitos. Para vermos como a sua intelligencia superior aproveitou este longo tirocinio, appropriando-se e, por assim dizer, assimilando-se tudo quanto observára, phenomenos do mar, costumes dos marinheiros, sciencia de navegação, etc., basta abrir o seu immortal poema, porque ahi, sempre que elle tem de se referir ás cousas do mar, fal-o com a maxima propriedade, com toda a verdade de descripção.
Respiguemos, pois, n'essa vasta campina de tantas flores e fructos.
A vida do marinheiro tem tormentos e prazeres desconhecidos aos homens de terra. A lucta constante com os elementos torna-o rudo, epitheto que o Poeta a miude lhe dá. A monotonia dos longos dias em que se não vê mais que mar e céu (Lus. V, 3), faz com que elle procure abreviar o tempo com historias e contos, torna-o investigador curioso das cousas novas que vae vendo. A saudade da patria faz-lhe alvoroçar o coração com a lembrança d'ella, e é por isso que elle procura ser o primeiro a dar o alegre brado de--«Terra á vista!»--brado que faz esquecer todos os trabalhos e males passados.
Tudo isto observou Camões.
Deixa o marinheiro a patria e despede-se dos parentes e amigos, que o vão acompanhar ao embarque, não fallando nos curiosos que não perdem o imponente espectaculo que offerece um navio ao fazer-se de véla. Concorre pois, muita gente,
Uns por amigos, outros por parentes, Outros por ver sómente, Saudosos na vista e descontentes.
(Lus. IV, 88.)
Os que deixam a patria vão
Para os bateis caminhando.
(Lus., ibidem.)
Não o fazem a olhos enxutos; as lamentações dos que os acompanham redobram de intensidade á medida que se aproxima a hora fatal; a extrema afflicção faz perder a esperança do regresso; lamentam-se todos,
As mulheres c'um choro piedoso, Os homens com suspiros que arrancavam; Mães, esposas, irmãs, que o temeroso Amor mais desconfia, acrescentavam A desperação e frio medo De já nos não tornar a ver tão cedo
(Lus. IV, 89.)
É doloroso aquelle transe, mas o dever e a necessidade fazem calar a voz do coração. Para evitar mais lagrimas esconde-se a hora exacta da partida, e embarcam-se
Sem o despedimento costumado.
(Lus. IV, 93.)
E partem, ficando-lhes,
na amada terra O coração, que as maguas lá deixavam,
(Lus. V, 3.)
Dura ha muitos dias a viagem. O vento é de feição, o mar plano, os horisontes claros e extensos. Navega-se de escota folgada. O commandante,
já cansado De vigiar a noite, Breve repouso aos olhos dava.
(Lus. II, 60.)
Dá meia noite, rendem-se os quartos,
Os do quarto da prima se deitavam, Para o segundo os outros despertavam
(Lus. VI, 38.)
Como é desagradavel deixar o conchego da maca ou do beliche, quando estavamos no melhor do somno, quando talvez a imaginação nos tinha transportado á patria em dôces sonhos que mentiam, para ir fazer um quarto em cima da tolda, aguentando o aspero frio da noite! Por isso os pobres marinheiros
Vencidos vem do somno, e mal despertos, Bocejando a miude, se encostavam Pelas antenas, todos mal cobertos Contra os agudos ares que assopravam; Os olhos contra seu querer abertos, Mas esfregando, os membros estiravam.
(Lus. VI, 39.)
Não ha manobras a fazer, não ha cousa alguma que distráia, porque, com tempo tão excellente, só é preciso estar álerta. Como se hão de passar aquellas quatro horas e afugentar o somno teimoso?
Remedios contra o somno buscar querem, Historias contam, casos mil referem,
(Lus., ibidem.)
E ahi começa o orador, o beau-diseur da companhia, a contar uma historia interessante, que entretem a todos e faz voar as horas.
Mas nem tudo são rosas durante a viagem; bem pelo contrario, os espinhos são em numero muito superior. Aos dias de bom tempo succedem as tempestades, que tornam o marinheiro
Confuso de temor, da vida incerto
(Lus. VI, 80.)
e durante os quaes elle muitas vezes
Chama aquelle remedio santo e forte Que o impossivel póde;
(Lus., ibidem.)
chama Aquelle que a salvar o mundo veio
(Lus. VI, 75.)
A navegação demorada e aborrecida tem exacerbado as saudades e irritado os animos; já se não juntam os grupos pelas amuradas a contar historias. Escaceia a aguada, a bolacha está avariada, azedou o vinho; vae-se a meia ração e a menos; aproxima-se o terrivel espectro das viagens prolongadas, o escorbuto. Assim vivem por muito tempo os marinheiros coitados e perdidos,
De fomes, de tormentas quebrantados E do esperar comprido tão cansados, Quanto a desesperar já compellidos; Corrupto já e damnado o mantimento Damnoso e mau ao fraco corpo humano, E alem d'isso nenhum contentamento, Que sequer da esperança fosse engano.
(Lus. V, 70, 71.)
A tudo se resigna o marinheiro e vae
Soffrendo tempestades e ondas cruas, Vencendo os torpes frios no regaço Do sul e regiões de abrigo nuas, Engolindo o corrupto mantimento Temperado c'um arduo soffrimento
(Lus. VI, 97.)
E peor é ainda quando chega a terrivel doença, crua e feia, de que já fallámos, com a qual
Tão disformemente ali lhe incharam As gengivas na bôca, que crescia A carne e juntamente apodrecia c'hum fetido e bruto Cheiro que o ar visinho inficionava
(Lus. V, 81, 82.)
Assim se passam as semanas e os mezes. Anceia o marinheiro por pôr termo a uma navegação já aborrecida, por ter algum descanço n'aquelle lidar diario. Suspeita-se que está proxima a terra; porfia-se em qual será o primeiro que a veja; algum mais desejoso de ganhar as alviçaras sobe á celsa gavea, e percorrendo o mar com a vista, enxerga
Terra alta pela prôa
(Lus. VI, 92.)
e logo
«Terra, terra!» brada
(Lus. V, 24.)
Quem ha que fique indifferente a este brado? Os mais occupados largam tudo por mão, os que dormem levantam-se estremunhados dos catres, e
Salta no bordo alvoroçada a gente Co'os olhos no horisonte,
(Lus., ibidem.)
devorando com elles as fórmas ainda mal distinctas da terra, e começando
Á maneira de nuvens A descobrir os montes.
(Lus. V, 25.)
Deu-se fundo. Acabaram os trabalhos e perigos, e quasi já esqueceram. Tudo é curiosidade dos marinheiros em observar as pessoas que de terra vem a bordo;
A gente se alvoroça; e de alegria Não sabe mais que olhar a causa d'ella.
(Lus. I, 45.)
Como não podem chegar-se e interrogar esses individuos, porque elles estão conversando com o commandante, contentam-se com espreital-os, e por isso
Está a gente maritima Subida pela enxarcia.
(Lus. I, 62.)
Por fim a curiosidade vence o respeito, e elles vão-se chegando pouco a pouco para ouvir as novidades;
A gente se ajunta a ouvir.
(Lus. VII, 29.)
Chega depois a noite; são horas de descançar e dormir pela primeira vez com socego. Mas o marinheiro esquece-se d'isso para, ou a sós comsigo, ou dando largas á sua loquacidade, fazer commentarios sobre o que viu e ouviu;
Qualquer então comsigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada.
(Lus. I, 57.)
Não escapou a Camões a qualidade ou defeito caracteristico do marinheiro portuguez, principalmente do algarvio, sempre fallador e gritador. Ainda hoje, com a disciplina moderna, é facil conseguir do marinheiro que elle faça tudo, que soffra as maiores privações, que arroste os maiores perigos; mas é difficilimo conseguir que elle esteja calado. Ha sobretudo certas manobras em que é quasi impossivel obter um silencio completo, e no tempo das descobertas, diz-nos o Poeta que os marinheiros suspendiam
as ancoras Com a nautica grita costumada,
(Lus. II, 18.)
e largavam
A véla, que com grita se soltava.
(Lus. IX, 11.)
E em outro logar ainda diz-nos que
A celeuma medonha se alevanta No rudo marinheiro que trabalha.
(Lus. II, 25.)
Mas, se é inconveniente a gritaria dos marinheiros, bem pelo contrario é necessario que o official que commanda a manobra tenha voz sonora e vibrante, que domine o ruido do temporal e incuta coragem nos subordinados. Por isso nos Lusiadas, quando ruge a tempestade e é preciso que não falte accordo, o mestre dá as vozes do commando rijamente e a grandes brados (Lus. VI, 71, 72.)
Quando o seu navio fundeou no porto, começam para o homem do mar dias mais alegres e socegados que os passados na viagem. É então que elle se esquece da vida que levou durante tanto tempo e vae a terra,
Que não ha nenhum d'elles que não sáia,
(Lus. IX, 66.)
como gente que é
De ver cousas estranhas desejosa Da terra.
(Lus. V, 26.)
Ahi encontra sempre divertimentos, e quando os não encontra, improvisa-os. Outras vezes recebe elle a bordo as pessoas de terra, e faz-lhes as honras da sua morada com a satisfação e liberalidade que o caracterisa.
As festas de bordo fazem-se sempre com a prata da casa, e comtudo é por extremo agradavel a vista que offerece um navio preparado para celebrar qualquer data memoravel, ou para festejar a visita de um personagem. Galhardetes e bandeiras com as côres symetricamente dispostas adornam os mastros; outros forram os toldos e formam sanefas pelas amuradas; lustres e troféus feitos com armas e instrumentos nauticos transformam a tolda do navio em salão de baile elegantemente adornado; os proprios pandeiros de cabos colhidos com arte desenham no nitido convez florões e iniciaes, ou servem de divans aos convidados. Os altos personagens são recebidos com marchas tocadas pelas cornetas e tambores, com musicas executadas pelas charangas, com revista da guarnição a postos de combate, com salvas de artilheria. De noite illumina-se o mar com foguetes e tigellinhas. De tudo isto fallou Camões.
Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou Por receber com festas e alegria;
(Lus. I, 39.)
Sonorosas trombetas incitavam Os animos alegres, resoando;
(Lus. II, 100.)
Outros Instrumentos altinosos tangiam.
(Lus. II, 90.)
Vem arnezes, e peitos reluzentes, Malhas finas e laminas seguras, Escudos de pinturas differentes, Pelouros e espingardas de aço puras, Arcos e sagittiferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas; As bombas vem de fogo e juntamente As panellas sulphuras tão damnosas.
(Lus. I, 67, 68.)
Não faltam ali os raios de artificio Os tremulos cometas imitando; Fazem os bombardeiros seu officio, O céu, a terra, e as ondas atroando
(Lus. XI, 90.)
Ás salvas de bordo agradecem as fortalezas de terra, salvando tambem:
Respondem-lhe de terra juntamente Co'o raio volteando com zonido;
(Lus. II, 91.)
e o canhão faz ouvir tanto e tão repetidas vezes a sua voz atroadora que as festas e cumprimentos entre gente maritima são sempre
Á maneira de peleja.
(Lus., ibidem.)
Veja-se agora se n'este assumpto, aliás secundario, esqueceu ao Poeta alguma circumstancia notavel!