V
Mostrámos até aqui como Camões conhecia e comprehendia os homens do mar, não lhe escapando nem uma das mais pequenas circumstancias, que tornam o seu modo de viver e pensar tão caracterisco e differente do dos homens da terra. Mostrámos tambem com que propriedade e conhecimento elle introduziu no seu poema a descripção ou antes a viva pintura das manobras e fainas que constituem o officio do marinheiro. Vamos agora tentar mostrar como o Poeta comprehendeu o theatro em que se passam as scenas tão variadas da vida do homem do mar.
O mar, esse elemento imponente e magestoso, que enche de espanto o homem que, pela primeira vez, o encara, parecendo á primeira vista tão uniforme e tão igual, apresenta mil aspectos diversos, que são outras tantas manifestações das forças creadoras que abriga em seu seio. D'essas, a mais grandiosa, aquella que irresistivelmente se impõe e subjuga a alma mais destemida, é a tempestade. Nem o volcão vomitando fogo e lavas; nem a trovoada fusilando raios, atroando com o ribombar do trovão e inundando com as catadupas de agua; nem o terramoto abalando os edificios e fazendo ondular os montes; nem o kahmsin do deserto enterrando as caravanas com as suas nuvens de areia, nada póde rivalisar com uma tempestade maritima. Esta reune tudo o que os outros cataclysmos tem de bello e horroroso, e é ainda mais sublime e medonha. E são tão variados os espectaculos offerecidos pela natureza, que ainda nas tempestades maritimas ha differenças e especialidades que as distinguem entre si. Assim o temporal dos Açores não se parece com a tempestade do Cabo, como o cyclone do Oceano Indico differe do tufão do mar da China. São diversas as causas que as originam, diversas as circumstancias meteorologicas com que se manifestam, diversos, se é possivel, os horrores que inspiram.
E, comtudo, Camões apanhou essas differenças, conheceu essas circumstancias especiaes. Duas são as principaes descripções de tempestades maritimas que elle nos offerece no seu poema. A primeira é de um temporal no Cabo da Boa Esperança, e constitue o episodio do Adamastor, que não transcreveremos por o julgarmos conhecido de todos. A tempestade começa por uma nuvem temerosa e carregada
que os ares escurece;
(Lus. V, 37.)
e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo é escurecer-se completamente a athmosphera. É tambem notavel a altura que attingem as ondas n'essas occasiões, pois nenhum navegador as viu em parte alguma maiores ou iguaes. Camões notou esta circumstancia na elegia III, onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que
chegando ao Cabo da Esperança Eis a noute com nuvens se escurece, Do ar subitamente foge o dia E todo o largo Oceano se embravece; Em serras todo o mar se convertia.
Voltando aos Lusiadas observaremos que todo o horror do Cabo da Boa Esperança está n'aquella prophecia do Gigante:
Quantas naus esta viagem Fizerem de atrevidas, Inimiga terão esta paragem Com ventos e tormentas desmedidas.
(Lus. V, 43.)
E é assim. Não ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais frequentes, podendo-se dizer que no Cabo é estado normal o mau tempo, sendo excepção a bonança. A tempestade
c'um medonho choro Subito d'ante os olhos se apartou, Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro Bramido muito longe o mar soou.
(Lus. V, 60.)
Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas encapelladas, ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas produzem como féras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador.
Mais desenvolvida é a descripção da tempestade no Indico. N'esse mar é conhecida a parte que fica entre a cabeça de Madagascar e as Seychelles pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a açoutam e tornam perigosa a navegação. E, pois, ahi
Já nos mares da India,
(Lus. VI, 6.)
que o Poeta colloca o temporal, o qual começa, como é sabido, por uma pequena nuvem que desponta no horisonte, e dentro em pouco, tocada pelo vento com vertiginosa velocidade, occupa toda a athmosphera. A impetuosidade e o repente do assalto não dão tempo a manobras; muitas vezes é necessario picar os mastros, se o cyclone se não encarrega d'isso. O mar cava-se em ondas desencontradas e altissimas, e os relampagos e coriscos vem augmentar o terror. Eis estas scenas successivas da terrivel tragedia pintadas pelo mestre:
O vento cresce D'aquella nuvem negra que apparece. Dá a grande e subita procella. Não esperam os ventos indignados Que amainassem (a véla grande), mas juntos dando n'ella, Em pedaços a fazem. No romper da véla a nau pendente Toma grão somma d'agua pelo bordo. Os balanços, que os mares temerosos Deram á nau, n'um bordo os derribaram (os marinheiros.) Nos altissimos mares, que cresceram, A pequena grandura d'um batel Mostra a possante nau. A nau grande Quebrado leva o mastro pelo meio, Quasi toda alagada. Agora sobre as nuvens os subiam As ondas, Agora a ver parece que desciam As intimas entranhas do profundo.
(Lus. VI, 70 a 76.)
Os ventos que lutavam, Como touros indomitos bramando; Mais e mais a tormenta accrescentavam, Pela miuda enxarcia assoviando; Relampagos medonhos não cessavam, Feros trovões.
(Lus. VI, 84.)
Mas não são apenas os traços geraes da descripção que reproduzem a exacta verdade. Até nas mais pequenas minudencias se mostra rigorosa exactidão. Os ventos são
Noto, Austro, Boreas, Aquilo,
(Lus. VI, 76.)
recordando assim a direcção successivamente differente do vento, percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rotação. Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador durante a bonança, desapparecem d'aquelle theatro de desolação, e são substituidos pelos maçaricos, as almas do mestre, como lhes chama a poetica imaginação dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios lamentosos a tristeza do espectaculo:
As Halcyoneas aves o triste canto levantaram, Os delfins namorados entretanto Lá nas covas maritimas entraram, Fugindo á tempestade e ventos duros, Que nem no fundo os deixa estar seguros.
(Lus. VI, 77.)
Isto é perfeito, isto é enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a descripção de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o logar de honra no melhor tratado de meteorologia. É a das trombas marinhas. N'este phenomeno em que as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano, começa a levantar-se
No ar um vaporsinho e subtil fumo, E do vento trazido, rodear-se; D'aqui levado um cano ao polo summo Se via, tão delgado que enxergar-se Dos olhos facilmente não podia; Da materia das nuvens parecia. Hia-se pouco a pouco accrescentando E mais que um largo mastro se engrossava; Aqui se estreita, aqui se alarga, quando Os golpes grandes de agua em si chupava; Estava-se co'as ondas ondeando; Em cima d'elle uma nuvem se espessava, Fazendo-se maior, mais carregada, Co'o cargo grande d'agua em si tomada, Qual roxa sanguesuga se enche e a alarga grandemente, Tal a grande columna, enchendo, augmenta, A si e a nuvem negra que sustenta. Mas, depois que de todo se fartou, O pé que tem no mar a si recolhe, E pelo céu chovendo em fim vôou; Ás ondas torna as ondas que tomou, Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
(Lus. V, 19 a 22.)
Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? Não; foi Luiz de Camões.
Camões tudo vê, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama
lume vivo, Que a maritima gente tem por santa, Em tempo de tormenta e vento esquivo, De tempestade escura,
(Lus. V, 18.)
Tambem falla nas correntes maritimas, cujas leis eram pouco conhecidas dos primeiros navegadores, causando-lhes muitos embaraços. Ainda hoje no canal de Moçambique se não póde contar com a corrente, ou antes deve-se esperar que ella seja sempre contraria, porque, como no mar tudo são mudanças, tão depressa correm as aguas ao norte como no dia seguinte correm ao sul, e com tal velocidade que vencem muitas vezes a força do vento regular. É, pois, a corrente, como descreve o Poeta
tão possante Que passar não deixava por diante; Era maior a força em demasia, Segundo para traz nos obrigava, Do mar, que contra nós ali corria, Que por nós a do vento que assoprava.
(Lus. V, 66, 67.)
Superior á meteorologia é a sciencia astronomica, de todas a mais necessaria ao homem do mar. É ella que lhe ensina a conhecer onde está, a que parte do vasto Oceano o levaram os ventos e correntes; é ella que lhe mostra o caminho a seguir no meio da vasta solidão. Estava esta sciencia bastante atrasada no tempo do Poeta, pois que reinava ainda o errado systema de Ptolomeu. Mas este systema é por elle descripto tão exactamente, que um abalisado professor contemporaneo, ao ter de explical-o nas suas lições de cosmographia, nunca deixava de citar a descripção de Camões. Ptolomeu, fazendo da terra centro immovel de todo o universo, collocava a lua, o sol, os planetas e as estrellas em outras tantas espheras concentricas a ella, e que, sobre um eixo que passava pelos seus polos, giravam com velocidades diversas. Todas estas espheras eram envolvidas por uma ultima, o Empyreo, alem do qual estava o Ser Infinito, pois
Quem cerca em derredor este rotundo Globo e sua superficie tão limada, He Deus.
(Lus. X, 80.)
Começando, pois, a enumerar as superficies concentricas, cujo conjuncto fórma o systema, diz Camões:
Este orbe, que primeiro vae cercando Os outros mais pequenos, que em si tem, Que está com luz tão clara radiando, Que a vista cega e a mente vil tambem, Empyreo se nomea.
(Lus. X, 81.)
Segue-se o primeiro mobil:
Debaixo d'este circulo, que não anda, Outro corre tão leve e tão ligeiro Que não se enxerga: he o mobile primeiro.
(Lus. X, 85.)
Vem depois os dois crystalinos e logo o céu das fixas, entre as quaes o Poeta não se esqueceu de nomear as doze constellações zodiacaes bem como as outras mais notaveis do firmamento:
Est'outro debaixo esmaltado De corpos lisos anda e radiantes, Que tambem n'elle tem curso ordenado E nos seus axes correm scintillantes; se veste e faz ornado Co'o largo cinto d'ouro, que estellantes Animaes doze traz affigurados, Aposentos de Phebo limitados. Por outras partes a pintura as estrellas fulgentes vão fazendo: A Carreta, a Cynosura, Andromeda e seu pae, e o Drago, Cassiopea, Orionte, o Cysne, A Lebre, os Cães, a Nau e a Lyra.
(Lus. X, 87, 88.)
Seguem-se por sua ordem os céus dos sete planetas então conhecidos, contando n'esse numero o Sol:
Debaixo d'este grande firmamento o céo de Saturno; Jupiter faz logo o movimento, E Marte abaixo; O claro olho do céo no quarto assento; E Venus; Mercurio; Com tres rostos debaixo vae Diana.
(Lus. X, 89.)
Em seguida á Lua vem finalmente os quatro elementos:
o fogo e o ar, o vento e a neve Os quaes jazem mais a dentro, E tem co'o mar a terra por assento.
(Lus. X, 90.)
Alem d'esta descripção, que é completa, ha por todo o poema allusões ao firmamento e aos seus brilhantes luzeiros, espectaculo maravilhoso e divino em que se enlevam os olhos do marinheiro durante as longas horas da noite. Citaremos apenas a allusão ao Cruzeiro do Sul:
Lá no novo hemispherio nova estrella, Não vista de outra gente, que ignorante Alguns tempos esteve incerta d'ella;
(Lus. V, 14.)
á qual se segue logo a allusão áquella parte do firmamento perto do polo sul, onde as estrellas são mais raras, e que os astronomos modernos chamam o Sacco de carvão:
a parte menos rutilante, E por falta d'estrellas menos bella, Do polo fixo.
(Lus., ibidem.)
Para acabarmos com a astronomia de Camões diremos ainda que nem sequer se esqueceu elle de fallar da nautica, parte pratica ou applicação d'aquella sciencia á navegação, a qual mais directamente ensina o marinheiro a ver em que parte está (Lus. V, 26), isto é, a pôr o ponto na carta, pois que nos falla do
novo instrumento do Astrolabio Invenção de subtil juizo e sabio;
(Lus. V, 25.)
que servia, como hoje o sextante, para
tomar do Sol a altura.
(Lus. V, 26.)