CAMIRAN A KINIKINAO
Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos.
Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia á existencia de seu adorado filho.
Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um canto que mais tinha de resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira, se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás caricias de branda aragem.
Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára, mas dado de coração.
N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma dura provança. Expulsa em principios do anno de 1865 pelo terror da invasão paraguaya que então assolára repentinamente o districto de Miranda, havia ella vagado longos mezes por matas e agruras antes de poder assentar arraiaes ao abrigo do inimigo.
Tambem quem deixára de soffrer!
A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel Resquin que, em nome da republica do Paraguay, levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.
O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões paraguayos, sem opposição alguma á sua marcha de conquista, forão tangendo adiante de si toda a população tomada de sorpreza e possuida de immenso pavor.
Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára de sua força de mais de cinco mil bayonetas uns seiscentos homens para irem abafar a resistencia do tenente Antonio João na colonia de Dourados.
Valente homem aquelle tenente!
Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da fronteira, morreo como um heróe, ao lado de onze companheiros em quem infundira a coragem e o patriotismo que lhe inflammavão o peito.
Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado em sua palissada, tinha diante e ao redor de si a immensidade do deserto.
Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava uma força imponente, não quiz desamparar o posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma falla em que citou francez e até latim.
O homem tinha pretenções litterarias que afagava com certo orgulho, e se revelavão nos officios mensaes que costumava dirigir ao chefe militar de Nioac.
N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se achava a colonia e a loucura da resistencia, e terminou dando a todos licença para o abandonarem.
Elle ficaria.
—Para que? perguntárão uns soldados.
—Para morrer!
Onze de seus commandados declarárão que ficarião tambem.
Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos e até moços.
Antonio João esperou então os inimigos da patria. Fez içar a bandeira do Brasil e preparou com esmero o officio com que havia de responder á intimação do invasor.
No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira a cavallo a devassar a redondeza, voltou a galope.
A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.
Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os seus onze fieis pela palissada. Cada um tinha uma espingarda a Menié, duas clavinas carregadas ao lado e não lhes faltava nem munição, nem valor.
Por todos os lados se abrião campos immensos, campos que já se ião tingindo de vermelho. Erão os paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo maculavão a verdejante relva.
—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á sua gente.
—Todos, respondêrão os onze.
—Então amparem-se com Deos, porque ninguem se entrega.
—Ninguem! repetirão os onze.
Era Leonidas no meio dos lacedemonios.
De repente soou o clarim paraguayo.
Um parlamentario se approximava.
A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do deserto. Parecia ufana de abrigar aquelles doze sublimes insensatos. Losango amarello sobre fundo verde; côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, quando elle lhes deita o olhar de adeos no campo da batalha. A corôa imperial como que preparava-se para descer sobre aquellas cabeças, transformada em corôa de gloria.
Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, com a maior cortezia o enviado.
A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, como costumavão alinhar os generaes de Lopez.
O commandante de Dourados rasgou em pedaços o officio que preparára com tanto cuidado e carinho, e a lapis traçou esta resposta:
«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solemne contra a invasão do solo da minha patria.»
E assignou com mão firme:
«Antonio João da Silva.»
Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou brazileiro que ao depois dissesse o mesmo.
Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em distancia cercou todo o campo. Para qualquer lado que os defensores de Dourados deitassem os olhos, virão um cordão vermelho que vinha se apertando.
Na guarnição não houve alma que fraqueasse. Quanto mais se demorava aquelle ataque disproporcionado, mais crescia o enthusiasmo.
—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio João.
Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a um tempo as armas, ligeira detonação para aquellas vastidões, respondida por uma immensa repercussão.
O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.
—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos da agonia.
Raros obedecêrão á ordem.
D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, mas ella desceu com ufania como bandeira de victoria e, quando tocou o chão, uma das suas dobras foi se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião ennobrecido.
Parecia enrubescer de orgulho.
Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.
—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver muitos d’esses, a nossa marcha por Matto-Grosso não será um simples passeio militar, como nos contárão.
Outra vez repetirão isto.
Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da colonia de Miranda seis legoas.
Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi um paisano, Gabriel Barboza.
Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem já feito, robusto de corpo e estimado. Devia se casar quando arrebentou a invasão e trocou as vestes de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos no céo se talhão.
Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se que o Apa estava transposto e que Resquin vinha marchando para o Norte, o commandante do corpo de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e quarenta soldados, apenou alguns paisanos de boa vontade e marchou ao encontro do inimigo.
Esse commandante gozava de bom nome e estava em condições de prestar grandes serviços. Bemquisto dos seus subordinados e respeitado por todos, podia ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou que servia mais para o socego da paz do que para as contingencias da guerra.
Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer a força que pisava terras brazileiras.
Não caminhou muito.
A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro lado, encoberta pela mata, estava a columna paraguaya; mais de cinco mil homens, já dissémos.
Era no dia 31 do Dezembro de 1864.
Muita gente pensou que não veria o anno novo.
No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante paraguayo, mostrou alguma polidez: o brazileiro respondeu-lhe, apurando o tom.
Trocarão-se amabilidades antes das balas.
Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda estar a perder tempo.
O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem de Nioac, para o que sobrára tempo, arregimentar toda a população valida e os centenares de indios que se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os e esperar os invasores nos angustos e emboscadas. Assim caro terião pago o seu arrojo.
Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, retirada que poderia ter produzido uma resistencia notavel, o commandante do corpo de caçadores a cavallo avançou imprudentemente, vio a sua tropa quasi toda debandada na volta para Nioac e, incutindo terror panico em todos os habitantes, foi atropelladamente para a villa de Miranda, d’onde tomou rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias de vacillação que mais concorrerão para destruir qualquer intenção de pôr peito á invasão estrangeira.
Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de certo n’um dia de combate havia de sustentar com dignidade a sua posição, mas não tinha cabeça para organisar a defeza de uma grande zona.
Ah! se fôra Antonio João!
Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os voluntarios. Montava um cavallo magro e trazia uma espingarda de dous canos de caçar onças.
A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o tiroteio já havia começado. Na mata da margem esquerda do rio Feio estavão emboscados os paraguayos, na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria que havião posto pé em terra. Commandava-os um valente capitão, Pedro José Rufino, homem envelhecido nas fileiras, cheio de serviços e esquecido ha muito no fundo de Matto-Grosso.
Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido de baeta vermelho estirado no chão immovel mostrava a certeza do fogo. Um cadaver rolára mesmo pela barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que mergulhava o tronco.
A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:
—Os paraguayos estão passando o rio!
Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores deu signal de retirar.
De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya estavão na margem direita e vinhão a redea solta sobre os brazileiros.
A principio os nossos retrocederão rapidamente, mas guardando ainda cada qual o seu lugar na fileira; depois a carreira foi-se accelerando, tornando-se vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada geral para se atirar nas matas, os outros mais fincavão as esporas nos ventres de seus cavallos.
Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; tratava-se de correr.
De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura afrôxar.
O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha bastante longe, de modo que um soldado, ao passar pelo mineiro, parou por um pouco e lhe perguntou:
—O seu cavallo bombeou?
—Não póde mais comsigo...
—Pois bem, então faça como eu; fréche para aquelle capão que nós cahimos logo na mata do Nioac.
—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... Eu fico aqui...
—Mas aqui é morte certa!
O outro fez um gesto de pouco caso.
—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas aos paraguayos.
E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou com cuidado a sua arma e parou immovel no meio da estrada.
Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára a dianteira aos outros, apressou ainda mais a carreira que trazia.
Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão direita voltear uma espada voraz de sangue, e na esquerda mantinha as redeas frôxas. Ouvia atraz de si o galopar dos companheiros e queria colher a gloria de matar o primeiro brasileiro.
Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.
Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando um grito de agonia.
Um segundo teve igual destino e rolou ferido por certeira bala, mas já a esse tempo cinco ou seis outros se havião atirado sobre o brasileiro e depressa o prostrárão sem vida, todo golpeado e lanceado.
Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande cruz lavrada e coberta de desenhos, na qual está gravada esta inscripção:
«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama en agzion di guera.—Ennero, 1—1865» (sic).
Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado, como homenagem aos restos de quem alli descansava, um craneo com dous grandes talhos de espada.
Era o craneo de Gabriel Barbosa.
No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em Nioac. Aquella linda povoação estava deserta e em poucos minutos ficou reduzida a cinzas.
Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse dia, a perturbação tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada havião chegado os restos desordenados do 1º corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores da villa affluira para ella. A quantidade de indios terenos, laianos, kinikináos, guanás, guaycurús e até cadiuéos, que são, comtudo, perfidos e mal vistos, era consideravel, todos a pedirem em altos brados armas e munições de que estava repleto o deposito de artigos bellicos, para correrem a se metter em emboscadas.
Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, e aconselhavão duas esperas excellentes no Lalima e no Laranjal; outros declaravão qualquer tentativa de lucta inutil e impossivel, e só esperavão pela voz de debandada; outros, emfim, e entre os mais notaveis da villa, já nem esperavão por aquelle signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas e igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para demandarem a foz do seu affluente, o Aquidauána.
No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações dos fracos, do vozear dos indios, dos conselhos desencontrados, das discussões calorosas, aquelles que devião tomar providencias para o bem geral e assumir a responsabilidade de uma resolução immediata, quer no sentido de resistencia, quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e deixárão-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de Janeiro, em peso abandonou Miranda na mais extraordinaria confusão.
Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos devessem se reunir. Uns seguirão em canôas a procurar refugio nas matas do rio; o maior numero, a pé, tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas vinte leguas, e em cujas brenhas tinhão tenção de se occultar.
Os paraguayos porém vinhão marchando muito vagarosamente; tanto assim que só a 12 de Janeiro é que entrárão na villa, que achárão quasi que completamente saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão do povo, havião voltado e agarrado tudo quanto lhes approuve, principalmente armamento e cartuxame.
O deposito continha, comtudo, ainda grande numero de armas e petrechos de toda a qualidade, que o inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter para a republica.
—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão defender o seu territorio enchendo os cabides de espingardas e de lanças.
Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin fez sahir um bando que declarou haver d’aquelle dia em diante passado todo o districto a pertencer á republica do Paraguay, debaixo do titulo de districto militar de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se ás suas casas sob pena de serem os recalcitrantes passados, sem appello, pelas armas.
Naturalmente ninguem se apresentou.
Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão então occultos no lugar chamado Salôbra, a duas leguas da villa, sujeitos a milhares de privações, e, o que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e pelas intrigas.
Tudo era motivo para recriminações e queixumes.
Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, homem virtuoso e querido quer de brancos, quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão necessaria n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, e mais de uma vez vio-se desrespeitado.
O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos paraguayos.
Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos, estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder do inimigo.
Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao invasor e obter d’elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir, acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.
Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n’ella os seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes.
Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei Marianno, n’um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia passado longe d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus extremos, de sua adoração!
As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição, nada o impressionava, nada lhe detinha os passos.
Elle voava para a sua matriz.
Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno.
Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d’aquelle templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos.
A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os que o cercavão.
—Forão os Mbaiás[18], gritou meio assombrado um d’elles.
—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou o frade cuja exaltação não achou limites senão quando de todo lhe faltarão forças para clamar vingança aos céos.
Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco depois foi transferido para Assumpção[19]. João Faustino do Prado e Pacheco de Almeida escapárão de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia mesmo em que n’ella havião entrado.
Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda durante todos aquelles inesperados successos?
Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto por occasião da invasão paraguaya.
Os terenos, em numero talvez superior a trez mil individuos, estavão estabelecidos no Naxedaxe, a seis legoas da villa, no Ipêgue, a sete e meia; e na Aldêa-Grande, a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas N. E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia legoa—estes todos da nação chané. Dos guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto de Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida e Nabileke, tambem chamado Rio-Branco.
Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona, cada tribu manifestou as suas tendencias particulares. Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com o invasor. O castelhano era por todas considerado de longas éras como inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, identificárão-se com as desgraças dos portuguezes; outras se separárão d’elles; outras, emfim, começárão a hostilisar a gente de um e outro lado.
Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente com a população fugitiva; os terenos se isolárão, e os cadiuéos assumirão attitude infensa a qualquer branco, ora atacando os paraguayos na linha do Apa, ora assassinando familias inteiras, como aconteceu com a do infeliz Barbosa, no Bonito.
Voltemos, porém, aos kinikináos.
Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria passárão em debandada pelo Agaxi, a aldêa já estava sobresaltada.
—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão dos kinikináos, Flavio Botelho.
—Fujão todos.
—Para onde?
—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, Deos por todos.
Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. Tinha um unico merecimento: ser pai de duas lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se diariamente sem respeito algum pela patente que possuia e mostrava com grande orgulho, assignada por D. Pedro I.
N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma garrafa de aguardente e tratou de dormir.
A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que nunca estavão faltos de um chefe, e, por tacito accordo, deixando, comtudo, as honras ao legitimo possuidor, tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.
Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.
Era o filho de Camiran.
Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um soberbo indio, côr de cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes acerados, olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e denunciando energia.
Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito dos seus e a amizade dos brancos. Era elle quem tomava a peito as queixas da sua gente nas relações com os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei Marianno as irregularidades dos contractos ou os desmandos que se davão na sua aldêa. Pedia providencias n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas, e conseguia de vez em quando algum resultado, conforme os interesses dos seus e como era de justiça. Soubera até em varias occasiões franzir o sobrolho ás autoridades da povoação, dispostas sempre a abusar, e, apoiado na boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de rectidão, obteve que cessassem para os habitantes de seu aldeamento diversas medidas vexatorias a que estavão sujeitos os indios.
Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, avelhentado e onerado de familia, fizera com o juiz de paz de Miranda um contracto de locação de serviços por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e mais uma garrafa de aguardente no fim de cada mez.
Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, que se apressou em saber da verdade.
Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, e o indio declarou que o lavrára sem sugestões e de muito livre vontade.
Não havia recalcitrar.
Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz a substituição do trabalhador, ficando de pé a letra do contracto.
Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como o tal juiz de paz não podia fazer negocio melhor, immediatamente aceitou a proposta, com grande applauso do frade.
Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente trabalho a 500 réis diarios, esteve com toda a constancia dous mezes ás ordens do contractante, e sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do indio que substituira.
Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro mil réis que deo de esmola para as obras da matriz, e levou as garrafas de aguardente para offertal-as a Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido o coração.
Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho, em compensação o seu prestigio augmentou de um modo extraordinario.
—Os portuguezes, dizião os velhos com aquelle sorriso quasi imperceptivel que os indios têm, não podem com Pacalalá. Elles são velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá é como o lagarto que dá chicotadas sem ser visto.
Camiran tinha orgulho em ser mãi d’aquelle filho, orgulho immenso, mas occulto no ádito de sua alma. Não só por indole, como pelos costumes dos seus, nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia por elle, nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára, quanto mais beijal-o ou tecer-lhe elogios!
A mais completa reserva cercava o seu amor maternal, repassado, com tudo, do mais profundo enthusiasmo.
Se havia cabana bem construida, forte, era a d’ella; se alguem tinha commodidade de vida na aldêa não excedia a que desfructava Camiran.
Da roça de seu filho vinha abundante colheita de aboboras, milho, arroz e feijão; varias gallinhas cacarejavão diante de sua porta, e uma vacca com o bezerro ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar.
Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus trabalhos sem trazer para a mãi um cesto de carás ou de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou miolo assucarado da macaúba, que os indios chupão com delicia.
Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer na refeição habitual a delicada carne da jáo, da aracuan, jacutinga e inambú; mas o preço da polvora e do chumbo tornava raras essas occasiões.
Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem dizer palavra, tomava os alimentos e corria a preparal-os. Elle tirava as calças que lhe servião para o gyro habitual, embrulhava-se n’uma julata e ia deitar-se na rêde de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo de barro.
Assim ficava longas horas, fitando um ponto no chão e com o espirito em torpor.
As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento com os habitantes de Miranda; entretanto elle devéras se affligia da má fé e dobrez que os brancos punhão sempre n’essas relações.
—Cuidado com os portuguezes, dizia elle para os seus quando consultado; são nossos iguaes e não nossos amos. N’esta terra não deve haver duas gentes: uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar.
Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar as suas razões de queixa e com isso produzio algum abalo no animo de uma das autoridades da villa, tão arbitraria quão subalterna.
—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar com o Imperador, que é o capitão grande. Eu sei que elle não quer que os indios sejão maltratados pelos portuguezes.
Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração entre os kinikináos do que qualquer outro.
Se não reagia, pelo menos protestava sempre.
Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança que inspirava, e elle não hesitou em aceitar a commissão que lhe impunhão o respeito e a consideração de sua tribu n’aquella difficil emergencia.
Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono da aldêa do Agaxi. Separou mulheres, crianças e velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser mais facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção de Flavio Botelho, que devia dirigir-se ao porto do Canuto, no rio Aquidauána, d’ahi a 8 leguas, para embrenhar-se depois na serra de Maracajú.
A romaria partio; não sem alarido, imprecações e gemidos. As velhas sobretudo levantavão uma grita da mais completa desesperação.
Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, ou vergadas ao peso do nadô, grande rede de malhas em forma de saccos suspensa por uma tira de couro que applicão de encontro á testa.
Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta homens validos e á frente d’elles marchou para Miranda a saber o que convinha fazer.
A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de fugitivos, indios em grupos, outros isolados, homens montados a correrem, velhos a se arrastarem de cançados, crianças perdidas, mulheres desamparadas e familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros de bois, que caminhavão aguilhoados por impaciente ferrão.
Toda a população estava em movimento e, cousa digna de reparo, n’essa occasião desastrosa, não se davão factos de violencias, roubos e assassinatos, tão faceis no meio da desordem geral.
—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um mineiro, que desanimado da morosidade dos seus bois de carro estava parado ao meio da estrada, cercado da familia em pranto.
—Para Miranda, respondeu o indio.
—Pois então me levem a minha mulher e estas tres crianças. Todas andão bem a pé e depois de amanhã estou batendo na villa. Fico para esconder o meu trem no mato.
O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo sob sua protecção a familia do mineiro, com ella entrou em Miranda.
A villa estava, como dissemos, entregue á maior anarchia.
Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções de resistir e que toda demora importava augmento de perigo: entretanto, como era preciso armar os seus e as autoridades não distribuião, nem querião distribuir armamento e munições, esperou que os moradores se retirassem.
No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e um deposito immenso de artigos bellicos ficava entregue ao saque dos indios, antes de passar para o poder dos paraguayos.
Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos, guanás, guaycurús, cadiuêos, beaquiéos e outros vião-se excellentes clavinas e muita polvora e bala durante todo o tempo da occupação do districto.
Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se então para o porto do Canuto e capitaneando a tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima chapada que corôa aquellas alturas.
A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes, havião já chegado muitos fugitivos, entretanto como ella era coberta em toda a superficie de mato virgem e vigoroso, diversos nucleos forão se formando, sem que communicassem logo uns com os outros.
Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas quanto soffrimento, quanto desespero, para toda aquella infeliz gente sem outro alimento mais do que palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e uma ou outra caça, essa mesma comprada a peso de ouro!...
Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas para entregar á terra as sementes que havião cuidadosamente trazido comsigo e preparar assim um futuro melhor.
Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos todos os kinikináos cuidarão promptamente de roçar e de plantar, pelo que forão os primeiros que conhecerão a abundancia de cereaes.
Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar os pobres refugiados que só de uma boa colheita podião esperar lenitivo para tantos males. O grão que n’ella cahio achou-se em breve multiplicado de uma maneira maravilhosa, e todos quantos galgarão a serra e se acoutarão em suas umbrosas dobras tiverão em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além das mais exageradas esperanças.
Houve até um branco de Miranda que, plantando meio alqueire de milho, colheu mais de duzentos, e de uma quarta de feijão tirou perto de quarenta alqueires!
A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira no mato, aberta é verdade com muito trabalho e a poder do machado muitas vezes manejado por mãos de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia cahir o maná do céo.
Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira ahi estabelecida de mistura com indios kinikináos, guanás, terenos e laianos, gozasse de bastantes recursos para considerar de animo mais calmo as desgraças que acabavão de soffrer e poder com paciencia esperar pelo final da guerra que os paraguayos tão imprevista quão deslealmente havião encetado.
Nos diversos lugares da serra em que havia moradores e que tomarão o nome de acampamentos, construirão-se ranchos vastos e commodos, e pouco e pouco regularisou-se o modo de viver.
Para augmentar até aquella repentina prosperidade, veio um casal de gallinhas, trazido com muita cautela de Miranda por um indio, que lá se introduzio á noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande numero que anno e meio depois contavão-se alguns possuidores de centenares de cabeças de criação.
Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a boa paz presidio as relações de todos, e em honra ao espirito da população de Matto-Grosso póde se afiançar que nenhuma scena de violencia, durante todo o tempo de exilio, lembrou que havião totalmente desapparecido o imperio das leis e a protecção das autoridades.
Os indios, em numero décuplo dos brancos e que podião, como receiarão a principio muitos, libertar-se com estrondo da tutéla em que havião vivido, se ficárão um pouco mais altanados e independentes, nem por isso praticárão desmandos nem se aproveitarão das occasiões para reacções ás vezes justificadas.
Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros ia attrahindo para lá os fugidos do districto, de modo que em fins de 1865 estavão elles quasi todos reunidos na chapada da serra de Maracajú.
O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa de um lado, e de outro desde o Paraguay até os campos de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue aos paraguayos que rondavão sobretudo a área comprehendida entre os pontos do Souza, Espenidio, Forquilha, Nioac, Ariranha e Esbarrancado, onde mantiverão, até Agosto de 1866, importantes destacamentos.
Por entre essas rondas passavão á noute os indios quando descião da serra para vir laçar rezes na planicie e ajoujal-as com outras mansas, tangendo-as assim para os acampamentos.
Com essas expedições repetidas sempre com exito, apezar da vigilancia dos inimigos, abastecião-se de carne fresca e secca ao sol todos os moradores dos Morros, que então só se podião queixar da falta de sal, essa mesma até certo ponto minorada pela exploração dos barreiros e terrenos salitrosos, tão abundantes em todo o sul de Matto-Grosso.
Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade na obtenção de bois para o córte. Era o mais ousado em descer á planicie, ficando ali sem receio dias inteiros a escolher as rezes que contava agarrar. Com alguns companheiros bem armados chegou a levar oito e mais animaes, tendo sempre a cautéla de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes, quando n’isso via vantagem.
Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido de perto por uma ronda paraguaya.
Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas, quando Pacalalá reconheceu que ião ser atacados. O lugar, porém, prestava-se á resistencia: era já na fralda da montanha e a trilha de subida serpeava por denso matagal de taquarissima.
Destacando dous indios para continuarem a tanger o gado, Pacalalá com os outros esperou a ronda n’um angusto pedregoso, e de um tiro certeiro derrubou o paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos mais soldados.
A ronda recuou precipitadamente, deixando como trophéos de victoria não só o cadaver do companheiro como o cavallo que montava.
Grave agitação produzio nos acampamentos dos Morros a chegada de Pacalalá todo cheio de seu triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo do inimigo.
Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n’um proximo e formal ataque dos paraguayos, que, abandonando os seus ranchos e roçados, atirarão-se pelas matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario virão n’esse successo maior garantia para a sua segurança e cobrirão o vencedor de felicitações e elogios. Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a alegria selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha embeber nas carnes pisadas pelo arrastamento facões e espadas, e o corpo espicaçado, mutilado e já sem forma foi por fim atirado aos cães e corvos.
Como consequencia d’aquelle encontro tornarão-se as descidas dos Morros mais frequentes e ousadas, e os paraguayos mais cautelosos e receiosos de emboscadas e estratagemas.
Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante umas 16 leguas e ficava muitos e muitos dias entretido em preparar e seccar os saborosos pacús, que abundão n’aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado quanto vigiadas pelas rondas dos paraguayos as margens do caudal, a que davão o nome de Rio-Branco e que impunhão como divisa do novo districto annexado á republica sob o titulo de Mbotetiû.
As temeridades do kinikináo devião necessariamente trazer um novo encontro e esse deu-se com proporções tão vastas em relação aos que n’elle se empenharão que póde ser considerado como o feito de guerra mais importante durante todo o periodo de occupação.
Foi em Maio de 1866.
No porto de D. Maria Domingas á margem direita do rio Aquiadauána, existia um extenso cannavial que era o objecto da cubiça dos indios muito inclinados ás substancias assucaradas.
Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no proprio lugar e, convidando seis kinikináos e dez terenos, poude encetar com felicidade o seu trabalho.
Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo natural abandono de medidas cautelosas quando nada parece dever prescrevel-as, ou por casualidade, forão os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou pedir reforço ao posto do Souza, d’ahi a 6 legoas.
Vierão perto de duzentos homens.
Os indios, quando se virão cercados, desanimarão.
Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um, os incitasse, mostrasse-lhes a vantagem da posição e emfim a necessidade de se defenderem de quem por certo não daria quartel a nenhum d’elles.
Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza.
Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros.
Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou cada companheiro atraz de arvores grossas e aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de fazerem fogo.
Os paraguayos estavão a pouca distancia formados em linha na planicie, assim pois os primeiros tiros derrubarão de uma vez para mais de uma duzia d’elles. Responderão com uma descarga geral, cujas balas forão só varar troncos e cortar galhada.
Os indios recuarão então, ganhando o interior da mata. Perseguidos por uma companhia de infantaria acolherão-na por modo tal que a obrigarão a retroceder.
Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda parte se achava para exaltar o animo de cada combatente e melhor aproveitar os esforços e crescente enthusiasmo dos seus commandados.
Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando os feridos e mortos e suppondo haver-se batido contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o valente, a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran, não poude cantar victoria.
Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o tocára no meio da testa e o atirára sem vida no chão.
Essa morte, no fim do combate, encheu os indios de pavor e, quando a noute cahio, elles fugirão todos sem levar sequer uma das rapaduras que tão caro lhes havia custádo.
Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos dos Morros, levantou-se uma grita immensa. As moças kinikináos cortarão logo os cabellos na altura das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e prata que ainda conservavão.
A choupana de Camiran foi invadida e n’ella se erguerão gritos agudissimos, soltos pelo mulherio e crianças.
A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem sequer podia, como é de uso entre os seus, guiar as lamentações e contar as proezas e virtudes do morto.
Estava anniquilada.
Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada ouvia. Não chorava, não podia chorar, mas desde aquelles momentos sentio que não podia mais viver.
É n’um estado de quasi completo definhamento que encontramos Camiran no principio d’esta narração veridica em quasi todos os pontos e que terá o merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez, na historia do quanto soffrerão os refugiados de Miranda, e sobretudo nas façanhas do desconhecido Pacalalá.
O combate do porto de Maria Domingas—que combate deve ser o qualificativo adequado áquelle encontro—fez com que, durante muitos mezes, cessasem as correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána.
Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com coragem para se arriscar até o lugar em que havia valentemente guerreado.
Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não soffrera decomposição, mas estava secco e mirrado como se fôra uma mumia[20].
Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento kinikináo. Forão gritos horriveis, gemidos, ululações que se ouvião em distancia consideravel.
Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e longos mezes, mergulhada na dôr que a ia matando, foi consultar um feiticeiro e saber o que significava aquillo.
O nigromante declarou-lhe positivamente que aquelle corpo, emquanto não fosse enterrado, reteria em duro captiveiro a alma de Pacalalá.
Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar o cadaver do filho á terra.
Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da aldêa.
Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o porto de D. Maria Domingas.
Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe que a natureza toda, as arvores, os montes, os rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que o seu coração era o unico e immenso echo.
Cahio desfallecida....
Quantas horas ficou assim, ninguem sabe.
Depois se ergueo a muito custo.
Não levára alimento algum.
Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que devia deitar o guerreiro morto.
Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um pouco o chão e já quasi sem forças suspendeu o cadaver ressicado e o estendeu no leito derradeiro que lhe preparára.
Quando Camiran começou a empurrar a terra solta, os seus braços, finos como gomos de canniço, recusarão-se ao movimento; o seu corpo dobrou-se todo e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura mal fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados estremecimentos, as suas mãos convulsas chamavão a terra para junto de si.
A noute envolveu no manto mysterioso das sombras as ultimas dôres d’aquelle coração, e quando o sol, na manhã seguinte, irrompeo deslumbrante, os seus raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho, mas tão somente dous cadaveres que, ao calor que d’elles recebião, ião-se fundir no gigantesco cadinho que se chama a natureza!
FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO.