PERSONAGENS
- Manoel Ribeiro, capitalista.
- D. Rita, mãe de
- Isabel.
- Antonio da Fonseca, tio de
- Miguel Faria.
- João de Siqueira.
- Alfredo Rocha, primo de Isabel.
- Ignacio Lemos, pae de
- Alberto Lemos.
- Um criado.
A scena passa-se no Rio de Janeiro.
Época—1871.
DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA
PROVERBIO
ACTO UNICO
SCENA I
Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, uma mesa com tapete de gosto. Nos consolos jarras com flôres. Portas lateraes e ao fundo.
Manoel Ribeiro, Fonseca.
Ribeiro (passeia de um lado para outro, ao passo que Fonseca está sentado junto á mesa).—É como lhe digo, meu amigo; tudo póde se arranjar...
Fonseca.—Então não lhe desagrada a minha proposta?
Ribeiro.—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a esperava... Combinei certas cousas... vi em você uns ares. É que não sou nenhum palerma: previ que breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, minha mulher...
Fonseca.—Nós todos o conhecemos como homem sagaz.
Ribeiro (com simplicidade affectada).—Sagacidade, não: alguma penetração... e quer que lhe diga uma cousa? (parando diante de Fonseca que se levanta) essa penetração não se desenvolveu como devêra por causa da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia nascido para alguma cousa de grande n’este mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim de contas?
Fonseca (com calor).—Oh! meu amigo, capitalista e muito forte!... Que se póde desejar mais?
Ribeiro (levantando os hombros).—Qual!... E a gloria, Snr. Fonseca? A gloria?
Fonseca (com sorpreza).—Que quer você com a gloria?
Ribeiro (apressadamente).—Sim... ter um nome celebre, conhecido... ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas... vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado... Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora, n’este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha solemne para oitocentos e cincoenta professores (com muito fogo) hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu nascera:... entretanto...
Fonseca.—Entretanto?
Ribeiro.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação... Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o desgosto terião feito medrar como chamma devoradora...
Fonseca.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...
Ribeiro (com ar desabusado e puchando o beiço).—Eu poeta?... Aos cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima das fogueiras da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, choramigador de desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado (parando de repente e com satisfação). Sinceramente agrada-me esta descripção... fui feliz devéras. (Mudando de tom) Se o poeta fôr velho então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as delicias da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará da salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo...
Fonseca.—De um Ribeiro... maganão!
Ribeiro (sorrindo-se meio resignado).—Que quer você? Não tenho outro meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos do que muitos versos na cachola. (Rindo-se, approxima-se de Fonseca a piscar um olho) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não é? Diga com franqueza...
Fonseca.—De certo os encargos de familia...
Ribeiro (abanando a cabeça com ar fino).—Não é só por isso!.. É tambem por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz!
Fonseca (com repentino enthusiasmo).—Que actividade!
Ribeiro.—Boa presença... bons cabellos...
Fonseca (encarecendo).—Dentes excellentes!
Ribeiro.—É um moço que tem futuro...
Fonseca.—Calculista, meu amigo! Não dá um passo sem pensar; não diz uma palavra (faz com as mãos gesto de quem pesa) sem pesal-a cuidadosamente...
Ribeiro (com certa hesitação).—Mas elle... me parece...
Fonseca (com algum receio).—O que?
Ribeiro.—Prosaico de mais...
Fonseca (arrebatado).—Como prosaico! Diga realista... Um bom senso pratico que espanta... não vê as cousas senão como ellas são. Nada ás avéssas... nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da minha escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum a gerencia de meus bens, e tudo corre ás mil maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais poupada... o genero começou a baixar e eu tinha os armazens abarrotados. Assustei-me... Então... (interrompe para assuar-se com estrondo).
Ribeiro (com interesse).—Então?
Fonseca.—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a comprar mais...
Ribeiro.—Ó homem, era arriscado.
Fonseca (com vivacidade e orgulho).—Não era? Pois bem, dous dias depois subia o café e ahi vendemos com furia... Graças ao menino ganhei bastante. (Com alguma ternura) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um casamentão... Palavra de honra é um casamento de mão cheia...
Ribeiro.—Estou certo que minha filha ha de ser feliz...
Fonseca (influindo-se pouco a pouco).—Que duvida! Um noivo d’aquella força no movimento da praça!... Um olho tão firme nas subidas e descidas do café!... Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas, e afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! Depois... poucos filhos... Comprehende?... Não ha tempo.
Ribeiro.—E isso é mais conforme á poesia...
Fonseca.—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões de fortuna...
Ribeiro.—É pena que o seu sobrinho não cultive (parando nas palavras) alguma arte... Olhe, se eu fosse moço ensaiava o piano ou então a harpa (com gesto de quem dedilha). É tão gracioso!
Fonseca (meio admirado).—Pois quer mais arte do que a que elle tem? Quer um teclado mais difficil de conhecer do que seja a opinião dos agiotas... do que o capricho dos homens da praça? Oh! se houver no mundo outro noivo como elle, certamente não ha tres... Não, isto lhe asseguro!... Muito brevemente elle terá de seu cento e cincoenta contos de réis... vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... nem gastador; sempre no meio termo...
Ribeiro.—Creio que elle agrada tambem á minha mulher...
Fonseca.—Tenho toda a certeza. Não ha coração que lhe resista.
Ribeiro.—E minha filha? Que pensará d’elle?
Fonseca (com segurança).—Não póde deixar de sympathisar muito com o meu sobrinho...
Ribeiro.—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe um album...
Fonseca.—Qual album!...
Ribeiro.—Na sua posição não lhe ficava mal... Um moço, quasi um noivo, entra em toda a parte com um album debaixo do braço e com versos de sua lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás mulheres...
Fonseca.—Não duvido; mas um homem como o Miguel, falle com franqueza, póde estar a namorar? Confessemos que é um periodo difficil esse em que a gente sente necessidade de casar, procura uma noiva e tem que lhe fazer a côrte. Quem tem algum tacto vai logo simplificando tudo... Não vê como o Miguel sahe-se d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua dignidade?.. Estou certissimo que elle ama a sua filha como um louco, mas quanta calma!... Hen? mal se percebe...
Ribeiro.—Na verdade. Acho-o até frio de mais... Eu não quizéra levar o casamento de minha filha, como se fôra um negocio commercial...
Fonseca.—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! Nada. É preciso que falle o sentimento... E quer que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho disse-me com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, hei de ter que fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... Meça, Sr. Ribeiro, (com tom grave) o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem e não é a Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (com ar funebre) É á Europa!...
Ribeiro.—Com effeito, se elle disse isso...
Fonseca (com imposição).—Disse e fal-o. É rapaz de resolução... Tambem posso lhe afiançar: sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é capaz de garatujar n’um instante resmas de papel, enchendo-as de versos...
Ribeiro (com ar de superioridade compassiva).—Ah! isto fia-se mais fino! E a inspiração?
Fonseca (com resolução).—Queira elle e veremos... Oh! que marido eu lhe dou, Sr. Ribeiro...
Ribeiro.—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, condição indispensavel.
Fonseca.—É do que ninguem duvída... Elle entra n’esta casa com o pé direito... Fará a felicidade de todos; a sua, a de sua mulher...
Ribeiro.—Basta que faça a de Isabel... É tudo quanto lhe pediremos.
Fonseca.—Então, ao chegar sua senhora á sala, annuncia-se-lhe logo o acontecimento, não é?
Ribeiro (com alguma pausa).—Sim... sim... mas confesso a você que nunca vi casamento com menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a gritarem... filhas a chorar... noivos audazes...
Fonseca.—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... São cousas de outro tempo... Ahi chega D. Rita...
SCENA II
Ribeiro, Fonseca, D. Rita.
Fonseca (dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe a mão).—Permitta, comadre, que eu a cumprimente...
D. Rita (estende-lhe a mão).—Oh! Sr. Fonseca...
Fonseca (continuando no que ia dizendo).—que a cumprimente n’este momento e de um modo especial... com mais effusão do que nunca...
D. Rita.—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto a razão d’esta effusão...
Fonseca.—O seo marido que lh’o diga...
D. Rita.—Meu marido?... Em todo o caso a noticia é boa, não é?
Fonseca.—Para mim, excellente...
D. Rita.—E hade agradar-me?
Fonseca.—Estou que sim...
D. Rita (meio risonha).—Então adivinho...
Fonseca.—É...
D. Rita.—O pedido em casamento de minha filha...
Ribeiro (intervindo).—É verdade. O nosso amigo e compadre, o Sr. Fonseca veio cá, e sem gravata nem luvas brancas, sem ceremonias, nem concertar a garganta, ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de Isabel...
D. Rita (interrompendo-o).—E você lhe respondeo...
Ribeiro.—O que você responderia.
Fonseca (voltando-se para D. Rita).—Então?
D. Rita (sem hesitação e com simplicidade).—Eu diria que sim! A que devemos attender senão á felicidade de nossa Isabel?...
Fonseca.—Não soffre duvida...
D. Rita.—E quem poderá tornal-a feliz?
Fonseca (para Ribeiro).—Sim, quem?
Ribeiro.—Quem?
Os tres (a um tempo).—Miguel Faria!...
D. Rita.—Tão amavel moço...
Ribeiro.—Boa figura...
Fonseca (com ar de importancia).—E apatacado...
D. Rita.—Um cavalheiro perfeito...
Ribeiro.—Previdente...
Fonseca.—Em cafés não ha outro igual...
Ribeiro.—Então ha uma só voz a seu respeito, não é?... Tudo são rosas...
D. Rita.—Accordo perfeito...
Ribeiro.—Embora. Eu desejára algum motivo (hesitando) de contrariedade... Estes casamentos assim...
Fonseca (com alguma impaciencia).—Ora, Sr. Ribeiro, sempre aquellas idéas?... (voltando-se para D. Rita).—Não entendo bem... O compadre pretende que... casamentos em que haja opposições... são... não sei como diga... mais poeticos... Paes a negarem, mães a gritarem!...
D. Rita (offendida).—Oh! Sr. Ribeiro!...
Ribeiro (com alguma vivacidade).—Não: o meu pensamento não é este... eu...
Fonseca (interrompendo-o).—Ora, venha cá... O senhor não foi tão feliz com a sua mulher?... E para esse enlace não concorrerão todos as circumstancias desejaveis?
Ribeiro.—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, se...
D. Rita (com indignação).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!...
Ribeiro (com ar conciliador e fallando com volubilidade).—Não é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas, essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (com fogo) Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras, fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me lembro, responde a mulher.» «O signal para appareceres na janella era assim (assovia baixinho e prolongadamente) Teu pae estava dormindo»...
D. Rita (procurando interrompel-o).—Que historias, Sr. Ribeiro!
Ribeiro (continuando).—«Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu pucho; elle rasga-se»...
D. Rita.—Mas isto é até indecente...
Fonseca.—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...
D. Rita (rindo-se).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de reis!...
Ribeiro (pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si).—Não o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não; mas quanto á alma posso exclamar como Nero (batem palmas na porta do fundo.—Ribeiro muda de tom e alto).—Quem é?... É sempre assim! Estava com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (Novas palmas e fortes) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre (caminhando para a porta) entre pelo amor de Deos!
(Alfredo Rocha entra)
SCENA III
D. Rita, Fonseca, Ribeiro e Rocha.
Ribeiro (olha admirado para Rocha que mostra-se espantado).—Com a bréca... era você? Que diabo fazia a bater palmas na porta da sala de visitas?... Porque não entrava?...
Rocha (cumprimentando a Fonseca e D. Rita com algum acanhamento).—Sr. Fonseca... minha tia...
D. Rita.—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...
Rocha (com sentimentalismo como que comprimido a custo).—Oh! essas palmas tem uma significação... sim, ellas têm...
Ribeiro.—O certo é que vierão muito fóra de tempo... Cortarão-me o fio de uma comparação (voltando-se para Fonseca) Que dizia eu, compadre?...
Fonseca.—Você dizia... espere...
Ribeiro (instando).—Procure... procure...
Fonseca (deitando os olhos de um lado e d’outro como quem procura no chão alguma cousa).—Nada acho...
Ribeiro (com um dedo na testa).—Eu comparava-me... Qual!... Está perdida... Adeos, idéa!... Malditas, malditas palmas!
Fonseca.—Console-se... fica para outra vez... ajudado pelo seu sobrinho... Este, sim, é poeta!...
D. Rita.—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos versos...
Rocha (com alguma enfatuação).—Oh! isto é bondade!...
Ribeiro (com tom dogmatico).—Não, eu lhe digo com verdade, aquelle seu livro tem cousas recommendaveis... aquella ode sobre o Amazonas... aquella...
Fonseca (interrompendo-o).—Tambem foi acolhido com estrondo (voltando-se para Rocha) O senhor deve ter ganho muito, não é?
Rocha (ironico e superior).—Com a minha obra?... Qual! no Brazil não ha quem compre livros... As letras vegetão...
Ribeiro.—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser seu tio, julguei dever comprar um exemplar... Não o quiz gratis, não só para animar a venda, como para não dever favores...
Fonseca.—Fez muito bem... No seu caso assim procedia...
Ribeiro (com enfatuação).—Fui ao livreiro e paguei logo tres mil reis... Sinceramente achei caro... um livrinho fininho muito entrelinhado, emfim era o preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu dinheiro... E não me arrependo... Ha trechos que applaudi... Eu faria talvez outra cousa... mais vasta, menos cortada... mas emfim cada qual faz como póde e entende... Entretanto...
D. Rita (interrompendo).—Entretanto os senhores permittirão que eu vá vêr porque não apparece Isabel... (voltando-se para Fonseca).—O senhor janta comnosco...
Fonseca.—Já que é ordem...
D. Rita (para Rocha).—De certo você tambem...
Rocha.—Com muito gosto...
D. Rita.—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... Talvez lá encontremos a menina... Mostrar-lhes-hei umas lindas dhalias que me chegarão de Petropolis... (para Rocha). Quer vir, Alfredo?
Rocha.—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com o seu marido...
D. Rita.—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.
(D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem pela porta da esquerda).
SCENA IV
Ribeiro e Rocha.
Ribeiro.—Então que novidades ha? Olhe que tenho ainda que fazer toilette antes de ir para a mesa do jantar.
Rocha (um pouco sombrio).—Preciso lhe fallar... e agora mesmo!...
Ribeiro.—Cousa urgente?...
Rocha.—Urgentissima!
Ribeiro.—Em todo o caso abrevie quanto puder... Tenho que apparecer hoje com algum esmero mais... Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?
Rocha.—Gravissima...
Ribeiro.—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou todo ouvidos...
(Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e indica outra ao lado).
Ribeiro.—Comece pois...
Rocha (meio acanhado).—Meu tio... convem recorrer... á sua benevolencia... antes de encetar esta conversa...
Ribeiro (olhando para Rocha com alguma admiração).—Você está perturbado... Que tem?
Rocha (no mesmo tom).—Tambem o favor que lhe venho... pedir... é tão grande... tão grande...
Ribeiro (irresoluto).—Di...nheiro?
Rocha (com movimento energico de denegação).—Não, Snr.!
Ribeiro (mais expansivo).—Então que é?
Rocha (hesitando).—É...
Ribeiro (com curiosidade e chegando a cadeira).—É?...
Rocha (tomando subita resolução e ás pressas).—É a mão de sua filha Isabel, a quem amo desde muitos annos como um louco, a quem adoro, idolatro em segredo, dia e noute, a quem...
Ribeiro (affastando um pouco a cadeira e tossindo).—Hum! hum!
Rocha (com anciedade).—Então?... que diz?
Ribeiro (encolhendo de vagar os hombros).—Homem, eu não digo nada.
Rocha (apressadamente).—Então consente?... Oh! meu Deus!
Ribeiro.—Eu não disse isso...
Rocha (abatido).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de...
Ribeiro.—Tambem não disse isso...
Rocha.—Então que foi que disse?...
Ribeiro.—Nada! (tomando attitude de quem vai orar) Alfredo, conversemos um pouco... Você é meu sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração devida não só a meu parente, como a um homem de intelligencia e conceituado...
Rocha (interrompendo-o).—Mas...
Ribeiro (gravemente).—Deixe-me fallar... As palavras que vou lhe dirigir são conselhos de quem, prezando-o como parente, preza tambem a gloria de sua familia. Você pede a mão de minha filha, não é?
Rocha.—É verdade... aspiro...
Ribeiro (com gesto de imposição).—Pois faz uma furiosa asneira...
Rocha (levantando-se admirado).—Como assim?...
Ribeiro (levantando-se tambem).—Em duas palavras lhe explico tudo. Você (pausado e com voz muito grave) não deve casar! A sua vocação não lhe permitte senão o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! Que quer dizer um poeta casado, em riscos de ter duzia e meia de filhos, ao lado de uma mulher que vai envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada, descabellada?! Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá inspiração que resista a causas tão deleterias?...
Rocha.—Meu tio...
Ribeiro (com volubilidade).—Não me interrompa... Sei que hei de levar a convicção á sua alma... Supponha os grandes poetas presos pelas cadêas do matrimonio. Que teriamos em poesia?... Nada... nada... mil milhões de vezes nada!...
Rocha (enfiado).—O senhor quer caçoar...
Ribeiro (enthusiasmando-se).—Não consinto que me interrompa... Que fôra de Dante, de Petrarca, de Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem prosaicamente desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem tido que cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, que leval-os a passeio, á escola!... Meus santos do paraiso, que pensões e que trabalhos!... Puramente a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão? Carpirão só os males da alma, d’essa alma que encheu os espaços com clarões inextinguiveis!...
Rocha.—Mas... eu amo...
Ribeiro (levantando a voz).—Perfeitamente! É o que todos nós queremos. Contrariamos o seu sentimento, machucamos o seu amor proprio, e d’ahi resultaráõ versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, como os faz quem é poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, soffrerá muito, não ha duvida; as insomnias o perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite; terá talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de todo esse padecer atroz!...
Rocha (um tanto sombrio).—Não posso crêr que o senhor queira se divertir á minha custa...
Ribeiro (muito serio).—Juro que lhe fallo com toda a sinceridade. Fallo, como fallaria a um filho. Estas são as minhas idéas. Você tem muito talento, todos o reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem produzido senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... Simplesmente porque é um moço serio, empregado publico, moderado nos seus gastos, cauteloso e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde o fogo sagrado da poesia alimentar-se em quem vive como o commum dos mortaes?! Não, não de certo! O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de anormal... direi quasi de infernal!...
Rocha.—Ora, meu tio...
Ribeiro.—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... deixe tudo, emprego, bailes e theatros; caia na mais abjecta crapula (Mudando repentinamente de tom) Não lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma simples hypothese... (Voltando ao primeiro tom) frequente a taverna, desça á mais completa miseria; seja, emfim, para resumir tudo em uma palavra, seja um miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá transfigurado... O máo vinho com que você se embriagar, a mulher perdida que abraçar em publico, as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome que lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo extranho, e, no momento da maior degradação, o seu coração vibrará com uma energia desconhecida... A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ... eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o ha de vingar!...
Rocha.—Não posso ouvil-o...
Ribeiro.—Que póde fazer uma intelligencia volcanica comprimida por um chapéo Chastel, sentindo os pés apertados em botins envernizados e os dedos entalados em luvas de Jouvin, como você está agora?... Que martyrio para a sua alma! E por cima quer casar?...
Rocha.—Mas sua filha?...
Ribeiro.—Minha filha? (Com simplicidade) Que tem? Você a accusará perante os seculos... a levará ao tribunal da posteridade. Que thema, hen? Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até eu sou capaz de exploral-a com vantagem... porque tambem nasci com aspirações... mas casárão-me cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, mas o estado nunca me inspirou a menor idéa! Ora, eu mesmo, irei consentir que você tambem se perca?
Rocha.—Tudo quanto o senhor me disse não significa cousa alguma...
Ribeiro.—Como assim?
Rocha.—Não vejo uma razão...
Ribeiro.—Uma razão?
Rocha.—Sim... um motivo plausivel...
Ribeiro (pondo as mãos para traz e abanando de vagar a cabeça).—Pois elle existe e muito, muitissimo valioso...
Rocha (com anciedade).—Qual é?
Ribeiro.—A mão de Isabel já está dada...
Rocha (com explosão).—Mas a quem?... A quem?
(Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel Faria e Siqueira).
Ribeiro (approximando-se de Rocha; á meia voz).—O noivo é o Faria.
(Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados).
Rocha (chegando-se para a boca da scena; com muito abatimento).—Meu Deus, quanto verso perdido, quanta rima n’agoa!... E eu que tinha para hoje um dythirambo! Lá se vai o dóte.
SCENA V
Rocha, Ribeiro, Faria e Siqueira.
Ribeiro (adiantando-se para Faria).—Meu caro Sr. Faria, seja muito bem vindo (aperta-lhe as mãos).
Faria.—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que eu lhe apresente o meu particular amigo Alves de Siqueira.
Ribeiro (apertando-lhe a mão).—Conheço-o já de vista. Tenho muito prazer em vêl-o em minha casa.
Siqueira (inclinando-se).—A honra é para mim.
Ribeiro.—Basta ser-me apresentado por quem é...
Siqueira.—Isto me penhora muito; sei que a amizade de Faria me é summamente lisongeira...
(Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a frente).
Ribeiro.—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo Rocha?
Faria (com frieza e alguma sobranceria).—Ainda não senhor; de nome... vagamente... Creio que o senhor escreveu um livrinho...
Ribeiro.—Justamente, um livro de poesias...
Rocha. (com ironia).—Sim... um livrinho pequenino de versinhos...
Ribeiro (para Siqueira).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; Sr. Siqueira, meu sobrinho (Os dous cumprimentão-se seccamente).—A proposito já sei que os senhores dous jantão commigo...
Siqueira.—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me com demasiada bondade... Eu pedi ser apresentado para... como devia... tratar de um negocio importante...
Ribeiro.—Ficará para depois do jantar... entre o café e o curaçáo... Com amigos do Sr. Faria, não cuido de negocios (com intenção) principalmente hoje... senão depois de nos termos assentado juntos a uma lauta refeição....
Siqueira.—Pois bem, resigno-me...
Ribeiro (com expansão).—Ah! muito bem! e verá como recompenso a sua resignação!... Com um peixe! (Dando um muchôcho) Que peixe!... O primor dos mares!...
Faria (com ar grave).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe que o negocio a que allude o meu amigo e que interessa tambem a mim, não póde soffrer demóra...
Ribeiro (pressuroso).—N’este caso, ouvil-o hei já e já...
Rocha.—Então eu me retiro...
Ribeiro.—Vá lá dentro conversar com a sua prima...
Faria (com vivacidade).—Este senhor é primo de D. Isabel?
(Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia.)
Ribeiro.—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...
(Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de Faria: desapparece e volta logo para trocar novos olhares.)
SCENA VI
Ribeiro, Siqueira, Faria.
Ribeiro.—Sentemo-nos...
(Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e sentão-se os tres, depois de se cumprimentarem com ar de gravidade e importancia.)
Siqueira (como que annunciando).—O meu amigo o Sr. Faria vai fallar...
Faria (após breve pausa).—Sr. Ribeiro, venho fallar a V. Ex. a respeito de dous negocios da mais alta importancia... O primeiro, sobretudo, vai entender com o meu futuro (parondo um pouco). Meu tio sem duvida já lhe ha de ter vindo fallar...
Ribeiro.—Pois não... e...
Faria (apressadamente).—Devo contar com a sua benevolencia?
Ribeiro (com ar fino).—O senhor é um maganão feliz... Só lhe digo isto... muito feliz!
Faria (com fingida effusão).—Agora, sim, reconheço-me como tal... A minha estrella...
Siqueira (interrompendo).—Mas o seu merecimento, meu amigo? Tem-o em pouca conta?... Além d’isto tudo estava calculado...
Ribeiro.—É certo que o senhor soube ganhar todos os corações... Tanta circumspecção...
Faria (com ar modesto).—Oh! Sr. commendador!...
Ribeiro.—Tão bom senso...
Faria.—Sr. commendador!...
Ribeiro.—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... A minha casa o estima muito...
Faria.—E ella?... sua filha?...
Ribeiro.—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... Ainda não lhe fallei... mas é natural... nada mais natural...
Faria.—Perfeitamente... Agora que tenho certeza do sentimento que lhe inspiro, acho-me capaz de tudo. (Com tom frio) Liquidado este primeiro negocio (emendando com rapidez a phrase), decidido este primeiro assumpto, passaremos ao segundo, que traz particularmente o meu amigo Siqueira á sua presença...
Siqueira (tomando a palavra, com volubilidade).—É cousa infallivel, Sr. commendador; questão simplesmente de confiança. V. Ex. é capitalista; Faria já póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle, homem que a ambos deve merecer credito... não é?
Faria e Ribeiro (inclinando-se).—De certo!...
Siqueira.—Assim, pois, procurei por intermedio de Faria vir fallar a V. Ex., que, podendo mover de prompto com grandes capitaes, encaminhará uma operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, nós tres presentes, quarenta por cento...
Ribeiro.—Quarenta por cento... da noute para o dia?...
Faria.—Todos os calculos estão feitos... Concorra V. Ex. com setenta contos e...
Ribeiro.—Mas a somma... a somma é grande...
Faria.—Setenta contos?...
Ribeiro.—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... setenta!...
Faria.—Na operação empato cincoenta contos... tal é a minha confiança... digo até, certeza!...
Ribeiro.—Mas... afinal... de que se trata?
Siqueira.—Trata-se do algodão...
Ribeiro.—Do algodão?...
Siqueira.—Eu me explico... V. Ex. sabe que este genero teve uma baixa consideravel, quando acabou a guerra dos Estados-Unidos, e que o café subio...
Ribeiro.—Sei perfeitamente...
Siqueira.—A ultima guerra franco-prussiana trouxe a procura do algodão...
Ribeiro.—Sei d’isto.
Siqueira.—E desde então vai alteando... Agora participão-me de Santos por um telegramma reservado balas de algodão, no valor de cento e cincoenta contos, a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York, que é esperado a todo o momento, dér o augmento de poucos pences, tem se feito uma bella operação... A colheita de lá foi má, e o algodão que me offerecem é de qualidade superior...
Ribeiro (duvidoso).—Era bom... reflectir... Assim...
Siqueira.—E o palpite?... Ha occasiões em que é necessario atirar-se... E demais que são setenta contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que entro, esses, sim, representão arrojo e segurança...
Ribeiro (com enfatuação).—De facto não é somma fabulosa... mas, emfim, não é meia pataca...
Siqueira (com voz insinuante).—Se fecharmos o negocio, d’aqui mesmo expeço o telegramma de compra...
Ribeiro (voltando-se para Faria).—Que diz, Sr. Faria?...
Faria.—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a operação é excellente... Senão, reflexionemos um pouco...
Ribeiro (approximando a sua cadeira da de Faria).—Sim... sim, reflexionemos um pouco...
Faria.—Tudo n’este mundo está subordinado a causas, de maneira que para estudar bem os effeitos nas suas menores consequencias é preciso remontar á origem...
Ribeiro (abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira).—De certo... subamos á origem...
Faria (com tom oratorio).—Ora bem... Quaes são as causas que produzem no mundo as oscillações do movimento commercial?... Diversas...
Siqueira.—Diversas... não ha duvida.
Faria.—Mas qual a predominante?... Sem contestação a politica... Qual é hoje a face politica do globo? Paz em todos os Estados... A França exhausta... a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a parte, mas a luta armada impossivel por muitos annos. N’estas circumstancias o café, bebida excitante, tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas pedem trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos foi escassa; a do norte do Brazil não satisfez a expectação. Pelo contrario ha muito café... e depreciado...
Ribeiro (approximando mais a sua cadeira).—Estou o seguindo com anciedade...
Faria (batendo compasso com a bengalinha que conservára em mão desde a entrada em scena).—Depois, não nos esqueçamos de um facto natural... Cada genero tem um preço normal que representa a exacta necessidade da população consumidora. O progresso na ascensão justo e natural está sugeito a rigorosas apreciações estatisticas. O café por muito tempo esteve a tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a sete, onde ficou firme...
Ribeiro.—Perfeitamente.
Faria.—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco do café... É o seu ponto de equilibrio...
Ribeiro.—De certo, de equilibrio (mechendo com os braços, imitando uma balança) Isto é uma balança: o fiel marca sete...
Faria.—A sua comparação é justissima.
Ribeiro. (com vivacidade).—Então gostou?
Faria.—N’uma concha está o café, na outra...
Ribeiro (com rapidez).—O assucar...
Faria.—Não, o algodão. Nas nossas condições actuaes, são os dous typos de exportação. O assucar pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da betteraba e até de couros velhos...
Ribeiro.—É verdade: equivoquei-me...
Faria.—O café desce: sóbe o algodão...
Siqueira (intervindo).—V. Ex. vê como temos tudo calculado... Podemos contar com os seus setenta?
Ribeiro (hesitando).—Talvez... se eu consultasse com o meu socio... o Lemos...
Siqueira.—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto tino! Alem d’isso é irresoluto o tal Sr. Lemos...
Ribeiro.—De facto... elle não tem golpe de vista... esse lance de olhos que vê uma operação em globo...
Siqueira (apressadamente).—Como esta, Sr. Commendador, como esta...
Ribeiro (vacillante).—Não direi tanto...
Faria.—O que é necessario é passar quanto antes o telegramma...
Ribeiro (decidindo-se de repente e levantando-se).—Pois vá lá: o Lemos era incapaz. (Apresentando a mão aberta a Siqueira, que a aperta com mostras de muito respeito). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o negocio!... Escreva para Santos...
Siqueira (dirige-se para a mesa, arranca da carteira uma folhinha de papel e escreve a lapis).—É já e já... Ouça, Exm.: «Todo o algodão para Siqueira & C.ª Embarque no primeiro vapor.» Agora um criado!
Ribeiro.—Toque a campa.
(Siqueira bate n’um tympano.)
Faria.—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto (com fingida commoção) que fará a minha eterna felicidade.
Siqueira (para Faria).—Então vem todo o algodão?
Faria.—Todo. Se mais houver, que mandem! (Mudando de tom e voltando-se para Ribeiro).—Sim, a minha felicidade...
Siqueira (atalhando).—E se o telegrapho estiver interrompido?
Faria (mudando de tom).—Está trabalhando... Ha pouco passei um telegramma. (Voltando-se para Ribeiro) Na verdade o amor que sinto por sua filha...
(Entra um criado.)
Faria (dirigindo-se para o criado e com tom imperativo).—Entregue de minha parte ao Sr. Queiroz, o administrador...
(O criado sahe.)
Ribeiro.—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos temos entendido, ha de permittir, com o seu amigo, que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa antes de apparecer á mesa. (Para Siqueira) Como estava decidido, o senhor fica comnosco...
Siqueira.—Com summo gosto...
Ribeiro.—Verá que peixe!... Parece pescado em Santos! Vale o seu peso de algodão (rindo-se). Não gostárão?
Siqueira (admirado).—De que?
Ribeiro.—Do meu dito...
Siqueira (rapidamente).—Oh! muito... esteve excellente.
Ribeiro.—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça, mas graça natural, nada forçada... É como aprecio... Isto de repentes estudados de vespera não é commigo... Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e estou de volta.
(Ribeiro sahe pela porta da esquerda.)
SCENA VII
Siqueira e Faria.
(Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende um charuto e põe-se a folhear um album de retratos.)
Siqueira.—Emfim, está feito o negocio!
Faria (soltando uma fumaça e com indifferença).—Está, sim.
Siqueira (parando defronte de Faria).—Mas agora, muito seriamente, digo a você uma cousa...
Faria.—Que é que diz?
Siqueira.—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro... mas tambem os setenta contos d’este homem...
Faria.—Você, medroso, só se lembra dos seus trinta...
Siqueira.—Ora... mas...
Faria.—Deixe-se de mas... O negocio é bom.
Siqueira (com anciedade).—Você acha?
Faria (indifferente).—Acho...
Siqueira.—Mas d’onde lhe vem esta segurança?...
Faria.—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto disse ao meu futuro sogro?
Siqueira.—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos: se o vapor de New-York vier pedindo café e recusando algodão?... Levamos um baque soffrivel...
Faria.—É possivel...
Siqueira.—E então?
Faria.—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo que um homem serio prevê... O mais é anomalia. (Batendo n’uma folha do album) Eis-aqui um facto. Estão n’este album dous retratos... um defronte do outro, como que a se namorarem...
Siqueira (distrahido).—De quem são?
Faria.—Um é o de minha noiva; o outro é o do tal primo, o poeta. Não é possivel que estes dous jovens photographados tenhão inclinação um para o outro?
Siqueira.—Com effeito...
Faria.—Mas o que é provavel? É que a moça tenha considerado que ella não nasceo para casar com um rapaz muito rico de versos, mas pobre de dinheiro... Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples bom senso mostra...
Siqueira.—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou assim... facilmente perco a cabeça. Esta compra de algodão...
Faria.—Ora, deixe-se d’isso. (Com desprezo) Trinta contos!
Siqueira.—Sinceramente...
Faria.—Se você se afflige quando navegamos no mar sereno das probabilidades... que fará quando o vento nos açoutar rijo?...
Siqueira.—Oh! Faria, nem fallar n’isso é bom.
Faria (fechando o album com força e levantando-se).—Pois eu... sou homem para a lucta... e...
(Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira.)
Siqueira.—Está passado o telegramma... O algodão é nosso...
Faria.—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete de New-York e teremos feito um optimo negocio... E não póde tardar... De um lado ganho com o algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de café que vinha de Campinas. Sou um general previdente... De mim não se dirá que não cuidei.
Siqueira.—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa...
Faria.—Qual sorte! O descuido dos homens é que merece este nome, nada mais, nada menos. Infatuados, pueris, buscão uma explicação sobrenatural para a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me ajudado? Meu amigo, tudo n’este mundo cifra-se no esforço proprio, na iniciativa e nas quatro operações da arithmetica...
Siqueira.—Eu sempre conservo o meu medo...
Faria.—Você quer me ceder a sua parte?...
Siqueira (apressadamente).—Não, não! Afianço-lhe que estou perfeitamente tranquillo...
Faria.—Pois então não fallemos mais n’isso, tanto mais que ahi vem gente.
(Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca.)
SCENA VIII
Siqueira, Faria e Ribeiro.
Ribeiro (puchando os punhos da camisa).—Estou prompto, promptinho... Creio que não me fiz esperar demais...
Faria.—Não, de certo.
Ribeiro.—Perfeitamente!... D’aqui a pouco estaremos á mesa. O Sr. Siqueira verá que peixe!...
Siqueira.—V. Ex., porém, me disse que...
Ribeiro.—Minha excellencia não attinge á d’elle... Não ha môlho que me sirva. (rindo-se) Não gostou?
Siqueira.—Muito... mas gostarei ainda mais do peixe...
Ribeiro.—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas falta-nos o compadre Ignacio... Quererá elle dar ponto hoje? Logo hoje! O certo é que está tardando. (Ouve-se barulho fóra). Estão subindo a escada: sem duvida é elle... Deos permitta que não venha muito nervoso!
SCENA IX
Siqueira, Faria, Ribeiro e Lemos.
Lemos (entra precipitadamente com ar de grande prostração e atira-se n’uma cadeira).—Ai! não posso mais... morro de calor... que commoção!
Ribeiro.—Que tem você?... Estava tardando... O jantar...
Lemos (levantando-se precipitadamente).—Bem se trata de jantar!... Não quero jantar... hoje ninguem deve jantar...
Ribeiro (inquieto).—Mas que ha? Você me assusta...
Lemos (passeiando agitado).—Que ha? É que acabo de comprar uma partida forte de café e recusar algodão. Que ha? É que d’aqui a pouco podemos, com a chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder ainda mais. É o que ha!
Ribeiro.—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos bem aviados!... Temos prejuizo certo...
Faria.—É cousa infallivel!
Lemos (reanimando-se).—Mas porque, homens de Deos? Vocês me pôem doudo...
Siqueira.—Eu me abstinha...
Ribeiro.—Por certo... mas em alguns falta o lance de olhos...
Faria.—Querem se apressar...
Lemos.—Talvez tenhão razão (com acabrunhamento). Aquellas saccas de café me esmagão. (Reanimando-se) Mas ao menos esperemos pelo vapor de New-York...
Faria.—Não ha que esperar...
Siqueira.—E para que esperar?
Ribeiro.—Esperar o que?
Lemos (muito abatido).—É verdade... é verdade...
Ribeiro (com seccura e concertando a garganta).—De modo que o Sr. Lemos, sem me consultar, metteu-se a calculista e...
Lemos (deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo).—Tem razão... tem razão... Compadre, o nosso prejuizo é grande...
Ribeiro (com muita importancia).—Isto não é o que mais me aborrece... É vêl-o assim arriscar-se sem prévio conselho meu... Olhe, emquanto o senhor fazia imprudencias, eu realizava com toda a calma uma operação grave, premeditada e de lucros certos. Fechei uma compra de algodão em Santos consideravel...
Faria (intervindo).—É verdade, o Sr. commendador, eu e Siqueira, acabamos de telegraphar, e amanhã poderemos impôr o nosso preço ao mercado.
(Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de Faria.)
SCENA X
Siqueira, Faria, Ribeiro, Lemos e Fonseca.
Fonseca.—Impôr preço ao mercado? De que modo?
Faria.—Eu lhe explico.
(Vai para Fonseca e falla-lhe baixo.)
Lemos (levantando os olhos para Ribeiro, abatido.)—Você salvou-nos, Sr. compadre...
Ribeiro.—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas vezes que faltava-lhe o palpite...
Fonseca (alto).—O negocio é excellente.
Siqueira.—Optimo... mas devéras, estou com medo...
Fonseca.—Pois, então, ceda-me metade do que lhe toca...
Siqueira (irresoluto).—Não... não quero... entretanto?
Fonseca (com superioridade).—Então ceda-me tudo!
Siqueira.—Tudo?
Fonseca.—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita?
Ribeiro.—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste rasgo.
Fonseca.—Então aceita?
Faria.—Você está com receios... você o da idéa... aceite...
Siqueira (resolvendo-se).—Pois vá lá... Eu me contento com pouco. Mas palavra, se o senhor ganhar... tem de me agradecer a lembrança...
Fonseca.—Quer que lhe dê uma clareza?
Siqueira.—Não, senhor, a sua palavra vale ouro.
SCENA XI
Os mesmos, um criado.
O Criado.—Esta carta urgentissima para o Sr. commendador.
Ribeiro (apressadamente).—Dê-m’a. (Lê) Meus senhores, o vapor americano está entrando. Falla-se em alta no algodão...
Siqueira (com dôr).—Oh! Faria!... Meu algodão...
Fonseca (com voz de triumpho).—Quer comprar a minha parte? 30% de lucro sobre a venda!
Siqueira.—O senhor me mata!
Ribeiro (para Lemos).—Compadre, tem algodão que vender?
Lemos (sempre sentado; lugubre).—E o meu café!... O remedio é bebê-lo todo. Arrebentarei!
(Ouve-se uma voz fóra gritar: Meu pai! Meu pai! barulho na escada).
Ribeiro.—Que é isto?
SCENA XII
Siqueira, Fonseca, Faria, Ribeiro, Lemos e Alberto.
Alberto Lemos (vem offegante e mal póde fallar). Meu pai... o vapor americano... alta no café... algodão desceo!
Lemos (dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira).—Café?!... Café?...
Alberto.—Pede-se de toda a America do Norte.
Todos.—Impossivel!
Alberto.—Leião! (Entrega um boletim a Ribeiro, que é logo cercado por todos com grande sofreguidão.)
Ribeiro.—É verdade! Mas... arredem-se um pouco... Os senhores me suffocão!
Lemos (com voz de triumpho).—Eu logo vi!
Fonseca (deixando-se cahir na cadeira em que estivéra Lemos).—Em que tremedal me metti! Infame algodão!
Siqueira (chegando-se para Fonseca).—Coragem, Sr. Fonseca!... Vou certificar-me das noticias. Não se esqueça de mim.
(Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente.)
SCENA XIII
Faria, Fonseca, Ribeiro, Lemos e Alberto.
Fonseca (levantando-se).—Não! isto é horrivel!... D’esta feita... (Com explosão) Mas é preciso fazer alguma cousa... tomar providencias!... Anda, Faria! (Sacode com força Faria, que parece estar meditando). Diga alguma cousa... Você sempre tem idéas...
Faria (meio abatido).—Estou pensando...
Fonseca (irado).—Qual pensando! Agora não é hora de pensar. Queremos factos... factos...
Ribeiro (muito sêcco para Faria).—É facto que o senhor, com suas historias... encalacrou-me (Com gestos da scena anterior). Equilibrio, alta... baixa... isto, aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em Santos o meu dinheiro (Pesando nas palavras) está ardendo... e...
Lemos (interrompendo-o).—Deixe isso... Os nossos lucros por cá compensão tudo...
Ribeiro (com altivez).—Não me queixo da perda... deploro tão sómente que calculos...
Faria (como que acordando do lethargo).—Um telegramma para Santos... um telegramma!
Fonseca.—É verdade... um telegramma!... Um criado, depressa!
Alberto (que tem estado a olhar para o interior da casa).—É inutil: ha cinco minutos o telegrapho interrompeo as communicações... É noticia certa...
Fonseca.—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!...
Ribeiro.—Mais calma, meu amigo! Mais calma!
Fonseca (desabrido).—Vá á breca com os seus conselhos (Agarrando na cabeça com desespero). Minhas perdas! (De repente) Ah! uma idéa. Compadre, podemos remediar alguma cousa! Uma idéa! (Para Faria, imperioso) Você vai partir d’aqui a meia hora...
Faria.—Para onde?
Fonseca.—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas da tarde... ha tempo de sobra... Não deixe embarcar o algodão... Ao menos espere elle em Santos... Talvez deixando passar a primeira impressão na praça... d’aqui a dias...
Faria.—É uma idéa, mas...
Fonseca.—Mas o que?
Faria.—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?...
Fonseca.—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto você não voltar... Dous dias, ou pouco mais...
Ribeiro (com a mão mettida dentro do bolso do collete).—Perdôe-me: isto não. (Com sorriso um pouco altivo) Mas ninguem póde retêl-o... Antes de tudo... (Accentuando) de tudo, os negocios...
Fonseca.—Você bem vê... vamos! Aviemos isto (Baixo). Eu arranjo tudo; o casamento e o mais. (Alto) Vamos.
Faria (um pouco acanhado).—Então o Sr. commendador... consente?
Ribeiro.—Pois não... com muito gosto... por minha parte...
Fonseca (com alegria forçada).—Ah! muito bem! depressa agora... A Santos! A Santos! (Procura empurrar Faria) livra-nos d’essa...
Faria (com alguma resistencia).—Deixe-me ao menos despedir-me... (Estendendo a mão a Ribeiro) Dê-me então suas ordens...
Ribeiro (com frieza).—Seja feliz... e avisado...
Fonseca.—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente?
Lemos.—De certo...
Ribeiro (sempre sêcco).—É medida de segurança.
SCENA XIV
Alberto, Lemos, Ribeiro, Fonseca e Rocha.
Rocha (ao entrar esbarra quasi com Faria).—Oh! senhor!...
Fonseca.—Adeos... adeos, vamos de sahida...
Rocha.—Boa viagem!
(Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas.)
Faria.—Oh! eu...
Fonseca.—Vamos... vamos... não ha tempo a perder...
(Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por Fonseca.)
SCENA XV
Alberto, Lemos, Ribeiro e Rocha.
(Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por baixo das abas da casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha, de pé, no meio da scena, com os braços cruzados sobre o peito.)
Rocha (ironico e sombrio).—Então o Sr. Faria se retira?
Ribeiro.—Parece... tem que ir a Santos... Negocios...
Rocha.—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais bello thesouro?
Alberto (assustado).—Hen?
Ribeiro.—Ora, Alfredo...
Rocha.—Consulte a sua consciencia, meu tio (melodramaticamente), e decida se elle é digno da noiva que lhe reservão...
Alberto (assustado sempre).—Noiva?
Rocha (continuando).—Não, eu tambem sou parente... tenho que erguer a minha voz... Quer uma prova mais evidente da baixa ganancia... do mercantilismo do que a que acaba de ter?... Por uma questão de contos de réis... esse homem, que fingia um sentimento, esqueceo tudo e sobre tudo a sua noiva, anjo de innocencia, gemma de um valor inestimavel...
Alberto.—Mas quem é essa?
Rocha (arrebatado).—Oh! é um diamante de Golconda... é um seraphim capaz de levar as almas ao paraizo só com o poder do seu olhar... é emfim...
Ribeiro.—Se falla de minha filha, declaro-lhe que ella ainda não é noiva...
Rocha.—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia crêr...
Ribeiro (meio zangado).—Ha pouco eu lhe disse muita cousa... Na realidade, pensei que poderia... mas... emfim... nem tudo... quanto se pensa, pode realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo... (Animando-se a pouco e pouco.) E com mil bombas! este procedimento desagrada-me solemnemente...
Lemos (com a mão no queixo).—E com toda a razão.
Ribeiro (exaltado).—Razão tenho de sobra... É fazer pouco em mim. N’um dia em que convido para jantar não pode haver motivos...
Rocha.—Justamente, justamente...
Ribeiro.—E depois do que tinhamos conversado... Oh! isto não ha de ficar assim... Desfaço tudo...
Rocha (continuando no mesmo tom).—Por uma questão pequenina de dinheiro! (Com muito desprezo) Oh! indigno metal! tão negro como as entranhas da terra em que vives!
Ribeiro.—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e amigo! Ao Faria nunca hei de dar a minha filha...
Alberto (intervindo).—Por certo... É um coração secco...
Rocha.—Um ganhador...
Ribeiro.—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante quantia que perdeu derrubou-lhe o edificio da hypocrisia... Aquella menina devia pertencer a quem a merecesse pela elevação de sentimentos.
Rocha. (com exaltação).—Oh! meu pai (Aperta as mãos de Ribeiro.)
Alberto (admirado).—Mas que é isto?
Rocha (com affectação).—É um quadro de familia... Veja e enterneça-se (Abraça Ribeiro que não lhe mostra boa cara.)
Ribeiro (meio triste).—A final os poetas tem sempre razão...
SCENA XVI
Lemos, Alberto, Rocha, Ribeiro e D. Rita.
D. Rita (entrando pela porta da direita).—Então, meus senhores, quando quizerem, faráõ o favor de entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o compadre Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou?
Ribeiro.—Aqui estiveram ambos e partiram...
D. Rita.—Mas voltam já...
Ribeiro (seccamente).—Não voltão tão cedo... partiram...
D. Rita.—Para onde?...
Ribeiro.—Para Santos...
D. Rita.—N’um dia como o de hoje! Depois das promessas! Que foi? Que houve?
Ribeiro.—Um negocio de algodão...
D. Rita.—Não ha negocio que podesse obrigal-os a se retirar...
Ribeiro (com explosão).—Não sei, não sei, nada sei, mas o que lhe digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha filha, a sua, a nossa filha não casará nunca com o tal Faria. (Com tom lugubre) É excusado pedir ou chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o compadre, nem com ninguem...
D. Rita (admirada).—Expliquem-me o que houve... Estou pasma.
Ribeiro.—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha vontade e aqui (com resolução) não é casa de Gonçalo, em que a gallinha cante mais do que o gallo... É excusado, senhora...
D. Rita (picada).—Mas quem lhe disse que eu morro de amores pelo Faria?... Minha filha, graças a Deos não precisa mendigar noivos...
Rocha (adiantando-se).—Minha tia, em duas palavras lhe explico tudo... O tal pretendente á mão de minha adoravel prima metteo-se, e por seus conselhos metteo o tio, em uma compra de algodão em Santos. Agora acontece que o genero baixou, de modo que elle, sem consideração alguma pela bondade com que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum remedio aos seus prejuizos... Não houve nada que o retivesse... nem a honra de jantar hoje aqui, nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto já lhe tinha sido quasi dada...
Ribeiro (tossindo e cortando a palavra a Rocha).—Isto é, o tio, o animal do Fonseca, procurou, etc., etc., e tal... mas eu...
Rocha.—Então o meu tio offendeo-se d’aquelle insolito procedimento e...
D. Rita.—De certo, fez muito bem...
Rocha.—Comprehendeo com a sua nobreza d’alma...
D. Rita.—Eu faria o mesmo...
Rocha.—E deo o dito por não dito...
Ribeiro (com resolução).—E se eu disse alguma cousa, dou o dito por não dito... Em dignidade ninguem me ha de vencer...
Lemos.—Perfeitamente, compadre...
Alberto.—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel...
Lemos.—Extraordinario...
Rocha.—Inexplicavel...
Ribeiro (com ar de dignidade offendida).—Digão antes de tudo offensivo; mas eu soube manter-me na posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos?
Lemos.—Optimamente...
D. Rita.—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo que o Sr. Fonseca ha de me ouvir...
Ribeiro.—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a possibilidade de um prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe boa!... É verdade que os meus setenta...
(Isabel apparece na porta da direita.)
SCENA XVII
Lemos, Alberto, Rocha, Faria, D. Rita e Isabel.
Isabel.—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar...
Alberto (adiantando-se para Isabel).—Minha senhora... eu...
Isabel (com acanhamento).—Meu senhor...
Rocha (precipitando-se).—Oh! minha prima!...
Isabel (adiantando-se).—Que tem, primo Alfredo? Acho-o commovido.
Rocha.—É de alegria... estou fóra de mim... commovido, sim, e muito...
Ribeiro.—Acabemos com isto, senão eu tambem passo a commover-me!...
D. Rita.—Eu já estou commovida...
Ribeiro.—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa.
Rocha.—Que dia este!
Alberto (com sorpreza e dôr).—Que é isto?
Isabel (muito admirada).—Eu, casar-me?
Ribeiro.—Sim... faço-lhe a vontade...
Rocha (muito apressado).—Emfim, posso dizer que a amo, Isabel... que a adoro, a idolatro...
Ribeiro.—E é com esses confeitos que os poetas nos dão batalha e nos vencem.
Isabel (com constrangimento).—Devéras eu... estimo muito o meu primo... admiro o seu talento... mas...
Alberto (chegando-se e em tom de supplica).—Falle, D. Isabel... estou soffrendo como um desgraçado.
Ribeiro (admirado).—Então que é isto? Você diz que...
Isabel.—Eu... não amo a meu primo...
Todos.—Oh!
(Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre: Ribeiro pucha o beiço, como pessoa que labora em grande duvida.)
Ribeiro.—Essa não está má! (Para Isabel) Então você de quem gosta?
Isabel (enrubecendo).—De ninguem, papae...
Alberto (com tom de supplica).—D. Isabel...
Rocha (implorando).—Oh! minha prima, que cruel momento! Por que crime estarei expiando tanta dôr! Os meus versos, os meus cantos devem já lhe ter dito quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando tudo parecia indicar o final de um soffrimento immenso, uma unica palavra sua, cruel, implacavel, veio me atirar em abysmo insondavel...
(Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, empurra-o para que se adiante.)
Lemos.—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão de sua filha...
Ribeiro.—Homem, é excellente! Até você é candidato?...
Lemos (apressadamente).—É para meu filho... meu filho Alberto...
D. Rita (graciosa).—É uma cousa muito possivel.
Ribeiro.—Mas ella diz que não quer ninguem: que hei de...
Isabel (intervindo com animação).—Papae, eu não disse isto...
Ribeiro.—Então você aceita o Alberto?
Alberto (sofrego).—D. Isabel... minha sorte depende da senhora...
Isabel (confusa).—Se... papae... consentir... Querendo a mamãe...
Ribeiro (risonho).—Ah! sonsinha, isto é namoro velho. (Para D. Rita) E a senhora não me dizia nada!...
D. Rita.—Eu de nada sabia...
Ribeiro.—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o caso dou com ambas as mãos o meu pleno consentimento.
D. Rita.—Eu com a maior satisfação...
Rocha (adiantando-se com ar sombrio e theatral).—E eu? Que fazem de mim? De mim que entrei hoje aqui com um céo na alma, e saio com a morte no coração!... A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?
Ribeiro (puchando-o pela sobrecasaca).—Ora, deixe-se d’isso, Alfredo, e vem comer o nosso peixe.
Rocha (encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois exclama).—Não quero comer o seu peixe! (Sahe arrebatadamente.)
SCENA XVIII
Lemos, Alberto, Ribeiro, D. Rita e Isabel.
Ribeiro.—Vai o pobresinho furioso (levantando os hombros). Hão de vocês vêr que versalhada sahe d’aquelles furores. O certo é que no fim de contas faz-se um casamento com quem ninguem contava...
Lemos.—Agrada-lhe menos...
Ribeiro.—Qual!... Está muito conforme com as minhas idéas... Não tróco o meu novo genro por uma duzia de Farias ou uma carregação de poetas... Agora todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... Comeremos do tal peixe por quantos deixárão de lhe chupar as espinhas... Á mesa e depressa... porque, como diz o proverbio: «Da mão á boca se perde a sôpa.»
(Cahe o panno.)
FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.