A QUEM LER

No anno de 1828, em Londres, se publicou o primeiro volume dos versos ou ‘poesias fugitivas’ do Sr. Garrett. Extinguiu-se em pouco tempo a edição; mas o auctor, occupado de outros trabalhos e preoccupado de mais serios cuidados, não tractou nunca de preparar a reimpressão que, entre nacionaes e extrangeiros, pediam todos os collectores de suas obras.

Até ao anno de 1841, não lhe foi possivel nem lançar os olhos áquelle modesto volume que, sob o nome de LYRICA DE JOÃO MINIMO, tam popular o tinha feito, e algumas de cujas peças ja tinham merecido ser trasladadas nas linguas mais cultas da Europa.

N’esse anno, retirado a descançar no campo de grandes fadigas de corpo e de espirito, deu emfim algumas horas de mais lazer a repassar as composições de sua infancia litteraria, e a escolher as principaes das que, em mais feita edade, lhe tinha arrancado a condescendencia com amigos, ou a irresistivel inspiração de algum objecto ou circumstância da vida que mais o impressionára.

Resmas e resmas de papel lhe vimos destruir e queimar ao fazer d’esta escolha. E apezar do desapiedado apuramento, ainda ficou uma collecção copiosa que, entre o ja impresso e o ainda manuscripto, dava materia para bons quatro volumes.

Infileirou tudo por generos e datas,—algumas das quaes só estavam na pouco exacta reminiscencia do auctor. Mas depois de tentados e desprezados varios methodos, assentou porfim—que dos quatro volumes, ficaria sendo o primeiro essa mesma LYRICA DE JOÃO MINIMO, apenas alterada da primitiva edição de Londres em leves differenças de collocação, e acaso additada com alguma composição juvenil que o auctor desprezára, mas que reclamavam os seus apaixonados;—que o segundo, sob o titulo de FLORES SEM FRUCTO, conteria o resto das composições lyricas da sua primeira e segunda epocha;—que o terceiro sería destinado ás FÁBULAS E CONTOS, e por appendice aos poucos sonetos que não intregára ás chammas;—o quarto volume finalmente, com o titulo de FOLHAS CAHIDAS, foi dedicado ás producções de edade mais madura e que elle considerava como os seus ultimos versos.

D’estes quatro volumes assim detalhados, não se tractou todavia por emquanto de dar ao prelo senão o segundo, as FLORES SEM FRUCTO, que ainda assim só vieram a imprimir-se em 1845.

E nem a popularidade que obteve o livro, nem o remanso de maiores lidas, que por então gosou o auctor, o poderam mover a pôr a última mão a nenhum dos outros.

Sómente em principios de 1851 entrou na imprensa o primeiro volume, isto é, a segunda edição da LYRICA DE JOÃO MINIMO, e o quarto, isto é, as FOLHAS CAHIDAS.

Motivos bem notorios de serviço público vieram reclamar toda a efficacia e attenção do nosso auctor; e os dois volumes lá ficaram abandonados na imprensa, meio compostas e meio revistas as folhas. Assim estiveram dois annos até principios do actual, 1853, em que felizmente desimbaraçado e liberto, pôde outravez dar-se aos seus queridos cuidados litterarios.

Publicou-se então a LYRICA e as FOLHAS CAHIDAS; aquella muito correcta e avantajada á primeira edição; éstas cerceadas e mondadas pelo auctor, que apenas ficou uma pequena brochura do que tinha sido um volume regular.

Em poucos dias porêm desappareceram as FOLHAS;—levadas de bons e de maus ventos... voaram.

E sendo reclamada pela opinião e pelas necessidades do commercio uma segunda edição, resolveu-se o auctor a fazer da reimpressão d’esse voluminho, e do inedito que era destinado ás Fábulas, sonetos, etc., um só tomo, com o título de SEGUNDO VOLUME DOS PRIMEIROS E ULTIMOS VERSOS.

Para resummir d’este modo, era necessario porèm queimar ainda mais sonetos e mais apologos. Assim se fez, sendo genero de occupação em que muito parece comprazer-se o auctor.

Mas por tal modo, com estes dois volumes e com o das FLORES SEM FRUCTO, está completa, em tres tomos regulares, a collecção das poesias menores do Sr. Garrett: nome pelo qual sempre será mais conhecido o Visconde de Almeida Garrett, a quem as dignidades politicas não elevam nunca acima do que a si proprio se eleva por seu ingenho e estudo.

Detractores e inimigos gratuitos—porque não invejosos tambem?—podem clamar que essas dignidades rebaixam o nome que não podem exaltar.

É um sophisma de calumnia, porventura admissivel como epigramma se, republicano e demagogo, o auctor de Camões, de Gil-Vicente e de Fr. Luiz de Sousa, houvesse alguma hora professado as hypocritas doutrinas do nivelamento social, que tam poucos acclamam com sinceridade, e menos ainda com perseverança. Mas a tribuna, a imprensa e o Conselho o viram sustentar sempre com denodo e dedicação a causa da monarchia, sustentá-la como inseparavel da causa da liberdade do povo, da qual é não menos zeloso e strenuo defensor.

A verdade é que as distincções monarchicas tanto dão lustre ao merito e o recebem d’elle, quanto se invilecem e prostituem lançadas á ignavia ou ao demerito que não conseguem innobrecer.

O dia em que os reis comprehenderem bem este axioma, será o último das aspirações demagogicas.

Voltemos porêm á historia da nossa collecção. Não ficou ella nem rigorosamente chronologica nem perfeitamente systematica. Participa de uma e de outra coisa, innevoada de um certo mysterio que muito por acaso a involve, sem nenhuma prevenção ou pretenção da parte do auctor.

Na Lyrica de João Minimo, tal como no princípio d’este anno se publicou, está a infancia poetica, toda a vida juvenil do homem de lettras, do artista, do patriota sincero e innocente, do enthusiasta da Liberdade que ainda não conhece, que ama com exaltação, que serve com fervor, e pela qual sacrifica de bom grado a patria, o socêgo doméstico, a fortuna, a saude e quanto os homens mais prezam. Ha n’essa lyra uma corda que ja soa de amor, do amor apaixonado, ardente, cioso que um dia abafará talvez as outras todas. Mas os gemidos soltos que por agora lança, os vagos suspiros que balbucia mostram bem claro que no coração do poeta dormem ainda as tempestades que porventura lhe hãode agitar depois a vida. Para tudo o que não é a Patria e a Liberdade, é tibio e froixo o seu canto, desgarrado e mal sentido. Hade entrar muito fundo n’esse coração a pena ou o prazer, antes que chegue a fazer vibrar a corda íntima que está silenciosa, distendida—e apenas geme a espaços como harpa eolia pendente do ramo, que, agitada por incerta brisa, suspira vaga e saudosa, sem a percutir ninguem, por ninguem, por coisa nenhuma, e só movida de um indeterminado presentimento do que hade ser, do que póde ser, do que talvez não seja nunca.

Falla de amor o poeta... Sim, falla; e ha Délias e ha Lilias, e ha flores e ha estrêllas, e ha bejos e ha suspiros, e ha todo esse estado maior e menor de um exército de paixões que sai a conquistar o mundo no princípio da vida de um rapaz cheio de alma, de fogo, de exuberante energia e vehemencia de sangue. Mas esse exército é todo de parada, fórma bem na revista—em travando peleja séria, hade fugir, porque é boçal e não o anima nenhum sentimento verdadeiro e tenaz. Ve-se o poeta atravez do amante: falso amor e falsa poesia! Quando um e outro são verdade, não apparece senão o amante, não se ve senão a paixão, a arte some-se, annulla-se deante d’ella: então vem a poesia do coração.

Não ha ainda d’essa poesia na LYRICA DE JOÃO MINIMO. A da alma sim. Nos tres livros em que se divide a LYRICA estão as tres primeiras epochas da existencia do mancebo. As impressões e aspirações da infancia que desponta á puberdade, os instinctos da glória, do amor e do patriotismo suspiram no primeiro livro, que se sente escripto no socêgo da casa paterna á repousada sombra das faias e das larangeiras da sua ilha no meio do Athlantico,[1] e logo depois ás margens classicas do Mondego, nas horas vagas dos estudos superiores. O segundo livro é nova era para o poeta e para o patriota. Alceu imberbe, tribuno de dezeseis annos, levanta-se com a revolução, destitue todos os idolos velhos, e não canta senão hymnos á liberdade. O profundo sentimento monarchico lá resumbra todavia sempre dos mais exaltados cantos com que se insurge a sua musa revolucionaria. Ve-se que, apezar de todo o impeto que leva essa carreira, jamais hade precipitá-lo na anarchia. O irreconciliavel inimigo dos despotas e dos hypocritas não hade ser nunca o amigo dos demagogos, nem blasphemará jamais contra Deus e contra a religião em nome da liberdade que adora como emanação do seio divino.

No terceiro livro ahi está elle repousando no lar paterno das primeiras lidas públicas; ahi canta em suaves endeixas os mais puros affectos da familia, a saudade dos que ja não vivem, o carinho dos que ainda o abraçam. Mas a patria, essa patria que hade renegá-lo e proscrevê-lo d’ahi a pouco, a liberdade que hade fugir bem depressa, vem tirá-lo do seu momentaneo descanso. Os cinco annos da vida de Coimbra passaram, o socêgo da casa materna a que regressou cança-o. Elle que sai outra vez da sua ilha tranquilla para as tempestades da capital. A causa do povo é trahida, abandonada... elle não a abandona; prefere o exilio, e em terra extrangeira o ouvimos cantar as suas imprecações, as suas saudades e a constancia indomita do auctor do CATÃO.

Tal é a historia da LYRICA DE JOÃO MINIMO, que termina em 1824.

Começa no anno seguinte a das FLORES SEM FRUCTO, collecção ja muito menos volumosa, porque a superabundancia de seus espiritos poeticos tem ja outras derivações. O CAMÕES, a DONA BRANCA, a ADOZINDA, absorvem muito d’elle. Fórma-se com a experiencia e a observação na terra extrangeira o talento do publicista, aperfeiçoa-se na patria com a práctica; começam as luctas politicas de 1826, em que o redactor do PORTUGUEZ e do CHRONISTA mostra que, se a natureza o fez poeta, o estudo e o amor do seu paiz o fizeram orador eloquente e escriptor politico abalisado.

Nova emigração, novos trabalhos litterarios e politicos, e novos cantos lyricos tambem, em que ora geme, ora triumpha a liberdade.—Mas no segundo dos dois livros das FLORES começam as paixões do coração a tomar posse mais ampla e mais tenaz do poeta. Sería que as desillusões da politica, os desappontamentos da vida pública, as deffecções da amizade o levassem a refugiar-se nas chymeras d’esse outro paiz de sonhos, em que o despertar não é todavia nem menos desanimado nem menos triste?

Não sei: a vida de um poeta hade sempre ter capítulos mysteriosos, transições inexplicaveis e inesperadas; a filiação de suas ideas e de seus sentimentos é quasi sempre cryptogamica. O certo é que, nas primeiras composições dramaticas do restaurador do nosso theatro, o amor não existe. No CATÃO e na MEROPE só ha as paixões d’alma, o amor da patria ou da familia; no GIL-VICENTE porêm ja o coração toma o primeiro logar,—disputado ainda pela glória, pela paixão das lettras, da arte—mas o primeiro.

N’esta segunda collecção lyrica do nosso auctor, basta a peça que tem por titulo As minhas asas para se ver que o homem público, o philosopho, o poeta da glória e da liberdade pagou emfim o tardio e pesado feudo de sua independencia vencida e subjugada. Até então as homenagens ao suzerano eram meias de escarneo, eram um tributo de condescendencia—de uma como elegante ironia! O estado de coisas é outro agora.

As FOLHAS CAHIDAS continuam esse estado. Os seus dois livros (que na primeira edição foram um só) visivelmente o mostram.

As FOLHAS CAHIDAS são o principal n’este segundo volume dos VERSOS, que vem a ser o terceiro, porque entre elle e o primeiro estão as FLORES SEM FRUCTO. As FÁBULAS e os SONETOS não são senão appendices ou accessorios; e por suas datas e por seu genero pertencem mais á primeira collecção de que acima fallámos, do que a ésta terceira de que vamos occupar-nos.

Aqui os sentimentos patrioticos, o amor da glória, o enthusiasmo da liberdade teem ainda saudosos ecchos na lyra do poeta. Mas a energia, a vehemencia de suas cordas não vibra ja senão com outra paixão mais ciosa e mais exclusiva. As Julias, as Délias, não se contentam ja de inspirar, dominam absolutamente o coração do poeta, os hymnos, as canções, as imprecações mesmas da sua lyra.

Que é de o Alceu que bramia liberdade, o Anacreonte que zombava com o prazer, o Tyrteu que precedia as phalanges da Terceira aopé do pendão azul e branco da joven Rainha dos exilados? Que é das elegias suaves e melancholicas do auctor do Camões? Que é feito dos desgarres semi-rabelaicos do poeta de Dona Branca, dos sarcasmos byronicos e incredulos, dos surrisos mephistophelicos espalhados por essas VIAGENS NA MINHA TERRA, pelo ARCO DE SANCT’ANNA, por tanto volume de prosas e de versos?

Tudo isso acabou, porque acabaram provavelmente todas as decepções do seu ânimo, e não ficou, em logar d’ellas, senão outra decepção maior que ingana mais cega, e venda mais apertada.

Taes são as FOLHAS CAHIDAS, última palavra até agora, mas que não será a derradeira do nosso poeta: affoitamente o confiâmos. Confiâmo-lo de seu ingenho grande, de sua alma elevada e nobre, traduzimo-lo da sua admiravel introducção ao pequeno volume que hoje reproduzimos.

As FOLHAS CAHIDAS não são o fim, são a transição.

O que virá depois sabe-o Deus, sabe-o o destino mysterioso de uma existencia á parte, que não tem lei nas regras, mas nas excepções da humanidade.

O tempo o mostrará, porque uma vida, que tam longa parece por tam cheia que tem sido, é ainda curta e môça bastante para nos deixar aguardar socegadamente pelo futuro que esperâmos d’ella... e muito!