NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Em Angra, na ilha Terceira, capital dos Açores.
PRIMEIROS VERSOS.
FÁBULAS E CONTOS.—SONETOS.
Senti sempre que a lingua portugueza era para todo o genero de composições. E o rebellar-se ella em algumas pareceu-me que era mais inhabilidade de quem a conduzia do que defeito proprio seu. Por honra d’ella, mais que por vaidade minha, tentei compor em tam desvairados assumptos e generos como tenho feito. Hoje estou crente e firme convencido de que a tudo serve, a todo stylo se presta. Nem me persuadi mais d’isso por alguma coisa em que sahi bem de meus insaios, do que pelas muitas em que falhei.
A singeleza de seu dizer, uma certa malicia popular e mordente de sua innocencia saloia faz o dialecto portuguez eminentemente proprio para o apologo e para o conto.
Está pouco trabalhado o genero entre nós em verso. Mas as fábulas dos animaes, contadas em prosa pelas gentes do campo, teem tanta graça de stylo como as de Esopo e de Pilpay; e as narrativas do Decameron popular em que sempre figura o frade, a mulher do çapateiro, o marido logrado, o amante umas vezes bem succedido em seus artificios, outras colhido n’elles proprios e punido de sua audacia, não teem que invejar a Lafontaine ou ao licencioso italiano que fez as delicias de nossos gaiatos avós da renascença.
Quando, em bem criança, quiz tambem insaiar a minha penna n’este genero, não adverti tanto no que agora escrevo e penso.
Fique pois o meu mau exemplo, fique a minha quéda por farol de aviso aos que navegarem n’este rumo, paraque saibam que as imitações dos extrangeiros são perigosas sempre, e quasi sempre infelizes quando se não poem bem deante dos olhos os unicos typos verdadeiros, que são a natureza, a indole da lingua, e os modos de dizer do povo em cujo idioma se escreve.
Tambem comprehende a segunda parte destes meus ‘primeiros versos’ alguns sonetos, poucos. De centos que fiz, e que me fizeram fazer, apenas deixei estes. Não são bons, e eu não gósto do genero, que por indole propria é pretencioso e facticio. Mas confesso que hoje tenho remorso da reacção que promovi contra o soneto. Tinha aomenos restricções e difficuldades que não tem a sôlta liberdade das canções descabelladas e plusquam romanticas, pelas quaes foi substituido; na qual soltura cresceu descompassadamente a turma dos janisaros do Parnaso, que levaram a anarchia poetica alêm de todas as raias do senso commum.
Se nós invocaremos ainda o soneto e a Arcadia e a Academia, como os povos, cançados e infastiados das orgias da liberdade desinfreada, invocam a tyrannia, último e fatal remedio dos males presentes, que lhes fazem esquecer os passados? Ochalá que não, porque a coisa era muito semsabor e muito pedante. Mas ésta é tam piegas!
Da litteratura piegas nos livre Deus, sôbre todas as coisas.
Emfim, a historia do mundo não é senão uma serie de reacções e contra-reacções. A da litteratura é o mesmo. O que unicamente fica immutavel são os eternos principios da verdade, do gôsto, e da razão em tudo.
Lisboa, Janeiro 1853.
FÁBULAS E CONTOS.
LIVRO UNICO
I.
INTRODUCÇÃO.
Cahiram com a folha os meus prazeres;
E as musas, caro Gomes,[2] que, outro tempo,
Torrentes d’estro me esparziam n’alma,
Até as mesmas musas
Sem dó, sem compaixão desampararam
O froixo amante inválido.
Embalde as chamo, e as desmontadas cordas
Da saudosa lyra
Lhes peço aomenos que siquer me affinem.
São bellas, como bellas, caprichosas:
Não me admirou que fujam.
Porêm, amigo, no celeste côro,
Como por ca na terra,
De milagre inda ás vezes se depara
Com alma bemfazeja.
Das nove irmans gentis a mais gaiata,
Garrida e brincalhona,
A galhofeira, magica Thalia,
Rindo-se ás gargalhadas
Da lamuria que fiz por ver fugi-las:
—‘Deixa,’ me disse ‘és louco;
Deixa, que ellas virão sem que as tu chames:
É costume do sexo,
Assim fazemos todas.
E que lhes queres tu? que incantos achas
Na macillenta, pallida Melpomene,
Que, desde que houve em Grecia um tal Eschylo
Até o dia d’hoje,
Sempre lagrymijando
Nos sécca, nos injoa
E nos quebra os ouvidos com gemidos?...
Sempre se anda a mattar e nunca morre!
As outras—na verdade,
Aqui muito em segredo,
Éstas minhas irmans... Não é má lingua,
Não é geito da saia... mas decerto
Não sei esses poetas
Porque tanto as incensam, tanto as buscam.
Olha: o velho Philinto,
Que tu, e os teus patricios—boa gente!—
Tanto gabaram, applaudiram tanto,
Sem lhe mattar a fome,
Postoque a todas nós galanteava,
Comtudo a do seu peito
Foi a mana Polymnia.
Nunca vi um namôro mais rançoso;
Fizeram duzias de odes... duzias!—centos.
Tantas e tantas foram,
Que emfim o mano Apollo
Ja de odes infastiado,
Assim que o pobre velho deu á casca,
Protestou, e protesta
Não dar a mais ninguem o officio vago
De Lyrico da casa.
‘Caliope, essa tolla impavezada,
Que Homero, e o teu Camões, Virgilio e Tasso
Tam mal acostumaram,
Sempre de bico doce,
Torce o nariz a tudo
E diz que a ninguem mais quer dar cavaco;
E até, se não soubesse
Que um tal poeta lá da tua terra
Que faz Orientes e baptiza Gamas,
E a quem nós todas temos mortal osga,
Fôra frade tambem... que ia ser freira.
As mais é tudo o mesmo,
São todas desdenhosas:
Além d’isso têem lá os seus namoros,
E não querem largá-los.
‘Eu ca não sou assim ... Porêm não penses,
Por me ver rir com todos,
Que a todos quero, que namóro a todos.
Ingana-se commigo muita gente,
Tenho inganado a muitos
Que julgam conseguir os meus favores:
Cahem como uns patinhos
Nas peças que lhes armo.
Cuidou que me pilhava aqui ha tempos
Um tal cantor de burros,
Macaco encyclopedico
Que em tudo quer metter-se.
Preguei-lhe um lôgro... oh este foi machucho:
Vesti a minha môça da cozinha
Que vocês lá no mundo
Appellidam Chalaça,
Que sempre anda mettida entre estudantes,
Marujos e arreeiros,
Vesti-a c’uma roupa do meu uso
Ja rota e desbotada,
E mandei-lh’a em meu nome ao tal poeta,
Que a pillula ingoliu,
E muito satisfeito da conquista,
Por tal a deu aos parvos
Que as sujas trovas, que os immundos versos
Extasiados applaudem.
‘Quando eu tinha os meus dôze, e era donzella...
—Que hoje, cre-me a verdade,
Vai ca no Olympo o que lá vai na terra!
Namorei-me de um Grego: oh! bello amante!
Chamava-se Aristophanes:
Dei-lhe, intreguei-lhe tudo
—Como o teu Camões disse—
O que deu para dar-se á natureza.
Um Phrygio corcovado,
Mas que tinha mil graças
Que a corcova das costas lhe incubriam,
Soube tambem vencer-me.
Com estes dois gosei prazer tam doce,
Tam deleitosas horas,
Que os monumentos d’ellas
Inda lá pela terra os mimos fazem
De quantos sentem de meus dons o preço.
‘Quando no Sena ovante,
Quando no Tejo e Tybre
Se ergueram nossos templos
Que a barbara ignorancia derrubára,
Ao cantor do Lutrin, ao da Pucelle,
Ao mago auctor do santarrão Tartufo,
Ao teu do bento Hyssope,
E a esse galhofeiro Italiano
Que aos animaes deu falla,
Dei-lhe os favores, franqueei-lhe os mimos
Que a Ariosto, a Gil-Vicente,
Que aos outros todos concedêra outrora.
Se o que elles foram sabes,
Quanto eu valho apprecia.
Eu não sou como as manas,
Rio de tudo, tudo rindo insino;
E nas coisas mais sérias
Acho, descubro o lado
Em que o sal do epigramma incaixa a geito.
Por mim da atroz affronta,
Por mim da escravidão, por mim da inveja
O ingenho se despica,
E n’um só trait d’esprit, de eterno opprobrio,
C’o sêllo do ridiculo,
Marca indelevel na ignorancia imprime,
Na presumpção, no orgulho,
Toma’ e, dizendo, me intregou a lyra,
‘Toma, e conhece quanto podem risos
Da magica Thalia.
Fere-a, e, se os sons mal destros,
Desafinados, rudes te sahirem,
Começa n’isso mesmo
A gosar minhas dadivas;
Ri-te d’elles, de ti, ri-te da lyra,
E de mim se quizeres.’
Tal me fallou a minha bella deusa
Que tantas gargalhadas,
Nos dias folgasões de nosso tempo,
Nos fez dar tantas vezes
Quando na voz roufenha
Do nosso mathematico Alvarenga.[3]
Ás mãos cheias vertia
Pilherias do Kai-Pira e Sganarello,[4]
Do impulhado Avarento.
Satisfeito da offerta, e mais que d’ella,
Do longo e bom cavaco,
—Cavaco que jejuo ha tanto tempo!
Cavaco suspirado
Com que me acenam ja vesperas sanctas
Do tardio feriado!—
Toquei, ou antes arranhei á toa
Os versos que te mando.
Ri-te se forem bons e se gostares,
Ri-te se forem maus e te injoarem,
Ri-te, ri-te, que o mundo
Não se póde levar de outra maneira:
Assim o insina a deusa.
Coimbra—1820.