NOTAS DE RODAPÉ:

[2] O Dr. Francisco Gomes da Silva, meu companheiro e amigo da Universidade.

[3] Outro amigo da Universidade.

[4] Farças que representavamos no nosso theatro.

II.
PELO ZURRO O BURRO.
CONTO ACADEMICO.

Naturam expellas

Furca, tamen usque recurral.

MORAT.

Era uma vez: diz mestre Lafontaine,

Que lh’o dissera Phedro seu amigo,

Que lh’o dissera um grego corcovado...

Pois tudo n’este mundo vai por dittos,

Tudo se diz porque outros o disseram...

E talvez que não fôsse Lafontaine,

Mas foi outro que tal, que vale o mesmo:

Um dia... mas o fio á minha historia

Não o tórno a quebrar por coisa alguma;

Poema que tem muitos episodios

Nunca póde ser bom, nem bons ser elles:

Diz padre Horacio ou outro tal como elle

D’estes que intentam accanhar o genio

Com leis servis por elles arranjadas

Que, segundo a moderna guapa eschola,

As não póde soffrer de taes birbantes.

Um dia pois o pae d’homens e numes,

Como eu ia contando aos meus leitores...

—Se é que a sorte, que os nega a bons poetas,

M’os deparar a mim, chulo trovista—

A rogos, mas de quem ja me não lembra,

Asno felpudo de orelhões cahidos

Quiz transformar em fervido ginete;

E ao bom Mercurio, seu fiel ministro,

Manda que o longo pêllo lhe tosquie

E um bom naco cerceie das orelhas.

Era grande o burrico, nedeo e gordo,

E por milagre do supremo Jove,

Que sempre faz como este bons milagres,

Ei-lo desimpennado e mui lampeiro,

Qual andaluz corcel ou egua arabia,

A par d’outros corceis se vai trotando.

O povo cavallar na fórma nova

Não reconhece a burrical maranha.

Como elles folgazão retouça e pulla,

Ladeia, faz corcovos, trava o passo,

Emfim parece—Tanto podem numes

E tal é o podêr de um bom milagre!—

Cavallo mestre e feito em picaria.

—Qual rustico peão de bronca aldea

De tamancos nos pés, no sacco a broa,

Que vem para imbarcar lá da provincia,

E para um tio, que é senhor d’ingenho,

Ricasso em pretos, em arroz, mellaço,

Ingoiado apprendiz vai ser caixeiro:

Morre-lhe o tio, eis o rapaz n’um sino,

Vende pretos e pretas e mellaço,

E vem, Cresso de cocos e patacas,

Metter toda Lisboa n’um chinello;

Ja por boas, luzentes amarellas

Serodeo compra fidalguesco fôro...

D’antes—que hoje a visita da saude,

Em cheirando a caturra, a bordo o prende,

E é ja barão quando põe pé em terra.

Ei-lo que alteia os hombros incolhidos,

Intufa em vento as bochechudas belfas,

Impina a pansa, ingrossa a voz pausada,

E no tropel dos nobres involvido,

Se o não conheces, crêra-lo provindo

Dos que nos velhos pergaminhos vivem.

Tal ja desorelhado e uffano o burro

Entre altivos ginetes campeava.

Mas, oh fado infeliz, mesquinha sorte!

Quando entre os novos ledos companheiros

Se vai trotando com pimpão meneio,

Ei-lo depara com villan jumenta

De hirsuta felpa e de costado esguio,

Que os fios corta d’alma a quem a via,

Como bem diz Latino-luso vate

De mui gaiata e festival memória.

Subito esquece o recem-nobre estado,

Lembram-lhe antigos, burricaes requebros

E o tom gallanteador de asnal namôro:

Estira amante o beijador focinho,

E em notas de invejar por um Lablache,

Psalmeia airoso, compassado orneio,

Deixa os amigos e a azzurrar se fica!

Ora pois, como fez o senhor Jove,

Fez certo gran’senhor de lettras gordas

E protector das magras.—Foi milagre

Que pela intercessão foi operado

De uma a que chamam deusa da Sandice,

De outra Impostura e de outra Pedantice.

Começa o caso c’o outro parecido.

Havia em certa terra muito longe,

Lá nas pontas dos pés d’este hemispherio,

Que dizem fôra outr’ora povoada

Por certo beberrão feitor de Baccho,

Havia uma familia de animalculos,

Zoophytos, e quasi mycroscopicos,

Aos quaes Lineu, que achou nomes a tudo,

Nunca deu nome, nem especie ou genero,

Nem eu lh’o sei tambem, só sei que arrotam

Textos, medalhas, chymicas rançosas,

Que trazem n’algibeira um compassinho,

Muito accanhado, curto e pequenino,

Talhado ao molde dos miollos d’elles,

Com que querem medir todo este mundo.

D’estes pois—e aqui vai o gran’milagre—

Burros na fórma, na sciencia burros,

Mas burros mais que tudo na cacholla,

Quiz o tal gran’senhor citado acima

Fazer—ó musa o quê?—Dize, não temas,

Não fujas, dize e vai-te.—‘Uma académia’

Disse a musa e safou-se ás gargalhadas.

Mas que académia!—Oh! venham as brilhantes

De Londres, de Paris, de Petersburgo

Beber aqui sciencia não sabida

De assopradas, pomposas ninharias.

Que producções, que producções! Oh quanto

Quanto seria mais se um deus maligno,

Inimigo dos guapos academicos,

Das tres que Deus nos deu potencias d’alma

Lhes não saccasse duas á surrelfa,

Deixando só memorias e memorias...

Quanto sería mais, quanto fulgira

Em gordos, grossos, grandes calhamaços

A portugueza, majestosa lingua,

Se os novos sabios, no comêço á emprêsa,

A antigas manhas não perdendo o affinco,

Não incontrassem por desgraça nossa

C’um perfido azzurrar—zurrar malditto!...

Ficaram no azzurrar sempre zurrando.

Coimbra—1818.

III.
AMOR E VAIDADE.
FÁBULA.

Ja mais veloz corria o espaço usado

Que as horas marca ao dia

O deus que atrás de Daphne

—Infructuoso trabalho!—dera ás gambias;

E aos braços d’Amphitrite ia mais cedo

Dos trabalhos da luz gosar nas trevas

Desejado descanço.

Iam seccando pelo prado as hervas,

E o verde-escuro dos frondosos montes

Amarello cahia;

Sentado aopé da magustal[5] fogueira,

Vermelho e rubicundo

O bemdito e louvado San’ Martinho,

—Que a cega antiguidade,

Por não tomar a bulla da cruzada,

Nem jejuar aos dias de jejum,

Baccho chamava em sua escandalosa

E misera ignorancia—

Bastas fazia navegar, nos máres

Da barriga sanctissima,

As puchantes castanhas;

Banhos e quintas ao socêgo antigo

Despovoados tornavam;

Voava a folha, sibilava o vento,

E em fim, sem metaphoricas periphrases,

Era ja meio outomno.

Amor, Cupido, ou Ero, ou qual mais gostem

Dar-lhe baptismo ou chrisma,

Comtanto que não chegue

A tanto o desafôro

Que ousem—como eu ouvi, por meus peccados,

Co’estes que a terra um dia

Ou mar tem de comer—

Por louca affectação de Anglo-mania,

(O que não farão modas!)

Chamar-lhe em Portuguez... chamar-lhe Love!

Amor pois ou Cupido,

—Que assim nossos avos sempre disseram

Em tempos venturosos

Que tudo se chamava por seu nome,

Que ás bellas se dizia

Em Portuguez sincero e sem malicia

O que hoje é fôrça rebuçar no manto

De alegoria equivoca—

Amor, do rebulicio da cidade,

Do barulho infastiado,

Farto ja de frexar c’os aureos tiros

Os corações tam gastos,

Usados, velhos, estropiados, frouxos

Da gente que a povoa,

Para o campo fugiu d’onde ella foge.

Lá nos singelos bosques,

Nas simplices cabanas

Singelos corações, simplices almas

Espera achar ainda

Em Daphnis e Amaryllis.

Por um ameno solitario valle,

Em seus projectos imbebido o numen,

Caminhava... eis da incosta d’um outeiro

Ve descendo gentil, esbelta dama

Que bem, no airoso infeite,

No perluxo das modas,

Conheceu que não era habitadora

Da rustica espessura.

Fugi-la quer; mas sentimento occulto,

Que entre nós ca na terra

Se diz curiosidade,

—Não sei como no ceo lhe chamam numes!—

Sentimento imperioso

No sexo lindo que nos doira a vida...

—Que a doira se gosar sabemos d’elle,

Que aos parvos a invenena—

Este o reteve, suspendeu-lhe os passos.

Quem será? Quer sabê-lo.

Ei-los junctos; e Amor que á bella dama

Cortezmente sauda:

—‘No campo ainda e só, quando á cidade

Apressurada corre toda a gente!

Tam delicada, tam formosa dama

Da quadra desabrida

Os insultos não teme?

Foge acaso o prazer da sociedade,

E n’estas mudas selvas

Vem porventura, desgraçada amante,

Chorar na soledade?’

Não gostou do cortejo e cumprimento

A nympha bella, desdenhosa e dengue;

Offendida que o nome lhe ignorassem,

Orgulhosa responde:

—‘Conhece-me o universo; em toda a parte

Templos, altares tenho;

Domino os corações, govérno as almas,

Sou uma deusa, e chamo-me Vaidade.

Por mim co’a morte, c’os revezes lucta

O guerreiro no campo;

E ante o espelho traidor consomme a vida

A belleza que aos annos se não rende:

Por mim o litterato sôbre os livros

Curva a frente abrazeada;

Por mim nos gestos, no fallar se estuda

O adamado peralta;

Por mim vivem contentes satisfeitos

Os que menos razão têem de viverem;

E o mago meu podêr se estende a tanto,

Que entro no seio mesmo aos que me offendem,

Desprezam e injuriam.

Por meu influxo, n’esse proprio escripto

Em que me insulta o sabio,

Corrige e apura o sabio o stylo, a penna,

Aos louvores armando.

Eu as suberbas, elevadas cupulas

Ergo de vãos palacios;

E até na estancia gellida da morte,

Nas mentirosas lapidas

Lavro pomposas lettras

Que a inganado porvir levam memorias

De parvos, de maus reis, sanctões Tartufos,

De tonsuradas bêstas.

Eu em certa famosa academia

As charamellas tanjo,

As conclusões defendo,

Em vandalo Latim peroro ás turbas,

Tufo a brilhante borla

Com que as caveiras jumentaes adórno.

Emfim até d’amor perturbo o imperio:

Por mim, por meus auspicios,

A parvoa chusma dos galans mais parvos,

Dos fofos petimestres

Ja do sexo gentil não quer favores:

Indiff’rentes ao gôso e á ventura,

Basta que o mundo os tenha por felizes...

Por mim a dama desdenhosa e bella

Ja não procura amores,

Nem de Venus suavissimos deleites,

Mas o gaudio maior, mais lisongeiro

De que os outros a creiam

Cercada de servis adoradores,

De humildosos escravos’...

Ia por diante; mas o deus zangado,

Furioso a interrompe:

—‘Basta; o numen d’amor sou eu: não entra

Tam facil em meu reino

Teu sacrilego pé: sobejas vezes

De muitos corações tenho extirpado

Teu petulante vício.

Em vão esse Hymeneo, que deus se chama

E egual amim se inculca.

Ousa pleitear commigo:

Os nós lhe quebro que appellida sanctos,

E em seu templo introduzo

—Embora a testa doia

Aos miseros maridos—

Quem me apraz, quem me segue, e a quem eu quero.

Por mim se eguallam desvairadas sortes,

Que as baixas condições uno ás mais altas.

Lidia, a orgulhosa Lidia

Que a ladaínha dos avós impurra

A todo o instante e a todos,

Lidia que nunca ri... c’um tiro as pompas

E as sombras dos avós lhe desfiz n’alma:

Puni-a, fi-la escrava,

Fi-la escrava... e de quem!... do seu lacaio.

Togas, aureos bastões, borlas, espadas,

Mittras, coroas, toucas e capuzes

Ao meu imperio tudo está sujeito.’

Desdenhosa e surrindo ouviu a deusa,

E em submissa ironia lhe responde:

—‘Pois bem: assim será; não valho nada

No coração das bellas.

Mas expliquem sem mim seu vário peito;

Isso que o mundo appellidou capricho,

Que em sua alma domina,

Dize-me o que é? será sem causa o effeito?

Suas obras tam variaveis, tam confusas,

Com que os amantes pasmam,

Não as deciphro eu só, de mim não partem?’

Esquentou-se a questão: denovo os deuses

Pro e contra razões allegam, mostram.

É cabeçudo Amor, ella teimosa...

Não acabavam nunca.

Ficariam na mesma,

Se o meio de findar contendas tantas

Não acordasse á deusa:

—‘Prescindamos’ clamou ‘de vans palavras,

Argumentos deixemos;

Vamos a factos, e de nossas armas

Façamos experiencia.’

Sahia a ponto do vizinho bosque

Pastorella innocente:

Alma inda nova, coração ingenuo,

No simples do vestido,

No mal composto dos cabellos louros,

De sobejo mostrava:

Era toda ao pintar para a exp’riencia.

Consentem ambos em provar, na bella

E timida pastora,

O podêr de suas armas.

Jurou Amor de dar-se por vencido

Se de seus magos tiros

Podésse defendê-la a Vaidade.

Com lisonjeiro, placido semblante

E com doces palavras,

Tomando-a pela mão, a affaga a deusa;

Pungente frexa Amor no arco imbebe,

E mostrando-lhe a um tempo

Joven pastor que dera inveja a Páris,

O tiro lhe dispara.

Voa a setta fatal... mas no momento

Em que lhe toca o peito,

Subito a deusa aos olhos lhe apresenta

No mesmo instante crystallino espelho...

Pasma extasiada e fixa

A simplice donzella,

O semblante gentil contempla immovel;

Nem um só volver d’olhos para o bello

Mancebo lhe escapou.

Sorriu-se a deusa; Amor de invergonhado,

De corrido fugiu.

Coimbra—1818.