NOTAS DE RODAPÉ:
[5] Magusto, no dialecto da minha provincia, é a fogueira em que se assam as castanhas nos dias marcados pelo ritual minhoto.
IV.
ESOPO E O BURRO.
FÁBULA.
A. TH. DA SILVA QUINTANILHA.
Foi grande tempo, amigo,
Aquelle tempo antigo:
Eram maiores peras e mellões...
Pois uma melancia?
Por essa casa dentro não cabia.
Bem o mostram as sábias conclusões
Do famoso Gil-Braz de Santilhana:
Guardadas proporções,
Se a conta não ingana,
Certamente sería
A maçan com que a Adão Eva inganou,
Maior do que uma abobora-menina:
E então ja bem se atina
Como ella lhe incalhou
No gargallo do pae da humanidade;
Cuja enorme hombridade,
Segundo o mesmo cálculo constante,
Devia ser maior que a d’um gigante.
N’esse tempo feliz da carochinha,
Em que pato e peru, porco e gallinha,
Burros e burras—e o rhynoceronte—
Cabreavam, ahi por esse monte,
Com toda a mais canalha
Que era da sua egualha,
Toda essa corja dizem que fallava,
Como nós, na sua lingua-mistiforio.
Não sei se Deus fez bem no seu decreto
Que a mercê lhe tirou do fallatorio;
Pois, segundo mui douto me insinava
Meu mestre José-Vaz, homem discreto
E de saber profundo,
Em toda a sociedade d’este mundo
Por fôrça hade reger
O famoso direito de accrescer.
Accresceu para nós, tristes humanos,
Toda a loquacidade
De quantos bicharrões, bichos, bichanos
D’este universo á grande sociedade
Veio a perdas e damnos:
E assim vemos fallar moços e môças,
Velhos e velhas, sabios e tarellos,
Com vozes finas e com vozes grossas,
O gentio, o christão, moiro e judeu,
Por quantos cotovellos
Deus e o direito de accrescer lhes deu.
N’esse tempo feliz então havia
Em Grecia um corcovado
Que de todo o animal, ave ou pescado
Intendia e fallava a algaravia.
Muitas ja tinha em Grego traduzido
Das famosas comedias,
Altisonas tragedias,
Entremezes chistosos e ingraçados,
A que tinha assistido,
Dos bichassos auctores mais fallados.
Um dia passeando
Por juncto de um ribeiro,
—Talvez algum dialogo pilhando
De bichitos de couve ou formigueiro—
Eis-ahi senão quando
Direito a elle em frente
Orelhudo jumento vem trotando;
E depois de o saudar mui cortezmente
Com uma cavatina
Em notas que nem ja Lablache affina,
Findado o ritornello,
Assim o nosso burro,
Em sua lingua asinina
De mui pullido zurro,
Ao corcunda fallou,
Quero dizer—orneou:
—‘Tenho um favor que te pedir, Esopo:
No apologo primeiro
Que em lingua traduzires da tua gente,
Não me faças tam zôpo
Como, useiro e veseiro,
Fazes constantemente.
Em meus discursos mette alguma graça
E pilherias com sal e com finura,
Que eu, a zurrar, sou forte na chalaça.’
O bom do Esopo olhou para a figura
Do elegante orelhudo,
E com tam destampada,
Tremenda gargalhada
Lhe respondeu ao animal felpudo,
Que elle, de orelha murcha e mui trombudo,
Se foi sem dizer nada.
Do sincero de Esopo quam diff’rentes
Andam certos auctores
Que altisonantes fallas farfalhudas
Imprestam a patetas gran’senhores,
Excelsos presidentes
De pedantes reaes academias,
Illustres senadores
Que as cachollas vazias
Inchados ornam de compradas flores!
Quantos ha ahi garraios descarados
Que vão pimpar, sem pejo, pelos pulpitos
Com os sermões espurios
Que aos padres mestres da ordem são furtados!
Quantos vates servís, lamosos gansos
Que, em vis dedicatorias campanudas,
De podres versos ranços,
Na linguagem da Phenix-renascida,
Vão dar ethica vida
A Zenobias barbudas;
E a Mecenas palhaças
De sabichões da Grecia dão fumaças!
Mas Esopo ficou qual d’antes era,
E o burro, burro estreme;
Mas aos nossos Mecenas sécca e treme
Na frente o loiro, a hera
Com que venaes poetas
Lhes coroaram as testas de patetas,
Em trovas semsabôres;
Mas os nossos modernos escriptores
Ficam asnos sem sizo
Para os homens de bem e de juizo.
Coimbra—1820.
V.
O MENINO E A COBRA.
C’uma cobra doméstica folgava
Criança innocentinha,
E—‘Meu bicho’ dizia a criancinha
‘Comtigo tam seguro eu não brincava
Se primeiro, o veneno refalsado
Não te houvessem tirado.
Que vós sois muito más, muito ingratonas,
Minhas serpentezonas.
Oh! nunca a tal historia me esqueceu
D’aquelle homem que a cobra achou na rua
—Talvez fôsse avó tua—
E tanto se doeu
De a ver toda de frio retransida.
Que no seio a metteu
E comsigo a aqueceu.
Que fez a bicha mal-agradecida?
Apenas se recobra
A traidora da cobra
Vai, e zaz!—e mordeu
O pobre homem, que logo da ferida
Venenosa morreu.’
—‘Bem parciaes’ responde-lhe a serpente
‘São as vossas historias;
Recontam-nos o caso mui diff’rente
Lá as nossas memorias.
O teu homem, que tens por charidoso,
Creu realmente a cobra ja finada,
E foi, por cubiçoso
Da pelle, que era linda e mosqueada.
Que o teu santinho d’home’ a quiz salvar:
Era para a esfollar.’
—‘Vai-te’ responde em cholera o menino
‘Vai-te, bicho mofino:
Todo o ingrato é ladino
Para se desculpar,
E ao seu bemfeitor calumniar.’
O pae da criancinha, mui contente.
Toda ésta conversa ouvindo esteve;
E—‘Pois, meu filho’ disse ‘honradamente
Julgaste como deve
Todo homem de bem:
Mas é preciso em tudo ser prudente,
E injusto com ninguem.
Ha casos de tam feia ingratidão.
Que a razão
Não se atreve
A crê-los, sem exame, assim de leve.
Raras vezes a ingratos obrigaram
Os que são verdadeiros bemfeitores;
Mas o mundo, meu filho, por desgraça,
Harto está cheio de ruins Mecenas,
De falsos protectores,
Que a detestavel raça
Dos ingratos no mundo propagaram.
Arrastados favores,
Inda menos baratos
Que interesseiras sordidas onzenas,
O que hãode produzir, senão ingratos?’
Coimbra—1821.
VI.
A SAUDE E A MEDICINA.
Ja tenho, meu Eloy,[6] tudo inmallado;
Fica até no bahu o estro fechado.
Mas antes de partir,
Quero contar-te um conto, que hasde rir.
Hontem o incontrei
N’aquelle teu Pignotti tam magano;
E, se em meu Portuguez não desbotei
As côres do Italiano,
Hasde-lhe achar a graça que eu lhe achei.
Vou abrir o bahu, e venha o estro!
Sôbre o canhão da bota.
Como dizer se usa,
Farei regrinhas curtas e compridas.
Botas... e esporas tenho ja cingidas,
Montarei o Pégaso, que nem trota
Commigo, de esfalfado.
Eu muito descançado
Ahi me vou choitando,
O meu conto contando.
O conto é da Saude e Medicina...
E tracta de te rir,
Que, se não ris, serviu-te a carapuça,
É um reles doutor de mula ruça
Doutor que se amoffina
E não quer consentir
Que a pobre, atormentada humanidade
Se desforre uma vez co’a faculdade.
Jove, esse Jove em Grecia tam temido,
Que imperava nos ceos, nos elementos,
Nos raios e nos ventos,
De moda emfim cahido,
O credito perdeu e está fallido.
Mas quando elle reinava
Viam-se casos n’este baixo mundo
Que o vulgo parvo assegurar ousava
Desdizerem de seu saber profundo:
E n’este ponto a grega theologia
Por desculpa dizia
Que, ao dar ordem a coisa tam soez
Como é d’esta vida o entremez,
Lhe cahem muita vez
Os oc’los do nariz;
E que n’estes momentos
Tudo o que faz e diz
É asneira—sandice por um triz.
Em um d’estes accessos mazelentos,
Em que de facto, do nariz divino,
E sem elle dar tino,
Tinham cahido os seus oculos bentos,
Á terra nos mandou,
Só para nosso bem, como julgou,
Duas boas divindades companheiras,
Ambas riccas herdeiras
De sua graça divina:
A saber, a Saude e a Medicina.
Na fôrça juvenil tinha uma d’ellas
Ageis e vigorosos
Fortes os membros, cheios, musculosos,
Tintas de côr rosada,
Florida e ingraçada
As frescas faces bellas;
E nos olhos tranquillos e gozosos
Tinha a indolência com a paz pintada.
A outra, de gesto magro e macilento,
Cabello pouco, e o pouco de alvo argento,
Com as faces rugosas descahidas,
As carnes resequidas,
E em círculos de chumbo incaixilhados
Os olhos incovados
Remelosos, vidrados.
Intrançada de malva e de chicoria
Ampla coroa a frente lhe cingia,
Como um splendor de glória;
E a negra sotana que vestia
Rota, e cossado o pêllo, lhe luzia
Com erudita e sábia porcaria.
Aos hombros alquebrados,
Que a muita edade impêna,
Em fórma de capuz, juncto ao toitiço
Assim como uns calções esfarrapados
De antigo, velho riço,
E da côr de bandeira em quarentena.
N’um frangalho da tal coisa amarella
Lhe pendia, á feição de bambinella,
Não Tusão de Oiro ou a Pollar estrêlla,
Vermelho Christo ou roxo San’ Thiago,
Mas o instrumento aziago...
Certo tubo que todos conhecemos,
Que no lúbrico pau escorregando,
Emquanto vai e vem assim brincando,
Ao nobre officio serve que sabemos...
Cingida era de emtòrno
A venera pendente
De um magnífico adôrno
De pilulas, lancetas em pingente,
Sinapismos, ventosas,
Com que, a modo de pedras preciosas,
A nova ordem militar fulgia,
De Esculapio em memoria e honraria.
A este sabio Mentor, Jove intregára
Em guarda a bella deusa das rotundas
Bochechas rubicundas,
E mui severamente
Que em tudo a governasse, lhe mandára.
Ei-las, breve, a caminho:
E a deusa obediente
Submissa e reverente,
A sua mestra seguia
Como ao guardião faria
Um timido noviço capuchinho.
Mas, alguns passos dados,
A magra Medicina
Prega na outra os olhos incovados,
De admiração malina
Franze o sobrôlho esguio,
E tomando-lhe o pulso, em ar sombrio,
Com palavras que ignoras,
Profano vulgo, graves e sonoras,
Disse—‘que a robustez ja muito athletica
Que lhe achava, a fazia mui plethorica,
E daria em pleuritica ou phrenetica.
Provou-lhe mais com medica rhetorica
Que um excesso mui rude
Soffria de saude;
E para que o morboso estado mude,
E ella possa viver seguramente,
De todo era forçoso
Que tivesse o seu tanto de doente.’
Disse, impunha a lanceta,
Fere um vaso venenoso,
E á pobre da pateta
Tres libras de sadio e generoso,
Vermelho sangue puro lhe sacou:
Muito menos a muitos ja mattou!
Mas era a paciente
Tam pouco natural a estar doente,
Que á sua directora vigilante
De melhorar não deu signal bastante:
Pelo que foi gramando, ás ordens d’ella,
Nogenta beberagem amarella,
Fedorenta, asquerosa
Em dóze prodigiosa!..
Tanto, tanto bebeu,
Que a rebelde natura emfim cedeu.
O appetite, o vigor
Iam diminuindo;
E a brilhante côr,
A frescura das faces vai fugindo.
—‘Bravo,’ gritava a outra em ledo aspeito
‘Bravo, que a arte vai fazendo effeito!’
E temendo funesta recahida
Em quanto de uma vez
Não tinha debellada e bem vencida
Do morbo a robustez,
Manda avançar as horridas catervas
Dos xaropes, conservas,
Seguros laxativos,
Fortes aperitivos...
Com tal fôrça e podêr, que a desgraçada
Em sua consciencia
De todo em todo se sentiu curada.
Mas com tanta sciencia
Tam eruditamente era trattada,
Por via de tam graves aphorismos
E agudos sylogismos,
Lardeados de Grego e de Latim,
Que até, morrer assim,
Morrer n’esta doçura,
Morrer tam sabiamente era ventura.
Da nossa boa alumna, por má sorte.
Era estupida um tanto a natureza,
E romba de agudeza:
Graça a mais superfina
Que nos póde fazer a mão divina!
De tam ditosa morte
Não pôde comprehender toda a belleza.
Cobrou medo a mofina
Da sciencia divina,
E, sem mais Deus-te-salve ou mais embora,
Desanda-me a fugir, dando á canella
Por esse mundo fóra.
Larga a outra atrás d’ella
A correr... e correu, e correrá...
Mas nunca a apanhará.
E d’então para ca
Ninguem mais se gabou
De que junctas ou perto as incontrou.
Tal medo uma da outra concebeu,
Que aonde a Medicina appareceu,
É logo—n’um momento
Foge a Saude mais veloz que o vento.
Coimbra—1821.