NOTAS DE RODAPÉ:

[6] O Dr. João Eloy Nunes Cardoso, de Monte-mór-o-Novo, outro amigo velho e verdadeiro, da Universidade.

VII.
O GALLEGO E O DIABO.

Eu por mim gósto de contos,

Diga o mundo o que quizer;

E para mattar o tempo

Um conto quero escrever.

Mattar o tempo é preciso

Aos ignorantes—dirão;

Ao sabio sempre elle corre

Voando, que lento não.

Porêm, amigo censor,

E quem me fez sabio a mim?

Sou eu lente ou academico,

Prégador ou coisa assim?

Verdade é, no Quebra-costas

Minha vez escorreguei,

Fui prêso por Verdeaes,

E á porta Ferrea m...ei.

Mas que doutor fiquei eu,

Se nunca o Martini li,

Se, o que sube da instituta

E do digesto, esqueci?

Sabenças para que servem?

Brucharia, eu t’arrenego!

Vou-me contar o meu conto;

E o meu conto é de um Gallego.

Era uma vez um Gallego

Boçal, felpudo e lanzudo,

Um Gallego em corpo e alma.

Em chancas, juizo e tudo.

Nunca lá das Gallileas[7]

Sahiu cabeça tam romba

A alistar-se nas companhas

Dos bravos heroes da bomba.

Melena loira e comprida,

Azeitada e corredia,

Ôlho azul, pasmado e parvo,

Bôcca aberta, a barba esguia;

Calção de abanante orelha,

Por onde fura o quadril,

Nos pés a fragante chanca,

Ás costas sacco e barril;

Eis-aqui a vera effigie

De Thiago Manuel Juan,

O mais fiel dos Gallegos

Que jamais comieron pan.

Em devoção não fallemos,

Que nisso era exemplar;

Deixára um prato de tripas

Para á missa não faltar.

A miudo ia a confêsso;

E nunca o somno o pilhou

Senão a rezar o terço,

Que—nunca mais acabou.

Em duas ou tres egrejas

Era freguez de basar;

O seu barril tinha a honra

De agua benta ás pias dar.

Tam devoto, tam modesto

Nunca houve outro Thiago;

Não ha memorias de ouvir-lhe

Nem uma só vez um ajo.

Um dia, á volta das onze,

Cançado de apregoar,

—Era em Julho, que escaldava,

Um calor mesmo de assar!—

N’uma egreja de capuchos

O bom de Thiago entrava;

E a egreja tam fresquinha,

Que á oração convidava.

Por tendencia natural,

Instincto de chafariz,

Ajoelhou aopé da pia,

Herdeira de seus barris.

Mal se tinha santiguado,[8]

Isto é, se persignou,

Um berreiro destampado

Detrás de si escutou:

Era um membrudo capucho,

Destemido Ferrabraz

Que, a duros botes d’estolla,

Brigava com Satanaz.

Tinha-se o demo incaixado

No bôjo de uma beata,

E d’alli se defendia

Como de uma casa-matta.

Arripiaram-se as melenas

A Thiago no toitiço,

Pôz-se-lhe em pé no cachaço

Até o próprio choiriço.[9]

Mas o ôlho arregallado

Em ponto de admiração,

Não se attrevia a tirá-lo

D’aquella horrivel visão.

Travava a descompostura

Do dize-tu, direi-eu...

Fallava o frade latim

Que nem o demo intendeu.

Satanaz é bom latino;

Ninguem lh’o póde negar:

As syllabadas do frade

Faziam-n’o blasphemar.

Grita o frade:—‘Abrenuncí-ò!

E o cachorro do Asmodeu:

—‘Assim não me deitas fóra;

Dize abrenún-cio, sandeu.’

—‘Latim sabe elle, o malditto...’

Disse o frade aos seus cordões;

Que os frades, como os não usam,

Não fallam c’os seus botões:

‘No Latim me venceu elle,

E não fez grande façanha;

Elle é o diabo, e eu sou capucho!

Veremos se o faz na manha.’

Ria o demo ás gargalhadas

Por ter o frade incovado;

E o capucho, de velhaco,

Dava-se ja por cangado,

Mas co’a mão á caldeirinha,

Sem que o pesque Satanaz,

Vai mansinho... e de repente

Prega-lhe a hyssopada—zaz!

Deu tal estoiro a beata,

Que parecia uma bomba ...

Não era ella, era o demo:

Cheira a enxophre que tomba.

—‘Eu te esconjuro, malditto!’

Brada o frade em Portuguez

(Que não quiz comprometter

O seu Latim d’esta vez)

‘Eu te esconjuro, malditto,

Que d’este corpo te vas,

E não tornes a entrar nelle,

Negregado Satanaz.’

—‘Vou-me’ disse o porco-sujo

‘Vou-me embora, Fr. Sandeu,

Que me escalda essa agua benta.

Mas para onde heide ir eu?’

—‘Para onde?...’ E deitando os olhos

A um lado d’improviso,

Deu o frade com Thiago

Que rebentava de riso.

Thiago, de um grande medo

Passára a grande alegria;

E, esfregando as mãos no sacco,

Como um perdido se ria.

Leitor não te escandalizes;

Que o ver logrado o demonio

Até fez perder de riso,

N’um sermão, a Sancto Antonio.

—‘Para onde?...’ repete o frade

‘Que me importa a mim, pespêgo?

Vai-te metter, se quizeres,

No c... d’aquelle Gallego.’

Conhecem-se os grandes homens

Nas grandes occasiões:

Thiago, sem mais demora,

Deitou abaixo os calções;

E, em menos tempo ainda

Do que o demo esfrega um ôlho,

Ja na pia da agua benta

Tinha elle o seu de môlho.

Batte-me quatro palmadas

No rechonchudo do traz,

E diz-lhe:—‘Agora, só diabo,

Venha p’ra ca, se é capaz.’

Havre de Graça—1824.