NOTAS DE RODAPÉ:
[7] Terra de Gallegos, em dialecto scholastico.
[8] Feito o signal da cruz.
[9] O non-descriptum de trapo e cordagens que o gallego põe no cachaço quando carrega o pau e corda.
VIII.
O Casquilho.
(JANOTA)
FÁBULA.
Quem de Ovidio os contos leu
Certo inda tem na memoria
A mais curiosa historia
Que elle em seus contos metteu:
—De como Jove indignado
C’uma nação de velhacos,
Para os não fazer em cacos
Os converteu em macacos.
Vendo-se assim humilhado,
Veio o povo castigado,
De contricto coração
A pedir perdão
Ao deus que fulmina o raio e o trovão.
Fazendo caretas, ganindo e guinchando
Lhe vinham bradando
Em mona e bugia:
—‘Restaura-nos, ó padre soberano,
O antigo vulto humano
Co’a perdida razão.’
O Tonnante, a quem passado
Era o primeiro furor,
Dos bugios ao clamor
Prestou ouvido apiedado;
Mas do macaco requerimento
Não despachou senão ametade,
E o resto a deidade
Mandou dispersar nas azas do vento.
Mal o acceno omnipotente
Troou na celeste abobeda,
A monaria contente
Se ergueu altiva, impavida;
Toda se impavesou
E repimpou;
E como gente
A andar por esse mundo se deitou.
O pêllo esfarripado.
Que as cabeças télli lhes ouriçava,
Em lindos caracoes se debruçava
Agora pelo rosto transmudado.
Não mudou por dentro o caco,
Que ficou sempre macaco;
E a cara por fóra
Tambem não mudou muito do que fôra.
Os mesmos focinhos,
As mesmas caretas,
E os parvos risinhos
E as fofas e as tretas.
Assim meio mudados, meio não,
Lhes fez o padre Jove um bom sermão,
E lhes mandou tomar
Aopé da raça humana o seu logar.
O homem com desprêzo o bicho olhou,
Nem siquer nome para dar-lhe achou;
Mas a mulher gostou
Da tal farofia de apparente brilho,
E á coisa pôz o nome de—CASQUILHO.
Londres—1829.
IX.
OS AMANTES GENEROSOS.
CONTO.
A. J. LARCHER.
Pois os mimosos sons da branda musa
Do tam gentil Bernard, na patria lyra
Queres ouvir suave modulados,
E em luso trajo disputar-se um beijo
De Tempe os generosos amadores,
As cordas ferirei por comprazer-te,
Cortar-lhe-hei galas dos pastores nossos:
Na lingua de Camões, se posso tanto,
Virão aqui a suspirar d’amores;
E os echos d’estes valles mais sinceros
Te dirão suas fallas namoradas.
Tu, que es meio francez, meio germano,
Que á meiga Deshouliers canções tam finas,
Que a Gesner mais singelo ouviste o canto
Na propria avena de seus tons cantado,
Se os teus pastores nas ribeiras nossas,
N’estas suaves margens do Mondego
Vires diff’rentes, demudada a graça,
E alternando sem arte a cantilena
Que em seu patrio idioma foi tam bella,
A ti só, que o quizeste, imputa o êrro,
Nem acoimes á lingua tam formosa
O desprimor e as faltas do poeta.
Juncto aos valles de Tempe, amena estancia,
Mansão querida de Pomona e Flora,
O joven Hylas, Égle inda mais joven,
Ambos loucos d’amor, o amor se occultam.
A um terno olhar suas fallas se limitam,
Sua chamma constrangida não se exhala:
O innocente pastor fallar não ousa,
Nem, que fallasse, a simples o intendêra.
Mas tarde ou cedo, se o desejo a inflamma,
Amestram a innocencia amor e a edade.
Tirou-os d’este nada em que jaziam
O acaso um dia. Á sombra da espessura,
Tam bella, ou mais que amor, Égle dormia,
Hylas a incontra, e os olhos namorados
Para admirá-la não lhe bastam ambos.
—‘Vénus’ exclama ‘eu tibio em teu serviço
Ouso implorar-te: dá-me que estes labios,
Em quanto aqui na relva Égle descança,
Possam nos seus colhêr suave beijo.
E eu te juro, ó divina Cytherea,
Que em trôco lhe darei dois mansos pombos
Muito mais lindos que os que tens em Chypre.’
O voto fez-se; o beijo foi colhido:
Fingido somno approveitou á bella,
E, á noite o preço recebeu do voto.
Veio outro dia, e Égle a dormir sempre...
Mas não dorme o pastor:—‘Deus dos amores,
Ves alli quanto adoro n’este mundo.
Ah, de tanta belleza, tantas graças
Consente que uma só eu gose ao menos.
Se eu podesse—sem que Égle o presentisse,
Sob o lenço invejoso ir co’a mão trémula
Tocar n’aquelles candidos thesoiros,
Dar-lhe-hia pelo roubo—tam secreto!
O cordeirinho que entre os meus mais quero.
Oh! adormece, amor, Égle formosa!’
O mais profundo somno Hylas incontra.
Viu, tocou, apalpou, beijou cem vezes
O seio d’Égle, que retem manhosa
Até o respirar, e a somno sôlto
Mais dormia... quanto elle mais velava.
Custou-lhe no outro dia a vir ao bosque,
Timida ainda e vergonhosa a bella;
Mas veio emfim... Foi só curiosidade,
Tinha curiosidade—era o que tinha—
De saber que presente aquelle dia
Lhe faria o pastor; veio. Após ella
Hylas veio também:—‘Eternos deuses,
Aqui a incontro! Oh concedei-me agora
Um último favor, que nos seus braços
Eu gose emfim dos seus incantos todos.
Ah! vós bem o sabeis: eu nada tenho,
Mais nada ja do que o meu cão—e dou-lh’o.’
Oh que pesado somno Égle dormia!
E é bem de crer que o instante em que o mancebo
No extasi do prazer fechára os olhos,
Os lindos olhos d’Égle não se abriram.
Mas o sonho acabou... e despertaram.
O pastor imbrenhou-se na espessura
E o cãosinho fiel ficou co’a bella.
Incontraram-se á tarde, invergonhados...
A pastora corou, elle suspira...
Sós se achavam, sem medo, sem receios...
Ao amante acordada Égle se intrega,
Acha mais doce não dormir agora,
E toda a imbriaguez do amor conhece:
Quantos dons do pastor Égle recebe,
Com dulcissima usura os restitue.
Mas as antigas dadivas pesavam
Á pastora gentil:—‘Sei que te devo
Duas pombinhas que uma vez me déste.
E se me ellas fugirem! vivo sempre
N’este receio! Toma-as lá, e o preço
Que por ellas te dei também m’o torna.’
Surriu-se o joven, e pagou-as... ambas.
Um momento depois o cordeirinho
Á pastora lembrou:—‘Tanto te quero,
E heide-te privar do que mais amas?
Tam bonito! era a tua companhia,
Comia-te nas mãos! Nada, não quero:
Recebe-o, que t’o dou.’ E o cordeirinho
Foi restituido.—O cão só lhe restava:
Novas razões, e emfim ordem por fôrça
De acceitar outra vez o seu rafeiro:
—‘Não tens mais que um, é o guarda do rebanho,
Recebe-o, doce amante, e ainda emcima,
De fóraparte te heide dar um beijo.
Eu não quero mais dadivas, querido;
Com o teu coração estou contente.’
Oh! taes dons para dar custaram pouco.
Mas o preço da intrega era dobrado ...
O pastor affroixou, negocio serio
Veio porfim a ser o tal brinquedo.
Aopé de Égle acordada Hylas dormia...
E ella, que mais pretextos ja não tinha,
A suspirar dizia tristemente:
—‘Não me dar elle todo o seu rebanho!’
Coimbra—1821.