SONETOS.
I.
PORFIA D’AMOR.
D’emtorno á arvorezinha que murchára
Se affadiga o cultor esperançoso;
Invisca as varas caçador teimoso
Armando ao passarinho que escapára;
Porfiado rompe com a dextra avara
As intranhas da terra o cubiçoso;
Sua co’a bomba o nauta pressuroso
Por estancar a nau que lhe arrombára.
Mas larga cadaqual desesperado,
Quebra furioso o inutil instrumento
Se o continuo trabalho ve baldado.
Só eu, com desinganos cento e cento,
Só eu, por Délia sempre desprezado,
Teimo cadavez mais no meu tormento.
Angra—1814.
II.
CAMÕES NÁUFRAGO.
Cedendo á furia de Neptuno irado
Sossobra a nau que o gran’thesoiro incerra;
Lucta co’a morte na espumosa serra
O divino cantor do Gama ousado.
Ai do canto mimoso a Lysia dado!...
Camões, grande Camões, embalde a terra
Teu braço forte, nadador afferra
Se o canto lá ficou no mar salgado.
Chorae, Lusos, chorae! Tu morre, ó Gama,
Foi-se a tua glória... Não; lá vai rompendo
Co’a dextra o mar, na sestra a lusa fama.
Eterno, eterno ficará vivendo:
E a torpe inveja, que inda agora brama,
No abysmo cahirá do Averno horrendo.
Angra—1815.
III.
A UMA FEIA COM LINDA VOZ.
Quando Orpheu pela espôsa suspirada
Desceu co’a maga lyra ao reino escuro,
Incantado Plutão ferrenho e duro
De júbilo exultou na atroz morada.
—‘Furias,’ clamou ‘e turba condemnada,
Quero tudo a cantar; do mais não curo.
Ralhe Jove ou não ralhe, eu voto e juro
Que não heide ouvir mais ésta assoada.’
Eis impunhando o açoite crepitante
Rege Megera o condemnado côro,
Cantando em doce voz pura e tocante.
Ah! quando te oiço, ó N—y, o som canoro,
E arrebatado attento em teu semblante,
Um milagre d’Orpheu no Averno adoro.
Lisboa—1816.
IV.
‘SUFFOQUE AS ÍRAS, CALLE E SINTA E GEMA’
Se d’uns olhos gentis, d’um gesto brando,
D’um surrir desdenhoso innamorado,
Imprega o triste amante o seu cuidado
Em quem das leis d’amor se vai zombando;
De tormento em tormento variando,
Té o proprio queixume lhe é vedado:
Ri-se a bella do mal que lhe ha causado,
Dos ferros mofa que lhe vai forjando.
Pene emtanto o infeliz, suspire ao vento,
Té de que o saiba a perfida se tema,
Não lhe assome no labio um só lamento;
E ao som da ferrea, da cruel algema,
Martyr de seu inutil soffrimento
‘Suffoque as íras, calle e sinta e gema.’
Porto—1817.
V.
‘É DOS OLHOS GENTIS DA MINHA AMADA.’
Um prodigio d’incantos, de belleza
Es, ó mãe dos ternissimos amores,
Que, em teus labios, seus aureos passadores
Hervam, seguros de acertar a prêza.
Fulge em teus olhos divinaes accesa
A tocha dos desejos seductores;
Em ti de seus esmeros, seus primores,
O thesoiro esgotou a natureza.
Mas oh, por mais que arte divina estude,
Não te dá da innocencia a flor nevada
Que se não finge, nem fingida illude!
Esse dom virginal que tanto agrada
É só mimo da candida virtude,
‘É dos olhos gentis da minha amada.’
Porto—1817.
VI.
‘NAS FROIXAS, DEBEIS AZAS DA SAUDADE.’
Esses muros que amor, razão despreza,
Que ergueu do fanatismo a voz trovosa,
Deixa, ó Nise gentil, deixa-os, vaidosa
De escutares a voz da natureza.
Crê no teu coração; não é fraqueza
Fugir aos males para ser ditosa:
Ja nos meus braços a ventura anciosa
Espera, com amor, tua belleza.
Vem, não oiças conselhos fementidos,
Ouve amor, a razão, a liberdade,
E a virtude e o prazer verás unidos.
Farás minha cabal felicidade,
Nem teus votos verás sempre perdidos
‘Nas froixas, debeis azas da saudade.’
Porto—1817.
VII.
O CAMPO DE SANCT’ANNA.
Longe, hypocritas vis, longe, impostores,
O mentido apparato religioso!
Que um deus d’amor, o nosso Deus piedoso
Abomina, detesta esses horrores.
De atrozes leis cruentos guardadores,
Vós curvais ante o despota orgulhoso,
E o sangue da patria precioso
Torpemente vendeis por seus favores.
Geme sem proctetor a humanidade:
E vós, juizes, vós, tigres humanos,
A immolais sem remorso e sem piedade.
Ah! tremei, sanguinarios deshumanos;
Que ella hade vir, tremei, a Liberdade
Punir despotas, bonzos e tyrannos.
Coimbra—1817.
VIII.
‘VIRTUDE SEM PRAZER NÃO É VIRTUDE’
Deixa, eu t’o rogo, deixa, Annalia minha,
Duros preceitos de moral sombria;
Fingiu-os a traidora hypocrisia
Que detrás d’elles, a zombar, se aninha.
Leis de tartufos, invenção danninha
Que protege a impostura e o vício cria,
O egoismo as dictou, funesta harpia
Que as horas do gosar nos amesquinha.
A mão da natureza, a mão sublime
O gran’sêllo forjou na eterna incude
Com que o signal de falsas lhes imprime.
O coração m’o diz, que não illude:
Crime sem dor, Annalia, não é crime,
‘Virtude sem prazer não é virtude.’
Coimbra—1818.
IX.
A FLOR SÊCCA.
Vai, flor gentil, vai prenda suspirada,
Doce mimo d’amor terno e fagueiro,
Vai, que elle mesmo grato e prazenteiro
Elle te hade levar á minha amada.
Cumpre a que ella te impoz, que é lei sagrada:
Se mudada te achar, sem côr, sem cheiro,
Se o viço, a gala do verdor primeiro
Em tuas pallidas folhas vir crestada,
Diz-lhe que mais que a ti, mais me queimára
O intenso ardor d’aquella saudade
Que a ambos n’este estado nos deixára.
Oh! se um benigno influxo de piedade
De seus formosos olhos te orvalhára...
Qual de nós ambos reviver não hade?
Porto—1819.
X.
A CERTA TRAGEDIA.
Mil parabens á musa portugueza
Que do padre José fulgiu na penna!
Cai a velha Melpomene da scena,
Foi-se a tragedia grega e a franceza.
Sóphocles pôz-se a dar voltas d’Andreza,
Euripedes está de quarentena,
Corneille indoudeceu de inveja e pena,
Crebillon foi queimar o Atreu e a mesa;
Racine professou nos Mariannos,
Voltaire está a leites de jumenta,
Alfieri vai fazer sonetos de annos.
Victorioso o padre a Branca ostenta:
Só por vencer lhe restam dois maganos...
Mas temiveis rivaes—Paiva e Pimenta.
Coimbra—1819.
XI.
MARIA E CAROLINA.
Que hade brindar á amavel Carolina
Pelos seus annos a gentil Maria?
Tam franca de seus dons, ao dar-lhe o dia,
Não deixou que outorgar-lhe a mão divina.
Qual de ambas póde haver offerta dina
De quantas liberal natura cria?
Que gera o loiro sol ou que allumia
Que encha os desejos d’alma peregrina?
A amigas taes, ao par que me innamora
Ja não tem que lhes dar a humanidade,
Por mais que seus thesoiros aprimora.
Amor, divino amor, doce amizade,
Numes do coração, valei-me agora:
Dae-lhes, pois deuses sois, a eternidade.
Porto—1819.
XII.
SAUDADE.
Seculos são, na vida que infastia,
Estes dias de exilio amargurados;
Um por um, mágoa a mágoa, vão contados
Em lenta e cruellissima agonia.
Oh! roubemos-lhe aomenos este dia,
Ao padecer que todos trás roubados;
Sejam pela amizade consagrados
Ao casto amor instantes de alegria.
Tem prazeres tambem a desventura:
A propria carrancuda adversidade
Surri co’a esp’rança que lhe luz futura.
Vem, amigo, no seio da amizade
Festeja a espôsa, sonha co’a ventura
Que um dia hade mattar tanta saudade.
Londres—1828.