DOS EDITORES.

Cumpre-se a promessa feita no primeiro volume d’esta collecção reunindo aqui, em segunda edição muito augmentada e correcta, as FOLHAS CAHIDAS.

Apezar de estarem no prelo desde 1851, o auctor tinha descuidado na primeira edição o seu habitual escrupulo de rever e corrigir; e não teve paciencia para as augmentar com muitas peças que agora vão, e que então não estavam postas a limpo. Trabalhos mais serios o distrahiram durante os dois annos que levaram a imprimir tam poucas paginas.

Julgou-se agora melhor dividir em dois livros o que, assim augmentado, ficaria demaziado para um só.

Maio—1853.

ADVERTENCIA.[10]

Antes que venha o hynverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por ahi cahiram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memoria.

A outros versos chamei eu ja as últimas recordações de minha vida poetica. Inganei o público, mas de boa fe, porque me inganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro—ás vezes imaginario, porque ninguem os coroa.

Eu pouco mais tinha de vinte annos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os ultimos versos que fazia. Que juramentos!

Se dos meus se rirem, teem razão; mas saibam que eu tambem primeiro me ri d’elles. Poeta na primavera, no estio e no outomno da vida, heide sê-lo no hynverno se lá chegar, e heide sê-lo em tudo. Mas d’antes cuidava que não, e n’isso ia o êrro.

Os cantos que formam ésta pequena collecção pertencem todos a uma epocha de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras collecções.

Essas mais ou menos mostram o poeta que canta deante do público. Das FOLHAS CAHIDAS ninguem tal dirá, ou bem pouco intende de stylos e modos de cantar.

Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gósto mais d’elles do que de nenhuns outros que fizesse. Porque? É impossivel dizê-lo, mas é verdade. E como nada são por elle nem para elle, é provavel que o público sinta bem diversamente do auctor. Que importa?

Apezar de sempre se dizer e escrever ha cem mil annos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que póde ter um escriptor, é elle proprio, quando o não cega o amor proprio. E eu sei que tenho os olhos abertos, aomenos agora.

Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.

Emfim, eu não queimo estes. Consagrei-os ignoto deo. E o deus que os inspirou que os anniquille se quizer: não me julgo com direito de o fazer eu.

Ainda assim, no ignoto deo não imaginem alguma divindade meia-velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia paraque todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquelle mysterioso, occulto e não-definido sentimento d’alma que a leva ás aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.

Imaginação que porventura se não realisa nunca. E d’ahi quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta demais. Saude, riqueza, miseria, pobreza, e ainda coisas mais materiaes, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, approximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a elle.

Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossivel. Não sei. Essa é uma disputação mais longa.

Mas sei que as presentes FOLHAS CAHIDAS representam o estado d’alma do poeta nas variadas, incertas e vacillantes oscillações do espirito que, tendendo ao seu fim unico, a posse do IDEAL, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a elle—ora ri amargamente porque reconhece o seu ingano—ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade van.

Deixae-o passar, gente do mundo, devotos do podêr, da riqueza, do mando, ou da glória. Elle não intende bem d’isso, e vós não intendeis nada d’elle.

Deixae-o passar, porque elle vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis d’elle, que o callunieis, que o assacineis. Vai, porque é espirito, e vós sois materia.

E vós morrereis, elle não. Ou só morrerá d’elle aquillo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta que é a mesma de Adam, tambem será punida com a morte.

Mas não triumpheis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quasi nada no poeta.

Janeiro—1853.