NOTAS DE RODAPÉ:
[10] Do auctor na primeira edição.
FOLHAS CAHIDAS.
LIVRO PRIMEIRO.
I.
IGNOTO DEO
D. D. D.
Creio em ti, Deus: a fe viva
De minha alma a ti se eleva.
Es:—o que es não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que—indistinctas!—se involve
Este espirito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sôpro creador
Tudo o mais, o hade tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito d’onde veio.
Belleza es tu, luz es tu,
Verdade es tu só. Não creio
Senão em ti; o ôlho nu
Do homem não ve na terra
Mais que a dúvida a incerteza,
A fórma que ingana e erra.
Essencia! a real belleza,
O puro amor—o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os póde ver
O que inspirado se affasta,
Ignoto Deus, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vans e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida teem. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existencia aqui ponho, aqui votado
Fica este livro—confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.
II.
ADEUS!
Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que n’esta hora
Sinto a justiça dos ceus
Esmagar-me a alma que chora.
Chóro porque não te amei,
Chóro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem n’o sei,
Mas tu... tu nada perdeste:
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos tam damninhos
Que o seu podêr só sei eu.
Oh! vai... para sempre adeus!
Vai, que ha justiça nos ceus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa vibora medonha
Que por seu fatal condão
Hade rasgá-lo ao nascer:
Hade sim, serás vingada,
E o meu castigo hade ser
Ciume de ver-te amada,
Remorso de te perder.
Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar.—Ai! se eu te amasse!
Vê se no arido pragal
D’este peito se ateasse
De amor o incendio fatal!
Mais negro e feio no inferno
Não chammeja o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso?—Ai, triste!
Não sabes o que pediste.
Não te bastou supportar
O cepo-rei; impaciente
Tu ousas a deus tentar
Pedindo-lhe o rei-serpente!
E cuidas amar-me ainda?
Inganas-te: é morta, é finda,
Dissipada é a illusão.
Do meigo azul de teus olhos
Tanta lagryma verteste,
Tanto esse orvalho celeste
Derramado o viste em vão
N’esta seara de abrolhos,
Que a fonte seccou. Agora
Amarás... sim hasde amar,
Amar deves... Muito embora...
Oh! mas n’outro hasde sonhar
Os sonhos de oiro incantados
Que o mundo chamou amores.
E eu réprobo... eu se o verei?
Se em meus olhos incovados
Der a luz de teus ardores...
Se com ella cegarei?
Se o nada d’essas mentiras
Me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
Tambem eu sonhar... Perdida,
Perdida serás—perdida.
Oh! vai-te, vai, longe, embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... ai! não;
E que pude a sangue frio,
Covarde, infame, villão,
Gosar-te—mentir sem brio,
Sem alma, sem dó, sem pejo,
Commettendo em cada bejo
Um crime... Ai! triste, não chores,
Não chores, anjo do ceu,
Que o deshonrado sou eu.
Perdoar-me tu?... Não mereço.
A immundo cerdo voraz
Essas perolas de preço
Não as deites: é capaz
De as desprezar na torpeza
De sua bruta natureza.
Irada, te hade admirar,
Despeitosa, respeitar,
Mas indulgente... Oh! o perdão
É perdido no villão,
Que de ti hade zombar.
Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrêlla.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para intendê-la:
Alta está no firmamento
Demais, e demais é bella
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o incantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua belleza
Do azul do ceu á pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
D’onde me vem sangue ás veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra—e não cabe
N’elle uma idea dos ceus...
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!
III.
QUANDO EU SONHAVA.
Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Paraquê?—Quando era vaga,
Uma idea, um pensamento,
Um raio de estrêlla incerto
No immenso firmamento,
Uma chymera, um vão sonho,
Eu sonhava—mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não n’a conhecia...
.............................
IV.
AQUELLA NOITE!
Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder.
Os felizes... e ai! são tantos!...
—Eu por tantos os contava!
Eu que o signal de meus prantos
Do afflicto rosto lavava—
Os felizes presumpçosos
Iam nos coches ruidosos
Correndo aos salões doirados
De mil fogos alumiados,
D’onde em torrentes sahia
A clamorosa harmonia
Que á festa, ao prazer tangia.
Eu sentia esse ruido
Como o confuso bramar
De um mar ao longe movido
Que á praia vem rebentar:
E disse commigo:—‘Vamos,
Os luctos d’alma dispamos,
Á festa heide ir tambem eu!’
E fui: e a noite era bella.
Mas não vi a minha estrêlla
Que eu sempre via no ceu:
Cubriu-a de espesso véo
Alguma nuvem a ella,
Ou era que ja vendado
Me levava o negro fado
Onde a vida me perdeu?
Fui; meu rosto macerado,
A funda melancholia
Que todo o meu ser revia,
Qual o atahude levado
A egypcio festim, dizia:
—‘Como vós fui eu tambem;
Folgae, que a morte ahi vem!’
Dizia-o, sim, meu semblante,
Que, onde eu chegava, o prazer
Cessava no mesmo instante;
E o labio, que ia a dizer
Doçuras de amor, gelava;
E o riso, que ia a nascer
Na face linda, expirava.
Era eu—e a morte em mim,
Que só ella espanta assim!
Quantas mulheres tam bellas
Ebrias de amor e desejos,
Quantas vi saltar-lhe os bejos
Da bôcca ardente e lasciva!
E eu, que ia chegar-me a ellas...
Para logo a fronte esquiva
De recatos se involvia
E, toda pudor, tremia.
Quantas o seio anhelante,
Nu, ardente e palpitante
Andavam como intregando
Á cubiça mal-desperta,
Gasta ja e desdenhosa,
Dos que as estavam mirando
Com vaga luneta incerta
Que diz:—‘Aquella é formosa,
Não se me dava de a ter.
E esta? É só baroneza,
Vale menos que a duqueza:
Não sei a qual attender.’
E a isto chamam prazer!
A grande ventura é ésta?
Vale a pena vir á festa
E vale a pena viver.
Como então quiz á tristura
Do meu viver isolado!
Fique-se embora a ventura,
Que eu quero ser desgraçado.
Levantei alto a cabeça.
Senti-me crescer—e a frente
Desanuviar-se contente
Do feio negrume espesso
Que assustava aquella gente.
Logo os surrisos cabiam
Para o meu lado tambem:
Ja como um dos seus me viam,
Que em mim não viam ninguem.
Eu, de olhos desincantados,
A ellas, como as eu via!
Meus enthusiasmos passados.
Oh! como eu d’elles me ria!
Frio o sarcasmo sahia
De meus labios descorados,
E sem dó e sem pudor
A todas fallei de amor...
Do amor bruto, degradante
Que no seio palpitante,
Na espadua nua se accende...
Amor lascivo que offende,
Que faz corar... Ellas riam
E oh que não, não se offendiam!
Mas a orchestra bradou alta:
—‘Festa, festa! e salta, salta!’
Os seus guizos delirantes
Sacode louca a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n’os ouvia?
As palavras meias dittas,
Meias nos olhos escrittas,
Voavam todas perdidas
Dispersas, rotas no ar;
Que se foram almas, vidas,
Tudo se foi a walsar.
Quem é ésta que mais voltas
Gyra, gyra sem cessar?
Como as roupas leves, sôltas,
Aerias leva a ondular
Emtôrno á fórma graciosa,
Tam flexivel, tam airosa,
Tam fina!—Agora parou,
E tranquilla se assentou.
Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o profil;
E a cabeça, tam gentil,
Como se fôra devéras
A rainha d’essa gente,
Como a levanta insolente!
Vive Deus! que é ella... aquella,
A que eu vi na tal janella,
E que triste me surria
Quando passando me via
Tam pasmado a olhar para ella.
A mesma melancholia
Nos olhos tristes—de luz
Oblíqua, viva mas fria;
A mesma alta intelligencia
Que da face lhe transluz;
E a mesma altiva impaciencia
Que de tudo, tudo cança,
De tudo o que foi, que é,
E na erma vida só vê
O raio da vaga espr’ança.
—‘Pois isto sim que é mulher’
Disse eu—‘e aqui ha que ver.’
Ja vinha a pallida aurora
Annunciando a manhan fria,
E eu fallava e eu ouvia
O que até áquella hora
Nunca disse, nunca ouvi...
Toda a memoria perdi
Das palavras proferidas...
Não eram d’estas sabidas,
Nem quaes eram não n’o sei...
Sei que a vida era outra em mim,
Que era outro ser o meu ser,
Que uma alma nova me achei
Que eu bem sabia não ter.
E d’ahi?—D’ahi, a historia
Não deixou outra memoria
D’essa noite de loucura,
De seducção, de prazer...
Que os segredos da ventura
Não são para se dizer.
V.
O ANJO CAHIDO.
Era um anjo de Deus
Que se perdêra dos ceus
E terra a terra voava.
A setta que lhe acertava
Partira de arco traidor,
Porque as pennas que levava
Não eram pennas de amor.
O anjo cahiu ferido,
E se viu aos pés rendido
Do tyranno caçador.
De aza morta e sem splendor
O triste, peregrinando
Por estes valles de dor,
Andou gemendo e chorando.
Vi-o eu, o anjo dos ceus,
O abandonado de Deus.
Vi-o, n’essa tropelia
Que o mundo chama alegria.
Vi-o a taça do prazer
Pôr ao labio que tremia...
E só lagrymas beber.
Ninguem mais na terra o via,
Era eu só que o conhecia...
Eu que ja não posso amar!
Quem n’o havia de salvar?
Eu, que n’uma sepultura
Me fôra vivo interrar?
Loucura! ai, cega loucura!
Mas entre os anjos dos ceus
Faltava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-lo,
D’aquella infamia salvá-lo
Só fôrça de amor podia.
Quem d’esse amor hade amá-lo,
Se ninguem o conhecia?
Eu só.—E eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrôjo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a eu n’essa cruz
Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma puz.
E o meu ser se dividia,
Porque elle outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha...
Tarde, ai! tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E elle á vida não volveu...
Mas da morte que eu morri
Tambem o infeliz morreu.
VI.
O ALBUM.
Minha Julia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memorias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.
E essa n’alma em silencio gravada
Pelas mãos do mysterio hade ser;
Que não tem lingua humana palavras,
Não tem lettra que a possa escrever.
Por mais bello e variado que seja
De uma vida o tecido matiz,
Um só fio da tella bordada,
Um só fio hade ser o feliz.
Tudo o mais é illusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.
De que serve guardar monumentos
Dos inganos que a espr’ança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vans sombras de um sol que passou!
Crê-me, Julia: mil vezes na vida
Eu co’a minha ventura sonhei;
E uma só, d’entre tantas, o juro,
Uma só com verdade a incontrei.
Essa entrou-me pela alma tam firme,
Tam segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memoria,
Do porvir nem desejo ficou.
Toma pois, Julia bella, o conselho;
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memorias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.
VII.
SAUDADES
Leva este ramo, Pepita,
De saudades portuguezas;
É flor nossa, e tam bonita
Não n’a ha n’outras devezas.
Seu perfume não seduz,
Não tem variado matiz,
Vive á sombra, foge á luz,
As glórias d’amor não diz;
Mas na modesta belleza
De sua melancholia
É tam suave a tristeza,
Inspira tal sympathia!..
E tem um dote ésta flor
Que de outra egual se não diz:
Não perde viço ou frescor
Quando a tiram da raiz.
Antes mais e mais floresce
Com tudo o que as outras matta;
Até ás vezes mais cresce
Na terra que é mais ingrata.
Só tem um cruel senão,
Que te não devo esconder:
Plantada no coração,
Toda outra flor faz morrer.
E, se o quebra e despedaça
Com as raizes mofinas,
Mais ella tem brilho e graça,
É como a flor das ruinas.
Não, Pepita, não t’a dou...
Fiz mal em dar-te essa flor,
Que eu sei o que me custou
Trattá-la com tanto amor.
VIII.
ESTE INFERNO DE AMAR.
Este inferno de amar—como eu amo!
Quem m’o pôs aqui n’alma... quem foi?
Ésta chamma que alenta e consome,
Que é a vida—e que a vida destroi—
Como é que se veio a atear,
Quando—ai quando se hade ella apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que d’antes vivi
Era um sonho talvez...—foi um sonho—
Em que paz tam serena a dormi!
Oh! que doce era aquelle sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos gyravam,
Em seus olhos ardentes os puz.
Que fez ella? eu que fiz?—Não n’o sei;
Mas n’essa hora a viver comecei...
IX.
DESTINO.
Quem disse á estrêlla o caminho
Que ella hade seguir no ceu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave apprendeu?
Quem diz á planta:—‘Florece!’
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lh’os inreda?
Insinou alguem á abelha
Que no prado anda a zumbir
Se á flor branca ou se á vermelha
O seu mel hade ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não m’o disse ninguem.
Como a abelha corre ao prado,
Como no ceo gyra a estrêlla,
Como a todo o ente o seu fado
Por instincto se revella,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.
X.
GÔSO E DOR.
Se estou contente, querida,
Com ésta immensa ternura
De que me enche o teu amor?
—Não. Ai! não; falta-me a vida,
Succumbe-me a alma á ventura:
O excesso do gôso é dor.
Doe-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua belleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.
É que não ha ser bastante
Para este gosar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo d’elle, e delirante
Sinto que se exhaure em mim
Ou a vida—ou a razão.
XI.
PERFUME DA ROSA.
Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um sylpho? Ou que nume
Com esse aroma delira?
Qual é o deus que, namorado,
De seu throno te ajoelha,
E esse nectar incantado
Bebe occulto, humilde abelha?
—Ninguem?—Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem t’a pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.
E a côr de purpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa pallidez lasciva
Nas folhas quem t’a pintou?
Os espinhos que tam duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
T’os desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástea sentida
Tremes tanto ao pôr do sol?
Porque escutas tam rendida
O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas aguas d’esse retiro
Não espreitei a tua imagem?
Não a vi afflicta, anciada...
—Era de prazer ou dor?—
Mentiste, rosa, es amada.
E também tu amas, flor.
Mas ai! se não for um nume
O que em teu seio delira,
Hade mattá-lo o perfume
Que n’esse aroma respira.
XII.
ROSA SEM ESPINHOS.
Para todos tens carinhos,
A ninguem mostras rigor!
Que rosa es tu sem espinhos?
Ai, que não te intendo, flor!
Se a borbuleta vaidosa
A desdem te vai beijar,
O mais que lhe fazes, rosa,
É surrir e é corar.
E quando a sonsa da abelha,
Tam modesta em seu zumbir,
Te diz:—‘Ó rosa vermelha,
Bem me pódes acudir:
Deixa do caliz divino
Uma gotta só libar...
Deixa, é nectar peregrino,
Mel que eu não sei fabricar...’
Tu de lástima rendida,
De malditta compaixão,
Tu á súpplica atrevida
Sabes tu dizer que não?
Tanta lástima e carinhos,
Tanto dó, nenhum rigor!
Es rosa e não tens espinhos!
Ai! que não te intendo, flor.
XIII.
ROSA PALLIDA.
Rosa pallida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a afflicta côr.
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.
Pois sim... quando livre, ao vento,
Sôlta de alma e pensamento,
Forte de tua isempção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.
Mas não eras, não, mais bella.
Coitada, coitada d’ella,
A minha rosa gentil!
Coravam-n’a então desejos,
Desmaiam-n’a agora os bejos...
Vales mais mil vezes, mil.
Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos ceus,
Comparar tua belleza
Ás filhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.
E vergonha!... de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê?... porquê em teu semblante
A pallida côr da amante
A minha ventura diz?
Pois quando eras tam vermelha
Não vinha zangão e abelha
Emtôrno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Historias dos mil amores
Que não tinhas, repetir?
Que hãode elles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu languido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi, de ser muito bejada,
Que te veio a desbotar?
Deixa-os: pallida ou corada,
Ou isempta ou namorada,
Que brilhe no prado flor.
Que fulja no ceo estrêlla,
Ainda é ditosa e bella
Se lhe dão só um amor.
Ai! deixa-os, e no meu seio
Vem, querida, sem receio
Vem a frente reclinar.
Que pallida estás, que linda!
Oh! quanto mais te amo ainda
Des que te fiz desbotar.
XIV.
FLOR DE VENTURA.
A flor de ventura
Que amor me intregou,
Tam bella e tam pura
Jamais a creou:
Não brota na selva
De inculto vigor,
Não cresce entre a relva
De virgem frescor;
Jardins de cultura
Não póde habitar
A flor de ventura
Que amor me quiz dar.
Semente é divina
Que veio dos ceus;
Só n’alma germina
Ao sôpro de Deus.
Tam alva e mimosa
Não ha outra flor;
Uns longes de rosa
Lhe avivam a côr;
E o aroma... Ai! delirio
Suave e sem fim!
É a rosa, é o lirio.
É o nardo, o jasmim;
É um philtro que apura,
Que exalta o viver,
E em doce tortura
Faz de âncias morrer.
Ai! morrer... que sorte
Bemditta de amor!
Que me leve a morte
Bejando-te, flor.
XV.
BELLA D’AMOR.
Pois essa luz scintillante
Que brilha no teu semblante
D’onde lhe vem o splendor?
Não sentes no peito a chamma
Que aos meus suspiros se inflamma
E toda reluz de amor?
Pois a celeste fragancia
Que te sentes exhalar,
Pois, dize, a ingenua elegancia
Com que te ves ondular,
Como se baloiça a flor
Na primavera em verdor.
Dize, dize: a natureza
Póde dar tal gentileza?
Quem t’a deu senão amor?
Vê-te a esse espelho, querida,
Ai! vê-te por tua vida,
E diz se ha no ceo estrêlla,
Diz-me se ha no prado flor
Que Deus fizesse tam bella
Como te faz meu amor.
XVI.
OS CINCO SENTIDOS.
São bellas—bem o sei, essas estrêllas,
Mil côres—divinaes têem essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para ellas:
Em toda a natureza
Não vejo outra belleza
Senão a ti—a ti!
Divina—ai! sim, será a voz que affina
Saudosa—na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a mellodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti—a ti!
Respira—n’aura que entre as flores gyra,
Celeste—incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti—de ti!
Formosos—são os pomos saborosos,
É um mimo—de nectar o racimo:
E eu tenho fome e sêde... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de bejos,
E so de ti—de ti!
Macia—deve a relva luzidia
Do leito—ser porcerto em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar n’outras delicias
Senão em ti—em ti!
A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos n’um confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.
XVII.
ROSA E LIRIO.
A rosa
É formosa;
Bem sei.
Porque lhe chamam—flor
D’amor,
Não sei.
A flor,
Bem de amor
É o lirio;
Tem mel no aroma,—dor
Na côr
O lirio.
Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa,
Se é de belleza... mor
Primor
A rosa,
No lirio
O martyrio
Que é meu
Pintado vejo:—côr
E ardor
É o meu.
A rosa
É formosa,
Bem sei...
E será de outros flor
D’amor...
Não sei.
XVIII.
COQUETTE DOS PRADOS.
Coquette dos prados,
A rosa é uma flor
Que inspira e não sente
O incanto d’amor.
De purpura a vestem
Os raios do sol;
Suspiram por ella
Ais do rouxinol:
E as galas que traja
Não as agradece,
E o amor que accende
Não o reconhece.
Coquette dos prados
Rosa, linda flor,
Porquê, se o não sentes,
Inspiras amor?
XIX.
CASCAES
Acabava alli a terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta arida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os ceos turvos, annuviados,
O mar que incessante brama...
Tudo alli era braveza
De selvagem natureza.
Ahi, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal-medrados,
Sêcco o rio, sêcca a fonte,
Hervas e matos queimados,
Ahi n’essa bruta serra,
Ahi foi um ceo na terra.
Alli sós no mundo, sós,
Sancto Deus! como vivemos!
Como eramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!
Que longos bejos sem fim,
Que fallar dos olhos mudo!
Como ella vivia em mim,
Como eu tinha n’ella tudo,
Minha alma em sua razão
Meu sangue em seu coração!
Os anjos aquelles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Seculos na intensidade,
Por millenios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.
Ai! sim foi a tragos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça:—amargos
Depois... depois os senti
Os travos que ella deixou...
Mas como eu ninguem gosou.
Ninguem: que é preciso amar
Como eu amei—ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se ha dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se annulla perdida.
Ai, ai! que pesados annos
Tardios depois vieram!
Oh, que fataes desinganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a terra!
Se o visse... não quero vê-lo
Aquelle sítio incantado;
Certo estou não conhecê-lo,
Tam outro estará mudado,
Mudado como eu, como ella,
Que a vejo sem conhecê-la!
Inda alli acaba a terra,
Mas ja o ceo não começa:
Que aquella visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
D’essa agreste natureza.
XX.
ESTES SITIOS!
Olha bem estes sitios queridos,
Vê-os bem n’este olhar derradeiro...
Ai! o negro dos montes erguidos,
Ai! o verde do triste pinheiro!
Que saudades que d’elles teremos...
Que saudade! ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, n’este ar que bebêmos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de innocencia e vigor!
Oh! aqui, aqui só se ingrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas azas o niveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A innocencia infantil do pudor.
E oh! deixar taes delicias como ésta!
E trocar este ceo de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão á impostura,
Ir saudar a mentira em sua côrte,
Ajoelhar em seu throno á vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai! não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe a adeus n’este olhar derradeiro,
Dize á sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sitios queridos
D’esta ruda, feroz soledade,
Paraizo onde livres vivemos...
Oh! saudades que d’elle teremos,
Que saudade! ai, amor, que saudade!
XXI.
NÃO TE AMO.
Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
E eu n’alma—tenho a calma,
A calma—do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida—nem sentida
A trago eu ja commigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. Es bella; e eu não te amo, ó bella.
Quem ama a aziaga estrêlla
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
XXII.
NÃO ES TU.
Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma côr,
Aquella visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.
Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ella descia
Como um veo que lhe involvia,
Que lhe adoçava a belleza.
Era assim; o seu fallar,
Ingenuo e quasi vulgar,
Tinha o podêr da razão
Que penetra, não seduz:
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.
Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.
Mas não es tu... ai! não es:
Toda a illusão se desfez.
Não es aquella que eu vi,
Não es a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lh’o senti.
XXIII
BELLEZA.
Vem do amor a Belleza,
Como a luz vem da chamma.
É lei da natureza:
Queres ser bella?—ama.
Fórmas de incantar,
Na tella o pincel
As póde pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Belleza é isso?—Não; só formosura.
Surrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver,
—Qual surri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer—
A mãe é a mais bella das obras de Deus,
Se ella ama!—O mais puro do fogo dos ceus
Lhe ateia essa chamma de luz crystallina:
É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Belleza
Em toda a pureza
Que Deus a creou.
XXIV.
ANJO ES.
Anjo es tu, que esse podêr
Jamais o teve mulher,
Jamais o hade ter em mim.
Anjo es, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu podêr.
Anjo es tu, não es mulher.
Anjo es. Mas que anjo es tu?
Em tua frente annuviada
Não vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do ceo.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o veo
Com que o soffrego pudor
Vela os mysterios d’amor.
Teus olhos têem negra a côr,
Côr de noite sem estrêlla;
A chamma é vivaz e é bella,
Mas luz não tem.—Que anjo es tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jehovah ou Belsebú?
Não respondes—e em teus braços
Com phreneticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lagryma?—Escaldou-me...
Queima, abraza, ulcéra... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo malditto,
Que este ardor que me devora
É ja fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mysterios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo es tu ou es mulher?
XXV.
VIBORA.
Como a vibora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que á nascença o espedaçou.
Para elle nascer morri;
E em meu cadaver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.
FOLHAS CAHIDAS.
LIVRO SEGUNDO.
I.
BARCA BELLA.
Pescador da barca bella,
Onde vas pescar com ella,
Que é tam bella,
Oh pescador?
Não ves que a última estrêlla
No ceo nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautella,
Que a sereia canta bella...
Mas cautella,
Oh pescador!
Não se inrede a rede n’ella,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bella,
Inda é tempo, foge d’ella,
Foge d’ella
Oh pescador!
II.
A COROA.
Bem sei que é toda de flores
Essa coroa d’amores
Que na frente vais cingir.
Mas é coroa—é reinado;
E a pôsto mais arriscado
Não se póde hoje subir.
N’esses reinos populosos
Os vassallos revoltosos
Tarde ou cedo dão a lei.
Quem hade conter, domá-los,
Se são tantos os vassallos
E um só o pobre do rei?
Não vejo, rainha bella,
Para fugir essa estrella
Que os reis persegue sem dó,
Mais que um meio—fallo serio:
É pôr limites ao imperio
E ter um vassallo só.
III.
SINA.
Por todas quantas estrêllas
Tem o ceo que possam mais,
Pelas flores virginaes
De que se c’roam donzellas,
Pelas lagrymas singellas
Que o primeiro amor derrama,
Por aquella etherea chamma
Que a mão de Deus accendeu
E que na terra allumia
Quanto ha na terra do ceu!
Por tudo quanto eu queria
Quando eu sabia querer,
E por tudo quanto eu cria
Quando me era dado crer!
Bem fadada seja a vida
Que por éstas folhas brancas[11]
Sua historia hade escrever!
Que as dores lhe venham mancas
E com azas o prazer!
Ésta sina que lhe dou,
Bruxa não n’a adivinhou,
Nem duende m’a insinou:
Li-a eu por meu condão
Em seus olhos innocentes,
Transparentes—transparentes
Até dentro ao coração.