NOTAS DE RODAPÉ:
[13] Por uma menina cega de nascença.
VI.
RETRATTO.
(N’UM ALBUM)
Ah! despreza o meu retratto
Que lhe eu queria aqui pôr!
Tem medo que lhe desfeie
O seu livro de primor?
Pois saiba que por despique
Eu sei tambem ser pintor:
Co’esta penna por pincel,
E a tinta do meu tinteiro,
Vou fazer o seu retratto
Aqui ja de corpo inteiro.
Vamos a isto.—Sentada
Na cadeira ‘moyen-âge,’
O cabello en ‘chatellaines,’
As mangas sôltas.—É o traje.
Em longas pregas negras
Caia o velludo e arraste;
De si com desdem regio
Com o pésinho o affaste...
N’essa attitude! Está bem:
Agora mais um geitinho;
A airosa cabeça a um lado
E o lindo pé no banquinho.
Aqui estão os contornos, são estes,
Nem Daguerre lh’os tira melhor.
Este é o ar, ésta a ‘pose,’ eu lh’o juro,
E o trajar que lhe fica melhor.
Vamos agora ao difficil:
Tirar feição por feição;
Intendê-las, que é o ponto,
E dar-lhe a justa expressão.
Os olhos são côr da noite,
Da noite em seu começar,
Quando inda é joven, incerta,
E o dia vem de acabar;
Têem uma luz que vai longe,
Que faz gôsto de queimar:
É uma especie de lume
Que serve só de abrazar.
Na bôcca há um surriso amavel.
Amavel é... mas queria
Saber se é todo bondade
Ou se meio é zombaria.
Ninguem m’o diz? O retratto
Incompleto ficará,
Que n’estas duas feições
Todo o ser, toda a alma está.
Pois fiel como um espelho
É tudo o que n’elle fiz;
E o que lhe falta—que é muito,
Tambem o espelho o não diz.
VII.
LUCINDA.
Ergue a frente, lirio,
Ergue a branca frente!
O astro do delirio
Ja surgiu no oriente.
Ves, o sol ardente
Lá cahiu no mar;
A frente pendente
Ergue a respirar!
Alvo é o luar,
Teu alvor não cresta;
A hora de gosar,
De viver é ésta.
Longa foi a sésta
Longo o teu dormir;
Ergue a branca testa,
Tempo é de surgir!
Ja se abre a surrir
Tua bôcca linda...
Despertar, sentir
Ou sonhar é ainda?
Sonho que não finda
Será o teu sonhar,
Se a dormir, Lucinda,
Te sentes amar.
VIII.
AS DUAS ROSAS.
Sôbre se era mais formosa
A vermelha ou branca rosa,
Ardeu seculos a guerra
Em Inglaterra.
Paz entre as duas, jamais!
Reinar ambas as rivais,
Tambem não; e uma ceder
Como hade ser?
Faltei eu lá na Inglaterra
Para acabar com a guerra.
Ei-las aqui bem eguaes,
Mas não rivaes.
Atei-as em laço estreito:
Que artista fui, com que geito!
E oh! que lindas são, que amores
As minhas flores!
Dirão que é cópia;—bem sei:
Que todo inteiro o roubei
Meu pensamento brilhante
Do teu semblante...
Será. Mas se é tam bello
Que lhe deem esse modello,
Do meu quadro, na verdade,
Tenho vaidade.
IX.
VOZ E AROMA.
A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.
A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi seccar...
E em torrentes de harmonia
Minha alma se exhalará,
Ésta alma que muda e fria
Nem sabe se existe ja.
X.
SEUS OLHOS.
Seus olhos—se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou—
Não tinham luz de brilhar,
Era chamma de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como o facho do Destino.
Divino, eterno!—e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tam fatal podêr,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
XI.
A DÉLIA.
Cuidas tu que a rosa chora,
Que é tammanha a sua dor,
Quando, ja passada a aurora,
O sol, ardente de amor,
Com seus bejos a devora?
—Feche virgineo pudor
O que inda é botão agora
E ámanhan hade ser flor;
Mas ella é rosa n’esta hora.
Rosa no aroma e na côr.
—Para ámanhan o prazer
Deixe o que ámanhan viver.
Hoje, Délia, é nossa a vida;
Ámanhan... o que hade ser?
A hora de amor perdida
Quem sabe se hade volver?
Não desperdices, querida,
A duvidar e a soffrer
O que é mal gasto da vida
Quando o não gasta o prazer.
XII.
A JOVEN AMERICANA.
Donde é que te eu vi, donzella,
E o que eras tu n’esta vida
Quando não tinhas vestida
A fórma de virgem bella
Que ora te vejo trajar?
Estrêlla foste no ceo,
Serias no prado flor?
Ou, no diaphano splendor
De que Iris faz o seu veo,
Estavas, Silpha, a bordar?
Não houve poeta ainda
Que te não visse e cantasse,
Mulher que não te invejasse,
Nem pintor que a face linda
Te não fôsse copiar.
Seculos tens.—E ah!... ja sei
Quem es, quem foste e hasde ser:
Bem te eu estava a conhecer
Quando primeiro te olhei
Sem te podêr estranhar.
Com Deus e co’a Liberdade
De nossas terras fugiste
Quando perdidos nos viste,
E te foste á soledade
Do novo-mundo acoitar.
Pois que ora piedosa vens
E nos sentes resurgir,
Oh! não tornes a fugir,
Que melhor patria não tens
Nem que mais te saiba amar.
Teu natal celebraremos
Hoje e sempre: teus amigos
Somos na lealdade antigos,
E no ardor novos seremos,
No desvéllo em te adorar:
Porque tu es o Ideal
Da só belleza—do Bem;
Não es estranha a ninguem,
E de ti só foge o mal
Que te não póde incarar.
XIII.
ADEUS, MÃE!
—‘Adeus, mãe! adeus, querida,
Que eu ja não posso co’a vida,
E os anjos chamam por mim.
Adeus, mãe, adeus!... Assim,
Juncta os teus labios aos meus,
E recebe o último adeus
N’este suspiro... Não chores,
Não chores: aquellas dores
Ja sinto accalmar em mim.
Adeus, mãe, adeus!... Assim,
Juncta os teus labios aos meus...
Um bejo—um último... Adeus!’
E o corpo desanimado
No collo da mãe cahia;
E ella o corpo... só pesado,
Só mais pesado o sentia!
Não se lamenta, não chora,
E quasi a surrir, dizia:
—‘Que tem este filho agora,
Que tanto pésa? Não posso...’
E uma a uma, osso por osso,
Com a mão trémula tenta
As mãosinhas descarnadas,
As faces cavas, myrradas,
A testa inda morna e lenta.
—‘Que febre, que febre!’ diz;
E em tudo pensa a infeliz,
Tudo que ha mau lhe occorreu,
Tudo—menos que morreu.
Como nos gelos do norte
O somno traidor da morte
Ingana o desfallecido
Que imagina adormecer,
Assim cançado, esvahido
De tam longo padecer,
Ja não ha no coração
Da mãe fôrça de sentir;
Não tem ja lume a razão
Senão só para a illudir.
Acorda, ó mãe desgraçada,
Que é tempo de despertar!
Anda ver a eça armada,
As luzes que ardem no altar.
Ouves? É a rouca toada
Dos padres a psalmear?...
Vamos, que a hora é chegada,
É tempo de o amortalhar.
E os anjos cantavam:
‘Alleluia!’
E os sanctos clamavam:
‘Hosanna!’
Ao triste cantar da terra
Responde o cantar do ceu;
Todos lhe bradam:—‘morreu!’
E a todos o ouvido cerra.
E os sinos a tocar,
E os padres a rezar,
E ella ainda a accalentar
Nos braços o filho morto,
Que ja não tem mais confôrto,
Mais socêgo n’este mundo
Que o jazigo humido e fundo
Onde hade ir a sepultar.
Levae, ó anjos de Deus,
Levae essa dor aos ceus.
Com a alma do innocente
Aos pés do Juiz Clemente
Ahi fique a sancta dor
Rogando á Eterna Bondade
Que extenda a immensa piedade
A quantos peccam d’amor.
XIV.
AVE, MARIA!
Maria, doce mãe dos desvalidos,
A ti clamo, a ti brado!
A ti sobem, senhora, os meus gemidos,
A ti o hymno sagrado
Do coração de um pae voa, ó Maria,
Pela filha innocente.
Com sua debil voz que balbucia,
Piedosa mãe clemente,
Ella ja sabe, erguendo as mãos tenrinhas,
Pedir ao Pae dos ceos
O pão de cada dia. As preces minhas
Como irão ao meu Deus,
Ao meu Deus que é teu filho e tens nos braços,
Se tu, mãe de piedade,
Me não tomas por teu? Oh! rompe os laços
Da velha humanidade;
Despe de mim todo outro pensamento
E van tenção da terra;
Outra glória, outro amor, outro contento
De minha alma desterra.
Mãe, oh! mãe, salva o filho que te implora
Pela filha querida.
Demais tenho vivido, e só agora
Sei o preço da vida,
D’esta vida, tam mal gasta e prezada
Porque minha só era...
Salva-a, que a um sancto amor está votada,
N’elle se regenera.
XV.
OS EXILADOS.
Á SENHORA ROSSI-CACCIA.[14]
Elles tristes, das praias do destêrro,
Os olhos longos e arrazados de agua
Estendem para aqui... Cravado o ferro
Da saudade têem n’alma; e é negra mágua
A que lhes ralla os corações afflictos,
É a maior da vida—são proscrittos.
Dor como outra não ha, é a dor que os matta!
Dizer eu: ‘Essa terra é minha... minha,
Que nasci n’ella, que a servi, a ingrata!
Que lhe dei... dei por ella quanto tinha,
Sangue, vida, saude, os bens da sorte...
E ella, por galardão, me intrega á morte!’
Morte lenta e cruel—a de Ugolino![15]
Bem lhes quizeram dar...
Mas não será assim: sôpro divino
De bondade e nobreza
Não o póde apagar
Nos corações da gente portugueza
Esse rancor de fera
Que em almas negras, negro e vil impera.
Tu, genio da Harmonia,
Tu sólta a voz em que triumpha a glória,
Com que suspira amor!
Bella d’enthusiasmo e de fervor,
Ergue-te, ó Rossi, tua voz nos guia:
A tua voz divina
Hoje um echo immortal deixa na historia.
Inda no mar d’Egina
Soa o hymno d’Alceu;
E atravessaram seculos
Os cantos de Tyrtheu.
Mais poderosa e válida
A tua voz será;
A tua voz etherea,
Tua voz não morrerá.
Nós no templo da patria pendurâmos
Ésta c’roa singela
Que de myrtho e de rosas intrançâmos
Para essa fronte bella:
Aqui, de voto, ficará pendente,
E um culto de saudade
Aqui, perennemente,
Lhe daremos no altar da Liberdade.