NOTAS DE RODAPÉ:

[14] Cantando em um baile de subscripção que se deu em Lisboa em 29 de Março de 1845 a favor dos que n’esse anno estavam emigrados por fugir ás perseguições do Govêrno.

[15] Foi morto á fome com os filhos.

XVI.
PREITO.

É lei do tempo, Senhora,

Que ninguem domine agora

E todos queiram reinar.

Quanto vale n’esta hora

Um vassallo bem sujeito,

Leal de homenage e preito

E facil de governar?

Pois o tal sou eu, Senhora:

E aqui juro e firmo agora

Que a um despotico reinar

Me rendo todo n’esta hora,

Que a liberdade sujeito...

Não a reis!—outro é meu preito:

Anjos me hãode governar.

XVII.
NO LUMIAR.

Era um dia de Abril; a primavera

Mostrava apenas seu virgineo seio

Entre a folhagem tenra; não vencêra,

De todo, o sol o mysterioso inleio

Da nevoa rara e fina que extendêra

A manhan sôbre as flores; o gorgeio

Das aves inda timido e infantil...

Era um dia de Abril.

E nós iamos lentos passeiando

De vergel em vergel, no descuidado

Socêgo d’alma que se está lembrando

Das luctas do passado,

Das vagas incertezas do porvir.

E eu não cançava de admirar, de ouvir,

Porque era grande, um grande homem devéras

Aquelle duque—alli maior ainda,

Alli no seu Lumiar, entre as sinceras

Bellezas d’esse parque, entre essas flores,

A qual mais bella e de mais longe vinda

Esmaltar de mil côres

Bosque, jardim, e as relvas tam mimosas,

Tam suaves ao pé—muito ha cançado

De pisar alcatifas ambiciosas,

De tropeçar no perigoso estrado

Das vaidades da terra.

E o velho duque, o velho homem d’Estado,

Ao fallar d’essa guerra

Distante—e das paixões da humanidade,

Surria malicioso

D’aquelle surrir fino sem maldade,

Que tam seu era, que, entre desdenhoso

E benevolo, a quanto lhe sahia

Dos labios dava um cunho de nobreza,

De razão superior.

E então como elle a amava e lhe queria

A ésta pobre terra portugueza!

Velha tinha a razão, velha a experiencia,

Joven só esse amor.

Tam joven, que inda cria, inda esperava,

Inda tinha a fe viva da innocencia!...

Eu, na fôrça da vida,

Tristemente de mim me invergonhava.

—Passeavamos assim, e em reflectida

Meditação tranquilla descuidados

Iamos sós, ja sem fallar, descendo

Por entre os velhos olmos tam copados,

Quando sentimos para nós crescendo

Rumor de vozes finas que zumbia

Como enxame de abelhas entre as flores,

E vimos, qual Diana entre os menores

Astros do ceo, a fórma que se erguia.

Sôbre todas gentil, d’essa extrangeira

Que se esperava alli. Perfeita, inteira

No velho amavel renasceu a vida

E a graça facil. Cuidei ver o antigo

O nobre Portugal que resurgia

No venerado amigo;

E na formosa dama que surria,

O genio da subida,

Rara e fina elegancia que a nobreza,

O gòsto, o amor do Bello, o instincto da Arte

Reune e faz irmãos em toda a parte;

Que affere a grandeza

Pela medida só dos pensamentos,

Do stylo de viver, dos sentimentos,

Tudo o mais como futil desprezando.

Pensei que a saudar o velho illustre

Em seus ultimos dias

E a despedir-se, até Deus sabe quando,

De nossas praias tristes e sombrias,

Vinha esse genio... Tristes e sombrias,

Que o sol lhe foge, lhe esmorece o lustre,

E onde tudo o que é alto vai baixando...

O triste, o que não tem ja sol que o aqueça

Sou eu talvez—que, á míngua de fe, sinto

O cerebro gelar-me na cabeça

Porque no coração o fogo é extincto.

Elle não era assim,

Ou, sabía fingir melhor do que eu!

—Como o nobre corcel que invelheceu

Nas guerras, ao sentir o aureo telim

E as armas sôbre o dorso descarnado,

Remoça o garbo, em juvenil meneio

Franja de espuma o freio,

E honra os brazões da casa em que foi nado.

Nunca me hade esquecer aquelle dia!

Nem os olhos, as fallas, e a sincera

Admiração da bella dama ingleza

Por tudo quanto via;

O fructo, a flor, o aroma, o sol que os gera,

E ésta vivaz, vehemente natureza,

Toda de fogo e luz,

Que ama incessante, que de amar não cança,

E continua produz

Nos fructos o prazer, na flor a esp’rança.

Alli as nações todas se junctaram,

Alli as várias línguas se fallaram;

A Europa convidada

Veio ao festim—não ao festim, ao preito.

Vassallagem rendida foi prestada

Ao talento, á belleza,

A quanto n’alma infunde amor, respeito,

Porque é devéras grande:—que a grandeza

Os homens não a dão;

Põe-na por sua mão

N’aquelles que são seus,

Nos que escolheu—só Deus.

Oh! minha pobre terra, que saudades

D’aquelle dia! Como se me aperta

O coração no peito co’as vaidades,

Co’as miserias que ahi vejo andar álerta,

Á sôlta, appregoando-se! Na intriga,

Na traição, na calúmnia é forte a liga,

É fraca em tudo o mais...

Tu, socegado

Descança no sepulchro; e cerra, cerra

Bem os olhos, amigo venerado,

Não vejas o que vai por nossa terra.

Eu fecho os meus, para trazer mais viva

Na memoria a tua imagem

E a dessa bella Ingleza que se esquiva

De nós entre a folhagem

Dos bosques de Parthenope. Cançado,

Fito n’esta miragem

Os olhos d’alma, em quanto que arrastado,

Vai o tardio pé

Por este que inda é,

Que cedo não será, bem cedo—em mal!

O velho Portugal.[16]