NOTAS DE RODAPÉ:

[16] Estes versos foram inspirados pela visita da celebrada Mrs. Northon á quinta do Lumiar, onde o fallecido duque de Palmella reuniu, para a festejar, alguns poucos amigos escolhidos. Foi nos ultimos tempos de sua vida. Mrs. Northon reside actualmente em Napoles, a Parthenope de que falla o texto.

XVIII.
A UM AMIGO.

Fiel ao costume antigo,

Trago ao meu joven amigo

Versos proprios d’este dia.

E que de os ver tam singelos,

Tam simples como eu, não ria

Qualquer os fara mais bellos,

Ninguem tam d’alma os faria.

Que sôbre a flor de seus annos

Soprem tarde os desinganos;

Que emtôrno os bafeje amor,

Amor da espôsa querida,

Prolongando a doce vida

Fructo que succeda á flor.

Recebo este voto, amigo,

Que eu, fiel ao uso antigo,

Quiz trazer-te n’este dia

Em poucos versos singelos,

Qualquer os fara mais bellos,

Ninguem tam d’alma os faria.

XIX.
OS LUSIADAS.

EPILOGO DE PAGGI.
I.

Co’a doce voz o cysne lusitano

Assim as proprias feras abrandava;

Mas nem o Tejo, de seu canto ufano,

Nem as ingratas Tagides tocava:

De seu impio destino deshumano

Nunca as íras fataes, nunca domava;

Nem achou entre os seus humanidade

Quem moveria as pedras á piedade.

II.

Ingrata patria, o ingenho sublimado

Digno de um capitolio em Roma antiga,

Tu não o ergueste d’esse baixo estado

Em que só por tua glória se affadiga!

O ingenho que te inveja mallogrado

Toda a nação de meritos amiga,

Tu na vida em miserias o deixaste,

E em leito vil á fome o assacinaste!

III.

Vai! Sua glória é mais hoje a maravilha

Das gentes, porque mais o perseguiste;

Morre o teu nome quando o seu mais brilha,

Despojam delle a tua lingua triste;

Iberia o adoptou, França o perfilha,

Britannia o quer; e agora eterno existe,

Que n’um e n’outro italico idioma

Entre os seus vates o colloca Roma.

IV.

Tu fica-te c’os ossos deshonrados

Que te accusam de ingrata ao ceo e á terra;

Seu spirito, esse vai onde prezados

São virtude e talento, e onde ímpia guerra

Stulto o podêr não faz aos mais honrados:

Mais de outros ja que teu, ja não se incerra

N’um canto do orbe sua altiva fama,

Que Augusto a ampara e um Alexandre a acclama

V.

Lá onde surge de alto monte, e brilha

Sôbre a escolhida grey de Deus a estrêlla,

E egual áquella antiga maravilha

Que os reis guiou a Deus, sôbre os reis véla,

Lá onde ao merito o podêr se humilha,

Beja a paz da justiça a face bella,

E de illustre carvalho á sombra amena

Descança Roma no velar de Siena,[18]

VI.

Lá vai, minha obra, e d’esta luz roubada

Tu leva á patria musa esses primores;

Em falla ignota estava sepultada,

Raios de extranho sol são seus fulgores.

Vai, viverás: tambem com luz furtada

Deu vida Prometheu. Se mais não fores,

Serás reflexo de belleza, lustre,

E de eterno splendor émula illustre.[19]

XIX.
LA LUSIADA.

EPILOGO DI PAGGI.[17]
I.

Cotal cantava il lusitano cigno

Molcendo con sue voce anco le fere,

Non che l’amato patrio Tago e’l Migno,

E le del canto suo Tagide altere:

Che pur del suo destino empio e maligno

Non puote unqua addolcir l’ire severe;

Non trovando fra suoi humanitade

Quei ch’i scelsi avria mossi anco a pietade.

II.

Potesti, ingrata patria, un spirto degno

D’un campidoglio in una Roma antica,

Non sollevar da basso stato, indegno

Di cui fiè per te gloria ogni fatica?

Un spirto che t’invidia al maggior segno

Ogni altra nazion di mer’ti amica,

Veder soffristi vivo egro e scontento

Ed in vil letto di disagio spento!

III.

Ma vanne pur che, quanto iniqua, austera

Fusti com lui, tanto fra l’altre genti

Sorgerá la sua gloria ove tua pera,

Fino a caciarne i tuoi nativi accenti.

Adotteranlo la nazione ibera,

La franca, use adottar spirti eminenti,

L’angla; ed ambe le italiche favelle

Vorran che viva fra suoi poeti anch’elle.

IV.

Tienti pur l’ossa inonorate ancora

Che t’accusan d’ingrata anco sepulte;

Che lo spirto di lui, gia di te fuora

Non errará, ne fien sue pene inulte;

Vedrailo accolto ove virtu s’onora:

Gia piu d’altri che tuo, fra le piu culte

Genti del orbe, e maturar sua speme

Sotto un Augusto e un Alessandro insieme

V.

La ve ad illuminar da eccelso monte

Astro di Dio, l’eletta gregia, sorge,

Che al par di quel che ad inchinar la fronte

Condussi i regi a Dio, i regi scorge,

La dove il merto abbatte sforzi ed onte,

La giustizia à la pace il labro porge,

E di quercia Feretria à l’ombre amena

Riposa Roma al vigilar di Siena.

VI.

Or la vanne, opra, ed à le patrie muse,

Quasi terzo cristal le luci rendi

Che sotto ignoto dir sepolte e chiuse

Da sol che altrove splende or furi e prendi.

Vanne, e qual gia Prometteo anima infuse

Con le luci non sue, tu vita attendi:

Spechio del altrui bello, emulo industre

E d’eterno splendor riflesso illustre.