NOTAS DE RODAPÉ:

[17] Paggi esteve muitos annos em Lisboa, e aqui publicou duas edições da sua traducção dos LUSIADAS, que, se não tem o valor poetico da de Nervi, nem a fidelidade da de Briccolani, é todavia muito apreciavel. Este epilogo foi tirado da seg. edic. de 1659—que é a mais correcta, conservando-se-lhe a propria orthographia.

[18] Cidade do gran’-ducado de Toscana, patria do papa Alexandre VII, a quem a versão dos Lusiadas foi dedicada.

[19] Publicando-se a primeira vez ésta traducção dos versos de Paggi no 2.º num. do vol. II do jornal, a SEMANA, appareceu com uma introducção, da qual julgâmos dever extractar alguns paragraphos:

‘Um nome illustre e portuguez, germanado pela inspiração e pelas tradicções patrias com a glória de Camões, associa-se hoje á nobre desaffronta que um estrangeiro soube, ha seculo e meio, escrever no fim dos Lusiadas em honra das esquecidas cinzas de Camões. O estrangeiro foi Carlos Antonio Paggi, que na sua traducção italiana dos Lusiadas accrescentou, como epilogo, seis formosas strophes em honra do poeta que a patria, ou antes a côrte do seu tempo, votára á humiliação e á indigencia. O nome glorioso na historia contemporanea das nossas lettras, é o de Almeida Garrett, que em bellissimos versos portuguezes trasladou a elegia melancolica com que o italiano Paggi apostrophou a indifferença, ou o desprêzo que foram em vida de Camões a tença mais avultada que os poderosos lhe destinaram no seu livro de mercês.

‘Quem gravou mais estes versos na loisa de Camões, quem lhe refrescou as cinzas com mais esta saudade, foi o poeta, que resume no seu nome, como n’um traço conciso, toda uma regeneração litteraria, o poeta que marca no stadio das lettras um repoiso ameno depois do servilismo, ou da inanição da poesia nacional; o mesmo que celebrou Camões em versos ungidos de sentimento e de saudade íntima; aquelle que interrogou os portuguezes sobre o logar onde jaziam os ossos do maior genio da nossa terra; foi o proprio que em Portugal, onde só a opulencia tem monumentos, e a nullidade estátuas, levantou o mais clamoroso brado a favor daquella pobre ossada, perdida, profanada, pisada talvez sacrilegamente pelos filhos degenerados d’uma patria invilecida; foi aquelle mesmo que rematou tambem um dos seus mais graciosos e sentidos poemas, com ésta apostrophe, temerosa e solemne, ja tantas vezes citada por nacionaes e extrangeiros:

Onde jaz, portuguezes, o moimento

Que do immortal cantor as cinzas guarda?

Homenagem tardia lhe pagastes

No sepulchro siquer? Raça d’ingratos!

XX.
O TEJO.
AO SENHOR VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT.
PELO CONDE DE CAMBURZANO.

N’essas margens risonhas do Tejo

Não ha som que não cante de amor;

Em suas ondas azues o lampejo

Das estrêllas, no albor, se espelhou.

XX.
IL TAGO.
AL SIGNOR VISCONTE DE ALMEIDA-GARRETT.
DAL CONTE DI CAMBURZANO.

Sule sponde ridenti del Tago

Dice ogni eco canzone d’amore;

In que’ flutti d’azzuro sì vago

Ogni stella al mattin si spechiò.

Essa terra produz a violeta

Ao primeiro surrir da manhan,

Vago Zephyro a flor indiscreta,

Sussurrando, lascivo beijou.

É loquaz este bosque sombrio,

Cheio ainda do canto dos bardos;

Aqui é Tempe, aqui o Menalo frio,

E o Meandro que os cysnes produz.

Oiço uns echos de magica lyra

Pela noite ir ao longo da praia...

Quem é esse tam fero que ahi gyra

E do dia desdenha da luz?

É Catão,[20]—só a este não doma

Quem a terra fez muda a seu mando;

É Catão—a infamia de Roma

Na sua frente jamais não pesou.

Quella terra produce la viola

Al primiero dell’ alba sorriso,

Zefiretto che lene trasvola

Susurrando quel fiore baciò.

Son loquaci le brune foreste,

Piene ancora del canto de’ bardi;

Quivi è Tempe, quì Menalo agreste,

E’l Meandro che i cigni nutrì.

Odo un suono di magica lira

Lungo il lido sull’ umida sera...

Chi è colui che sì fiero s’aggira

E disdegna la luce del di?

Egli é Cato[21], lui solo non doma

Chi la terra fè muta á suoi cenni;

Egli é Cato, l’infamia di Roma

Sul suo capo giammai non pesò.

Como geme alva pomba ferida,

Assim Merope[22] geme e lamenta;

Soam trompas guerreira alarida,

E a alegria ao seu peito voltou.

Nas cumiadas de Herminio[23] nevosas,

Que dos horridos gelos se c’roam,

Ve a aurora coberta de rosas

De belleza em que pompa surgiu!

Na hástea debil as tenras florinhas

Vão o puro rocio bebendo,

Cada gotta do ceo, nas hervinhas,

Ricca perola ardente luziu.

Mas o Genio do monte, que horrendo

Entre as sombras impera da noite,

Bate as azas, ja foge e fremendo

No profundo do mar mergulhou.

Come gemon le bianche colombe,

Cosi Merope[24] piange e lamenta;

Ma improviso squillare di trombe

Alta gioja in suo cuore versò.

Su le cime d’Erminio[25] nevose,

Cui fan gl’orridi ghiacci corona,

Ve’ l’aurora cosparsa di rose

Qual fa pompa di rara beltà!

I fioretti sul gracile stelo

Van bevendo la pura rugiada,

Ogni stilla caduta dal cielo

Fra l’erbette una perla si fa.

Ma lo Spirto del monte, che orrendo

Tiene impero fra l’ombre di notte,

Bate l’ali, gia fugge e fremendo

Nel profondo dei mari piombó.

Repentino lá surge um guerreiro,

Torvo o cenho, a armadura de ferro...

É Viriato... a seus pés—o primeiro!—

Calca as Aguias que o mundo adorou.

Da caverna que os ossos lhe incerra

Surde a voz... Inclinae as cabeças

Ante o livre que impavido á terra

—Ou morrer—ou salvá-la jurou...

Immudece a harpa.—O nome adorado

Da sua Julia[26] as Driades cantem!

Sôbre a fronte ao poeta sagrado

Phebo proprio os seus loiros poisou.

Un guerriero repente si desta,

Torvo il ciglio, rachiuso nell’arme,

É Viriato... un vessillo calpesta

Che tremante la terra mirò.

Dallo speco che l’ossa ne serra

Una voce si parte—t’inchina

A colui che la libera terra

O far salva o perire giurò...

Tace l’arpa... Di Giulia[27] ripeta

Ogni Driade il nome soave!...

Su la fronte del sacro poeta

Febo istesso l’alloro posò.