A QUEM LER
A minha primeira ideia quando intentei esta collecção, foi dar ao publico um extracto das melhores poesias de nossos classicos. Reflecti depois que não seria ella completa, porque alguns generos ha que não tractaram aquelles illustres escriptores: e em tam rica litteratura como é a portugueza, pena fôra mostrar pouquidade e pobreza. Resolvi-me por esse motivo a sahir dos limites classicos. Mas ainda apparecia outra difficuldade: especies ha de poesia em que não escreveram senão auctores vivos; atterrava-me a lembrança de haver de julgar e escolher obras que aguardam ainda o conceito da posteridade, quasi sempre unico tribunal recto das cousas dos homens, especialmente de materia de gôsto. Todavia o mesmo motivo de querer fazer esta escolha o mais completa que é possivel, me determinou a arrostar ess’outro escolho. Procurei nos escriptores vivos cingir-me quanto racionavelmente pude á mais geral opinião, escolhendo aquelles trechos que mais approvados teem sido; observando pela minha parte a mais rigorosa imparcialidade que humanamente se póde. E sendo, como sou, alheio a toda disputa e rivalidade litteraria e poetica, se alguma hora no decurso d’esta obra julgarem deslisei d’essa proposta impassibilidade, peço que o attribuam a erro de meu juizo, não a proposito deliberado.[33]
Queria eu tambem ao principio conservar a cada escriptor sua particular orthographia; mas a isso obstaram dous insuperaveis obstaculos. Primeiro—não haver, sôbre tudo nos classicos, uma base boa ou má em que cada um d’elles fundasse a sua orthographia para se poderem regularizar as incalculaveis anomalias que se encontram em uma mesma obra, na mesma pagina ás vezes. Segundo—que havendo sido muitas das obras de nossos poetas antigos e modernos publicadas posthumas, é impossivel acertar com o verdadeiro systhema orthographico d’elles. Esta impossibilidade augmentou ainda e se estendeu áquelles que apezar de publicarem suas obras em vida, cahiram em mãos de novos editores todos ignorantes ou descuidados (nenhum conheço, a quem fique mal o epitheto) que em vez de as melhorarem, estragaram e confundiram tudo. Ora d’alguns d’esses não foi possivel, por mais diligencias que se fizeram, descubrir as primeiras edições, as quaes, segundo observei, ainda assim, não serviriam de muito.
Accresciam a estes dous motivos a feia apparencia que teria a obra que mais houvera ficado recosida manta de retalhos furtacôres, do que uma collecção de poetas da mesma lingua.
Determinei pois imprimir tudo com regular e geral orthographia; cujos principios extrahi do uso dos melhores classicos, uso que nem sempre seguiram, mas que manifestamente se vê quizeram seguir; e são estes:
I. Conservar fielmente a ethymologia quando se lhe não oppõe a pronúncia.
II. Combiná-la com a pronúncia quando ésta se oppõe á inteira conservação d’aquella.
III. Nas palavras de raiz incognita seguir o uso geral.
IV. Nas diversas modificações dos verbos conservar sempre a figurativa quando a pronúncia não obsta.
V. Não pôr accentos (agudo e circumflexo que são os unicos portuguezes) senão onde a palavra sem elles se confundiria com outra. (Tambem me servi do agudo para marcar a dieresis por não estar aínda adoptado entre nós o signal (..) que é bem necessario).
Julgo haver prestado algum serviço á litteratura nacional em offerecer aos estudiosos de sua lingua e poesia um rapido bosquejo da historia de ambas. Quem sabe que tive de encetar materia nova, que portuguez nenhum d’ella escreveu, e os dous estrangeiros Bouterweck e Sismondi incorrectissimamente e de tal modo que mais confundem do que ajudam a conceber e ajuizar da historia litteraria de Portugal; avaliará decerto o grande e quasi indizivel trabalho que me custou esse ensaio. Não quero dá-lo por cabal e perfeito; mas é o primeiro, não podia se-lo. Além de que, a maior parte das ideias vão apenas tocadas, porque não havia espaço em obra de taes limites para lhe dar o necessario desenvolvimento.
NOTAS DE RODAPÉ:
[33] Muito tempo hesitei se daria logar n’esta collecção a um poeta (hoje morto) em quem de certo houve algum ingenho, mas que ignorou e desprezou a tal ponto a lingua, tam cynicamente violou o decoro do stylo, as mais indispensaveis regras do gôsto e da boa razão, que seus poemas são uma sentina de gallicismos, e um apontoado de termos baixos, de expressões que não usa gente de bem, de construcções barbaras, de versos prosaicos, semeados áquem além de uma ideia feliz, de um bom verso, de uma imagem poetica. Já se vê que esta descripção a ninguem quadra senão ao Santos e Silva. Cedi tambem n’este ponto á opinião que o considera mais do que elle vale, e escolhi o que me pareceu menos barbaro da tal excentrica Braziliada: e provavel é que escolhesse mal, porque difficil é julgar um homem bem quando está cahindo com somno.
Fui obrigado a pôr um grande pedaço, porque em maior espaço appareceria um maior numero d’esses poucos descuidos felizes do auctor.
BOSQUEJO
DA
HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA
I
Origem de nossa lingua e poesia
A lingua e a poesia portugueza (bem como as outras todas) nasceram gemeas, e se criaram ao mesmo tempo. Erro é commum, e geral mesmo entre nacionaes, pela maior parte pouco versados em nossas cousas, o pensar que a lingua portugueza é um dialecto da castelhana, ou hespanhola segundo hoje inexactamente se diz.
Das variadas combinações das primitivas linguagens das Hespanhas com o Grego, o Latim, com os barbaros idiomas dos invasores do norte, e alfim com o Arabigo, nasceram em diversas partes da Peninsula diversissimas linguas que nem dialectos se podem chamar geralmente, porque, além de não haver uma commum, de muitos d’elles é tam distincta a indole e tam opposta que se lhes não colhe similhança.
Ninguem ignora hoje que o Proençal foi a primeira que entre as linguas modernas se cultivou, mas que por sua breve dura não chegou nunca á perfeição. Das nações da Hespanha, as mais vizinhas áquelle crepusculo de civilização primeiro melhoraram sua linguagem: mas tambem lhes coube igual sorte; nunca de todo se puliram. O Castelhano e Portuguez, que mais tarde se cultivaram, permaneceram pelo sabido motivo da conservação da independencia nacional, e vieram a completo estado de perfeição e caracter cabal de linguas cultas e civilizadas. O Biscaínho, Catalão, Gallego, Aragonez, Castelhano, Portuguez e outras mais foram e são ainda alguns distinctos idiomas: porém so os dous ultimos tiveram litteratura propria e perfeita, linguagem commum e scientifica, tudo emfim quanto constitue e caracteriza (se é licita a expressão) a independencia de uma lingua.
Grande similhança ha entre o Portuguez e Castelhano; nem podia ser menos quando suas capitaes origens são as mesmas e communs: porém tam parecidas como são pelas raizes de derivação; no modo, no systhema d’essas mesmas derivações, na combinação e amalgama de identicas substancias e principios se vê todavia que diversos agentes entraram, e que mui variado foi o resultado que a cada uma proveio. Filhas dos mesmos paes, diversamente educadas, distinctas feições, vario genio, porte e ademan tiveram: ha comtudo nas feições de ambas aquelle ar de familia que á prima vista se colhe.
Este ar de familia enganou os estrangeiros, que sem mais profundar, decidiram logo, que o Portuguez não era lingua propria. Esse achaque de decidir afoitamente de tudo é velho, sobre tudo entre francezes, que são o povo do mundo entre o qual (por philaucia de certo) menos conhecimento ha das alheias cousas.
Sem dúvida é que a lingua portugueza começou com seus trovadores, unicos no meio do estrepido das armas que algum tal qual cultivo lhe podiam dar; e provavel é que assim fosse com pouco melhoramento até os tempos d’el-rei D. Diniz, que no remanso da paz de seu reinado protegeu e animou as lettras, que elle proprio cultivou tambem.
II
Primeira epocha litteraria; fins do XIII até os principios do XVI sec.
D. João I o eleito do povo, e o mais nacional de todos os nossos reis, deu ao idioma patrio valente impulso, mandando usar d’elle em todos os actos e instrumentos publicos, que até então se fazim em Latim. Foi esta lei carta de alforria e de cidade para a lingua que atélli vivera escrava da dominação latina, a qual sobrevivera não só ao imperio romano, mas a tantas conquistas e reconquistas de tam desvairados povos.
Aqui se deve pôr a data da verdadeira aurora das lettras em Portugal, que por singular phenomeno pouco visto entre outros povos, raiou ao mesmo tempo com a das sciencias; por maneira que quando o romantico alaúde de nossas musas começava a dar mais afinados sons, e a subir mais alto que o atélli conhecido, as sciencias e as artes cresciam a ponto de espantar a Europa, mudar a face do mundo, e alterar o systema do universo.
Desde então até á morte d’el-rei D. Manuel, tudo foi crescer em Portugal; artes, sciencias, commércio, riqueza, virtudes, espirito nacional.
Muitas foram as producções de nossa litteratura n’aquelle seculo de glória em que Gil-Vicente abriu os fundamentos ao theatro das linguas vivas, Bernardim Ribeiro puliu e adereçou com alguns mimos da antiguidade o genero inculto dos romances[34] e seguiu (quasi o segundo) o caminho encetado pelo nosso Vasco de Lobeira nas composições romanescas; e ao cabo mostrou aos rusticos pastores do Tejo alguns dos suaves modos da frauta de Sicilia que nenhuma lingua viva até então ouvira soar.
A natural suavidade do idioma portuguez, a melancholia saudosa de seus numeros nos levaram á cultura d’este genero pastoril, em que raro poeta nosso deixou de escrever, quasi todos bem, porque a lingua os ajudava; nenhum perfeitamente, porque (inda mal) deram ás cegas em imitar Sannazaro, depois Boscan e Garcilasso, e copiaram pouco do vivo da natureza, que tam bella, tam rica, tam variada se lhes presentava por todas as quatro partes de que em breve constou o mundo portuguez, e das quaes todas ou assumpto ou logar de scena tiraram nossos bucolicos. Nem d’este geral defeito[35] (o maximo que por ventura se lhes nota) póde fazer-se excepção, senão fôr alguma rara em favor de Camões e de Rodrigues Lobo. O Tejo, o Mondego, os montes, os sitios conhecidos de nosso paiz e dos que nos deu a conquista, figuram em seus poemas; porêm raro se vê descripção que recorde alguns d’esses sitios que já vimos, que nos lembre os costumes, as usanças, os preconceitos mesmos populares; que d’ahi vem á poesia o aspecto e feições nacionaes, que são sua maior belleza.
Bernardim Ribeiro foi um tanto mais original em sua simplicidade, o que lhe falta de sublime e culto sobeja-lhe em brandura, e n’uma ingenua ternura que faz suspirar de saudade, d’aquella saudade cujo poeta foi, cujos suaves tormentos tam longo padeceu, e tam bem pintou.
Foi seu contemporaneo Gil-Vicente fundador do theatro moderno, de cujas obras imitaram os Castelhanos; e d’ellas se espalhou pela Europa o mau e o bom d’essa irregular e caprichosa scena, que ainda assim suas bellezas tem.
O proprio Gil-Vicente não deixa de ter seu comico sal, e entre muita extravagancia muita cousa boa. Bouterweck e Sismondi parece que escolheram o peior para citar; muito melhores cousas tem, particularmente nos autos, superiores sem comparação ás comedias. A soltura da phrase, e a falta de gôsto são os defeitos do seculo; o ingenho que d’ahi transparece é do homem grande e de todas epochas[36].
NOTAS DE RODAPÉ:
[34] Não no sentido de novellas, mas no que então se lhe dava.
[35] Commum tambem nos outros generos de poesia, onde quer que entra o descriptivo.
[36] Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto, fructo de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto, e demonstrar o que aqui enuncio.
III
Segunda epoca litteraria; idade de ouro da poesia e da lingua desde os principios do XVI até os do XVII sec.
Com a morte d’el-rei D. Manuel declinou visivelmente a fortuna portugueza: certo é que as artes progrediram, que a lingua se aperfeiçoou; porêm esse movimento era continuado ainda do impulso anterior e já não promettia longa dura. Assim succedeu. D. João III colheu os fructos do que D. Manuel havia semeado; mas de lavras suas, nem elle, nem seus successores viram colheita.
Uma cousa todavia que muita influencia teve sobre a lingua e litteratura portugueza e que a instituições de D. João III se deve, foi o cultivo das linguas classicas, que na reformação da universidade de Coimbra augmentou muito. Os modelos gregos e romanos foram então versados de todas as mãos, estudados, traduzidos, imitados. Aperfeiçoou-se a lingua, enriqueceu-se, adquiriu aquella solemnidade classica que a distingue de todas as outras vivas, seus periodos se arredondaram ao modo latino, suas vozes tomaram muito da euphonia grega; d’um e d’outro d’esses idiomas lhe vieram as muitas, e principalmente da grega, os muitos hyperbatos; com o que vai rica, livre e magestosa por todas as provincias da litteratura, que tem decorrido, não havendo ahi genero de composição, para o qual, ou por doce de mais como o Toscano, não seja propria,—ou por mui aspera e guindada como o Castelhano, se não adapte,—por curta como o Francez, não chegue,—por inflexivel e rispida como o Alemão e Inglez, se não amolde.
Claro é que a historia, a oratoria, todas as artes do discurso deviam de florescer com tal augmento. Com ellas todas medrou e cresceu a poesia na delicadeza, na harmonia, no gôsto; porêm desmereceu muito, demasiado na originalidade, no caracter proprio, que perdeu quasi todo, em a nacionalidade, que por mui pouco se lhe ia. Todos os deuses gregos tomaram posse do maravilhoso poetico, todas as imagens, todas as ideias; todas as allusões do tempo de Augusto occuparam as mais partes da poesia; e mui pouco ficou para o que era nacional, para o que já tinhamos, para o que podiamos adquirir ainda, para o que naturalmente devia nascer de nossos usos, de nossas recordações, de nossa archeologia, do aspecto de nosso paiz, de nossas crenças populares, e emfim de nossa religião.
Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa poesia, um dos maiores homens de seu seculo, foi o poeta da razão e da virtude, philosophou com as musas, e poetisou com a philosophia. Seu muito saber, sua experiencia, seu tracto affavel, e até a nobreza do seu nascimento, lhe deram indisputada superioridade a todos os escriptores d’aquelle tempo, dos quaes era ouvido, consultado e imitado. Sá de Miranda exerceu sobre todos os poetas d’aquella epocha a mesma especie de imperio que veio a ter Boileau em França, e mais modernamente Francisco Manuel entre nós. Introduziu na poesia os metros italianos, e os modos, versos e combinações de rhymas de Dante e Petrarca: e desd’ahi quasi se abandonaram inteiramente (excepto nas voltas e glosas) os nossos antigos versos de redondilha, e absolutamente os de arte maior e menor, que ainda assim mui proprios são para certos assumptos, segundo com feliz exemplo no-lo mostraram antigos e modernos poetas. Nem o mesmo Sá de Miranda igualou nunca em composições hendecasyllabas a pureza, a correcção, a naturalidade e sublime simplicidade de suas redondilhas nas epistolas, que hoje são seu maior e quasi unico titulo de glória.
São de admirar suas comedias, e são notavel monumento para a historia das artes pela feliz imitação dos antigos, e pelo que excedem quanto até então se tinha escripto. Porem o theatro portuguez creado pela musa negligente e travêssa de Gil-Vicente e João Prestes, carecia de reforma, mas não podia supportar uma revolução. As comedias de Sá de Miranda sem caracter nacional, mui classicas de mais não eram para reformá-lo: o mesmo direi, e o mesmo succedeu ás de Ferreira, a algumas poucas mais que depois vieram. O effeito d’estas composições, aliás preciosas, foi funesto: os litteratos enjoaram-se (e com razão) do theatro nacional, e não se deram a corrigi-lo e melhora-lo: o publico preferia (e com razão tambem) o com que fôra creado, o que o interessava, o que o divertia, e antes queria rir com as grosserias dos autos populares, que bocejar e adormecer-se com as finuras d’arte e correcções d’essas comedias, que tudo tinham, menos interesse, onde todo o spirito havia, menos o nacional.
Se houveram Sá de Miranda e Ferreira escolhido assumptos portuguezes, se houveram pintado os costumes nacionaes, e presentado ao publico, em vez de quadros italianos, um espelho em que se elle visse a si e aos seus usos, e se risse de seus proprios defeitos; fico em que houveram reformado o theatro em vez de lhe empecer: e acaso gosariamos ainda hoje em uma scena rica e abastada dos resultados d’esse impulso, quando não temos senão que chorar, e vivemos, sobre o theatro, das migalhas que mendigamos a estrangeiros pelo triste meio de traducções, que (as dramaticas sôbre tudo) nunca podem ser boas.
Sá de Miranda escreveu além d’isto algumas eclogas bastante frias, varios sonetos geralmente de pouca monta. Um d’elles á morte de Leandro e Hero é excellente, mas castelhano, e por esse achaque o não incluí na escolha.[37]
Não posso deixar de querer mal a tam illustre portuguez pelo muito que escreveu n’essa lingua estranha; com que não só privou a natural do fructo de suas tarefas, mas fez maior damno ainda com o exemplo que abriu; exemplo funesto que nos cerceou a litteratura, que nos defraudou d’uma Diana de Monte-maior, de tantas boas coisas mais, e ao cabo ia perdendo a lingua.
Mas eis ahi Antonio Ferreira para combater esse mal em sua origem: ei-lo ahi esse portuguez verdadeiro, ardente amador da lingua, clamando a todos, pugnando contra todos os que não prezavam e aditavam o patrio idioma com as producções do ingenho e das artes. O profundo conhecimento dos classicos gregos e latinos, o finissimo gosto que em seu estudo tinha adquirido, a felicidade com que sempre os imitou, a pureza da phrase, as riquezas com que adornou a lingua deram aos versos de Ferreira grande popularidade entre os litteratos e cortezãos (que, ao aveço de hoje, as lettras viviam então quasi só na côrte) e fixaram determinadamente o genero classico entre nós.
Cegou-se todavia o nosso bom Ferreira na imitação dos antigos; copiou-os, não os imitou: e d’ahi, enriquecendo a lingua, empobreceu a litteratura, porque a avezou a esse hábito de copista; cancro que roe o espirito creador, alma e vida da poesia nacional. Tão cega foi esta imitação, que seus mesmos versos, aos quaes hoje ninguem defende da nota de asperos e duros (e muitos direi—errados) os fazia assim de proposito por querer usar das ellipses gregas e latinas, a que repugna a indole de nossa lingua, so toleraveis em certas vozes que na prosa mesma se pronunciam e escrevem no final com m ou sem elle. Este desagradavel defeito dos versos de Ferreira é principalmente sensivel nas dicções que teem final no que chamámos (mal ou bem) diphtongos nasaes de ão, e muito mais quando n’elle é o accento predominante da palavra.
Os sonetos são frios, desengraçados; nas eclogas ha bellezas muitas e mui grandes, mas espalhadas: nenhuma d’estas composições tomada per si póde merecer o nome de bella. Porem das odes, ha d’ellas que são puramente horacianas, e se lhes fallece a elevação (que não era esse o genio de Ferreira) sobeja-lhe a graça, a elegancia e a adornada philosophia, que não agradam menos, nem de menos valor e merito são que os extasis pindaricos, ou os requebros anacreonticos. O que é sem duvida é que nas linguas vivas Ferreira foi o primeiro imitador feliz de Horacio, e o primeiro dos modernos que pulsou a lyra classica. Das epistolas, ha algumas que podem pleitear em concisão e fino dizer com as boas do lyrico romano. Quanto á pureza da moral, ao nobre patriotismo, áquelle generoso sentimento da honrada liberdade de nossos avós, áquelle enthusiasmo da virtude; esse respira, mostra-se e resplandece em todas as suas obras.
Mas a verdadeira glória de Ferreira é a Castro, producção admiravel per si mesma, pelo tempo em que a escreveu, por todos os lados por que se considere. Não é ainda liquido entre os philologos se era possivel o ter visto Ferreira a Sophonisba de Trissino, que mui poucos annos antes da Castro appareceu: mas é sem a minima questão reconhecida a superioridade da tragedia portugueza á italiana: pasma como sem vêr um theatro, sem mais exemplares que os gregos e latinos, podesse Ferreira tratar tão delicadamente um tal assumpto em um genero desconhecido da antiguidade. É notavel a primeira scena da Castro, a scena d’el-rei e dos conselheiros no acto II., a do acto III. em que o côro traz a Castro as novas de sua cruel sentença, onde aquella pergunta de Ignez: «É morto o meu senhor, o meu infante?» rasgo de sublime, porém d’um sublime todo sensibilidade, ao qual nem o qu’il mourût de Corneille póde comparar-se; e finalmente os coros, que sem paixão são superiores a todos os exemplares da antiguidade, e não teem que invejar aos tão gabados da Athalia. Não dou a Castro por uma tragedia perfeita: ainda em relação ao seu tempo e aos conhecimentos da scena d’então tem ella defeitos: não haver uma scena em que se encontrem Pedro e Ignez, não haver algum esfôrço do infante para lhe valer, deixam a peça muito nua de acção, e lhe entibiam o interesse. A versificação (que todavia é de preferir aos versos sesquipedaes e himpados com que hoje está pervertida a scena portugueza) pécca geralmente por dura; mas essa mesma é por vezes bella; e para bons entendedores muito ha hi que estudar; e oxalá que os nossos dramaticos lessem e relessem bem a Castro, e apprendessem alli, pelo menos, naturalidade e verdade de expressão, que tanto lhes fallecem.
Não estava ainda n’este auge a poesia portugueza quando um homem pouco conhecido dos lettrados, mas já célebre per suas aventuras e valor, foi para tão longe da ingratissima patria despicar-se de seu desamor com a mais nobre vingança; a de levantar-lhe um padrão, com que não entram as idades, e que conservará ainda o nome portuguez quando já elle houver desapparecido da terra. Muita erudição (pois sabia quanto se soube em seu tempo), ingenho dos que véem ao mundo de seculos a seculos se reúniram em Camões. Esse homem levantou a cabeça la das extremidades d’Asia, e viu tudo pequeno á roda de si, todos os poetas pigmeus, todos acanhados com as linguas modernas ainda mal perfeitas, escravos da imitação classica, incertos e entalados todos entre o cego respeito da antiguidade e as novas precisões que as novas ideias, que o novo estado do mundo requeria. Teve animo para conceber e força para executar um rasgado e necessario atrevimento de se abrir caminho novo, de crear emfim a poesia moderna, dar não só a Portugal, mas á Europa toda um grande exemplo, e constituir-se o Homero das linguas vivas.
Não me dá espaço o acanho de meus limites para dizer de Camões o que era indispensavel; antes a celebridade de seu nome me deixará parar aqui para dar logar a tractar de menos conhecidos nomes. Só direi que a influencia de Camões na nossa poesia, e em toda a litteratura portugueza foi tal que desde então té hoje ainda se não deixou de sentir, mesmo nas epochas em que mais desvairados teem andado nossos poetas com as empolas do gongorismo, ou mais lunaticos com os esfusiotes do elmanismo. Quasi que não houve genero de poesia que não tractasse: tem sonetos admiraveis; eclogas (sôbre tudo as primeiras) excellentes; mas principalmente de todas as poesias menores são o mais sublime e perfeito as canções, genero a que deu uma nobreza e elevação desconhecida mesmo em Petrarca: sirva de próva e exemplo aquella que começa—«Junto d’um sêcco duro e esteril monte.» Dos Lusiadas, de suas bellezas e defeitos, das controversias sobre umas e outros, está cheio o mundo litterario.
Contemporaneo de Camões e ousado tambem como elle a encetar a carreira epica foi Jeronimo Cortereal. O Cêrco de Diu, que é notavel monumento litterario, e que de certo se teve algum exemplar foi a Italia do Trissino, é uma fria narração, em que ha bellas ideias áquem além, muita riqueza de linguagem, pouca de poesia, e pelo geral maus versos. E comtudo é talvez Cortereal o primeiro (em data) poeta descriptivo; e creou elle acaso esse genero de que tanto blasonam hoje inglezes, allemães, e até francezes, e que todavia nós tinhamos seculos antes d’elles. Ja no Cêrco de Diu ha muitas boas descripções: mas no naufragio de Sepulveda ha d’ellas sublimes.
Entre muito devaneio de imaginação e de mau gôsto, entre aquelles insipidos requebros de Pan e de Protheu apparece todavia a morte de D. Leonor que é um trecho da mais bella poesia, da mais fina sensibilidade que se tem composto.
De todos esses poetas que então floreceram é na minha opinião o menos poeta esse Pero d’Andrade Caminha, a quem da amisade e celebridade de Ferreira e Bernardes vem talvez o maior renome. Ainda assim tem algumas odes boas, simplicidade com elegancia por partes de suas composições: epigrammas, são alguns excellentes.
Sôbreviveu a todos estes e á patria, que não tardou em perecer, o suave cantor do Lima que levado per D. Sebastião para testimunhar seus altos feitos, de que devia fazer um poema, perdeu-se com seu rei, e jazeu captivo em Africa. Pondo de parte a questão das eclogas (na qual de certo não andou de boa fé Faria e Sousa) a qual, ainda que propria do logar, é mui longa para os meus limites; Bernardes foi excellente poeta; e com quanto sua linguagem é pobre, e em geral pouco variadas suas composições; a suavidade de seu stylo, certa melancholia d’expressão que lh’o requebra e embrandece darão sempre a Bernardes um logar mui distincto na poesia portugueza.
Mas ja a nação se perdêra nos areaes de Africa, já a glória portugueza estava offuscada; com ella foram (como sempre vão) as boas artes. Ainda brilham a espaços faíscas do grande luzeiro que se apagára; mas já não eram senão faíscas.
Ainda Luis Pereira deplora na Elegiada a ruina da patria, mas esse canto funebre é quasi o canto de cysne da poesia nacional, que parece querer fenecer com elle, e já n’elle moribunda se mostra. Ha excellentes oitavas derramadas per esse poema, algumas descripções felizes, grandissima riqueza de linguagem; mas pouco mais.
Ja Fernão Alves do Oriente diffuso, intrincado nos primeiros labyrinthos dos conceitos italianos mostra a visivel decadencia da poesia: já as musas que tão louçans, e ingenuamente bellas tinham folgado pelas varzeas do Tejo e do Mondego com Ferreira e Camões, apparecem affeitadas com arrebiques e côres falsas, como essas damas para quem se desbota a flor da idade e lhe querem ainda supprir o viço com emprestados ornamentos, gentilezas compradas, e postiças. E todavia ha na Lusitania transformada pedaços lyricos excellentes, e alguns bucolicos soffriveis. Assim elle nos dissesse mais do seu Oriente do que nos disse: assim houvesse enriquecido a litteratura com mais imagens de tantas que sua Asia lhe offerecia, e com que houvera additado a mãe patria. Onde o fez, n’aquella ecloga em que conta a historia de Saladino, é elle verdadeiramente poeta; e se d’ahi tirarem alguns trocadilhos que tinha apprendido em Italia, excellente e digno de imitar-se é o resto.
NOTAS DE RODAPÉ:
[37] A. Rib. dos Santos traduziu este soneto em portuguez e (cousa inexplicavel em tal homem!) o deu por seu.
IV
Terceira epocha litteraria; principia a corromper-se o gosto e a declinar a lingua.—Começo, até o fim do XVII sec.
Porem os symptomas do Gongorismo e Marinismo se manifestavam já em Italia e Castella; não perfeitos ainda, não no auge a que os levaram os dous poetas, aliás ingenhosos, cujo nome vieram a tomar; mas já assim mesmo a poesia moderna estava toda gafa d’essa lepra de suberba requintada.
Vasco Mousinho de Quevedo, que sem disputar é depois de Camões, nosso primeiro epico, ahi tem já em toda a nobreza de seus versos a quebra de bastardia d’esse defeito, que todavia é n’elle ainda raro. Mas que bellezas tem esse tão mal avaliado Affonso Africano, a que a cegueira e o mau gosto tem querido preferir a quixotica e sesquipedal Ulyssea, a hyperborea e campanuda Malaca! Não é regular o poema, não é um todo perfeito; o maravilhoso é frio, e a acção toda não mui bem deduzida; mas que riquissimos episodios a enfeitam! A descripção de Zara, o jardim incantado onde aporta o principe D. João, e alguns outros trechos são cunhados com o sêllo da verdadeira poesia, e animados da luz que só dá o ingenho. Quanto ao stylo, é com poucas excepções fluido e elegante; custa a achar em tão longo poema uma rhyma forçada ou má: e a mesma linguagem, supposto decline um tanto da primeira pureza, é ainda de boa lei e valiosos quilates.
D’ésta epocha é tambem Rodrigues Lobo, cujo grande logar como prosista não é aqui proprio de examinar: de seu merecimento poetico a commum opinião tem com justiça decidido dando-lhe um dos primeiros (eu quizera o primeiro) logar entre os bucolicos antigos; e outro mui differente e inferior entre os epicos. E certo, o Condestabre, apezar de muitos e bons pedaços descriptivos, é frouxa e morna composição. Que differente era a frauta que ia soando pelas margens do Lis, a dulcissima frauta de Lobo, quando comparada com a tuba heroica, para cuja altivez lhe fallecem natureza e arte! seus pastores são verdadeiros pastores, sua linguagem é verdadeira do campo, não lhes sahem pelos golpes do pellico as alfaias da cidade, tão mal encubertas pelos outros bucolicos, os quaes, sem excepção do proprio Camões, todos peccam por mui sabidos e lettrados, por discretos e galantes mais que sóem ser aldeãos e pastores.
Alem d’isso ha derramados pela Primavera, Pastor peregrino, etc., pedaços lyricos de summa belleza, romances excellentes e verdadeiramente dignos de admiração e estudo.
Tinhamos perdido a independencia; perdemos logo o espirito nacional, o tymbre, o amor patrio (que amor da patria poderá haver em quem patria já não tem!); a lisonja servil, a adulação infame levou nossos deshonrados avós a desprezar seu proprio riquissimo e tão suave idioma, para escrever no guttural Castelhano, preferindo os sonoros helenismos do portuguez ás aspiradas aravias da lingua dos tyrannos. Vergonha que só tem par nas derradeiras vergonhas com que nos enxovalharam a lingua e a fama os tarellos, francelhos, gallici-parlas e toda a caterva dos gallo-manos!
Em Castelhano escreviam já esses degenerados portuguezes: mas pouco importava que o fizessem, que n’isso fraca perda tivemos nós: de toda essa çafra de versos castelhano-portuguezes pouco ou nada ha que espremer.
D’ésta commum baixeza se alevantou o honrado e douto magistrado Gabriel Pereira de Castro, que depois de ter aberto na jurisprudencia um caminho novo e n’aquelle tempo tão difficil por grandes verdades então perigosas, tomou ousado a trombeta de Homero, e não se arrojou a menos que a competir ao mesmo tempo com a Iliada e Odyssea; que tanto abraça o assumpto de seu poema. Grande é a concepção, bem distribuidas as partes, regularissimo o todo, regular e bella a acção, bem intendidos os episodios; mas o stylo... o stylo é, prototypo da Phenix-renascida, o requinte do gongorismo, cujo patriarcha foi entre nós, pervertendo-nos, á sombra de sua grande fama e brilhante ingenho, todo o resto escasso que de gôsto tinhamos ainda, intrincando a poesia (senão que tambem a prosa por mau exemplo) n’um dedalo inextricavel de conceitos, de argucias, de exagerações, de affectada sublimidade, falsa e van grandeza; com que de todo veio a terra a poesia nacional, e acabou a grande eschola de Camões e Ferreira, que tantos e tamanhos alumnos havia produzido. E suppunha esse homem vaidoso ter sobrepujado com as queixotadas da sua Ulyssea as naturaes bellezas dos divinos Lusiadas!
Quasi o mesmo errado trilho, mas que menos brilhante e com inferior ingenho, seguiu Sá de Menezes na Malaca. Esse poema, que tanto tem engrandecido o mau gôsto, é na minha opinião um dos derradeiros titulos de glória da litteratura portugueza. E todavia é bem regular, bem concebido, e a espaços se lhe encontram grandes rasgos de gentileza poetica. A falla de Asmodeu no conselho infernal faz lembrar muito a de Lucifer em Milton. Porem quando agitado o poeta do genio mau que avexava e endemoninhava os poetas d’então, começa a guindar-se, a transpor os derradeiros limites da naturalidade; esquece todo o deleite que algumas estancias mais descuidadas nos haviam causado, e é forçoso desemparar a dura tarefa de tão incommoda leitura, porque verdadeiramente incommoda e cança tal stylo, tal phrase, tanto hyperbolico luxo e destemperado alambicar.
V
Quarta epocha: idade de ferro; aniquila-se a litteratura, corrompe-se inteiramente a lingua.—Fins do XVII, até meados do XVIII sec.
Mas ainda estes tinham sua nobreza, havia não sei que grande entre todas essas nuvens de talco; talvez lhes viesse dos assumptos: porém seus discipulos que ainda quizeram ir ávante, deram em fazer silvas, acrosticos, e engendraram todos os outros monstros (originarios, segundo Diniz, do paiz das bagatellas) e distillando mais e mais as quintas essencias dos conceitos, tanto torceram e retorceram o ja delgado fio poetico, que de todo o quebraram. So Manoel da Veiga o atou momentaneamente em uma ou duas lyras da Laura de Amphriso. Logo tornou a estalar: e per ahi andaram as pobres musas portuguezas jogando as cabras-cegas pelas eclogas de Poliphemo e Galatea, pelos romances hendecasyllabos, e per todos os outros escondrijos do gosto depravado, de que boas amostas se conservam no precioso tombo da Phenix-renascida e alguns outros hoje ignorados livros d’essa triste data.
E todavia ja nós tinhamos recobrado tão gloriosamente nossa independencia, ja o nome portuguez tornára a ser honra e nobreza, e ainda essa lepra castelhana lavrava.
Dous grandes escriptores, ambos prosistas e ambos dignos de muito louvor, concorreram para a continuação d’este mal. Quem podia deixar de admirar Vieira? Quem não iria levado pela torrente de sua eloquencia? Quem resistiria aos impetos de arrebatamento de Jacinto Freire? O grande talento de ambos, a vasta erudição e desmedido ingenho de Vieira sobre tudo, fizeram grande damno á litteratura: sabiam, escreviam perfeitamente a lingua, tinham grande crédito na côrte, tractavam grandes assumptos, animava-os o nobre e sincero enthusiasmo da glória e liberdade nacional: tudo foi após elles; imitaram-lhes vicios e virtudes; como não distinguiam em Vieira o grande orador, o grande philosopho do gongorista affectado (quando o era) não estremavam em Jacintho Freire o historiador, o panegyrista do declamador, do academico vão; ruim e bom seguiam. E como é mais facil imitar a affectação, que a naturalidade, as argucias de má arte, que as graças de boa natureza; os imitadores foram alem de seus typos no affectado, no mau d’elles, ficaram immenso aquém do que n’esses era bello e para imitar.
Nem o conde da Ericeira que traduziu a Arte poetica de Boileau e d’elle levou tão immerecidos e banaes elogios, tomou d’ella triaga bastante para se curar do veneno commum: e ainda assim melhor é sua frigida Henriqueida que os outros versos que por então se faziam em Portugal: porem o unico ôlho que o fez rei em terra de cegos, não lhe era bastante para ver e acertar com a vereda da posteridade. Ahi morreu no seu seculo e ahi jaz pela poeira de alguma livraria de bibliomanico.
As academias de historia, de litteratura do tempo de D. João V, as associações ridiculas de todos os nomes e descripções que então se formaram, a mais e mais empeioraram o mal, que progressivamente cresceu até o ministerio do marquez de Pombal.
VI
Quinta epocha: restauração das lettras em Portugal.—Meio do seculo XVIII até o fim
A civilisação e as luzes que a geram, tinham-se estendido do sul para o norte. A corrupção que após ellas vem em seu marcado periodo, as fôra apagando, ou ennevoando ao menos, na mesma direcção. De sorte que pelos fins do XVII seculo o meio-dia, que havia sido berço da illustração da Europa, quasi se ennoitava das trevas da ignorancia, as quaes pareciam voltar como em reacção para o ponto d’onde partíra a primeira acção da luz que as dissipára.
O norte, que mais tarde se havia allumiado, progredia no emtanto: as boas letras, as artes, as sciencias floreciam na Inglaterra e por quasi toda a Allemanha. Milton, Descartes, Newton e Linneu brilharam ao septentrião da Europa; e nós meridionaes estudavamos as cathegorias e as summas, aguçavamos distincções, alambicavamos conceitos, retorciamos a phrase no discurso, torciamos a razão no pensamento.
Porem a face do mundo estava começada a mudar: as antigas barreiras que a politica e os preconceitos erguiam entre povo e povo quasi desappareciam; as mutuas necessidades, e até o mesmo luxo, faziam quasi indispensavel precisão as permutações do commércio; e o commércio fraternizou as nações.
Reciprocamente se estudaram as linguas, generalizou-se esse estudo: então é que exactamente os sabios começaram a ser de todos os paizes: os bons livros pertenceram a todas as linguas; e verdadeiramente se formou dentro de todos os estados um estado que (sem os inconvenientes do status in statu dos ultramontanos) com justiça e exacção obteve e mereceu o nome de republica das lettras, a qual é uma, universal, e sem perigo de schisma.
Os effeitos d’esta alteração no modo de existir do universo foram sensiveis: as luzes não so reverteram (sem retrogradar) do norte para o sul, mas se diffundiram geraes. A França viu então o seculo de Luiz XIV; Italia deixou sancto Thomaz e os concetti por melhor philosophia e melhor gosto; Hespanha teve o seu Carlos III; e Portugal no reinado d’el-rei D. José subiu á altura dos outros povos, senão é que em muitas cousas acima.
E ainda na reforma da universidade não tinham apparecido Monteiros-da-Rocha e os outros portuguezes que d’alli expulsaram a barbaridade entrincheirada em Coimbra como em sua ultima cidadella da Europa, e ja a razão e o gosto recobravam seu imperio na litteratura; ja as odes do Garção, as obras do padre Freire e de outros illustres philologos haviam afugentado as silvas, os acrosticos, e os campanudos periodos do conde da Ericeira, regenerado a poesia e restituído a lingua.
Outravez ainda o limitado d’este bosquejo me impede de mencionar outros ingenhos que tanto mereceram da patria e da litteratura e remoçaram a perdida lingua de Camões. Exige o meu assumpto e o meu espaço que me estreite no círculo poetico.
Garção foi o poeta de mais gosto e (por aventurar uma expressão que não é legitima, mas póde ser legitimada portugueza) de mais fino tacto que entre nós appareceu até agora. Haverá n’outros mais fogo, outros ferverão em mais enthusiasmo, crearão acaso mais; porem a delicadeza de Garção so tem rival na antiguidade. A musa pura, casta, ingenua, nunca lhe desvairou: em suas composições ha d’ellas onde a mais aguçada crítica não esmiunçará um defeito. Tal é a cantata de Dido, uma das mais sublimes concepções do ingenho humano, uma das mais perfeitas obras executadas da mão do homem. Todo se deu ao genero lyrico, especialmente ao Horaciano; e n’esse ninguem o excedeu, antes ninguem o igualou. A ode á virtude, a que se intitula o Suicidio (que pela primeira vez sai a lume n’esta collecção) outras muitas que longo fôra enumerar, são de uma belleza, d’uma correcção, d’um acabado (como dizem os pintores) que difficilmente se imitará, tarde se chegará a igualar.
Não da mesma sorte Antonio Diniz, que mais arrojado, mais pomposo, menos correcto e elegante, assim correu mais caudalosa, porém menos pura torrente. Em quanto lyrico, tem rasgos pindaricos verdadeiramente sublimes; mas o todo de suas odes é em demasia ornamentado; e ellas entre si peccam amiudo de monotonias e repetições. Talvez o jugo dos consoantes, que tão desnecessariamente se impôz, o acanhou a isso. Mas nas anacreonticas é elle sem disputa o primeiro poeta portuguez, e digno rival do ancião de Teios. No genero bucolico tambem nos deixou mui bonitas cousas, nenhuma perfeita. Porém a verdadeira corôa poetica do Diniz Thalia lh’a teceu, que não outra musa. O Hyssope é o mais perfeito poema heroicomico de seu genero[38] que ainda se compoz em lingua nenhuma: se no castigado da dicção o excede o Lutrin; no desenho da obra, na regularidade do edificio, na imaginação, foi o discipulo de Boileau muito além de seu grande mestre: e com mais exacção se diria de um e outro o que de Camões e Tasso presumpçosamente disse Voltaire: que se a imitação d’aquelle fizera este, a sua melhor obra era essa. O palacio do genio das Bagatellas, a conversa do deão na cerca dos capuchos, a ressurreição e vaticinio do gallo assado, a caverna d’Abracadabro serão, em quanto houver gosto, estudados como exemplar pelos litteratos, lidos e relidos sempre com prazer per todos os amigos das artes.
Após estes vem o virtuoso e honrado Quita, a quem pagou a patria com miseria e fome as immensas riquezas que para a lingua e litteratura de seus versos herdou. Um pobre cabelleireiro, a quem as musas que serviu, os grandes que com ellas honrou nunca tiraram do triste officio, pôde de sua baixa condição social alevantar-se do primeiro grau litterario, que acaso lhe disputam ignorantes ou presumpçosos, nenhum homem de gosto deixará de lh’o dar.
Este é em meu humilde conceito o nosso melhor bucolico: tómo a liberdade de contrastar a opinião commum, porque o meu dever de crítico me obriga a ennunciar lealmente o meu pensamento. Tenho para mim (e fico que acharei quem me siga se de boa fé quizerem entrar no exame) que a immensa cópia de composições pastoris, as quaes não são riqueza, mas desperdicio de nossas musas, ou peccam por empoladas, por inverosimeis, por baixas, por demasiado naturaes, por sobejo elevadas. Um meio termo difficilimo de tocar, de n’elle permanecer, um stylo singelo como o campo, mas não rustico como as brenhas, são dos mais difficeis requisitos que d’um poeta se podem exigir. Se tem ingenho, custa-lhe a moldar-se e a rete-lo que não suba mais alto que a difficil medida, e raro deixa de a exceder, de perder-se do bosque e acabar em jardins cidadãos e conversas de damas e cavalheiros o que começára no monte ou na varzea entre pastores e serranas.
Nem Virgilio d’ahi escapou, nem Sannazaro, nem Camões; Gessner sim, e depois de Gessner, o nosso Quita. Não digo que não tenha defeitos, ainda em seu genero pastoril; mas a boa e honrada crítica falla em geral, louva o bom, nota o mau, porém não faz timbre em achar defeitos e erros na menor falta para se regosijar da censura. Grandes homens, grandes erros: a natureza da mediocridade é cingir-se a tristes preceitos para esconder sua mesquinhez: porém de taes nunca fallou posteridade. Horacio e Boileau foram atrevidos quando lhes cumpriu, e desprezaram regras e arte quando os chamou a natureza, e lhes mostrou o sublime. Philinto, que os sabia de cór, tambem se levantou acima das regras, e nunca foi tamanho. E todavia foi elle o maior poeta de seu seculo: mas os grandes ingenhos não contraveem a lei, são superiores a ella, e são elles viva lei.
Mui distincto logar obteve entre os poetas portuguezes d’esta epocha Claudio Manoel da Costa: o Brazil o deve contar seu primeiro poeta,[39] e Portugal entre um dos melhores.
Deixou-nos alguns sonetos excellentes, e rivalizou no genero de Metastasio, com as melhores cançonetas do delicado poeta italiano. A que dirige á lyra com sua palidonia imitando a tão conhecida do mesmo Metastasio a Nice, Grazie all’ ingani tuoi, póde-se apontar como excellente modêlo. Nota-se em muitas partes dos outros versos d’elle varios resquicios de gongorismo e affectação seiscentista.
E agora começa a litteratura portugueza a avultar e enriquecer-se com as producções dos ingenhos brazileiros. Certo é que as magestosas e novas scenas da natureza n’aquella vasta região deviam ter dado a seus poetas mais originalidade, mais differentes imagens, expressões e stylo, do que n’elles apparece: a educação europeia apagou-lhes o espirito nacional: parece que receiam de se mostrar americanos; e d’ahi lhes vem uma affectação e impropriedade que dá quebra em suas melhores qualidades.
Muito havia que a tuba epica estava entre nós silenciosa, quando Fr. José Durão a embocou para cantar as romanescas aventuras de Caramurú. O assumpto não era verdadeiramente heroico, mas abundava em riquissimos e variados quadros, era vastissimo campo sôbre tudo para a poesia descriptiva. O auctor atinou com muitos dos tons que deviam naturalmente combinar-se para formar a harmonia de seu canto; mas de leve o fez: só se estendeu em os menos poeticos objectos; e d’ahi esfriou muito do grande interesse que a novidade do assumpto e a variedade das scenas promettia. Notarei por exemplo o episodio de Moêma, que é um dos mais gabados, para demonstração do que assevero. Que bellissimas cousas da situação da amante brazileira, da do heroe, do logar, do tempo não podéra tirar o auctor, se tam de leve não houvera desenhado este, assim como outros paineis?
O stylo é ainda por vezes affectado: la surdem aqui alli seus gongorismos; mas onde o poeta se contentou com a natureza e com a simples expressão da verdade, ha oitavas bellissimas, ainda sublimes.
Depois de Diniz o logar immediato nos anacreonticos pertence a outro Brazileiro.
Gonzaga mais conhecido pelo nome pastoril de Dirceu, e pela sua Marilia, cuja belleza e amores tam célebres fez n’aquellas nomeadas lyras. Tenho para mim que ha d’essas lyras algumas de perfeita e incomparavel belleza: em geral a Marilia de Dirceu é um dos livros a quem o publico fez immediata e boa justiça. Se houvesse por minha parte de lhe fazer alguma censura, só me queixaria, não do que fez, mas do que deixou de fazer. Explico-me: quizera eu que em vez de nos debuxar no Brazil scenas da arcadia, quadros inteiramente europeus, pintasse os seus paineis com as côres do paiz onde os situou. Oh! e quanto não perdeu a poesia n’esse fatal êrro! se essa amavel, se essa ingenua Marilia fosse, como a Virgínia de Saint-Pierre, sentar-se á sombra das palmeiras, e em quanto lhe revoavam em tôrno o cardeal suberbo com a purpura dos reis, o sabiá terno e melodioso,—que saltasse pelos montes espessos a cotia fugaz como a lebre da Europa, ou grave passeasse pela orla da ribeira o tatu esquamoso,—ella se entretivesse em tecer para o seu amigo e seu cantor uma grinalda não de rosas, não de jasmins, porém dos roixos martyrios, das alvas flores dos vermelhos bagos do lustroso cafezeiro; que pintura, se a desenhára com sua natural graça o ingenuo pincel de Gonzaga!
Justo elogio merece o sensivel cantor da infeliz Lindoya que mais nacional foi que nenhum de seus compatriotas brazileiros. O Uraguay de José Bazilio da Gama é o moderno poema que mais merito tem na minha opinião. Scenas naturaes mui bem pintadas, de grande e bella execução descriptiva; phrase pura e sem affectação, versos naturaes sem ser prosaicos, e quando cumpre sublimes sem ser guindados; não são qualidades communs. Os Brazileiros principalmente lhe devem a melhor corôa de sua poesia, que n’elle é verdadeiramente nacional, e legítima americana. Mágoa é que tam distincto poeta não limasse mais o seu poema, lhe não désse mais amplidão, e quadro tão magnifico o acanhasse tanto. Se houvera tomado esse trabalho, desappareceriam algumas incorrecções de stylo, algumas repetições, e um certo desalinho geral, que muitas vezes é belleza, mas continuado e constante em um poema longo, é defeito.
Muito ha que os nossos auctores desempararam o theatro: eis ahi o faceto Antonio José, a quem muitos quizeram appellidar Plauto portuguez e que sem duvida alguns serviços tem a esse titulo, porém não tantos como apaixonadamente lhe decretaram. Em seus informes dramas algumas scenas ha verdadeiramente comicas, alguns dictos de summa graça; porém essa degenera amiudo em baixa e vulgar. Talvez que o Alecrim e Mangerona seja a melhor de todas; e de certo o assumpto é eminentemente comico e portuguez: hoje teria todo o merito de uma comedia historica: e se fôra tractada no genero de Beaumarchais, produziria uma excellente peça.
NOTAS DE RODAPÉ:
[38] Digo de seu genero, porque o Orlando furioso tambem é heroicomico, mas d’outro genero.
[39] Em antiguidade.
VII
Epocha, segunda decadencia da lingua e litteratura; gallicismo e traducções
Á volta este tempo se formou a academia das sciencias de Lisboa pelos generosos esforços do duque de Lafões. Esse corpo scientifico, de quem tanto bem se augurou para a lingua e litteratura nacional, nem fez tudo o que d’elle se esperava, nem uma parte mui pequena do que podia e lhe cumpria fazer: mas nem foi inutil, nem, como alguns teem querido, prejudicial. E todavia sua força moral não foi bastante para vencer um mal terrivel que já no tempo de sua creação se manifestava, mas que depois, cresceu e avultou a ponto, que veio a tornar-se quasi indestructivel.
Este mal foi o gallo-mania, que sôbre perverter o caracter da nação, de todo perdeu e acabou com a já combalida linguagem: phrases barbaras repugnantes á indole do idioma, termos hybridos, locuções arrastadas, sem elegancia, formaram a algaravia da moda, e prestes invadiram todas as provincias das lettras. Estudar a lingua materna, como aquella em que fallamos e escrevemos, é dos mais difficeis estudos, ha mister longa e porfiada applicação. Que bella invenção para a ignorancia e para a preguiça não foi esta nova linguagem mascavada e de furtacôres, que todos podiam saber sem fadiga, cujas leis cada-um moderava e arbitrava a seu modo, alterava a seu sabor com tam plena liberdade de consciencia! Foi a religião de Mafoma: propagou-a a incontinencia, a soltura, o desenfreio do appetite. Desprezaram-se os classicos, apodaram-se de ignorantes, de rançosos; e os que não ousavam, por algum resto de vergonha, desacatar assim as honradas cans dos nossos mestres, sahiram então com o banal e ridiculo pretexto de que ninguem podia lê-los pelas materias que tractaram; que tudo eram sermões, vidas de sanctos, historias de conventos, de frades. Vergonhosa desculpa! Comquê as decadas de Barros, que foi talvez o primeiro que introduziu com feliz execução o stylo classico na historia moderna, são chronicas de conventos? Fernão Mendes Pinto, o primeiro europeu que escreveu uma viagem regular da China e dos extremos d’Asia, são vidas de sanctos? E d’essas mesmas vidas de sanctos, quantas d’ellas são de summo interesse, divertida e proficua leitura! A vida de D. Fr. Bartholomeu dos Martyres tem toda a valia das mais gabadas memorias historicas, de que hoje anda cheia a Europa, e que ninguem taxou ainda de pouco interessantes. Quando outra cousa não contivesse aquelle excellente livro senão a narração do concilio de Trento, a viagem e estada do arcebispo em Roma, ja seria elle uma das mais curiosas e importantes obras do seculo XVI. E D. Francisco Manoel de Mello, e Rodrigues Lobo, e Camões, e grande cópia de poetas de todos os generos,—tudo isso são sermonarios, vidas de sanctos?
Miseria é que o geral dos portuguezes jurou nas palavras de quatro peralvilhos que essas calumnias apregoavam: passou em julgado que os classicos se não podiam ler, e ninguem mais quiz tomar o trabalho nem sequer de examinar se sim ou não assim era.
N’este estado de cousas appareceram em Portugal dous homens extraordinarios, ambos dotados pela natureza de prodigioso ingenho poetico, Francisco Manoel e Bocage. Aquelle, filho da eschola de Garção e Diniz, cultivou muito tempo as musas classicas, e já imbuido no gosto da antiguidade, já imitador e rival de Horacio e Pindaro, começou a ser conhecido em idade madura. Este, quasi desd’a infancia poeta, appareceu no mundo em toda a effervescencia dos primeiros annos, ardente cantor das paixões, enthusiasta, agitado do seu proprio natural violento, rapido, insoffrido, sem cabal instrucção para poeta, com todo o talento (raro, espantoso talento!) para improvisador.
Ambos começaram imitando os grandes mestres de seu tempo, seguindo cada-um em seu genero o stylo e gosto adoptado e geral desde a restauração das letras no meado do seculo. Mas não são ingenhos grandes para seguir, senão para fundar escholas: nem tardou muito que cada-um, per seu lado, não sacudisse todo jugo da imitação, e seguisse livre e rasgadamente um trilho novo. Bocage a quem seu fado, por mais aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo theatro das glórias portuguezas, voltando d’Asia foi recebido em Lisboa entre os applausos dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infancia de seu talento poetico. Augmentou-se esta admiração com os novos improvisos do joven poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro de seus versos. O fogo de suas ideias ateou o enthusiasmo geral; a mocidade inflammou-se com o nome de Bocage: de enthusiasmo degenerou em cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos elle em si mesmo. Ninguem duvidava que os improvisos dos cafés do Rocio eram superiores a todas as obras da antiguidade, e que um soneto de Bocage valia mais que todos esses volumes de versos do seculo de João III. e do de José I. Ésta era a opinião commum da mocidade; e tam geral se fez, tantas vezes a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que força era que a acreditasse, que com ella se desvanecesse e desvairasse.
Isso lhe aconteceu. O temperamento irritavel e ardentissimo de Bocage o levava naturalmente ás hyperboles e exagerações: essas eram as mais admiradas de seus ouvintes; requintou n’ellas, subiu a ponto que se perdeu pelos espaços imaginarios de sua creação phantastica, abandonou a natureza, e a suppôz acanhado elemento para o genio. Mais elle repetia eternidades, mundos, ceos, espheras, orbes, furias, gorgonas; mais dobrava o applauso; mais delirava elle, mais o admiravam. Ao cabo, nem elle a si, nem os outros a elle o intendiam.[40] A par e passo que as ideias desvairavam, desvairava tambem o stylo, e emfim se reduziu a uma continuada antithese, perpetuos trocadilhos, tours-de-force, pulos, saltos, rumpantes, castelhanadas, com que se tornou monotono e (usarei d’uma expressão de pintor) amaneirado.
A metrificação de Bocage, julgam-na sua melhor qualidade; eu a peior; ao menos, a que peiores effeitos causou. Não fez elle um verso duro, mal soante, frouxo; porém não são esses os unicos defeitos dos versos. As varias ideias, as diversas paixões e affectos, as distinctas posições e circumstancias do assumpto, do objecto, de mil outras cousas,—variada medida exigem; como exige a musica varios tons e cadencias. A mesma medida sempre, embora cheia e boa,—o mesmo tom, embora afinado,—a mesma harmonia, embora perfeita,—o mesmo compasso, embora exacto, fazem monotona e insuportavel a mais bella peça de musica ou de poesia. E taes são os versos de Bocage, que nos pretendem dar para typo seus apaixonados cegos: digo cegos, porque muitos tem elle (e n’esse numero que conto!) que o são, mas não cegos. Imitar com o som mechanico das vozes a harmonia intima da ideia, supprir com as vibrações que só pódem ferir a alma pelo orgão dos ouvidos, a vida, o movimento, as côres, as fórmas dos quadros naturaes, eis ahi a superioridade da poesia, a vantagem que tem sobre todas as outras bellas artes: mas quam difficil é perceber e executar esse delicadissimo ponto! Poucos o conseguiram: Francisco Manoel foi entre nós o que mais finamente o intendeu e executou, mas nem sempre, nem cabalmente.
Porém nos intervallos lucidos que a Bocage deixava o fatal desejo de brilhar, n’alguns instantes que, despossesso do demonio das hyperboles e antitheses, ficava seu grande ingenho a sos com a natureza e em paz com a verdade, então se via a immensidade d’essa grande alma, a fina tempera d’esse raro ingenho que a aura popular estragou, perdeu o pouco estudo, os costumes desregrados, a miseria, a dependencia, a soltura, a fome. Muitas epistolas, varios idilios maritimos, algumas fabulas, e epigrammas, as cantatas, não são mediocres titulos de glória. Dos sonetos ha grande cópia que não tem igual nem em portuguez, nem em lingua nenhuma, d’uma força, d’uma valentia, d’uma perfeição admiravel. O resto é pequeno e pouco. A linguagem é pobre; ás vezes facil, mas em geral escaça. Sabía pouco a lingua; a força do grande instincto lhe arredava os erros; mas as bellezas do idioma, só as dá e ensina o estudo. As traducções de Ovidio, Delille e Castel são primorosas.
Mas de traducções estamos nós gafos: e com traducções levou o ultimo golpe a litteratura portugueza; foi a estocada de morte que nos jogaram os estrangeiros. Traduzir livros d’artes, de sciencias é necessario, é indispensavel; obras de gosto, de ingenho, raras vezes convem; é quasi impossivel fazê-lo bem, é míngua e não riqueza para a litteratura nacional. Essa casta de obras estuda-se, imita-se, não se traduz. Quem assim faz accomoda-as ao character nacional, dá-lhes côr de proprias, e não só veste um corpo estrangeiro de alfaias nacionaes (como o traductor), mas a esse corpo dá feições, gestos, modo, e indole nacional: assim fizeram os Latinos, que sempre imitaram os Gregos e nunca os traduziram; assim fizeram os nossos poetas da boa idade. Se Virgilio houvera traduzido a Iliada, Camões a Eneada, Tasso os Lusiadas, Milton a Jerusalem, Klopstock o Paraiso perdido; nenhum d’elles fora tamanho poeta, nenhuma d’essas linguas se enriquecera com tam preciosos monumentos: e todavia imitaram uns dos outros, e d’essa imitação lhes veio grande proveito.
Esta mania de traduzir subiu a ponto em Portugal, e de tal modo estragou o gosto do público, que não só lhe não agradavam, mas quasi não intendia os bons originaes portuguezes: a poesia, a litteratura nacional reduziu-se a monotonos sonetos, a trovinhas d’amores, a insipidas enfiadas
De versinhos anões a anans Nerinas.
Tam baixos nos pozeram os admiradores e imitadores de Bocage, a quem justamente a critica stigmatizou com o nome de elmanistas,—e de elmanismo sua affectada eschola. N’elles se mostraram exagerados os defeitos todos do enthusiasta Elmano, sem nenhum dos grandes dotes, das brilhantes qualidades do poeta Bocage.
Alguns ha comtudo de quem esta asserção não deve intender-se em todo o rigor da phrase. João Baptista Gomes, auctor da Castro, mostrou n’ella muito talento poetico e dramatico. D’entre os bastos defeitos d’essa tragedia sobresahem muitas bellezas. Desvaira-o o elmanismo; derrama-se per madrigaes quando a austeridade de Melpomene pedia concisão, força e naturalidade; perde-se em declamações, extravaga em logares communs, inverte a dicção com antitheses, destroi toda a illusão com versos amiudo sesquipedaes e entumecidos; mas per meio de todas essas nevoas brilha muita luz de ingenho, muita sensibilidade, muita energia de coração; predicados que com o estudo da lingua que não tinha, com a experiencia que lhe fallecia, triumphariam ao cabo do mau gosto do tempo, e viriam provavelmente a fazer de João Baptista Gomes o nosso melhor tragico. Atalhou-o a morte em tam illustre carreira, e deixou orphão o theatro portuguez que de tamanho talento esperava reforma e abastança.
Mas em quanto Bocage e seus discipulos tyrannizavam a poesia e estragavam o gosto, Francisco Manuel, unico representante da grande eschola de Garção, gemia no exilio, e de la com os olhos fitos na patria se preparava para luctar contra a enorme hydra cujas innumeras cabeças eram o gallicismo, a ignorancia, a vaidade, todos os outros vicios que iam devorando a litteratura nacional.
A sua epistola sobre a arte poetica e lingua portugueza, póde rivalizar com a de Horacio aos Pisões: força d’argumentos, eloquencia da poesia, nobre patriotismo, finissimo sal da satyra, tudo ahi peleja contra o monstro multiforme.
Que direi das odes? Minha intima persuasão é que nunca lingua nenhuma subiu tam alto como a portugueza na lyra de Francisco Manuel. Que ha em Pindaro comparavel á ode a Afonso d’Albuquerque? onde ha poesia sublime, elegante, immensa como seu assumpto, na dos novos Gamas? se o patriotismo fallasse alguma hora aos degenerados netos de Pacheco e Albuquerque, que poderia elle dizer-lhes igual áquella inestimavel ode que se intitula Neptuno aos portuguezes? E quando a liberdade troa na espada de Washington, submette os raios de Jupiter ao sceptro dos tyrannos aos pés de Franklin, ou tece pelas mãos de Penn os laços de fraterna união! Que immenso, que grandioso é o cantor de tamanhos objectos! Quando nas odes a Venus, a Marfisa, a Marcia voltando inopinada, no hymno á noite se requebra em amoroso jubilo, ou se enternece de saudade, todo é graças e primores de linguagem, de imaginação, de stylo, de delicadeza, de inimitavel poesia. No genero Horaciano não é elle tam puro e perfeito como Garção, mas nem intendeu menos nem imitou peior o seu modêlo.
Entre as epistolas ha muitas admiraveis: dos contos e fabulas, alguns com elegante sal e chiste. As traducções do Oberon de Wielland, da Guerra punica de Silio Italico, mas sobre todas, a dos Martyres de Chateaubriand, são thesouros de linguagem e de poesia.
Nenhum poeta desde Camões havia feito tantos serviços á lingua portugueza: so per si Francisco Manuel valeu uma academia, e fez mais que ella; muita gente abriu os olhos, e adquiriu amor a seu tam rico e bello, quanto desprezado idioma: e se ainda hoje em Portugal ha quem estude os classicos, quem se não envergonhe de lêr Barros e Lucena, deve-se ao exemplo, aos brados, ás invectivas do grande propugnador de seus foros e liberdades.
Nos ultimos periodos de sua longa vida afrouxaram as energicas faculdades d’este grande poeta, e excepto a traducção dos Martyres (que assim mesmo tem seus altos e baixos) quasi tudo o mais que fez é tibio e morno como de um octogenario se podia esperar. O nimio temor de commeter gallicismos, a que tinha justo e sancto horror, o fez cahir em archaismos e affectação demasiada de palavras antiquadas e excessivos hyperbatos. Não são porém estas faltas, nem tantas nem tamanhas como o pregoou a inveja e a ignorancia.
Muito honrosa menção deve a historia da lingua e poesia portugueza a Domingos Maximiano Torres, cujas eclogas rivalizam com as de Quita e Gessner, cujas cançonetas são, depois das de Claudio Manuel da Costa, as melhores que temos. Foi este muito intimo de Francisco Manuel, mas tenho por mui exagerados os elogios que d’elle recebeu.
Antonio Ribeiro dos Santos, honra da magistratura portugueza, foi imitador e émulo de Ferreira: poucos ingenhos, poucos characteres, poucos stylos ha tam parecidos; se não que o auctor dos coros da Castro era muito maior poeta, e o cantor do grande D. Henrique muito melhor metrificador. Ésta ode ao infante sabio, algumas outras a varios heroes portuguezes, algumas das epistolas, e especialmente os versos que lhe dictava a amizade para o seu Almeno, são d’uma elegancia e pureza de linguagem rarissima em nossos dias.
Este Almeno é Fr. José do Coração de Jesus, missionario de Brancannes, que traduziu os primeiros livros das methamorphoses de Ovidio em excellente, riquissimo, purissimo portuguez, mas em maus versos: e ainda assim, alguns d’elles são felizes: é de estudar, de versar com mão diurna e nocturna esse comêço de traducção para quem quizer conhecer as riquezas de uma lingua que compete, emparelha, vence ás vezes, a sua propria mãe latina.
Duas ou tres odes d’este virtuoso e erudito padre são mui bonitas.
Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente nacional no seu genero: Boileau teve mais força, mas não tanta graça como o nosso bom mestre de rhetorica. E de suas satyras ninguem se pode escandalizar; começa sempre per casa, e primeiro se ri de si antes que zombeteie com os outros. As pinturas dos costumes, da sociedade, tudo é tam natural, tam verdadeiro! Confesso que de todos os poetas que meu triste mister de critico me tem obrigado a analysar, unico é este em cuja causa me dou por suspeito: tanta é a paixão, a cegueira que tenho polo mais verdadeiro, mais engraçado, mais bom homem de todos os nossos escriptores. Aquelle bilhar, aquella funcção de burrinhos, aquelle cha, aquellas despedidas ao cavallo deitado á margem; o memorial ao principe, o presente do perum, são bellezas que so não admirarão atrabilarios zangãos em perpetuo estado de guerra com a franca alegria, com o ingenuo gôsto da natureza.
De José Anastacio da Cunha, que das mathematicas puras nos deu o melhor curso que ha em toda Europa, d’esse infeliz ingenho (que talento houve já feliz em Portugal?) a quem não impediam as rectas de Euclides, nem as curvas de Archimedes de cultivar tambem as musas; de tam illustre e conhecido nome que direi eu senão o muito que me peza da raridade de suas poesias? Todas são philosophicas, ternas e repassadas d’uma tam meiga sensibilidade algumas, que deixam n’alma um como echo de harmonia interior que não vem do metro de seus versos, mas das ideias, dos pensamentos. Todavia ha mister lê-lo com prevenção, porque (provavelmente estropiada de copistas) a phrase nem sempre é portugueza de lei.
O padre A. P. de Sousa Caldas, brazileiro, é dos melhores lyricos modernos. A poesia biblica, apenas encetada de Camões na paraphrase do psalmo super flumina Babylonis, foi per elle maravilhosamente tractada; e desde Milton e Klopstock ninguem chegou tanto acima n’este genero.
A cantata de Pygmalião, a ode O homem selvagem são excellentes tambem.
Aqui me cai a penna das mãos: o estadio livre para a critica imparcial acabou. Nem posso continuar a exercê-la sem temor, nem o faria ainda assim, pois não quizera vêr revogadas minhas presumidas sentenças pela severa posteridade, quasi sempre annulladora de juizos contemporãos.
Não posso todavia fechar este breve quadro sem patentear a admiração, e o indizivel prazer que me deu o poema do Passeio do snr. J. M. da Costa e Silva, cuja existencia tinha a infelicidade de ignorar (tam pouco sabemos nós portuguezes das riquezas que temos em casa!) e que não sei que tenha que invejar a Thompson e Delille, se não fôr na pouca extensão e, acaso dirá mais severo juiz, em algum verso de demasiado elmanismo. Quanto a mim, folgo de me lisongear com a esperança que seu auctor lhe dará a amplidão e mais (poucos mais) retoques com que ficará por ventura o melhor poema d’esse genero.
Apezar dos motivos referidos, pedirei uma venia mais para mencionar como um poema que faz summa honra ao nome portuguez, a Meditação do snr. J. A. de Macedo, que tem sido censurada por quem não é capaz de intendê-la. Não sei eu se ella tem defeitos; é obra humana, e de certo lhes não escapou; mas sublimidade, cópia de doctrina, phrase portugueza, e grandes ideias, só lh’o negará a cegueira ou a paixão.
Cita-se com elogio o nome do snr. J. F. de Castilho, joven poeta que se despica da injuria da sorte que o privou da vista, com muita luz de ingenho poetico.
Os dythirambos do snr. Curvo Semedo, as odes do snr. J. Evangelista de Moraes merecem grande favor do publico: os apologos do snr. J. V. Pimentel Maldonado são por certo dignos da maior estimação.
As Georgicas do snr. Mozinho d’Albuquerque fizeram a reputação poetica de seu benemerito auctor. Alguns lhe acharam demaziada erudição, e queriam mais poesia e menos sciencia. Eu por mim tomarei a confiança de pedir ao illustre poeta, em nome da litteratura portugueza, que na segunda edição de sua tam util obra não desdenhe de aproveitar os muitos e riquissimos ornatos que habilmente póde tirar de nossas festas ruraes, de nossas usanças (como feiras, serões, desfolhas, etc.), das descripções de nosso formoso paiz; com que decerto fará mais nacional e interessante seu estimavel poema. Não sei tambem se alguma incorrecção typographica ou de cópia, seria origem de varias imperfeições e impurezas de linguagem, que os escrupulosos (e em tal materia é forçoso sê-lo) lhe notam.
Tudo isso esperamos os portuguezes que nos vangloriamos de sua excellente obra, vê-lo melhorado na proxima edição que já reclama o publico impaciente.
A litteratura portugueza não mostra presentemente grandes symptomas de vigor: mas ha muita força latente sob essa apparencia; o menor sôpro animador que da administração lhe venha, ateará muitos luzeiros com que de novo brilhe e se engrandeça.
FIM
NOTAS DE RODAPÉ:
[40] Assim lhe succedeu, principalmente em muitos dos, por natureza e essencia, hyperbolicos elogios dramaticos; genero de composição extravagante e quasi sempre ridiculo.
INDICE
DAS
OBRAS CONTIDAS N’ESTE VOLUME
| Pag. | |
|---|---|
| [Retrato de Venus] | [5] |
| [Notas] | [57] |
| [Ensaio sobre a historia da pintura] | [89] |
| [Bosquejo da historia da poesia e lingua portugueza] | [163] |