NOTAS

Notas ao canto primeiro


«Alma origem do ser, germe da vida.»

..... Per te quoniam genus omne animantum
Concipitur, visitque exortum lumina solis;
......................................
....... tibi suaves dedala tellus
Summittit flores.

Lucret. de rer. nat. Lib. I.

«Que na ellipse invariavel rotam fixos.»

Todos sabem, que tal é a orbita, que todos os planetas descrevem.

«Qual és, qual foste, qual te appura os mimos
A arte engenhosa.
»

Artes repertæ sunt, docente natura.

Cic. de leg. Lib. I, 8.

«Como é dado aos mortaes bellezas tuas.»

Platão, fallando da musica, diz: (De republ.) que se não deve conceituar pelo prazer, nem preferir a que não tem outro objecto, senão o prazer; mas a que em si contiver a similhança da bella natureza. Esta sentença é perfeitamente applicavel á pintura. E tal é d’ha muito a opinião de todos os rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot., Le Batteux, Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém com esta—natureza bella.—Nem só aquillo que tem bellas e lindas fórmas, é bello; e nem tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o declara manifestamente, e o prova:

Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux,
Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux.
D’un pinceau délicat l’artifice agréable
Du plus affreux objet fait un objet aimable.

Boileau: Art. Poet. Chant 3.

«A mestra, a sabia antiguidade o diga.»

Quid virtus, et quid sapientia possint
Utile proposuit nobis exemplar.

Horat. Ep. II, L. I.

......... Fabularum cur sit inventum genus,
Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.

Phoedr. Lib. III, prolog.

«Não: fabula gentil, volve a meus versos.»

......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois
Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix;
Si sa main délicate orna ta tête altière;
Si son ombre embellit les traits de ta lumière,
Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher.
Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.

Voltaire: Henr. Chant I.

Cosia egro fanciul porgiamo aspersi
Di soave licor gl’orli del vaso, etc.

Tasso: Gerusalem Canto I, stanz. 3.

«....... O Cyprio moço, o Teucro.»

Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (Cyprum) Anchises, Troiano etc.

Achises conjugio Veneris dignate superbo.

Virg. A En. Lib. 2.

«Em quanto nas lidadas officinas.M»

Retumbam nas lidadas officinas
Echos gostosos das nascentes almas,
Que novos corpos a habitar caminham.

Filint. Elys. Ode a Venus (Tom. 5).

«C’o estremecido arrulho a dona imitam.»

Presentem ja no estremecido arrulho
Os propinquos prazeres.

Filint. Elys. ibid.

«Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras
Tam suave pecar......
»

Si il peccar è si dolce,
E’l non peccar si necessario; ò troppo
Imperfetta natura,
Che repugni ala legge!
O troppo dura legge,
Che la natura offendi!

Guarini: past fld.

Se este crime é tam doce,
Se tanto fugir delle é necessario;
Imperfeita parece a natureza,
Que fraca á lei repugna,
Ou lei muito severa,
Que a natureza offende.

Traducç. de Thom. Joaq. Gonzaga.

«E do amado na dor, sua dor recresce.»

Che l’esempio del dolore
È un stimolo maggiore,
Che richiama a sospirar.

Metastaz: Artass. atto I.

«Dos antigos errores esquecido.»

Errores é usado por Camões no sentido de—longas, e desvairadas viagens—; Ferreira porem, e outros classicos de igual nota o tomaram na mesma accepção, em que aqui se toma.

«Com o amante fugir, morrer com elle?»

Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum critico, muito contente do quinau. Assim é, Sr. critico; mas no delirio das paixões quem se lembra da sua natureza?—Uma deusa com paixões!—Os deuses da mythologia, os numes dos Gregos, e Romanos não são o mesmo que o deus do philosopho (digno de tal nome) que, satisfeito de reconhecer a existencia d’um ente supremo, pára, onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca razão; nem empresta á desconhecida causa das causas os habitos, as paixões, a fórma, e toda a natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho de se occultar a si proprio a sua fraqueza, e de abaixar até á sua mesquinhez a idea de deus, por não poder subir até á altura d’ella, nasce da nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa miseria. Por isso os theologos desbocadamente nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes e vicios, que elles em sua alma alimentam e nos querem vender por virtudes.

«..... Comsigo ao carro o sobe.»

Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo bem notavel da nossa lingua, usar de taes verbos com força activa, como o fazem os nossos classicos a cada passo.

«Que lhe spira dos labios, das pupillas.»

Aquelle não sei que,
Que spira não sei como,
Que invisivel sahindo, a vista o vê.

Camões: Ode 6.

Spirem suaves cheiros
De que se encha este ar todo.

Ferr. Castr. act.

«Arde voltar ao suspirado asylo.»

... Jamdudum errumpere nubem
Ardebant.

Virgil. AEneid. L. I. v. 580.

«Disenhos volve...........»

Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de origem estrangeira) não é gallicismo; exprime bem o—dessein—francez, e tem por si a auctoridade d’um escriptor bem notavel e bem antigo, qual é Damião de Goes. (v. Chron. de D. Man. part. I, cap. 4, e passim).

«Que tam suave rege a natureza.»

......... Omnis natura animantium
Te sequitur cupide.

Lucret. Lib. I. v. 15.

«Mal disse; e o raio mais veloz não rue.»

Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e pelo erudito traductor da lyrica de Horacio, Antonio Ribeiro dos Santos; e cujos compostos, e derivados ja tinhamos (correr, decorrer etc.) tem todas as qualidades necessarias para a sua naturalisação.

«Da rubra dextra do Tonante irado.»

........ Et rubente
Dextra sacras jaculatus arces
Terruit urbem.

Horat. Od. 2, Lib. I.

«Á voz da deusa fende os ares liquidos.»

......... Per liquidum aethera:

Virg. AEn. Lib. I.

«Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco.»

Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita mysteriosa em razão dos seus áugures.

«Á formosa Bolonha...»

De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) nas suas cartas, que um Portuguez, encantado de sua belleza, exclamara: «Não se devia mostrar senão ao domingo.»

«E fitando no ceo audazes vistas.»

Coelum ipsum petimus stultitia

Horat. Lib. II, Od.

«Aos golpes crebros, incessantes, duros.»

O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do ultimo Constantino, e entrada de Mahomet II em Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores desta tomada de Cp., a immensidade de familias que fugiram para a Italia, e principalmente para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento, que este successo causou ás sciencias e artes do occidente; são cousas sabidas de todo o mundo. (Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4, pag. 249, etc. e Chateaubriand: Génie du Christ. part. 3, liv. I).

Notas ao canto segundo


«Vão-lhe na frente os affamados chefes.»

Aquelles sam sós homens que se affamam.

Ferreir. Cart. 6, Liv. I.

«No bello antigo modelando as graças.»

O verbo modelar está geralmente adoptado mas que não seja antigo. Assim como de molde se fez, e deduziu moldar; de modelo se póde derivar modelar.

«Vem tribu excelsa de Romãos pintores.»

Gregos, Romãos, e toda a outra gente.

Ferreir. Cart. 3, Liv. I.

«E quanto inspira Apollo:......»

O fito que neste poema levei, foi simplesmente celebrar os louvores da pintura, e de seus principaes mestres. Sou apaixonado amador desta sublime poesia; contento-me de admirar; mas nunca dei a menor lapizada. A leitura, a observação curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me deram os limitados conhecimentos, que em tam comprida materia possuo. Ideias vastas, ainda mesmo na historia só da pintura, apenas poderão ser o fructo de longos estudos, que a minha pouca idade, e mais sérias, mas que ennojosas occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro encontrarem os professores, mui grata e grande mercê me farão de me avisar; e conhecerão pela minha docilidade na emenda a pouca presumpção do auctor.

«E aos d’arte amantes desejar com Pedro
Junto ao prodigio....
»

Faciamus hic tria tabernacula.

Matth. Evang.

«Em cêrca aos muros da gentil Parthénope.»

Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, uma das sereias, que se enchêram de desesperação por não poder vencer Ulysses com o seu canto. Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se edificou uma cidade, que della tomou nome. Destruida ésta, se tornou em seu mesmo logar a edificar outra nova, dita Napoles (Neapolis—Νεαπὸλις—cidade nova) nome que inda hoje conserva.

«Umas sobre outras as cidades jazem.»

Pelos fins do seculo passado se descubriram nas visinhanças do Vesuvio as antigas cidades de Herculano e Pompeia. A cidade de Portici está quasi situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como o Herculano, fôra submergida em uma explosão do Vesuvio.

«E a rôdo os d’atro fogo horridos rios.»

Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto da montanha um, como rio, de fogo, que dá uma imagem das fingidas torrentes do sonhado Averno.—Virgilio, que de certo dos volcões de Napoles houve a idea do seu Phlegetonte, situou por aquelles logares os seus—Plutonia regna.—(Vid. Stael na Corin.)

«Inda no mesto panno afflictos súam.»

....... Sudant in marmore mœsto.

Sili. Ial. Lib. I.

«Saliente Caravaggio, que exprimiste.»

Saliente; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo, que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.

«Ja de accurvados reis não brilha o fasto.»

O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão, todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria illustre da cidade por excellencia.

Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias, possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.—Ruinas, sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas... são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao Fóro, ao Palacio, ao Amphitheatro? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas praças o menor vestigio dos Rostros? O Capitolio, o terrivel, o venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e legislavam ao universo, que é feito d’elle?—O solicito viajante ainda o descobre; o seu cicerone (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.—E será este?—Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do senador, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam o antigo alcaçar do mundo.

Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum edificio.—«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não podiam extinguir-se de todo.»—Um bando de miseraveis, uma plebe indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus—concetti—a degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos, insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações, e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como os antigos conscriptos; mas o corpo invalido da igreja por elles arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol das indulgencias, reliquias e breves.—«Roma! oh Roma! (exclamará o contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a; e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do universo.

E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos, os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta ancia![15]

NOTAS DE RODAPÉ:

[15] É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24 d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com menos atrabilis.

Notas ao canto terceiro


«Enfrea as iras de Neptuno indomito.»

Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat.

Virg. AEn. Lib. I, v. 54.

«Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero.»

É o golpho de Veneza, antigamente chamado de Adria, ou Adriatico, d’uma cidade d’este nome.

«Alli, fugindo aos clamorosos brados.»

No meio do seculo V, foram destruidas por Attila, rei dos Hunos, as cidades de Aquilea, Altino, Concordia, Opitergo e Padua, todas visinhas ao golpho, então chamado Adriatico. Os habitantes destas cidades, fugindo ao furor irresistivel, e cruel ferocidade dos barbaros, se foram refugiar nas pequenas e desertas ilhotas do mar Adriatico, e fundaram assim o começo de Veneza. (Vid. Anquétil, Millot, e la Istoria de Vinegia per ***)

«Emporio foi depois do rico oriente.»

Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes, ha mayor parte da especiaria, droga, e pedraria se vazava pelo mar roxo, donde ya ter á cidade Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos, que a espalhaavão pela Europa.

Castanheda Lib. I, cap. 1.

«E do alado Leão tremeu gran tempo.»

Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica, ou senhoria de Veneza.

«E segue a esteira das cortadas ondas.»

Esteira, ou esteiro, que assim, e indifferentemente escrevem e usam os nossos classicos, é aquelle sulco, que os navios vão fazendo e deixando depoz si nas aguas, e que bom espaço se conserva depois. Maior é talvez o numero das pessoas que sabem a simplicissima razão physica deste natural phenomeno, do que o das que o nome portuguez lhe conhecem.

«Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios.»

.......... All’ Adria in seno Un popolo d’eroi s’aduna......

Matest. Ezio: atto I.

«Adriades gentis, oh! vinde as frentes.»

Assim como de Tagus Latino fez Camões Tagides; e outros do Douro—DuriusDuriades etc.; quem me impede a mim, que de Adria, faça Adriades?

«Qual Verona folgou com seu Catullo.»

.......... Gaudet Verona Catullo, Pelignae dicar gloria gentis ego.

Ovid. Trist.

«......... Mil graças, mil encantos
Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera.
»

Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de pouco honesto. Todos sabem a lascivia e voluptuosidade dos versos do primeiro: os quadros do segundo tem uma poesia d’este genero bem mais expressiva.

«Em que lhe peze á inveja, e seus furores.»

Eu, que apezar da inveja, e seus furores
Aos astros levo o nome Lusitano.

Elpin. Nonaer. Od. a Vasc. da Gam.

Em que lhe peze, e em que lhe pez são phrases dos melhores classicos: mil exemplos, por um, pudera appresentar; mas citarei o que tenho aqui mais á mão, que é o P. Vieira (Vozes saudosas: voz histor.)

«Scena outr’ora infeliz da gloria Franca.»

As provincias Flamengas foram um dos principaes theatros das ambiciosas guerras de Luiz XIV com a Hollanda. (Vid. Voltaire Siécl. de Louis XIV).

«Lhe bafejastes divinal espirito.»

Quasi divino quodam spiritu inflari.

Cicer. pro Arch. §. 8.

«E o veneno lethal lhe infunde n’alma.»

Sic effata, facem juveni conjecit, et atro
Lumine fumantis fixit sub pectore tædas.

Virg. AEn. Liv. VIII, v. 56, e seg.

«Quam bello é na expressão Vaén correcto.»

Porventura não serão os verdadeiros accentos da pronúncia nacional, os que ponho aqui neste e nos outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe os necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação; dos outros não sei, pois que ignoro a tal lingua; no que, segundo creio, não perderei nada.

«Difficeis nomes d’estremados mestres.»

E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao verso com os seus—kkrr—etc.: não são daquelles, de que Horacio diz:

Verba loquor socianda chordis.

Horat. Lib. II, Od.

«Do mestre a obra maior, Wandik insigne.»

Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é verdade o que vulgarmente se diz, que os Lusiadas, e seu auctor formaram a Gerusalem do primeiro, fôra esta a melhor obra de Camões. Não estou absolutamente por este espirituoso dito de Voltaire; mas com justiça o appliquei a Rubens, e Wandick.

«E em vez d’um Fabio tardador......»

Assim traduziu Filinto Elys. o Fabius cuntactor dos Latinos. (Vid. Filint. Ode á Liberdade).

«......... Ja no Sena ovante

Sobre a margem feliz do rio ovante,
Donde arrancando omnipotencia aos fados
Impoz tropel d’heroes silencio ao globo.

Bocag. Od. a Filint.

«Que do Meschacebeu vingando as margens.»

Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana, na America Septentrional, chamado vulgarmente Mississipi. (Vid. Chateaubriand: Génie du Christ. Part. III, Liv. 5).

«C’o Euripides Francez disputa ainda.»

Racine bem se póde assim chamar, não somente por suas absolutas e eminentes qualidades; mas pela relativa, e mui particular da similhança dos ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. Laharpe: Cours de Littér.; Lemercier: ibid.; e o P. Brumoy no Theatr. dos Gregos).

«Ao ver nas murchas, esmyrradas faces.»

J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes.

Racin. Phoedr. Act. II.

Desfalleci, murchei no ardor, no pranto.

Trad. ms. do Sr. H. E.

«D’um criminoso amor violencia e fogo.»

Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace.

Phoedr. Act. II.

«Os manes folgam de Rollin, Voltaire.»

Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram historiógraphos francezes.

Notas ao canto quarto


«Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes.»

Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura, pudéra eu citar; mas quiz, quanto em mim era, e o permittia o assumpto e a obra, prestar homenagem a dous ingenhos, que honraram a patria e a lingua; e dos quaes o primeiro depois d’uma fama gigantesca, e maior que seu merecimento, passou a ser enxovalhado por quanto Mevio e Bavio sabe dizer—Traduziu, traduziu, traduziu tudo—como se um traductor como Bocage não fosse um poeta de muito merecimento, e de muito maior, que tantos originalistas de nome (de nome sim; que realmente deus sabe o que é); como se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco Barreto, e tantos outros illustres traductores não figurassem mais na republica litteraria que tantos epicos modernos... Eu não sou dos apaixonados do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram entre nós as traducções. Uma nação que assim obra por espirito de priguiça, ou menos-preço de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura, empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e da sua Castro tanto mal como bem se tem dito. Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular, não a comparo ás grandes peças de Racine e Alfieri; mas sei que tem muitas bellezas, e que n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna de muita e muita estimação. Para criticar a Castro de Gomes é preciso enchugar muitas vezes as lagrimas, que ella excita continuamente.

«Calcando a juba dos Leões gryphanhos,
Parando ás Aguias etc.
»

Revoluções de 1640 e 1808.

«........Ah! se aura amiga
Continúa a soprar
......»

Em Roma, assim como na Grecia, se formariam Zeuxis e Apelles, se os Romanos dessem a Fabio as honras, que seus talentos mereciam. Diz Cicero algures nas Questões Tusculanas.

«Inviolavel lei um teu desejo.»

Nação nenhuma (diz Florian no avant propos de Sancho) possue a arte d’amar, como a portugueza.

«Os feitos dignos de perenne historia.»

........as cousas...........
Que merecerem ter eterna historia.

Camões. Lus. Cant. 7.

«Sensiveis corações, vinde espelhar-vos» etc.

Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire non potui.

S. Gregor. II. Concil. Nicen. act. 40.

«Prazeres do christão, doçuras d’Alma.»

Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans lui rien ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse.

Chateaubriand. Gen. du Chr. part. III, Liv. I, cap. 4.

«Portento d’expressão, viva faisca
Do lume eterno...
»

Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit au dessus de l’homme.

Chateaubriand, ibid.

«Fastoso monumento d’alta Iberia.»

Resta ainda resolver o grande problema: Se a descuberta da America foi util ou prejudicial á Europa; o qual, emquanto a mim, depende d’outro mais generico: Se as conquistas, principalmente longinquas, podem ser uteis a uma nação. Não me atrevo a resolver nem um nem outro. As theorias falham quasi sempre em politica, bem como em moral. So noto imparcialmente, que a Hespanha foi poderosissima nação antes do XVI seculo; que Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois não fez mais que luctar contra innumeraveis desgraças: que não tivemos mais um João II; e que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra com o imperio Romano.—Provêm isto das descubertas em si?—Provêm do uso que d’ellas se fez?—Continúa a minha ignorancia.—Os monarchas hespanhoes fundiram no Escurial, e n’outras cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes, barbaridades, irreligião, fanatismo e sacrilegios de Cortêz e de mil outros. Diminuiu no continente hespanhol a população; não se fez o menor caso da agricultura; o commercio não foi senão passivo; e, depois d’um breve esplendor, a suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação pobre e falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.—E que diremos de nós?—O mesmo, com alguma differença para peior. Todo o homem, que pensa, sabe o que eu poderia dizer neste artigo; como para estes só escrevo, elles me entendem; e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da ignorancia e da sordida adulação. (É bem facil de ver que ésta nota foi igualmente escripta antes do dia 24 d’Agosto).

«Terra fertil d’heroes, solo fecundo,
Salve!........
»

Salve magna parens frugum... tellus, Magna virum.

Virg. Georg.

«O mimoso sendal, ja pouco avaro.»

O véo dos roxos lirios pouco avaro.

Camões Lus. Cant. 9.

Diripui tunicam, nec multum rara nocebat.

Ovid. Eleg. Lib. I, Eleg. 5.

«Que divinos encantos não descobrem» etc.

E tuto ciò, che piú la vista alletti.

Tasso Gerusal. Canto XV, st. 59.

«Sonhada, pythagorica harmonia.»

A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras. Póde-se ver a satyra galantissima destas e outras philosophicas extravagancias no celebre poema allemão—Musarion—de Wielland: Canto II.

«Arrulharam d’amor meigas pombinhas.»

Presentem ja no estremecido arrulho
Os propinquos prazeres.

Filint. Elys. Ode a Venus. (Tom. 5).

«Roseos descurvam, se aredondam braços.»

Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ.

Homer, Odyssea B. (Lib. II.)

«Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano.»

Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados dos Romanos—Nigra oculis, nigraque capillis: Horat.—Se é mau gôsto, confesso que o tenho. Quem amar mais os louros, não tem senão dizer:

«Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.»

Assim, eu, e o leitor ficamos ambos satisfeitos. De mais, até lhe posso ensinar um texto, com que provar o seu gôsto. É a auctoridade de Petrarca, que não é pêca neste ponto:

L’auro, e i topazj al sol sopra la neve
Vincon le bionde chiome presso agli occhi.

Petrarca, rim. Part. I. cans. 9.

«Déste; que bem o sei........»

Assim é de crer piamente; e, comquanto o não digam os DD., eu o penso. O leitor póde ficar pelo que quizer—salva fide—pois estas materias são de mythologia, e não de theologia.

«Ja por milagre de Cyprina é prompta.»

Manca il parlar; di vivo altro non chiedi.
Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.

Tass. Gerus. Cant. XVI.

«E novos Pygmaliões por elle anceiam.»

Pigmalion, quanto lo dar ti dei
Dell’ imagine tua, se mille volte
N’avesti quel, ch’io sol’ una vorrei.

Petrarca, rim. Part I, sonett. 58.

«Admira o joven a belleza........»

Faria, pouco mais ou menos, as mesmas extravagancias com o retrato, que o amante de Julia com o da sua bella.

(Vid. Nouvell. Héloï. Part. II, Lett, 22).

«Os lacteos pomos.........»

Le pome accerbe, e crude...

Tass. Gerus. Cant. XVI.

«Serão meus versos, como tu, divinos.»

Me juvat in grœmio doctæ legisse puellæ,
Auribus et puris dicta probasse mea:
Hæc si contingant.........
.......... Domina judice, tutus ero.

Propert. Eleg.

ENSAIO
SOBRE
A HISTORIA DA PINTURA

O objecto principal deste ensaio é a historia da pintura. A maior parte do meu poema será inintelligivel sem elle a todo o leitor, que não tiver feito um comprido estudo nesta materia. Menos porem bastaria talvez para a intelligencia do opusculo: fui mais longo e extenso, principalmente na historia da pintura portugueza, porque julguei util dar á minha nação uma coisa que ella não tinha, a biographia critica dos seus pintores. Sobejo e enfadonho trabalho me deu: oxalá que aproveite! Bem pago fico, se, entre todos os leitores, deparar com dous, em quem faça impressão o amor de boas-artes, e da patria, que toda a obra respira.

CAPITULO I
Dos Pintores Gregos e Romanos

O numero dos pintores Gregos e ainda Romanos, cujos nomes chegaram até nós, é grande, mas o d’aquelles, cujas obras ou maneiras conhecemos, é bem diminuto. O respeito da antiguidade com tudo no-los faz admirar, por ventura mais, do que o seu merecimento exige. Os quadros modernamente descobertos nas cinzas do Herculano e Pompeia, alguns frescos conservados nas ruinas de Roma e outras cidades de Italia tem subejamente mostrado aos entendedores imparciaes, que a pintura dos antigos, ainda mesmo no seu maior auge, não póde soffrer comparação com o menor quadro dos Rafaelos, dos Corregios, dos Caraccis, nem mesmo d’outros pintores de segunda ordem das modernas escholas. Duas coisas principalmente faltavam aos antigos pintores. Uma, as tintas, cujas bellas composições, descobertas em mui posteriores seculos, absolutamente ignoravam; não conhecendo, senão as terras de côr, e os metaes calcinados; faltando-lhes aquellas côres, que dão o tom medio, entre a luz e a sombra, que formam o matizado e assombrado, e exprimem a natureza tal qual ella é, e com toda a sua formosura: outra, o conhecimento das leis da perspectiva, como bem mostram todas as suas obras, que nos restam: defeito este, que salta aos olhos, e de impossivel disfarce. Só aquelle cego fanatismo, que faz cançar os pedantes no estudo do Hebraico e Syriaco e d’outras inuteis antigualhas, póde achar nos quadros Gregos e Romanos bellezas, não digo superiores, mas iguaes ás das magnificas pinturas do bom tempo das modernas escholas, e ainda mesmo das de hoje; com quanto a pintura, á excepção da franceza, bastante se approxima da decadencia pelo espirito servil, mania das copias e mal entendida imitação.

CAPITULO II
Restauração da pintura na Italia

Cimabúe, nascido em 1230,[16] e morto em 1300, é conhecido em toda a Europa pelo honroso titulo de restaurador da pintura. Ouviu os principios de sua arte d’alguns pintores Gregos vindos a Florença, que ainda conservavam restos do bom stylo da nação: aperfeiçoou-se depois com o estudo, e imitação dos poucos modelos antigos, que então appareciam na Italia. Preciosas descobertas, que se foram pelo andar dos tempos fazendo, pouco a pouco desterraram a barbaridade, que, entre as outras boas-artes, tinha tambem sepultado a pintura. As estatuas, os quadros, os relevos arrancados das cinzas e ruinas dos famosos monumentos romanos, quantos mestres, quantos primores d’arte, d’architectura, scultura e pintura não deram á Europa! Miguel Angelo confessava dever toda a sua sciencia ao assiduo estudo, que por toda a vida fizera no tronco[17] de Hercules, no grupo[18] de Laocoon, no Apollo[19] do Belveder, e n’outros modelos da bella antiguidade.

Com quanto porem a pintura e mais boas-artes não possam propriamente dizer-se restauradas antes do seculo de Leão X, que foi o de Raphael, de Miguel Angelo, de Leonardo da Vinci, etc.; Cimabúe comtudo foi o pae da pintura moderna; suas obras espalhadas pela Italia renovaram o bom gôsto, e abriram os alicerces, sobre que se havia depois formar o grande edificio das escholas Florentina, Romana, etc.

Todavia, em abono da verdade devemos confessar, que, posto que Cimabúe possua com razão o titulo de restaurador da pintura; outros antes d’elle houve, que se o não excedêram, lhe não foram ao menos inferiores. De Guido de Senna, pintor do XIII seculo existe em uma igreja de sua patria um quadro da Virgem, tão bom como os melhores de Cimabúe: o seu desenho é de bom stylo, e ainda fresco de côres, apezar de ser feito no principio do mesmo seculo, como indica a inscripção, que se le por baixo.

Me Guido de Sennis
Diebus depinxit amenis;
Quem Christus lenis
Nullis nolit agere penis.

A. D. MCCXXI.

Ora, a data deste quadro é anterior ao nascimento de Cimabúe, affirmado por uns em 1230, e por outros (como Pruneti) em 1240; e por isso os Sennenses querem disputar a Cimabúe o titulo, que a elle e sua patria, Florença, tanto ennobrece. Mas debalde; porque de Guido não se conhece outra obra; e de Cimabúe existem ainda muitas, cuja nomeada o faz hoje mesmo celebre e conhecido, e que n’aquelle tempo serviam de modelo aos seus discipulos.

Do principio tambem deste seculo XIII se conservava em Luca um antiquissimo quadro de certo pintor d’aquella cidade: representava S. Francisco d’Assis. Seu desenho é correcto, posto que um pouco rude; o ar-de-cabeça tem muita expressão, e as mãos são bem tratadas.[20]

Deste, e d’outros alguns monumentos desta épocha, devemos concluir: que Cimabúe não foi o primeiro que na Itália começou a pintar com menos defeitos: mas nunca se poderá asseverar, que elle, e sua eschola (a Florentina) não foram os restauradores e pães da moderna pintura.

O que Pruneti diz a este respeito não destroi os meus principios.

Jamais as sciencias, e artes foram de repente á perfeição. Antes de Socrates e Platão existiu Pythagoras e outros philosophos, que lhe abriram o caminho; antes de Hippocrates, Avicena e Averroes[21] houve Esculapio, e outros mezinheiros; antes de Homero, Hesiodo e Virgilio, havia Orpheus e Linos; Eschylo, Sóphocles, Euripides e Aristophanes foram precedidos por Thespis; os erros de Descartes allumiaram Newton; Mairet, Routrou e Corneille formaram Racine e Voltaire; e entre nós finalmente, antes de Camões, Ferreira e Bernardes houve Gil Vicente, Bernardim e outros muitos, que lhes franquearam a carreira poetica. Agora quasi em nossos dias, na brilhante restauração das lettras, os Elpinos, os Filintos, os Gomes e os Bocages não appareceram de repente.

Assim gradualmente foram crescendo os pintores na Italia, e adiantando-se a perfeição de suas obras. Nos ultimos parocismos do imperio Grego uma infinidade de professores vinham procurar entre os Italianos um asylo mais seguro, e uma patria menos despotica: e quando finalmente em 1448, tomada Constantinopola por Mahometh II, se extinguiu de todo aquelle phantasma colossal, maior numero ainda se espalhou por todo o meio-dia da Europa, e concorreu para a perfeição da pintura moderna; assim como a alluvião de theologos Gregos concorreu, e muito, para a perpetuação das barbaridades scholasticas, e atrazo das sciencias. São deste tempo—Gioto, cujas obras se acham ainda em Florença, Piza e Roma, nascido em 1276, e morto em 1336: foi discipulo de Cimabúe, e contribuiu muito para a perfeição da arte pelo bem-ordenado da sua pintura, e boa disposição de figuras.

Masaccio, nasc. em 1417, e mort. em 1521, seria o verdadeiro e completo restaurador da pintura, se vivesse mais tempo: o pouco que d’elle resta, acha-se em Florença.

Luca Signorelli di Cortona n. em 1449, e m. em 1521; foi celebre pela precisão de desenho, e belleza de composição, todavia fraco no colorido. Notam-se bem estas propriedades nos seus quadros, que ainda se encontram no Loreto e Roma. E este é o ultimo pintor de fama anterior a Leonardo da Vinci, que depois, com Miguel Angelo, foi julgado fundador da eschola Florentina.

NOTAS DE RODAPÉ:

[16] Pruneti o faz nascido em 1240—10 annos depois.

[17] Famosos restos da estatua de Apolonio Atheniense.

[18] Obra de tres escultores Rhodios Athenedoro, Agesandro e Polidoro.

[19] Estatua bem conhecida.

[20] Advirto, e fique advertido por todo o decurso deste ensaio, que quando digo, que este, ou aquelle quadro, ou estatua se acham em Roma, Florença, ou outra qualquer cidade: deve sempre entender-se antes das ultimas revoluções da Europa.

[21] Não confundo Avicena, e Averroes com Hippocrates: bem sei a distancia de tempos e merecimentos. Faço porém esta advertencia, porque não leia isto algum Esculapio enthusiasta, que grite: au scandale!

CAPITULO III
Da Eschola Romana

Apezar de que a eschola Florentina com razão se possa chamar a mais antiga, pois que seus alumnos se começam a contar desde Cimabúe; com tudo a Romana foi, e sempre será como a primeira olhada, não só em favor e respeito de seu illustre chefe Raphael Sanzio de Urbino; mas pela bellesa de desenho, elegancia de composição, verdade de expressão, e sobre tudo intelligencia de attitudes, que a caracterizam e sobreelevam a todas as outras.

As descobertas dos grandes monumentos de pintura e scultura, que os zelosos cuidados de alguns papas, e outras principaes pessoas de Italia desenterravam todos os dias das ruinas da antiga Roma, formaram o gôsto dos mestres desta eschola, moldando-o no antigo. E tal é a caracteristica das suas producções. Os rasgos mestres d’aquelles preciosos antigos lhes inspiraram uma magestosa solemnidade de expressão nas grandes ideias que concebiam; e esta mira, que levaram sempre os pintores Romanos, lhes fez desprezar alguma coisa o colorido: defeito, que bem se esquece por outras, e tão brilhantes qualidades.

Para tecer o elogio da eschola Romana basta nomear Raphael. Que nome nos fastos das boas-artes! Se Virgilio e Homero não são mais celebres, que Zeuxis e Apelles; a glória de Raphael quanto é superior á de Tasso e Ariosto! Não me agrada aquella sentença dos antigos:

—Ut pictura poesis— A poesia será como a pintura

(Bocage).

A poesia (attrevi-me a pensá-lo assim, e se a novidade não agradar nem por isso me desdigo) é uma só: aos poetas pintores, seus primeiros filhos é dado tratta-la viva: os poetas-versejadores só com o véo do mysterio coberta a podem ver e seguir. A poesia animada da pintura exprime a natureza toda; a dos versos porem, menos viva e exacta, falha em muita parte na expressão de suas bellezas. Que poeta nos poderia dar uma ideia de Romulo como David no seu quadro das Sabinas? Que versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade como a transfiguração de Raphael? Que poema nos faria conceber a magestade d’um Deus Creador dando fórma ao cáhos, e ser ao universo, como a pintura de Miguel Angelo?

Estas reflexões sobre o parallelo das duas especies de poesia são minhas; por taes as dou, e me encarrego do mal, ou bem, que d’ellas se pensar. Por ventura não foi este o conceito dos antigos; mas a arte mui atrazada entre elles não estava em proporção da nossa; os gregos não tinham, como nós, Homeros em pintura. Immensas vantagens, como já notamos, lhes levam os modernos pintores; a que de mais accresce o nobre invento da gravura, que, (bem como a imprensa nos facilita o trato dos mais antigos poetas do mundo) transmitte á posteridade e nações remotas os esmeros da pintura, e ainda da scultura. Os nossos Appelles não podem temer o ser conhecidos pelos vindouros só de nome e fama, como o é por nós o dos antigos; a estampa lhes assegura o conhecimento de facto no mais remoto porvir, e mais longes climas.

Mui fertil foi a eschola Romana; grande é o numero dos seus pintores: daremos de cada um d’elles uma brevissima, porem exacta noticia: desta maneira terá a mocidade applicada, como em synopse, e sem o trabalho enfadonho de revolver muitos e antigos cartapacios, a historia completa desta e das outras escholas, em que seguiremos o mesmo methodo.

Seculo XVI

Rafaelo Sanzio d’Urbino, nascido em 1483, morto em 1520, facilmente julgado o principe dos pintores: nenhum (se não for o moderno francez, Mr. David) poderá rivaliza-lo. O brilhante colorido de Ticiano, a belleza das tintas de Corregio, a gigantesca altivez de Miguel Angelo não fazem a menor sombra á gloria do grande Romano. Raphael levou a sua arte ao grau de perfeição, de que é capaz a humanidade. Pertender dar uma ideia d’elle é tentar o impossivel: o estudo das suas producções é o unico meio de o conhecer. Elle ainda vive repartido por seus quadros, um dos mais bellos e ricos ornamentos das cidades que os possuem. Digam-o os templos de Roma, as casas dos principes, o Vaticano (onde existe a sua famosa Biblia), e sobre tudo a egreja de S. Pietro in monte situada no Janiculo; onde se conserva o primeiro quadro do universo, a unica producção da arte, que excede a natureza, a maior honra do ingenho humano, a melhor obra de Raphael, a sua Transfiguração. Tal foi um dos primeiros homens do mundo, de quem (e com mais razão por ventura, do que Horacio dizia de si) podêmos asseverar, que não morreu todo: Non omnis moriar; ou como ja se disse em portuguez; O sabio não vai todo á sepultura. A belleza principal das suas obras é o desenho e attitudes.

Julio Romano (Giulio Pippi) n. 1492, m. 1546: foi discipulo de Raphael. Em suas obras, que principalmente se acham em Roma, se ve que o caracter d’este pintor era a fôrça e ardimento: o seu colorido é obscuro, mas o desenho admiravel.

João Francisco Penni (il Fattore) n. em 1488, m. em 1528; trabalhou quasi sempre debaixo das vistas, e pelos desenhos de Raphael, seu mestre. Suas obras principaes são as galerias do Vaticano.

Polidoro de Caravaggio n. 1495, m. 1543; foi bom colorista, correcto no desenho, nobre e fero nos ares de cabeça.

José Ribera, hespanhol, e por isso dito il Spagnoleto, nasc. em Valença em 1589, e m. em 1656. O seu caracter é o vigor e expressão: todas as figuras austeras e carregadas, prophetas, philosophos, tudo quanto exige um pincel forte e vigoroso, sahia de suas mãos, como das da natureza. Suas obras principaes existiam na cartuxa de Napoles; e entre ellas, a mais conhecida é a collecção dos prophetas.

Perrino del Vague Buonacorsi n. em 1500, m. em 1547; foi tão feliz imitador do stylo de Raphael, seu mestre, que muitos de seus quadros passam por d’elle.

Innocenzio d’Imola n..., m...; desenhou segundo a maneira de Raphael, mas coloriu muito bem. Seus quadros são preciosos e raros.

Giulio Clovio n. 1498, m. 1578. Trabalhou sempre em miniatura, e apprendeu o desenho com seu mestre, Julio Romano.

Federico Barrocci n. 1528, m. 1612. Suas excellentes obras, que se acham em Milão, Bolonha, Pesaro, Loreto e Roma, se distinguem pela belleza do colorido (pouco vulgar na sua eschola) e que assemelha ao de Corregio, grande exactidão de desenho, muita sciencia de luz, e graciosos ares de cabeça.

Thadeo, e Federico Zucaro, irmãos: morto o primeiro em 1566; o segundo em 1609. Thadeo tinha grande ingenho e bom colorido; Federico, menos habil, acabou quasi todas as obras, que seu irmão começara. Acham-se em Veneza, Tivoli e Roma.

Antonio Tempesta n. 1555, m. 1630. Foi eminente em batalhas, caçadas, mercados, animaes etc.—Roma.—

José Cesar d’Arpin (Il cavalier Giuseppino) n. 1560, m. 1640. Seus quadros grandes, que se vem no Capitolio, são historicos e bons; e notaveis, sobre tudo, pela belleza dos cavallos.

Michel Angelo Ameriggi de Caravaggio, n. 1569, m. 1609. Suas obras são mui faceis de conhecer pelo ar de relêvo, que dava a todas as figuras por via do assombrado. Esta originalidade imita bem a natureza. O seu desenho é preciso e fero.—Roma e Napoles.—

Domenico Feti n. 1589, m. 1624. Imitou o antigo, e Julio Romano; donde houve um caracter de desenho fero e vigoroso, com quanto incorrecto. Seus quadros, mui procurados, se distinguem por uma graça particular, e picante.—Roma.—

Giovani Lanfranco n. 1581, m. 1647. Foi eminente nas grandes obras, como platafundos, cupulas, etc.—Napoles.—

Seculo XVII

Pietro Beritini di Cortona n. 1596, m. 1669. Todas as suas ingenhosas producções tem um ar de nobreza, que encanta. Mas a obra prima d’este grande mestre é o roubo das Sabinas, que Lebrun servilmente copiou.—Roma e Florença.—

Mario Nuzzi di Fiore n. 1599, m. 1673; alcançou um grande nome pela maneira excellente de pintar flores.

Miguel Angelo Cerquozzi dito o das batalhas e bambochatas: nasc. 1602, m. 1666; teve um colorido vigoroso e um pincel ligeiro. Era tam habil no seu genero, que pela simples narração d’uma peleja, traçava logo a ordem do quadro no mesmo panno, em que havia de pintar.—Roma.—

Claudio Geleo (Lorrain) n. 1600, m. 1682. Todos conhecem este nome; todos sabem que foi o principe dos paizagistas. Ninguem conheceu como Lorrain a perspectiva aeria, e o effeito dos pontos de vista.—França.—

Andrea Sacchi n. 1599, m. 1661. Suas pinturas ternas e graciosos são admiraveis pelo desenho, colorido e verdade de expressão.

Domenico Passignani pelos annos de 1630, pintou com gosto e nobreza, muita expressão, porem mau colorido.—Florença.—

Pietro Testa n. 1611, m. 1648; moldou o seu stylo nos antigos de Roma, donde houve um bom e correcto desenho, com quanto rude.—Roma.—

Salvator Rosa n. 1614, m. 1673. Trabalhou muito; e suas obras se acham por toda a Italia: todas ellas tem um ar de originalidade, que as distingue, muita verdade e bom colorido; porem o desenho não é perfeito.

Carlin Dolce n. 1616, m...; célebre pela graça da composição e frescura do colorido.—Roma.—

Hiancito Brandi n. 1623, m. 1719 (outros querem que em 1691). Seus quadros são muito vulgares: apezar das incorrecções do desenho, e fraqueza de côres, teve com tudo uma belleza d’ornato, e fecundidade de imaginação, que admira.

Carlo Maratti n. 1624, m. 1713; foi eminente nos ares de cabeça: seu desenho é mui assisado, e seu colorido brilhante. Todas as composições d’este mestre encantam, e são bem acabadas.

Luca Giordano n. 1632, m. 1705. Seu merecimento principal é a facilidade e presteza, com que trabalhava: muitas obras delle são d’uma bella expressão.

João Baptista Bacici n. 1639, m. 1709; retratava bem; e os seus quadros mostram muito talento, e bello colorido.

Mattia Preti (Il Calabrese) teve o ingenho mais feliz na invenção; bella e rica ordem, e muita originalidade. Nasc. 1643, m. 1699.

José Passari n. 1654, m. 1714; discipulo e imitador absoluto de Carlo Maratti.

Seculo XVIII

Francesco Solimeni n. 1655, m. 1747. Bella imaginação, muito talento, um desenho fero e correcto o constituem n’um dos primeiros lugares da pintura; com quanto o seu colorido seja sombrio e pouco doce. A grande qualidade porem d’este mestre, e em que elle sobre-excedeu a todos, é o ar de vida, animação e movimento das suas figuras.—Napoles.—

Sebastião Concha morto pelos annos de 1740. Imitou Solemeni; mas o seu genio frio o não ajudava. Comtudo no hospital de Sienna ha delle uma boa pintura a fresco.

Paolo Panini, vivo em Roma ainda no anno de 1767. Tem bom colorido, e muito espirito.

Paolo Monaldi do mesmo tempo foi pintor de bambochatas muito estimadas.

Pompeio Battoni, retratista e pintor historico: o seu colorido é bem imitado de Corregio.

Muitos outros pintores, posto que não de grande fama, tem produzido mais modernamente a eschola Romana; mas não temos delles sufficiente conhecimento para poder formar um exacto conceito.

CAPITULO IV
Da Eschola Florentina

A eschola Florentina é, por sua antiguidade, a mais respeitavel: seu primeiro mestre foi Cimabúe; com quanto, fallando em rigor, só Leonardo da Vinci e Miguel Angelo mereçam (como ja notamos) o nome de fundadores. As obras dos seus alumnos occupam um logar mui distincto nas collecções mais ricas; e a Italia, e toda a Europa se julga com elles ennobrecida. Seu gosto de desenho é fero e decidido; sua expressão sublime, algumas vezes attrevida, e gigantesca, e mesmo contra-natural, mas sempre magnifica: o colorido nos seus principios era rude; apperfeiçoou-se depois, sem perder nada da sua viveza, magnificencia e outras brilhantes qualidades. Esta eschola é a menos numerosa, mas não a menos célebre.

Seculo XVI

Leonardi da Vinci n. 1445, m. 1520, um dos grandes ingenhos do seu seculo, foi sculptor, architecto e pintor. Seu desenho é correcto e puro, e suas obras todas d’uma composição ingenhosissima; das quaes a melhor é sem questão o grande quadro da ceia em Milão. Foi muito estimado de Francisco I de França, em cujos braços morreu. O canal de Milão foi dirigido por elle.

Pietro Perugino n. em 1446, m. em 1524. Coloriu graciosamente; mas, apezar de ser discipulo de Cimabúe, todos sabem quanto é rude o seu ingenho.

Fra Bartholomeo della Porta n. 1465, m. 1517, formou seu delicado gosto no de Vinci, donde houve muita correção e pureza. Seu colorido é bello e natural. Rafaelo não se dedignou de apprender delle a arte de colorir, ensinando-lhe em troco as necessarias regras da prespectiva.—Roma e Florença.—

Miguel Angelo Buonarroti n. 1475, m. 1504; esculptor incomparavel, magnifico architecto, pintor sublime; não póde decidir-se a qual das boas-artes pertenceu mais: suas estatuas, seus edificios, seus quadros, tudo mostra o maior homem do seu seculo. Teve uma maneira de pincel altiva e fera, e em geral similhante á da sua eschola; vastissima concepção, ideias sublimes e arrojadas, e muita expressão e vigor. Seus quadros principaes se acham na capella Sixtina do Vaticano. A antiguidade toda e talvez os seculos posteriores não tem nada que oppor a tão grande ingenho: seus quadros são inferiores aos de Raphael, e por ventura aos de alguns outros ainda; porém Miguel Angelo é mui superior a todos elles.

Andrea del Sarto n. 1478, m. 1580; foi o maior colorista da eschola de Florença; suas obras, em que se distingue uma maneira larga, e um pincel fresco e brando, conservam ainda hoje um brilho singular.

Baltazar Peruzzi n. 1481, m. 1536, alem dos grandes mestres, estudou sobre tudo a natureza, foi grande na prespectiva, porem fraco no colorido. Ninguem antes de Peruzzi executou com gosto uma decoração de theatro.

Giacomo Pontorma n. 1494, m. 1559; desenhou como Leonardo da Vinci, e coloriu como Sarto. Seu pincel vigoroso, seu colorido brilhante, sua imaginação bella e fecunda o fizeram olhar por Mig. Ang., e Raphael como seu mais temido rival; e se a louca mania de imitar as maneiras alemans o não fizesse mudar de estylo, por ventura os dois grandes mestres não gosariam sós da gloria do primado.

Macherino de Sienna (chamado Domenico Beccafumi) n. 1484, m. 1549; desenhou com gosto e correcção, mas coloriu mal.

Mestre Rosso, ou Roux (como lhe chamam os francezes) n. 1496, m. 1541; pintou com muita expressão e viveza, porem ás vezes um pouco rude. Trabalhou quasi sempre em França, onde teve muitos discipulos, e de cuja eschola é julgado fundador.—Fontainebleau.—

Alexandre Allori n. 1535, m. 1607; foi gracioso e macio, e desenhou com toda a pureza do antigo.

Francisco Rossi (il Salviati) n. 1510, m. 1563; é muito estimado pela grande intelligencia de luz; desenhou e coloriu bem; seus quadros se distinguem pelas singulares attitudes das figuras.—Florença e Bolonha.—

Jorge Vasari n. 1511, m. 1574; muito célebre pelas vidas dos pintores, que escreveu: seu desenho é bom, mas sem energia, e seu colorido fraco.—Roma.—

Jacoppino del Ponte n. 1511, m. 1570; as suas maneiras são as de Andrea del Sarto, seu mestre. Foi o melhor retratista da sua eschola.

Seculo XVII

Daniel Bacciarelli de Volterra n. 1579, m. 1625; desenhou bem, e o que lhe deu grande nomeada sobre tudo, foi a sua descida da cruz na igreja della Trinità del monte em Roma.

Ludovico Cigoli n. 1559, m. 1613, pintou d’uma maneira firme e vigorosa; mas coloriu principalmente com o pincel de Corregio.

Francisco Vanni n. 1563, m. 1615. Coloriu muito bem, e desenhou soffrivelmente.

João Manozzi (Giovani di S. Giovani) n. 1590, m. 1636; foi um dos melhores pintores de sua eschola; seus quadros, que mostram muita intelligencia de perspectiva e architectura, se acham em Roma, principalmente no palacio Pitti.

CAPITULO V
Da Eschola de Bolonha

A eschola de Bolonha, ou Lombarda juntou em si quanto póde produzir a perfeição da arte. Talvez (geralmente fallando) nenhuma das outras o conseguiu tanto. O antigo foi o seu modelo; mas sem uma servil e exclusiva imitação; não tratou de formar systema ou, se o formou, foi extrahindo de todos o que achou melhor. As bellezas vivas e sensiveis da natureza, a verdade de expressão, a riqueza da ordem, a pureza dos contornos, a facilidade admiravel de pincel, e sobre tudo o colorido da mesma natureza, verdadeiro e encantador; tudo emfim, quanto offerece a pintura, bello e terno, tudo reuniram os com-alumnos de Corregio.

Auctores ha hi (como Pruneti) que dividem estas duas escholas de Bolonha e Lombardia; porém a geral opinião é a que sigo. Sobre o chefe, ou fundador desta eschola, diversos são tambem os conceitos, querendo uns que seja Francia, outros Mantegna; a questão é de pouca utilidade.

Seculo XVI

Francisco Francia n. 1450, m. 1518. Suas obras são d’um desenho muito assisado, e mui boa côr para o seu tempo. Raphael lhe enviou o seu quadro de Santa Cecilia para que o corrigisse. Diz-se que a inveja e dor de ver tam perfeita obra em um mancebo de tão pouca idade, lhe causara a morte.

Andrea Mantegna n. 1451, m. 1517; seus quadros rarissimos conservam ainda muito brilho, e são de melhor desenho que os de Francia.

Francesco Primaticcio Bolognesse n. 1490, m. 1570: coloriu graciosamente, e desenhou no estylo de Julio Romano. Alguns, como Pruneti, o querem fazer chefe da eschola de França, onde quasi sempre viveu e pintou.

Antonio Allegri (Corregio) n. 1494, m. 1554. Tinha chegado á perfeição da arte, e ignorava o seu merecimento. O antigo, Raphael, Vinci, etc., tudo lhe era desconhecido; não sabia senão a natureza. Ouviu gabar muito um quadro de Raphael, observou-o, e conheceu o seu proprio merecimento; soube o que valia, e nem porisso foi mais vaidoso; antes continuou a dar por mui rasteiro preço seus inestimaveis quadros, cujo colorido e frescura de pincel ainda não pôde ser imitado.

Francesco Massuoli (o Parmezão, ou Parmegianino) n. 1504, m. 1540. Maneiras graciosas, colorido fresco e natural, muita facilidade e correcção no desenho o constituiram um dos primeiros pintores da sua rica e fecunda eschola. Os quadros deste mestre são raros e carissimos.

Lucas Cangiagio, ou Cambiagi n. 1527, m. 1583 ou 85. Pintou com muita facilidade, e o que é de admirar, com ambas as mãos ao mesmo tempo. Teve muita verdade e viveza, e tal expressão nas figuras, que parece que fallam:

Manca il parlar: di vivo altro non chiedi;
Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.

(Tasso Gerus.)

Os Caraches, Carachas, ou Caraccis, (segundo a nacional e verdadeira orthographia) mais celebres e conhecidos são tres. Luiz Caracci n. 1555, m. 1618; estudou muito os grandes mestres e adquiriu uma maneira nobre e verdadeira, expressão e belleza de colorido. Instituiu uma academia ajudado de Agustinho e Annibal Caracci, seus primos, na qual se formaram Albano, Gruido, Guercino e outros illustres artistas.—Agustinho Caracci desenhou perfeitamente e coloriu bem: dos tres é o menos celebre; n. 1558, m. 1603.—Annibal Caracci n. 1560, m. 1609; foi superior a seu irmão e primo; teve um estylo nobre e sublime, desenho preciso e fero, e colorido muitas vezes admiravel. A galeria Farnesi é de todas as suas obras a mais famosa.

Bernardo Castelli n. 1559, m. 1629; grande amigo de Tasso, a quem retratou, bem como a quasi todos os bons poetas do seu tempo. Foi insigne neste genero: desenhou bem e coloriu melhor.

Guido Renni (o Guido) n. 1575, m. 1624. Costumam distinguir-se tres maneiras differentes neste pintor famoso: a 1.ª forte e assombrada; a 2.ª natural e bella; a 3.ª terna e doce, porem mais fraca. Pintava com a maior facilidade.

Seculo XVII

Francesco Albani (o Albano) n. 1578, m. 1660; deu-se absolutamente aos assumptos galantes e graciosos: seu genio doce e terno o determinou na escolha. O nosso Vieira Portuense o estudou muito e imitou bem.

Domenico Zampierri (Domenichino) n. 1581, m. 1641; observou sempre uma ordem magnifica nos seus quadros, muita nobreza, correcto desenho e verdade de expressão.

Francesco Barbieri da Cento (o Guerchino) n. 1590, m. 1666. Trabalhou com uma facilidade incrivel; e os seus quadros se encontram por toda a parte: teve um desenho fero e expressão nobre; mas o colorido não é igual. Sua 1.ª maneira é escura e fraca; a 2.ª é mais dura e fortemente assombrada; a 3.ª é bella e encantadora, e participa do gôsto de Ticiano e Corregio. Nos fins de sua vida, porem, obrigado da miseria, trabalhou mal e sem gôsto.

Luciano Borzoni n. 1590, m. 1645. Verdade e intelligencia de expressão, e delicioso colorido o fizeram um excellente pintor. Teve dois filhos, que o imitaram, e se distinguiram; sobre tudo Francisco Borzoni nas paizagens e marinhas.

João Francisco Frimaldi n. 1606, m. 1688. Coloriu suavemente e com harmonia; suas paizagens são excellentes.

Benvenuto da Ferrara (o Garofalo) n. 1615, m. 1695; foi muito bom colorista e desenhou bem. As suas cópias de Raphael são muito estimadas.

Beneditto Castiglioni. Sua pureza de desenho frescura de colorido, delicadeza de toque e grande intelligencia de claro-escuro fizeram os seus admiraveis quadros preciosissimos e caros. Nasceu 1616 m. 1670.

Cario Cignani n. 1629, m. 1673. Teve muito boa composição e desenho; mas pouca expressão por causa do muito-acabado dos seus quadros.—Bolonha.—

Seculo XVIII

Thiarini, chamado o expressivo, morto pelos annos de 1750: teve muita expressão e um colorido vigoroso: exprimiu bem as paixões.

Izabel Cirani, do mesmo tempo. Estudou com proveito os grandes mestres: adquiriu um gracioso colorido; e, com quanto preferia os assumptos terriveis, executou muito melhor os doces e ternos.

Marcantonio Franceschini (o Francesquino) morto em 1729. Seu colorido é muito engraçado, seu desenho preciso, e sua maneira tem uma bella simplicidade. Os quadros de Francesquino tem muita estimação e valor.—Bolonha.—

Marcos Benefiale n. 1684, m. 1764; foi um dos bons mestres de sua eschola por seu correctissimo desenho, grande energia e expressão, e fecundidade de pincel.—Roma.—

CAPITULO VI
Da Eschola Veneziana

A eschola Veneziana, que reconhece por fundadores os Bellinis, Giorgione e Ticiano, produziu excellentes pintores, que imitaram a natureza com uma fidelidade, que seduz os olhos. Seu colorido é sabio e encantador, seu claro-escuro de muita intelligencia, a imaginação bella, a ordem rica, e os mais galantes e spirituosos toques; em fim, sua maneira é originalmente encantadora, sobre tudo nas formosas e sabias composições de Ticiano e Paulo Veronese. Os grandes mestres desta eschola desprezaram todavia alguma cousa o desenho; tam essencial á boa pintura. Ticiano, e Giorgione elevaram o modo Veneziano a um ponto, que será difficil iguala-los. Nota-se em geral a esta eschola pouco conhecimento do antigo, e attitudes.

Seculo XV

Gentil e João Bellini mortos, o primeiro em 1501, o segundo em 1512, e mui velhos. Seus quadros rarissimos mostram ainda um desenho verdadeiro, mas sem ordem: seu maior merecimento é terem sido mestres de Giorgione e Ticiano.

Giorgione de Castel-franco n. 1477, m. 1511. Sciencia de claro-escuro, ordem, colorido e desenho o elevaram em brevissimo tempo (pois viveu só 34 annos) á perfeição.

Seculo XVI

Ticiano Vecelli da Cadore n. 1477, m. 1576. Suas obras espalhadas por toda a Europa fizeram conhecer este mestre, que discorreu uma longa e feliz carreira, vivendo 99 annos; um quasi inteiro e glorioso seculo empregado na mais nobre das artes. Ignorou o antigo, e falhou no desenho; mas o colorido de Ticiano, e sua expressão, assim como não tiveram modelo, não terão imitadores.

Gio Antonio Regillo (il Podernone) n. 1484, m. 1540. A belleza de seu colorido, facilidade de desenho e apurado gôsto de invenção o fizeram temer muito de Ticiano. Nada mais é necessario para seu elogio.

Sebastião Piombo n. 1485, m. 1547. O quadro da resurreição de Lasaro, feito para oppor ao da transfiguração de Raphael lhe adquiriu muita fama; e Miguel Angelo, cujo é o desenho do dito quadro, quiz por via d’elle disputar a Raphael o primeiro logar; mas a expressão, e colorido de Piombo não poderam triumphar do incontrastavel merecimento de seu illustre rival.

Giacomo Ponte Bassano n. 1510, m. 1592. Amou os assumptos communs, em que foi grande: seu stylo é verdadeiro, e as suas côres excellentes.

André Sciavone n. 1522, m. 1582: desenhou incorrectamente; porem coloriu tam bem, teve um modo tam facil e engraçado, tam bom gôsto nas roupagens, e tam bellas attitudes, que se lhe não pode negar o titulo de grande pintor.

Giacomo Robusti (il Tintoreto) n. 1524, m. 1594. Uma imaginação vivissima, uma rapidez incomprehensivel e um finissimo gôsto o elevaram á primeira ordem dos mestres. É prodigioso o numero de suas obras.

Paolo Calliari Veronese (Paulo Veronese) n. 1532, m. 1588. Seus quadros farão sempre as delicias dos amadores da arte pela riqueza d’ordem, belleza de caracteres, bom gôsto de roupagens, frescura de colorido e nobre elegancia de figuras.

Giacomo Palma (Palma il Vechio) n. 1540, m. 1588; imitou a natureza sempre bella, e com um bem-acabado sem affectação.

Seculo XVII

Tiago Palma (Giacomo Palma il Giovane) n. 1544, m. 1628. Foi discipulo de Tintoreto, que imitou optimamente.

Carlos Veneziano n. 1585, m. 1625. Seu colorido imita bem Corregio, e suas physionomias engraçadas as de Guido.

Alessandro Veronese dito o Turchi, ou Orberto n. 1600, m. 1670; desenhou bem, e coloriu como um Veneziano.

Seculo XVIII

Giam Battista Piazzeta morto no fim do XVIII seculo. Seu colorido é mau, mas o desenho imita muitas vezes, e com verdade, a nobre altivez de Miguel Angelo.

Rosa Alba Carriera n..., m. 1761. Seus retratos e pasteis são conhecidos em toda a Europa; seu principal merecimento é o novo gôsto, e maneira singular, com que trabalhou em miniatura.

CAPITULO VII
Da Eschola Flamenga

A eschola Flamenga é a de Rubens e Wandick; tanto basta para o seu elogio.—Van-Eick, tam conhecido pelo invento da pintura a oleo, foi o seu chefe. Quem amar a nobreza do pincel Romano, a bella arrogancia do Florentino, as graças do antigo, as gentilezas Gregas; não será decerto muito apaixonado das producções Flamengas. Os gelos do paiz, o temperamento frio dos habitantes são as causas necessarias e naturaes do pouco fogo que se lhes nota. Mas, em trôco desta falta, que bellezas lhes não achará o amador imparcial e singelo! Ninguem, senão os pintores Flamengos, appresenta em seus quadros um bem-acabado, um completo, que parece superior á paciencia humana; uma fidelidade original na imitação da natureza, que encanta e admira. O seu defeito todavia é o menos-preço d’aquella generica e fundamental regra das boas-artes: Imitar a bella natureza; isto he, saber extremar n’ella o bello do mediocre. Nisto falharam de certo, exprimindo-a muitas vezes com a cega punctualidade, e o verbo ad verbum d’um fidus interpres; mas este mesmo defeito (permitta-se-me julga-lo assim, com quanto vou contra o commum parecer) dá muitas vezes ás pinturas Flamengas encantos simplices, e singelos, que em nenhumas outras se encontram.

Nesta numerosa eschola se classificam todos os pintores das nações do norte; e se os caracteres, mais que as patrias, devem ser neste ponto os verdadeiros dados, não duvidarei tambem ennumerar n’ella os poucos bons inglezes. Nunca pude gostar da pintura Britannica: um contra-natural, um monotono, um forçado no colorido, um sempiterno gêlo na expressão, que sempre lhe notei, me fizeram olha-la com desprezo, e a não ser o moderno West, (de quem adiante fallarei) de certo os inglezes avultariam bem pouco neste ramo das boas-artes.

Seculo XV

João Van-Eick n. 1370, m. 1441; fundou a sua eschola, e inventou a pintura a oleo. Nada mais se sabe.

Alberto Durero n. 1471, m. 1528. Seu desenho é correcto, sua imaginação viva, sua maneira firme; mas falhou muito nos costumes.

Seculo XVI

João Holbein n. 1498, m. 1554. Sua imaginação é sublime, o colorido vigoroso, e suas figuras tem um ar de relêvo, que engana. Em geral o pintar deste mestre parece mais Lombardo, que Flamengo.

Otam Vaen ou Vaenio n. 1556, m. 1634; formou-se no gôsto Romano, que lhe deu muita correcção de desenho, e belleza de expressão; qualidades, a que ajunctou grande intelligencia de claro-escuro.

Bloemart n. 1567, m. 1647. Um toque expedito e livre, bellas roupagens, muita sciencia de claro-escuro são os caracteres d’este pintor.

Pedro Paulo Rubens n. 1567, m. 1640. Nada será bastante para fazer descer este grande homem do grau illustre de primeiro pintor historico. Não quero, nem devo occupar-me de seus defeitos; releva-me só dizer: que o seu colorido é verdadeiro e brilhante, sua imaginação fertil, seu claro-escuro sabio, todo elle é encantador.—A galleria do Luxembourg é a sua melhor obra: mas um quadro allegorico da guerra (no palacio ducal de Florença) no meu parecer, e no de muitos, não é inferior. Fogo brilhante, nobreza poetica, côr excellente;[22] caracteres interessantes, composição precisa, intelligente distribuição de luz; tudo se juntou neste quadro; e n’um grau de formusura, a que só a allegoria póde remontar. A simples ideia deste painel vale bem uma Iliada, e todos os Klopstocks juntos talvez a não produzissem: «É a transfiguração de Rubens» dizia um philologo meu conhecido, alludindo ao célebre quadro de Raphael. «A vida dos homens sabios é o cathalogo de suas obras» diz um grande litterato[23]. Esta sentença desculpa a minha diffusão.

Seculo XVII

Antonio Wandick n. 1599, m. 1641. Foi discipulo de Rubens, e a maior honra do mestre; verdadeiro e simples na imitação da natureza. O seu genero foi o retrato, em que ninguem o excedeu.

Rembran-Van-Ryn n. 1606, m. 1674; foi grande no claro-escuro, na harmonia das côres: na imitação do relêvo. Seus quadros são conhecidos pelo fundo negro.

Vander-Kabel n. 1631, m. 1695; distinguiu-se absolutamente da sua eschola pela imitação dos Caraccis e Salvator Rosa.

Eglone-Vandernér, ou Vandernêér n. 1643, m. 1697. Um colorido vivo, um pincel mimoso lhe fizeram naturalmente procurar os assumptos amorosos, em que foi excellente.

Wanderwerff n. 1659, m. 1722. Seus toques são firmissimos, e seu desenho correcto.

Seculo XVIII

Antonio Raphael Mengs n. 1728, m. 1779. Tem uma verdade de colorido, e uma facilidade de pincel, que distingue as suas obras de quaesquer outras.

Gerardow n..., bem conhecido pelo seu Hydropico que existia no palacio real em Turin, e que Mr. Cochin na sua viagem de Italia não duvída chamar o melhor quadro Flamengo, e assegura ter sido um dos mais estimados do principe Eugenio.[24]

NOTAS DE RODAPÉ:

[22] A muito me affoito, conceituando da belleza de côr d’um quadro, que nunca vi, senão em estampa, e má estampa; mas fio-me na auctoridade de eruditos viajantes. Haverá dous annos que me communicou esta estampa em Lisboa o sabio philologo J. B. S. Dos apontamentos, que então fiz, extrahi esta e outras discripções, que por ahi vão.

[23] Voltaire: Siècle de Louis XIV.

[24] Muito há que li estas viagens, assim como as memorias de Mr. l’Abbé Richard; de maneira que agora não poderei asseverar em qual dos dous encontrei Gerardow, e o seu hidropico. Á leitura d’ambos remeto os curiosos.

CAPITULO VIII
Da Eschola Franceza

A eschola Franceza, filha da Romana (segundo Pruneti) honra muito a sua progenitora. Desde o seculo XVII as Italianas (seu modelo) declinavam muito; ja se não viam Rafaelos, Corregios, nem Ticianos: parece que a natureza, esgotada por tam grandes talentos, queria descançar. E nesta mesma epocha (principios do seculo XVIII, e fins do XVII) brilhavam em França Le Brun, Lesueur, Subleiras etc. Veio o seculo XIX tam memorando pelas extraordinarias mudanças, que viu a Europa; e em quanto a revolução Franceza, e suas consequencias aniquilavam em toda a parte[25] as boas-artes; a França apresentava ao mundo o mais brilhante espectaculo. Por entre o ruido das armas e o estrepito dos combates, as margens do Sena,

D’onde, arrancando omnipotencia aos fados, Impoz tropel d’heroes silencio ao globo

(Bocage)

se ornavam com todo o esplendor das sciencias e artes. A mesma Theologia tam sêca, e enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam immoral nas de Mollina, e Sanches, muda de fórma, toma nova essencia, e na milagrosa penna de Chateaubriand surge com uma belleza e magestade, que jamais puderam dar-lhe o douto Agustinho, o eloquente Origenes. Com bem justiça, em quanto a mim, se podem a si proprios applicar os Francezes, a respeito das outras nações, aquella sentença de Seneca: Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed non peragerunt.[26] Nesta epocha brilhante e memoranda nos fastos da humanidade, das sciencias e das artes, a pintura renova em París os seculos de Augusto, de Leão X e de Luiz XIV. Os generaes victoriosos traziam de toda a parte os monumentos mais preciosos das boas-artes. O Vaticano, o Belveder, o Capitolio, Roma, toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas de sculptura e pintura transportadas á nova capital do mundo. Então appareceram em França David, Girodet, e muitos outros, que vão parelhas com os mais famosos Italianos, se em parte os não excederam. Lavater no seu ingenhoso livro das physionomias não se attreveu a caracterisar os Francezes. Seus genios e maneiras tam incertos e incapazes de classificação, como sua variada phisionomia, impedem affixar-lhes com exactidão a caracteristica; e philologos por isso houve, que não quizeram considerar na Franceza uma eschola; porem esta assersão é sem critica, e pouco seguida. Pruneti no seu Ensaio Pictorico accusa a eschola Franceza de mau colorido, e ignorancia do antigo. Eu, sem me attrever a contrastar este parecer, julgo que tal imputação não pode ter lugar na moderna eschola franceza; mas somente se deve referir á antiga. Pruneti todavia não conheceu a eschola de David; mas devia conhece-la seu traductor Taborda; devêra estuda-la para emendar o seu original, e exceder assim a mediocridade d’um traductor servil, accrescentando-lhe novas ideias. O grande genero francez é geralmente o historico. O chefe desta eschola, querem uns que seja Roux, ou Rosso, outros que Leonardo da Vinci: Pruneti assevera que fôra Primaticio Bolognese e o faz alumno da eschola Romana. Eu o classifiquei na Lombarda; mas confesso que me enganei; porque o seu pintar, verdadeira norma, é mais Romano, que Lombardo.

Seculo XVI

Vovet n. 1590, m. 1649. Teve um desenho altivo, e um pincel vigoroso; mas imitou depois todas as boas e más qualidades de Mig. Ang. de Caravaggio.

Nicolau Poussin: Pruneti o faz nascido em 1594; mas Voltaire (Siècle de Louis XIV) assevera esta data em 1599. A boa critica decide por este, como nacional, e tam instruido nos successos d’um tempo, cuja historia nos deu. O mesmo Voltaire diz que Poussin era chamado o pintor das pessoas de spirito, e acresenta que tambem das de gôsto se podia dizer. Soube bem o antigo e o desenho; mas o gôsto Romano lhe deu um colorido sombrio. Sua philosophia (diz o grande escriptor) o fez superior ás intrigas de Le Brun, e morreu pobre mas contente em 1665.

Pedro Valentin de Colonier n. 1600, m. 1632; imitou Poussin; teve um colorido harmonioso, boa ordem nas figuras, mas pouca correcção no desenho.

Jacques Blanchard foi imitador feliz das bellezas de Ticiano. Nasc. 1600, m. 1638.

Lesueur n. 1617, m. 1655. Seu ingenho é sublime e elevado, seu gôsto de roupagens magnifico. É um dos primeiros pintores da antiga eschola Franceza.

Pedro Mignard n. 1610, m. 1638. O estudo, e imitação de Raphael e Ticiano o fizeram algum tempo rival de Le Brun; mas a posteridade imparcial o extremou bem.

Carlos Le Brun n. 1619, m. 1690. Sua composição, dignidade de exprimir, e fidelidade de costumes se conhece principalmente pelas batalhas de Alexandre, que Voltaire julga superiores ás de Paulo Veronese; mas apezar do meu respeito a um tal historiador, e philologo, creio que nisto se engana, bem como no elogio do seu colorido, que todos taxam de menos correcto.

Seculo XVIII

José Vivien n. 1651, m. 1735. Retratou bem a pastel, teve muita belleza e fecundidade de ideias, e executou bem.

Pedro Subleiras n. 1699, m. 1749. Fertilidade de ingenho, grandeza de estylo, viveza de colorido, magnifica prespectiva, boas roupagens são os seus caracteres, e os d’um grande pintor.

João Baptista Santerre n..., m.... Seu merecimento principal é um colorido verdadeiro e terno. O quadro de Santa Thereza na capella de Versailles é um dos esmeros d’arte mais preciosos e bellos; com quanto um pouco voluptuoso de mais, de que ao assumpto e logar cumpria.

Seculo XIX

David[27] é não só o primeiro pintor da moderna eschola Franceza, mas por ventura o primeiro do mundo, depois de Raphael. Que vastidão e sublimidade de ideias! Que força e verdade no colorido! Finalmente as suas composições reunem todas as boas qualidades, que apenas se acham dispersas pelos quadros mais famosos das antigas escholas, e que só a elle foi dado juntar. Fallem os prodigiosos quadros de Belisario, do juramento dos Horacios, da morte de Sócrates, e sobre tudo o incomparável quadro das Sabinas, o non plus ultra da concepção e execução, e a eterna inveja de todos os pintores existentes e futuros.

Girodet igualmente se tem distinguido muito pela elegancia de suas composições, e suavidade de seu colorido, que nos seus quadros, quer de perto, quer de longe, presenta quasi o mesmo effeito. Não tem as graças virís de David; mas um acabado, uma doçura, uma maneira de exprimir, que o caracterisam, e tornam por extremo encantadoras suas bellas producções. Vejam-se os quadros do enterro d’Atala, e da Virgem.

Gérard por seus excellentes retratos, chamado o Wandick de França, é tambem pintor historico e famoso pelo bom arranjo e ordem de seus grupos, pannejado, ou trapejado de suas figuras, e bella correcção de desenho. Seus grandes quadros são o Belisario, a Batalha d’Austerlitz, e ultimamente a entrada de Henrique IV em Paris, que lhe grangeou o logar de primeiro pintor da Camera de Luiz XVIII; não porque Girodet seja superior a David, nem mesmo igual, mas porque soube lisongear a tempo.

Régnault é muito conhecido pela correcção do desenho; porém o seu colorido, em demasia brilhante, é mais contrafeito, que natural: todavia deu muitos e bons discipulos, e entre elles o mais famoso é:

Guérin tão celebre pelos seus quadros de Phedra, e Hyppolito, de M. Sexto, e da narração de Eneas a Dido. Seus caracteres são fogo pictoresco e muita sciencia de claro-escuro.

Le Gros bem conhecido pintor de historia segue a David. É mui celebre o seu quadro de Francisco I, e Carlos V em S. Diniz.

Vernet, filho do paizagista do mesmo nome, e que no genero de batalhas é sem par. Só elle conseguiu exprimir com todo o fogo, e energia os brutos, que puxam o carro de Neptuno.

NOTAS DE RODAPÉ:

[25] Á excepção da Inglaterra e Russia, e tambem de Portugal, que então colhia os fructos de todas as fadigas de Pombal e Manique.

[26] Seneca Epist. 65

[27] Tinha-me feito a mim proprio uma lei de não nomear nenhum pintor vivo; mas o reconhecido merecimento destes, o serem estrangeiros, a necessidade de fallar da moderna eschola Franceza, e não podêr faze-lo de outra maneira, me obrigou a infracção da lei, e quebra do protesto.

CAPITULO IX
Dos Pintores Inglezes, e principalmente de West

West é o unico inglez, cujas obras mereçam collocar-se a par das boas das outras nações. Os Inglezes não tem o genio da pintura. A natureza do paiz não é bella, o sexo frio e desleixado; as proporções do corpo em geral irregulares, mal feitas; o caracter da nação duro e rispido; os costumes ferozes; tudo em fim concorre a impossibilitar a Gran-Bretanha de produzir bons pintores. Um inglez bem conhecido, o barão de Chesterfield o confessava, quando n’uma de suas cartas a certa dama franceza diz: Every country has talents peculiar to it, as well as fruits, or other natural productions. We here think deeply, and fathom to the very bottom. Italian thoughts are sublime to a degree beyond all comprehension. You keep the middle path, and consequently are seen followed, and beloved (Chesterfield Letters: Lett. 444.) Comtudo West soube distinguir-se de seus compatriotas por um genio vasto, e desenho correcto; mas seu caracter de pintura não é sublime; e o seu colorido (como o geral da nação) contrafeito e improprio.

CAPITULO X
Dos Pintores Portuguezes

Tem-se escripto muito, e muito controvertido sobre a Pintura portugueza, e sua historia; mas tanto nacionaes, como estrangeiros (affoitamente o digo) sem critica. O exame de seus escriptos, das obras dos nossos artistas me suscitou a ideia de entrar com o faxo da philosophia neste cahos informe e desembaraçar, quanto em mim fosse, com o fio da critica este inextricavel labyrinto. Não pretendo adiantar ideias novas: pois donde as haveria? Menos ainda refutar as poucas historicas que temos: pois que documentos poderia allegar? Mas simplesmente examinar o que ha, e dar-lhe ordem e methodo. Eis aqui o que é meu, o resto é dos escriptores, de quem o houve. Com estes dados considerei em Portugal quatro epochas de pintura, umas mais, outras menos brilhantes: por via destas divisões será por ventura mais facil o formar um systema historico desta boa-arte entre nós.

EPOCHA I
(Seculos XI até XIV)

O erudito arcebispo Cenaculo, Barbosa e outros modernos, na investigação das antiguidades da pintura portugueza, conjecturaram muito e com muita fadiga, mas pouco fructo. O desleixamento daquelles seculos meio-barbaros em se lembrar da posteridade com a historia de seu tempo, não deixa aos animos estudiosos, e amigos da gloria patria, senão o desejo e infructuoso trabalho de vagar sem rumo por um pelago de conjecturas, a qual mais vaga. Que Italia e Portugal eram, nestas epochas remotas dos seculos XI, XII e XIII, as provincias menos barbaras da Europa; seus monumentos publicos, templos, estatuas e ainda livros o mestram. Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra são, alem d’outras, incontrastaveis provas da minha asserção. Vivia entre nós a pintura; e vivia o melhor, que do gosto do tempo se podia esperar. Quem exigir mais diffusão, póde ver os citados Barbosa, e Cenaculo, e todos os allegados pelo moderno Taborda. O resultado philosophico de quanto disseram é em poucas phrases:—Que esta arte antiquissima entre nós remonta ao principio da monarchia.—Que barbara e gothica ao principio, se foi pouco e pouco melhorando, já pelas viagens dos nossos mestres á Italia, já pelas obras e pintores, que de lá vinham chamados pelo bom acolhimento, que lhes nossos monarchas faziam.—Que existem ainda deste tempo algumas pinturas, cujo auctor se ignora.—Que nos reinados d’Affonso V, e João II ja tinhamos pintores de nome, como Gonsalo Nuno, João Annes, e Alvaro de Pedro. Que o estylo da nossa pintura deste tempo, era um mesclado de gothico e grego-moderno, similhante ao de Cimabúe, Guido de Sienna, e Pedro Perugino.—O gôsto do antigo, que então começava a prevalecer na Italia, e que de lá se communicou a Portugal pela protecção, com que o amador das boas-artes, D. Manoel especializou a pintura, assignala a segunda epocha, que se deve contar do XV seculo.

EPOCHA II
(Seculos XV e XVI)

«Em quanto a França se occupava em justas e torneios, em discordias e guerras civís, Portugal descobria novos mundos, fazia o commercio da Europa, e produzia um sem numero de Camões, antes que em París houvesse um só Malherbe» diz Mr. Voltaire (Siècle de Louis XIV), e devêra accresentar que, antes que nascessem Le Brun e Poussin, ja Portugal contava, na longa serie de seus pintores, Gran Vasco, Francisco de Hollanda, Claudio Coelho, e mil outros. D. Manoel chamado o feliz, foi o pae das sciencias e artes: e se João III contou no seu tempo mais sabios, que seu illustre antecessor, fructos foram, que em seu tempo amaduraram; mas devidos ás fadigas do semeador e cultor o grande Manoel. Gran Vasco, Gonsalo Gomes, Fr. Carlos todos são deste tempo.

O commercio e conquistas da India tinham elevado o reino a um gráo de opulencia, desconhecido então das outras nações. D. Manoel quiz eternizar-se com a fabrica do mosteiro de Belem; conhecendo:

Que d’acções immortaes se murcha a gloria,
Se a não regam as filhas da memoria.

(Diniz od.)

Os mancebos de mais esperanças foram mandados á Italia a aperfeiçoar-se na pintura. Affonso Sanches, Fernão Gomes, Manoel Campello, Christovão Lopes e outros, voltaram approveitados, e enriqueceram não só Belem e Lisboa, mas o reino e toda a Europa com suas primorosas obras. Veio depois Francisco de Hollanda, Diogo Pereira e Claudio Coelho, que não deixaram ao seculo de Manoel e João III[28] que invejar ao de Luiz XIV. O estylo pomposo de Miguel Angelo, que tanto agradava ao genio altivo d’uma nação conquistadora, prevalecia muito entre os pintores portuguezes, que nem por isso menos presaram o desenho de Raphael, e o colorido de Ticiano, que ainda hoje se admira, em suas bellas composições.

EPOCHA III
(Seculo XVII)

Espiraram com D. Sebastião nas areias de Africa o valor e espirito portuguez; cairam as sciencias, esmoreceram as artes; e, com quanto os intrusos Philippes favoreciam alguma cousa o talento; a abundancia e riquezas, em cujo seio se crearam sempre os grandes ingenhos tinham desamparado o reino, e sepultado a nação no lethargo politico, na miseria e na ignorancia. As cinzas das sciencias fumegavam com tudo; e os ultimos vislumbres d’um clarão moribundo, mas ainda grande, allumiaram ainda a Amaro do Valle, Estevão Gonsalves, José d’Avellar e Bento Coelho.—Surgiu finalmente a independencia portugueza depois de 60 annos de escravidão; mas o genio da nação estava muito abatido; era necessario ainda o decurso de muitos seculos para o levantar. Vem-se com tudo desta quadra muitas pinturas, supposto não mereçam comparar-se com as do bom tempo de Campello e Claudio. Bem como nos animos, reinava na pintura por estes desgraçados tempos a servidão e mau gosto, que se limitava a copiar e imitar com baixeza; e por ventura pela mesma razão, que nos fez desprezar a materna lingua, para escrevermos na hespanhola: lisonja vil e indigna do nome portuguez, eterno opprobrio e mancha de escriptores, aliás benemeritos, como Faria e Sousa, que enxovalhou sua fama com tal baixeza e vituperio,[29] e a marcou indelevelmente com o ferrête da sordida adulação; perniciosa mania, que tanto estragou o idioma de Camões e Barros, e a tal ponto, que os esforços e fadigas de tantos sabios e philologos tem sido pouco para a restaurar.

EPOCHA IV
(Seculos XVIII e XIX)

A longa paz do reinado de D. João V, o commercio das colonias Americanas, as riquezas e abundancia consecutivas fizeram reviver as artes e sobretudo a pintura e architectura. Começou-se Mafra pela mesma razão, que se começara Belem: a Italia recebeu de novo muitos alumnos portuguezes; e como Luiz XIV fizera em Roma, fez João V, instituindo n’aquella cidade uma academia de pintura. Francisco Vieira Lusitano, Ignacio d’Oliveira, e muitos outros foram o digno fructo dos cuidados do monarcha, merecedor por seus bons desejos d’um seculo mais philosopho, e d’uma côrte menos hypocrita. N’este estado de cousas começou a reinar D. José, e com elle o marquez de Pombal: tudo mudou de face; cahiu o colosso jesuitico, o reino d’Aristoteles e a barbaridade Thomistica[30]; brilhou a pintura como a poesia, e as outras artes e sciencias. O governo doce e moderado de Maria I acabou de aperfeiçoar o que principiara e adiantara D. José, e o marquez de Pombal, que na universidade de Coimbra,[31] em Mafra, no collegio dos nobres, e outras partes tinham instituido aulas de desenho e pintura. D. Maria fundou a academia do nu; em seu tempo[32] se instituiu a de desenho do Porto. A nenhum bom portuguez devem esquecer os vigilantes cuidados do intendente Manique, a quem a pintura, a esculptura e mais artes devem tanto em Portugal. Esta fertil epocha produziu um Pedro Alexandrino, Vieira Lusitano, Teixeira Barreto, Vieira Portuense, Sequeira, e muitos outros, cujos nomes callo, mas bem conhecidos pelas suas bellas producções. A verdade, a expressão, o bello natural são os caracteres dominantes nestes tempos.

PINTORES PORTUGUEZES DA I EPOCHA
(Seculo XI até XIV)

Alvaro de Pedro viveu e pintou na Italia pelos annos de 1450. Nada mais se sabe; mercês á incuria de nossos avoengos. Oxalá que este miseravel e vergonhoso exemplo sirva de estimulo a netos, que possam melhor que eu, transmittir á posteridade a memoria illustre de nossos coévos. Noto de passagem que o traductor da oração de Belori assevera, com uma intrepidez que me espanta, serem de Gonsalo Nuno, ou Nuno Gonsalves as pinturas da capella de S. Vicente na sé de Lisboa. O mesmo dizem Francisco de Hollanda e Bermudes.

João Annes. Deixadas conjecturas, nada mais sabemos deste pintor, senão que vivia pelos annos de 1459 por uma carta de privilegio dada por D. Affonso V. (Vide Taborda, Cenaculo, etc.)

Vasco dito o grande (Gran Vasco). Sabemos por documentos d’aquelle tempo, que vivia ainda nos fins do XV seculo. Seu stylo do antigo modo Florentino faz julgar aos sabedores, que estudára com Pedro Perugino. Desenho, ainda que rude, exacto, attitudes energicas, grande conhecimento de architectura, bellas paizagens são os caracteres deste insigne mestre, que fertil, e assiduo no trabalho enriqueceu todo o reino com seus primores. Muitos templos de Lisboa, o da Ordem de Christo em Thomar, e outros o attestam. Foi pintor de D. Affonso V, e segundo o traductor portuguez de Belori, tambem de D. Manoel. Um periodico de Lisboa (que infelizmente se intitula Mnemosine Lusitana) quer que o melhor quadro de Vasco seja o da paixão de Christo no horto (em Thomar): pintura (diz elle) porque um Inglez philologo, dava 6:000 cruzados, e uma boa copia. Desejava de todo o meu coração, que o redactor, ou redactores tivessem, ao menos nisto, razão: em quanto a mim o amor da patria m’o faz crer facilmente.

PINTORES PORTUGUEZES DA II EPOCHA
(Seculo XV e XVI)

Gonsalo Gomes, de quem nada mais se sabe senão que vivia nos fins do seculo XV, foi pintor de D. Manoel: e a estimação, que este sabio rei d’elle fez, é o unico, mas relevante testemunho do seu merecimento.

Na chronica de D. Manoel é chamado Duarte Darmas grande pintor, e como tal enviado por el-rei a debuxar as entradas de Azamor, Salé, etc. (Vide Damião de Goes, Chron. de D. Man., part. II, cap. 27, pag. 208, ediç. de 1819).

Firmado no proprio testemunho do auctor assevera (e não sei se com razão) Vicente Carducho, e com elle Taborda, que o nosso historiador Resende fôra tambem grande pintor. Não sei se a singeleza d’aquelles tempos é bastante para crermos um homem no artigo dos seus louvores.

Fr. Carlos, monge de S. Jeronymo, vivia no principio do seculo XVI. Pintou no stylo de Bolonha, e sobre tudo no de Corregio. Ainda que flamengo de origem, suas obras tem mais nobreza, que o commum d’aquella nação, sem deixar de ter sua bella simplicidade.

Gaspar Dias viveu pelos principios do XVI seculo. Mandado a Italia por D. Manoel a estudar os grandes modelos, e formar o stylo, sua alma elevada não se contentou d’outros mestres, que não fossem Raphael e Miguel Angelo. Estudou-os, e mereceu imitá-los com dignidade.

Christovão d’Utrecht n. 1478, m. 1557. Ainda que nascido em Hollanda, nossos escriptores o fazem portuguez. Soube perfeitamente a perspectiva, e juntou ao gôsto de Perugino e João Bellini a maior delicadeza e harmonia de pincel.

Affonso Sanches Coelho n. 1515, m. 1590. Dotado pela natureza de quanto constitue um grande pintor concebeu fortes desejos de passar á Italia, onde ouviu as lições de Raphael; honra, que bem mereceu por seu aproveitamento. Chamado por Philippe II á Hespanha ennobreceu Madrid; e sobre tudo o Escurial com suas pinturas. Um dos poucos exemplos do merecimento premiado foi este illustre portuguez. João III de Portugal, Philippe II, Gregorio XIII, o grão duque de Toscana, o da Saboia, o cardeal Alexandre Farnese o estimaram, enriqueceram e honraram á porfia. Sua alma bemformada escutou sempre a voz da natureza; e o philologo não excedeu n’elle o homem. (Vide Palomino, Bermudes, etc.)

Fernão, ou Fernando Gomes, mandado á Italia por D. Manoel, e em consequencia vivendo no principio do seculo XVI, foi aproveitado discipulo de Miguel Angelo; e suas obras o provam bem.

Manoel Campelo tambem enviado á Italia, e tambem do mesmo tempo. Ainda hoje se admira em Belem nos seus quadros aquella correcção de desenho da eschola Romana, aquella grandeza de stylo, que faz a glória de Miguel Angelo, seu mestre, e que a não faz menos do illustre discipulo. Estas brilhantes qualidades lhe grangearam os elogios de todos os sabios nacionaes e estrangeiros. (Vid. D. Francisco Manoel de Mello: Hospital das lettras; Guarenti, etc.)

Vasques... viveu pelos annos de 1562. Poucos pintores souberam, como elle, anatomia tão necessaria para o bom desenho, e proporções, em que se avantajou, e que lhe déram um mui distincto logar na historia da arte, apezar de seu stylo um pouco rude.

Christovão Lopes n. 1516, m.... O stylo pomposo de Miguel Angelo, que tanto agradava ao genio sublime e elevado dos portuguezes, foi o seu modelo; e juntando a tam brilhante qualidade a expressão de Raphael, enriqueceu a Patria com as magnificas producções, que ainda hoje são admiradas depois de tantos seculos pelos sabedores, e amantes das boas-artes.

D. Leonor de Noronha da casa de Linhares, n. 1550, m. 1636. De Duarte Nunes de Leão na Descripção de Portugal, e de Barbosa na Biblioth. Lus. sabemos só que pintou excellentemente a oleo e illuminação.

Antonio de Hollanda, inventor da illuminação a pontos brancos e pretos em Portugal; e com tanto mais merecimento, que absolutamente ignorava a mesma descoberta, que então se começava na Italia. Delle disse o Imperador Carlos V, que mejor le habia sacado al natural Antonio de Hollanda en Toledo de iluminacion, que Ticiano en Boloña. Bem pouco vale este elogio, porque homens desta classe nada entendem de ordinario de tudo o que póde ter algum valor ou merecimento, tendo de mais a mais a presumpção do voto decisivo. Não consta porém, que Deus creasse mais que um Salomão, e como este um morreu ha muito tempo, e estes senhores se não dão o incommodo de fazer aquillo, que fazem os que não são Salomões, ou não tem a tal infusa, é bem claro o valor de similhantes elogios. Carlos V porém (façamos justiça) posto que o mais odioso monarcha por seu cruel despotismo, não era com tudo o mais tolo, e algumas luzes lhe tinham ficado de senso commum, que se costumam apagar com a...

Francisco de Hollanda floreceu pelo meio do seculo XVI.—Pintor, architecto, poeta e philosopho.—Na Italia Paulo III, e todos os grandes e sabios; toda a Hespanha; em Portugal João III, e toda a côrte o estimaram como merecia. (Pois n’aquelle tempo tambem em Portugal se dava preço ao merecimento!) O muito que se tem escripto sobre este memoravel portuguez, me desobriga de mais extensa apologia. De sobejo lh’a fazem seus preciosos escriptos, suas pinturas, e toda a Europa.—De suas producções é sem questão a obra-prima, o baptismo de S. Agustinho (que ainda se conserva em cabeça de morgado na casa dos Castros) em que se admiram reunidos a sabia composição de Raphael, o desenho nobre e altivo de Mig. Angel., e o bello colorido de Ticiano.—Julga-se que morreu em 1574.

PINTORES PORTUGUEZES DA III EPOCHA
(Seculo XVII)

Diogo Pereira n. 1570, m. 1640. Trabalhou muito; e o desvalimento, em que sempre viveu, não lhe affrouxou as graças naturaes e puras, que fazem a belleza de suas composições. Mas sobre tudo as scenas de horror foram o mimo do seu pincel. Tive o prazer de admira-lo muitas vezes em suas obras, que por decisiva prova de merecimento, são procuradas por altissimos preços para Italia, França e Inglaterra.

Estevão Gonsalves Neto n..., m. 1627. É delle o missal do convento de Jesus tam gabado pelas excellentes miniaturas que o ornam. Soube bem o ornato e perspectiva.

Amaro do Valle n..., m. em 1619. Seu gosto é delicado; seu stylo grande e expressivo; o desenho correcto, e assizada a perspectiva. Foi pintor de Philippe II.

José de Avelar Rebello viveu no tempo de D. João IV, que o condecorou com o habito de Aviz. Caracterizam suas obras (das quaes a melhor é o S. Jeronymo da livraria de Belem) um stylo da grandeza de Mig. Ang., e um colorido de summa verdade.

D. Josepha de Ayala n..., m. 1684. Um ingenho fertil, muita verdade, expressão vivissima são a caracteristica de seus quadros, pela maior parte, de flores e fructos; mas o seu grande genero foi o retrato.

Claudio Coelho n..., m. 1693. Este homem tam grande e tam conhecido tem sido abocanhado por muitos, e exagerado por alguns; mas a opinião geral o constitue n’um dos mais superiores graus entre os mais illustres pintores. Desenhou correctamente; coloriu como Ticiano; e conheceu, como poucos, o effeito da perspectiva. Tudo isto se observa principalmente no seu primoroso quadro da sacristia do Escurial bem divulgado pela moderna estampa de Bartholozzi. (Vid. Palomin. Mus. Hist. pag. 440 até 444; o abbade Ponzz. Viag. d’Esp. Tom. V. pag. 65 até 126; Bermudez Diccion. histor. Tom. I. pag. 337 até 347; Bourgeoin Tableau de l’Espagne moderne Tom. I. pag. 227).

Bento Coelho viveu no XVII sec. Grande facilidade, bom colorido, como o de Rubens, que imitou; pouca correcção no desenho. Conservam-se ainda muitas de suas obras.

PINTORES PORTUGUEZES DA IV EPOCHA
(Seculo XVIII)

Victorino Manoel da Serra n. 1692, m. 1747. Foi o primeiro, que em Portugal introduziu o gôsto e ornato francez.

André Gonsalves, n..., m.... Foi correcto no desenho, e bom no colorido; mas seu merecimento principal é o de copista.

Ignacio d’Oliveira, n..., m. 1781. Distinguiu-se sobre tudo pelos encantos do colorido: estudou em Roma, e trabalhou muito em Mafra.

Francisco Vieira Lusitano n...., m. 1783. Estudou muito em Roma, aonde, por concurso, levou o premio da academia de S. Lucas. Foi grande na alegoria; desenhou bem, coloriu divinamente, e teve muita expressão. Apezar de tudo o que a inveja e a ignorancia tem suscitado contra este grande mestre, elle será sempre um d’aquelles, com que a pintura nacional mais se honra e ennobrece. Vieira Lusitano é muito conhecido, para me obrigar a maior elogio.

Joaquim Manoel da Rocha n. 1730, m. 1786. Distinguiu-se pela correcção do desenho, e muita expressão. Foi director da academia do nu, e professor na aula do desenho de Lisboa.

Francisco Apparicio n...., m. 1787. Distinguiu-se muito no retrato e sobre tudo, por uma grande verdade de colorido. Estudou em França.

Luiz Gonsalves de Senna, n. 1713, m. 1790. Foi mui destro no pintar; e em Lisboa se vêm muitas obras suas de grande merecimento.

Jeronymo de Barros Teixeira n. em 1750, m. em 1803. O stylo simples e natural, bom colorido, muita sciencia de claro-escuro, e de architectura, grande talento para o retrato o constituem em mui distincto logar na ordem dos bons artistas.

Pedro Alexandrino de Carvalho n. 1730, m. 1810. Teve um pincel livre, viveza de côres, e maneiras engraçadas, e foi um dos directores da academia do nu.

José Teixeira Barreto nasc. no Porto 1763, m. 1810. Estudou muito em Roma, e com grandes mestres. Seu stylo é caprichoso, mas bello. Foi lente de desenho na academia do Porto.

Francisco Vieira Portuense n. 1765, m. 1805. Foi primeiro-pintor da camera e côrte, director do instituto de desenho do Porto, e estimado e honrado de toda a nação, e das estrangeiras, principalmente da Ingleza. Foi premiado pela academia de Londres. Pintou no stylo do Guido e Albano; e, no seu genero, não deixou aos portuguezes nada que invejar ás outras nações.

FIM

NOTAS DE RODAPÉ:

[28] Nunca pude affeiçoar-me a D. João III apesar da sua piedade e bondade, apezar do seu amor das sciencias, protecção que lhes deu, etc., etc. Donde virá isto? Será do seu ainda maior amor, e do generoso accolhimento, que fez á Sancta Inquisição.

[29] E com effeito qual será o bom portuguez, que possa perdoar a Faria e Sousa o ter escripto as suas historias em castelhano? Os seus taes e quaes commentarios a Camões, ao melhor dos escriptores portuguezes, ao mais célebre da sua nação, na lingua dos oppressores da patria, dos tyrannos de Portugal?

[30] Todos sabem que a philosophia Aristotelico-Thomistico-escholastica, tam querida de nossos avós, era o opposto diametral d’aquella deffinição de Seneca: Non est philosophia populare arteficium, nec ostentatione paratum. Non in verbis, sed in rebus est. Senec. Epist. XVII ad Lucil.

[31] Em Coimbra não teve effeito: dizem as más linguas, que por ser cousa d’utilidade e especie ommissa nos ff. e Inst.

[32] Na regencia do actual reinante, e demencia da rainha.

BOSQUEJO
DA
HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA