CANTO QUARTO
Eia! colhamos as cançadas vélas,
Musa: o filhinho da amorosa Venus
Ja pelos ares liquidos se entranha,
E ledo corre co’as donosas tribus
Dos illustres rivaes da natureza.
Da Europa toda ja voaram férvidos
Da voz ennamorada ao som fagueiro,
Só Lysia falta... A minha Lysia, ó Venus!
A patria dos heroes, a mãe dos vates,
A patria de Camões, do teu Filinto!
Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes
Sempre em teu nome resoou na lyra!
Onde a teu culto, mais que em Roma, ou Grecia,
Em cada coração se eleva um templo!
Lysia, de Venus esqueceram filhos!
Ah! volve os olhos immortaes, divinos,
Aos seculos remotos; ve no Tejo
Como entre as sombras da ignorancia Gothica
Brilham nas trevas Lusitanas tintas;
Ve do gran Manoel na épocha d’ouro
Sobre as bellas irmans como se eleva
A divinal pintura; ve mais perto,
Em quanto geme c’o ferrenho jugo
A flor, a augusta das nações princeza,
Erguer das ruinas sobranceira a frente;
E alfim nas quadras que marcara o fado
Ao brio Lusitano extremo exforço;
Calcando a juba de Leões gryfanhos,
Parando ás Aguias remontados voos,
Como á porfia sobre o Tejo e Douro
Apelles mil e mil revivem, fulgem;
Brilha o Luso pincel... Ah! se aura amiga
Continúa a soprar... Não; ferrea pésa
A mão do despotismo, opprime, esmaga,
Destroe renovos das mimosas artes.
Mas qual ouço confuso borborinho!
E sois vós! Ah! perdoa, alma Erycina:
O teu povo fiel tu bem conheces;
Nem chama-lo cumpria: é-lhe sagrada,
Inviolavel lei um teu desejo.
Ei-lo corre: que luz, que ethereo brilho
De louro e rosas lhe engrinalda as frentes!
Olha entre a nevoa de allongados évos,
De atroz barbaridade embrutecidos,
Como Alvaro rebrilha, um Nuno, um Annes,
E do energico Vasco a fertil mente;
E Duarte, e Gomes tam famosos ambos,
Tam caros ao gran rei, Manoel ditoso.
Ve do illustre Resende a mão facunda,
Trocando a penna, que mandara aos évos
Os feitos dignos de perenne historia,
Pelo arguto pincel; o sabio Carlos,
Que ao divino Correggio usurpa as cores;
Dias, que á patria transportara ovante
O mel, e as graças dos famosos mestres;
Harmonioso Christovão, claro Sanches,
Que os monarchas d’Europa inteira vira
D’honras, de bens, accumulá-lo anciosos.
Eis sobre as azas de elevado arrojo
Vinga altivo Campello o cume erguido
Dos montes de Judá. La surge, e avulta
No mysterioso panno um deus, um homem.
Pasmou a natureza ao ver confusos
No seio maternal o pae e o filho.
Mago pintor lhe renovou prodigios;
E aos tormentos d’um deus tremeu de novo
A longa serie dos criados mundos.[10]
Sensiveis corações, vinde espelhar-vos
Nos ternos quadros, que sagrou virtude;
Vinde á sombra do vate, ao seio augusto
Da sancta religião, da mãe caroavel
De humanas afflições verter o pranto:
Vinde; e entre a dor vos surgirão prazeres,
Prazeres do Christão, doçuras d’alma.
Quanta glória Fernando ao sabio mestre,
Quantos louros grangeou! Lopes sublime
Juntou d’Urbino aos expressivos rasgos
A ardideza gentil d’Angelo altivo.
Vasques douto, e regrado os traços mede
No exacto petipé da natureza.
E tu, Leonor, d’entre a nobreza e fasto,
Origens sempre de brutal inercia,
Soubeste ás artes levantar o espirito.
Qual do Luso pincel nos fastos vive.
Hollanda creador! Deusas do Pindo,
Eis novo esmêro vosso, invento novo!
Vastos arcanos da pintura se abrem,
Accumulam-se a rodo almos tesouros;
Graças lhe admira o árbitro da Europa,
E na boca dos reis louvores fulgem.
Hollanda venturoso! Ah! de tuas ditas
Taes as menores são: mais déste ás musas,
Mais a ti, ao teu nome, á patria, ao mundo
No filho, o grande filho, a glória nossa,
Mimo ao patrio pincel do numen louro.
Cedendo á voz d’um deus, que o chama a nome,
O Cicero Africano erros abjura;
Sancto prelado o omnipotente invoca,
E d’agua exulta candido Agustinho.
Portento d’expressão, viva faisca
Do lume eterno, que lhe ardeu na mente.
Vate!... Ah! não vate: um anjo, um deus te guia,
Move o arguto pincel na sabia dextra.
Do Olympo eis surge a magestade, a pompa;
Olha d’Ambrosio o venerando aspeito,
Os olhos, onde em goso alma trasborda,
D’Agustinho a humildade, e o gesto vívido,
Onde a força transluz d’activa mente,
Da eloquencia viríl, saber profundo.[11]
Pereira natural, severo e forte
O terrivel pincel por entre ruinas,
Entre chammas e horror meneia ardido.
De novo a cinzas reduzida Troia
Por elle foi; por elle Pyrro ingente
C’o faxo assolador vagou por Illion.
Antolha ouvir-se em pavidos lamentos
O confuso ulular da mãe, que espira,
E no extremo bocejo aperta os filhos,
Do pae tremente, que a rugosa face
Entre o seio da filha esconde, e geme,
E quizera morrer no doce amplexo.
O crepitar das estridentes chammas,
O baquear dos templos, dos palacios,
E quantas vozes de terror, d’espanto,
Quantas scenas d’horror cantaram vates
Nas Gregas cordas, Mantuana lyra.[12]
Elementos, cedei-lhe ao mago encanto
Das vozes do pincel! Stridentes rompem
Com ruidoso estampido as cataratas;
Confunde a natureza a essencia, os termos,
Na face do universo impera a morte,
Mysterioso baixel ao longe avulta;
E de novo o castigo formidavel
Os olhos da razão cega d’espanto.[13]
Olha como apoz elle vem seguindo
Valle expressivo, delicado e grande,
Nobre Gonçalves, entendido e ornado,
Rebello audaz, o Buonarrotti Luso,
E as do patrio pincel divinas Saphos,
Ayalla, e Guadalupe, e Ritte, e Browne,
E Luiza gentil, que os sabios tempos
Ao Porto renovou da Grega Aspasia.
Fastoso monumento d’alta Iberia,
Voragem, golphão, que absorveste os rios
Do precioso metal, que a ti correram
Do Chily, e Potozi, das Indias duas,
Soberbo Escurial, onde se aninham,
Sob apparente sacco o vicio, o crime,
Tu de Claudio por mim celebra o nome,
Do Camões da pintura, a quem deveste
De teus ornatos o maior, mais bello.
Nem sorva o Lethes de confuso olvido
Victorino engraçado, André mimoso,
Verdadeiro Apparicio, simples Barros,
Vivaz Alexandrino, destro Senna,
Barreto original, brando Oliveira,
E tu, Rocha correcto, ameno e vívido,
Que obscuras scenas da marinha Pathmos,
E o confuso vêdor nos exprimiste.
Olhos em alvo, mysteriosos seguem
Prophetico furor, que o volve e agita.
Na dextra a penna mal segura fórma
Nunca entendidas, enredadas notas.[14]
Terra fertil d’heroes, solo fecundo,
Salve! Eis novo clarão, eis novos louros
Sobre a frente gentil pululam, vivem!
Eis do patrio esplendor eterna gloria,
Raios de Lysia, que a remotas praias,
Do magico pincel nas azas d’Iris
Levaram em triumpho o Tejo e Douro,
Dous Vieiras! Não ousa a minha lyra
Dotes brilhantes numerar nas cordas:
Assaz por meu silencio o dizem, cantam
Lysia, Hesperia, Britania, Europa, o mundo.
Dest’arte á voz da meiga Cytherea,
D’amor guiados, sobre as azas do éstro,
Rapidos voam num momento, e chegam:
Pasmam de vêr a face á natureza,
Tam bella e simples qual na infancia ao mundo;
Os bosques entram: no matiz do prado
Vão com delicia apascentando os olhos.
Eis outeiro gentil se eleva á dextra;
Sobre elle... Assombro quem já viu, que iguale
Dos illustres varões subito assombro?
Amor, o mesmo amor parou de espanto,
De maravilha subita cortado.
Sobre altas se ergue Doricas columnas
De fino jaspe cupula suberba.
Brilha c’o azul do ceo linda saphira
Nos capiteis, nas bases. Das cornijas
Scintilla em fogo do carbunculo a chamma.
Mimos, riquezas de pomposo fausto,
Quantas com larga mão semeou profusas
Nas entranhas da terra a natureza,
Na vastidão dos mares; tudo aos olhos
Extasiados se ostenta. Riu do encanto,
E a causa do prodigio amor conhece:
Entra; e apoz elle os estremados chefes.
Languidamente o braço repousado
Nos hombros niveos do formoso Adonis,
Ei-la ao encontro a deusa da ternura
Lhes sai, e assim lhes falla: «Ésta, que vêdes,
Consagrada ao prazer, mansão ditosa,
Ergueu á minha voz a natureza.
De per si se puliu, lavrou-se o marmor,
E se entalharam gemmas. N’um instante
Meu doce intento completado houvera,
Se o que vós só podeis, dar-lhe eu pudera.
Frio, e sem vida não me falla ao peito,
Não falla ao coração todo esse esmêro.
Oh! cortai-lhe a mudez, dai-lhe existencia,
E c’o mago pincel tornai-o á vida.»
Disse: e a divina voz do ouvido aos peitos
Chammas d’estro, e de ingenho accende aos vates;
E em breve espaço divinaes assomos
D’aqui, d’alli se apinham. Clio alteia
Com portentosa mão contados feitos;
Alem da natureza o vôo erguido
Alça a maga, gentil Alegoria;
Desalinhada, rustica beldade,
Singella, e pura a Paizagem doce
Sem mysterio, sem véo candida ostenta.
Ja vida é tudo; satisfeita a deusa
Vai alfim completar os seus intentos;
E c’um meigo surrir, c’um doce agrado,
Que vale tanto, que enamora tudo,
Assim lhes falla a carinhosa Venus:
«Vinde, ó filhos; que um nome tam suave
Vossos dotes merecem; vinde: e a empresa,
Que na mente revolvo, effeituai-me.
Não mando, peço... (Ah! d’uma bella o rogo
Quanto mais vale, que uma lei d’um nume!)
Retratai-me, ó pintores.» Nisto a deusa
O mimoso sendal, ja pouco avaro
Do thesouro, despiu. Quantas bellezas,
Que divinos encantos não descobrem,
Não pesquizam, não vem avidos olhos!
Sonhos da phantasia, ah! não sois nada!
Guindado imaginar, ideal belleza,
É frouxo o vôo, limitado o arrôjo;
Não tenteis franquear mysterios tantos.
Cai das mãos o pincel, sem que o percebam,
Aos pintores na vista embevecidos;
No Olympo os deuses, ignorando a causa,
De insolito prazer sentem banhar-se.
A natureza inteira revolveu-se;
Sonhada Pythagorica harmonia
Nas espheras soôu mais branda e doce.
Aos entes todos pelas veias lavra
O incentivo do gosto: gemem ternas,
Que ha pouco uivaram, pelo bosque as feras;
Arrulharam d’amor meigas pombinhas;
Correu á esposa o nadador salgado;
E nos olhos da amante leu ditoso
O constante amador perdão á culpa;
Á doce culpa tam querida e bella!
Ah! muitas vezes não descubras, Venus,
Magos encantos; ou verás que em breve
Á força de prazer se extingue o mundo.
Ja do extasi accordada um pouco a turba
Dos vates se prepara ao doce emprego.
Tintas fornece amor, pinceis as graças;
E eis no panno avultando a pouco e pouco
Assomos divinaes!... É ella... é Venus!
Eis a fórma gentil do corpo airoso
Salta, deslisa o fundo apavonado;
Roseos descurvam, se arredondam braços;
Ondeiam n’alva frente as tranças d’ebano;
Doce brilham d’amor os olhos meigos,
Os meigos olhos, que prazer scintillam,
Que o facho accendem dos desejos soffregos,
E contra o debil resistir do pejo
Do atrevido mancebo a audacia imploram.
Nas lindas faces purpureia a rosa,
Que insensivel esvai na côr de neve;
Surri nos labios o delirio, o encanto,
Que importuna razão tam doce affasta,
Que ávidos bejos, deliciosos, ternos,
Annuncios de prazer, mutuam fervidos.
Despontam no alvo, crystallino collo
Os arcanos d’amor, que anceiam d’elle,
Que a furto ousaste, mui ditoso Anchises,
Nas trevas do prazer palpar ardido;
Formosos pomos, que ao pastor Idalio
Pelo tam cubiçado outr’ora déste...
Déste; que bem o sei: (não te envergonhes)
Era pobre o pastor, e os seus thesouros
Juno lhe franqueou, seus mimos Pallas:
Sem troca tam gentil tu não vencêras.
Mas quanto voa nas mui sabias dextras
O divino pincel! Que eburneas fórmas
Voluptuosas surgir das tintas vejo!
Que exactas, lindas proporções esbeltas!
Que norma tam gentil as regra, as mede!
Ja, por milagre de Cyprina, é prompta
N’um momento a grande obra. Ei-los de novo
Á vista do retrato absortos, raptos,
E, novos Pygmaliões, por elle anceiam.
De transportada a deusa ao doce amante
Nas mãos a entrega; e: «Esta (lhe diz) conserva
Copia fiel da tua amada Venus.
Com ella, ausente, ó caro, te consola,
Quando longe de ti me retiverem
Crueis deveres, perfidas suspeitas.»
Admira o joven a belleza, as graças
Do mimoso traslado; beja, e rega
Com lagrimas d’amor qual um, qual outra.
Co’elle, em quanto viveu, sempre abraçado
As poucas horas, que ficava ausente,
Mitigava a saudade: e quando a morte
O mancebo infeliz roubou sem pejo,
No templo a deusa o collocou de Paphos,
E longas eras recebeu d’amantes
Ternas off’rendas, amorosos votos.
Alli, quando natura se empenhára
Em dar-te ao mundo, carinhosa Annalia,
Um e um copiou meigos encantos,
Que, ó minha Venus, te compõe, te adornam.
Alli, olhos no quadro, os teus formosos
Estremada rasgou; alli as faces
De neve, e rosas coloriu divinas;
Alli risonha boca, onde contino
Foi aninhar-se amor, te abriu mimosa;
Alli o collo d’alabastro puro;
Os lacteos pomos, que devoram bejos
Do faminto amador; lisas columnas,
Que sustentam avaras mil segredos;
Segredos, que... Perdoa: eis-me calado.
Volve a meus versos, compassiva amante,
Benignos olhos: para ti voando,
Da critica mordaz censuras fogem:
Se accolheres o rude offertamento,
Serão meus versos, como tu, divinos.
FIM DO ULTIMO CANTO
NOTAS DE RODAPÉ:
[10] Quadros da paixão de Ch. por Campello.
[11] Quadro do baptismo de S. Agustinho.
[12] Quadro da destruição de Troia.
[13] Quadro do diluvio.
[14] Quadro de S. João, escrevendo o Apocalypse.