CANTO TERCEIRO
Musa, deixemos a mansão terrestre,
Sobre o infido elemento estende os vôos.
Eis sobre as ondas c’o pincel divino
Maga pintura, legislando ás vagas,
Enfreia as iras de Neptuno indomito.
Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero
Á voz da liberdade agrilhoado.
Surge do seio das domadas aguas
A cidade gentil: pasmou de ve-la,
E corou de vergonha a natureza.
E a mão do creador, ao ver confusos,
Baralhados antigos elementos,
Se ao homem, que os trocou, não dera a vida,
Quasi, quasi um rival temêra nelle.
Alli, fugindo aos clamorosos brados,
Ao jugo, á servidão da tyrannia,
Homens, poucos, mas homens, começaram
Com ância a defender sacros direitos.
Emporio foi depois do rico Oriente,
E do alado leão tremeu gran tempo
O atrevido colosso Mussulmano.
Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!)
Da poppa olhando o navegante ao longe:
«Veneza aquella foi»—exclama, e geme;
E segue a esteira das cortadas ondas.
Veneza foi: compridas, longas eras
Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios;
E as dadivosas musas lhe outorgaram
Egregios filhos, que o talento, as vidas
Á formosa sciencia consagraram;
Que imitando fieis a natureza,
Olhos seduzem, e deleitam alma,
Que nos toques graciosos, na belleza
Da gentil invenção, doce magia
Do claro-escuro, rico invento d’arte,
Aos mais sabios pinceis não cedem nada.
Deusa, acode á avidez, que o vate enleia,
Fere nas cordas da estremada lyra
Dos famosos varões o nome e os dotes:
Dize a Ticiano, dize quaes natura
Lhe entornou dadivosa encantos simples,
Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem;
Ja d’humanas feições transsumpto exacto,
Ja co’as nativas côres exprimindo
No ingenhoso pincel tudo o que existe.
Adriades gentís, oh! vinde, as frentes
Coroadas de dor, na campa avara
Humido pranto derramar saudoso!
Ai do triste mancebo! o fado iniquo,
Só por chora-lo, o concedêra ao mundo!
Oh! com quanta expressão, nobre altiveza
Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem!
E tam breve lhe deu a sorte a vida!
E no fuso cruel a Parca dura
Um fio tam gentil fiou tam curto!
Oh! suspendei as lagrimas formosas:
Longa carreira os ceos marcaram próvidos
Aos dous Bellinis, venerandos chefes
Da nomeada eschola; á glória vossa
Vivem padrões eternos; Piombo illustre,
Que a fama ousou balancear d’Urbino;
Pordenone inventor, de quem Ticiano
Temeu roubadas as divinas côres;
Completo Palma, a quem mostrou natura
Sempre formoso o variado aspeito;
Animado Bassano verdadeiro;
Fertil, e vivo Tintoreto rapido;
E tu, Paulo gentil, delicias, mimo
Dos voluptuosos olhos da donzella;
(Mui grato enlêvo do insoffrido amante)
Qual Verona folgou com seu Catullo,
Tal comtigo: mil graças, mil encantos
Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera
Nua de pompas vans, a natureza:
Seu renome inda vive; e o teu com elle,
Emque lhe péze á inveja, e seus furores,
Hade eterno brilhar. Assim raivosas,
Frustradas gralhas invejosas grasnam
Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos
Ella ao sol remontando, as mofa, e burla.
Porem mais longe da rinhosa Hesperia
Voltemos a attenção: ve como em Flandres,
Scena outr’ora infeliz da glória Franca,
Da Cypria deusa demandando a estancia
Vai turba immensa dos rivaes d’Italia.
As graças naturaes, singellas, puras
Á porfia a accompanham: não se enfeita
Por suas mãos a simples natureza:
Em loução desalinho bella, e nua
Mimos lhe outorga, que ella só conhece,
Que a vós é dado só, magos pintores,
Com arte ignota do universo ao resto
No pincel exprimir fiel, divino.
Prodigios fallem de Van-Eick famoso,
Do correcto, vivaz, firme Duréro;
Dize-o por todos; se inda alguem no mundo
Ignora tanto, que te ignore os dotes;
Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens.
Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria,
Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso
Lhe bafejastes divinal espirito,
Quando, librado sobre as azas d’ouro
De sublime, elevada allegoria,
Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida
A chymericos entes, vãos, mas bellos,
Que o vivo imaginar lhe debuxara.
Quam doce, e meiga a enternecida Venus
Com suspiros, com ais, com ternos bejos
Tenta a furia applacar, retter nos braços
Gradivo impaciente! Olha do monstro
O torvo gesto, o faxo sanguinoso...
Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente
Co’a máscara da glória esconde ao numen,
E o veneno lethal lhe infunde n’alma.
Lá baqueia de Jano o templo augusto;
As artes, as sciencias calca o monstro;
E a d’auradas espigas, rubros pomos
Gentil coroa á agricultura arranca.
Ternura, horror, assolação, belleza
Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.[6]
Quam bello é na expressão Vaén correcto!
Hólbein sublime, vigoroso, nobre!
Van-Rin saliente, harmonioso, e doce!
Quam firme é Wanderwérff singello, e puro!
E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido
Bebeste as graças, possuiste os risos.
Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra:
Rouca, e sem voz mal associa ás cordas
Difficeis nomes de estremados mestres.
Um por tantos direi; e o nome illustre
Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria:
O bello, o simples, verdadeiro, e grande,
Do mestre a obra maior, Vandick insigne.
Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas,
Do Pindo a sacra paz impio disturba?
Quanto vivem!... Que heroes da patria raios!
Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte!
Destrôço! horror! assolações! ruinas!
Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno;
Nada resiste: c’o rugido extremo
Baqueia exangue de Pyrene a fera.
Co’a Europeia ruina Africa nuta,
Asia treme; e nas praias de Colombo
A fugitiva liberdade apporta.
A longes terras se accolheu Minerva,
Sem rumo as artes desgrenhadas fogem,
A Roma de Catão, d’Augusto a Roma
Não é de Pio a effeminada côrte;
E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio,
D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole
No deshonrado Capitolio avulta.
Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos?
Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo
Artes, sciencias: já no Sena ovante
O proprio vencedor no seio amigo
Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar
Augusto solio perenal vos ergue.
No Sena ovante (oh do porvir assombro!)
Em quanto os filhos seus, terror do mundo,
Raios desferem, que o universo atterram;
Renasce mais gentil, vive mais fúlgido
O sec’lo de Luiz; succede á velha,
Á pedante Sorbona, almo Instituto.
Eis novos Raphaeis, arte divina!
Não lamentes Poussin, Gallia ditosa,
De Mignard, e Blanchard divinas côres,
De Lebrun a expressão, fieis costumes,
Paizagens de Lorrain, maga ternura
Do voluptuoso, encantador Santerre,
Grandioso stylo do vivaz Subleyras:
Teus modernos heroes excedem tudo;
E ao seio da opulencia amamentados,
Á voz da glória redobrando exforços,
Talvez irão com denodado arrôjo
Do solio d’arte derribar a Italia.
Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora,
Devêste a Belisario a vida, ó Roma;
Se das furias crueis d’horrida guerra
O juramento te isentou d’Horacios;
Se quanto foste em gloriosas quadras
A um necessario roubo, á paz, que o segue,
Ao ferro audaz de Romulo devêste;[7]
Treme d’elles agora, treme, ó Roma;
Que no heroico pincel David illustre
As cinzas lhe animou; marcham por elle
Tua fama a conquistar, roubar teus louros:
De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram;
Eis campeia David!—Não longe d’elle
O terno Girodet, suave, e brando,
Que, do Meschacebeu vingando as margens,
C’o vate insigne emparelhou nos vôos,
E na pasmada Europa ergueu d’Americo
As pomposas florestas, e a nobreza,
Ornamento feroz d’um mundo virgem:
Que os encantos d’amor, e os seus furores,
O podêr da virtude, e os seus exforços
Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo
Olhos sensiveis afogar em pranto.
Eis á voz de Gérard das campas rompem
Extinctas gerações: Saturno as azas
Indignado encolheu, e a prêsa antiga
Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos
Da impreterivel, perenal cadeia.
Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca
Nas oucas rocas, nas quebradas fragas
Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente,
E immenso troa o colossal gigante.
Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo;
E a voz, que os polos com fragor desloca,
Pela primeira vez á gente Lusa
Pallida imprime a sensação do medo.
Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta:
Pasma a ousadia d’um mortal a um nume.
Oh lagrimas d’Ignez, sangue innocente,
Correi, correi do milagroso panno;
E em lagrimas de sangue o applauso eterno
Aos vates recebei, aos vates ambos.
Oh Gérard! oh Camões! qual mão divina
Vos uniu, vos juntou? Oh! folga, ó patria!
E tu, Sousa immortal, grata homenagem
Recebe eterna da mui grata Elysia.[8]
Ve nas mãos de Guérin qual geme e anceia
Pincel, que hervou na dor, que embebe em pranto,
Que incestos, crimes (de Trezena horrores)
C’o Euripides Francez disputa ainda.
Quem de pavor, de compaixão não gela
Ao ver nas murchas, esmyrradas faces
Da bella ainda, miseranda Phedra
Surgir do panno, que as conter mal póde,
D’um criminoso amor, violencia, e fogo?[9]
Guerreira a mente de Vernet fulmina
Os raios de Mavorte, o horror das armas;
E sobre os quadros de Le-Gros famoso
Os manes folgam de Rollin, Voltaire.
Mas tanta glória inda não basta, ó Francos,
Para o completo, universal triumpho:
Que no Ibero pincel inda refulge
O nome de Ribera, o de Murillo,
E duvida d’Albion mosqueada fera,
Vaidosa d’West, conceder-te a palma;
Inda lhes guardam justiçosas musas
No bifido Parnaso um grau distincto.
Assim quando no ceu, callada a noute,
Candida brilha sup’rior Diana,
Se com menos fulgor, astros com tudo,
Gentis avultam nitidas estrellas.
NOTAS DE RODAPÉ:
[6] Quadro allegorico da guerra por R.
[7] Quadros celebres de David.
[8] Celebres pinturas de Gérard na edição dos Lusiadas pelo Sr. José Maria de Sousa.
[9] Pinturas de Guérin tiradas de Racine.
FIM DO CANTO TERCEIRO