OBRAS
DO
V. DE ALMEIDA GARRETT
IV
(PRIMEIRO DO ROMANCEIRO)
ROMANCEIRO
PELO
V. DE ALMEIDA GARRETT
I
ROMANCES DA RENASCENÇA
QUINTA EDIÇÃO
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1875
NA TERCEIRA EDIÇÃO
Publicamos emfim ésta nova edição da primeira parte do ROMANCEIRO que vai muito superior ás antecedentes, tanto pela correcção como pelos addicionamentos importantes que leva.
A de Londres de 1828 continha apenas a Adozinda e o Bernal-francez; a de Lisboa de 1843 ja lhe accrescentou mais quatro romances; na presente ha oito, alêm das novas traducções em várias linguas que n’este intervallo se teem publicado pela Europa. Não são todas porém, e ja muitas das mais notaveis versões appareceram colligidas no appendice do terceiro volume da presente obra publicado em 1851; outras o tinham sido no segundo junctamente com os originaes portuguezes primitivos que o nosso auctor reconstruíra.
A sua predilecção por éstas reliquias da antiga poesia peninsular tem feito com que, desde a infancia até hoje, tenham ellas sempre sido a occupação das suas ‘Horas de lazer’—‘Hours of idleness’ segundo a frisante expressão de Lord Byron; um quasi mialheiro poetico em que por intervallos, mas sempre, se vão deitando pequenas quantias até que chegam a formar um thesouro. Este é ja um verdadeiro thesouro para os que sabem avaliar a riqueza de uma lingua e de uma litteratura.
No meio dos trabalhos mais graves, das contrariedades mais apertadas da vida pública, o auctor não se tem esquecido do seu mialheiro, que, tornâmos a dizê-lo, para nós é thesouro riquissimo. Se ainda assim o não julga Portugal, saiba ao menos que essa é a opinião da Europa.
Julho 8, 1853.
OS EDITORES.
NA SEGUNDA EDIÇÃO
Depois que publiquei em Londres, em 1828, o meu romancinho a Adozinda que aqui vai na frente d’este volume, cheguei a ter uma bastante collecção d’essas trovas e romances populares, xácaras e soláos—designações que, sinceramente confesso, não sei ainda quadrar bem nas diversas especies e variedades em que se divide o genero.
Eram uns vinte e tantos havidos pela tradição oral do povo, quasi todos colligidos nas circumvizinhanças de Lisboa pela indústria de amigos zelosos, e principalmente pelo obsequioso cuidado de uma joven senhora minha amiga muito do coração.
Por voltas do anno seguinte, 1829, os tinha eu pela maior parte correctos, annotados,—e collacionadas as principaes das infinitas variantes que todos trazem, porque cada rhapsodista d’estes que sabe a sua xácara, a repette a seu modo, e sempre differente em alguma coisa do que outro a diz.
Cresceram logo mais os meus haveres pela contribuição de outro amigo tambem muito particular e muito prezado, o Sr. Duarte Lessa, homem de raras e prestantes qualidades que amenizava a constante applicação a mais graves estudos, cultivando a litteratura e as artes, cujas obras appreciava com tacto finissimo e zelava com fervor patriotico, porque intendia—e bem o intendia!—que ellas são o espirito, a alma, o in ipso vivimus et sumus de uma nação. Tinha elle adquirido em Londres varios livros e manuscriptos que haviam sido do célebre portuguez o cavalheiro de Oliveira, aquelle que renunciou ao importante cargo de nosso ministro na Haya para abraçar a communhão protestante, na qual viveu em Inglaterra os ultimos annos da sua vida, quasi unicamente da charidade de seus novos correligionarios.
Havia entre esses livros um exemplar da Bibliotheca de Barboza, inquadernados os tomos com folhas brancas de permeio, e escriptas éstas, assim como as amplas margens do folio impresso, de lettra muito miuda, mas muito clara e legivel, com annotações, commentarios, emendas e addições aos escriptos do nosso douto e laborioso mas incorrecto abbade.
Via-se por muitas partes que o longo trabalho do Oliveira fôra feito depois da publicação das suas Memorias, porque a miudo se referia a ellas, confirmando e ampliando, corrigindo ou retractando o que lá dissera.
Nos artigos D. Diniz, Gil-Vicente, Bernardim-Ribeiro, Fr. Bernardo de Brito, Rodrigues-Lobo, D. Francisco-Manuel, e em varios outros que vinha a proposito, as notas manuscriptas citavam, e transcreviam como illustração, muitas coplas, romances e trovas antigas—e até prophecias, como as do Bandarra—fielmente copiadas, asseverava elle, de Mss. antigos que tivera em seu poder na Hollanda e em Portugal, franqueados uns por judeus portuguezes das familias emigradas, outros havidos das preciosas collecções que d’antes se conservavam com tão louvavel cuidado nas livrarias e cartorios dos nossos fidalgos.
Foi-me logo confiada a inextimavel descuberta; percorri com avidez aquellas notas, examinei-as com escrupulosa attenção, e, extractando uma por uma quantas coplas, cantigas e xácaras achei, completas e incompletas, accrescentei assim os meus haveres com umas cinquenta e tantas peças, d’ellas anonymas e verdadeiramente tradicionaes, d’ellas de auctor conhecido e que nas edições de suas obras se incontram,—taes como Bernardim-Ribeiro, Gil-Vicente e Rodrigues-Lobo—mas que differiam das impressas, consideravelmente ás vezes, muitas até na linguagem da composição, poisque algumas alli achei em portuguez, e manifestamente antigo e da respectiva epocha, as quaes só andam impressas em castelhano.
Com este auxilio corrigi denovo muitos dos exemplares que ja tinha, e completei alguns fragmentos que ja desesperára de podêr vir nunca a restaurar. E tomando para modêlo as estimadas collecções de Elis e do bispo Percy, e a das fronteiras de Scocia por Sir Walter Scott, comecei a dar novo methodo e mais amplos limites á minha compilação que ao principio intitulára Romanceiro-Portuguez.
O longo e mais serio trabalho que por esse tempo emprehendi no meu tractado geral Da Educação, cujo primeiro volume se publicou em Londres em 1829, me fez relaxar n’aquell’outro: depois os cuidados politicos e alguns officiaes, o complemento e impressão de outra obra de mais grave assumpto, o Portugal na Balança da Europa, que foi impresso no anno seguinte, 1830,—talvez alguma inconstancia de auctor, bem desculpavel n’aquella tarefa, tam tediosa ás vezes, de collacionar, estudar e explicar textos ja viciados da ignorancia do vulgo por cujas bôccas e memorias andaram, ja de outra ignorancia mais confiada e mais corruptora ainda, a de copistas presumpçosos de lettrados e de castigadores do que elles suppoem vício.
Comtudo, e apezar d’aquellas e de outras occupações e distracções, eu sempre voltava de vez em quando ao meu Romanceiro, e o tinha bastante adeantado, quando nos fins de 1831 abandonei tudo o que eram cuidados de sciencia ou recreações litterarias para me alistar no exercito da Rainha, e imbarcar para os Açores. Em Janeiro de 1832 sahi de París com praça de simples soldado, consegui por este modo tomar minha humilde parte n’aquella expedição, cujos avisados e cautelosos directores com tanto impenho afastavam toda a gente conhecida de verdadeira liberal, por todos os modos, por modos que hãode parecer incriveis, e que elles hoje negariam a pés junctos, se fosse possivel negar o de que ha tantas testimunhas e tantas victimas ainda vivas, tantos documentos que hãode durar mais que ellas.
A minha curta estada nas ilhas foi impregada quasi toda nos trabalhos de legislação e organização administrativa a que alli se procedeu, e de que me encarregou a amizade e confiança de um amigo particular, então em grande valimento, ao qual e á dura necessidade de me achar eu unico alli que tivesse estudado aquellas materias, teve de ceder forçosamente a ciosa malevolencia dos accaparadores que ja na esperança estavam devorando as ruinas de Portugal a que almejavam chegar—pelos esforços e risco alheio—não porcerto para meditar sôbre ellas como outros Marios—oh que Marios!—mas para as revolver e basculhar como Alaricos...
Faziam-me a honra de me querer mal esses senhores: lisongeio-me de lh’o merecer: davam-se ao incómmodo de me intrigar; e era desperdicio de tempo e de arte, porque não ha mister intrigas para tirar favor de principes a quem, como eu, os apprecia muito e se honra muito d’elles, mas não é capaz de fazer o mais leve sacrificio para os conservar; jamais soube, em tantas opportunidades, convertê-los em nenhuma consequencia legítima; nunca, nem o mais indirectamente que é possivel, tractou de os consolidar em nenhuma realidade utilitaria e de proveito pessoal.
Peço perdão da digressão: não a fiz eu mas as coisas,—que pelos tempos em que vivemos tam baralhado anda tudo, que até a historia litteraria e poetica se confunde com a dos successos e relações politicas.
D’esse tam pouco e tam occupado tempo permittiu comtudo o accaso que alguns instantes se podessem approveitar em beneficio do pobre Romanceiro, que alli ia tambem, o coitado, na expedição, incolhido e amarrotado na mochilla de um triste soldado raso, sem se lembrar de aspirar á inaudita honra de seu illustre predecessor, o Cancioneiro de Rezende, que serviu de Evangelho para jurar aquelle rei gentio.—Havia pouco por alli quem lhe importasse com Evangelhos e juramentos.
Foi o caso que umas criadas velhas de minha mãe e uma mulata brazileira de minha irman appareceram sabendo varios romances que eu não tinha, e muitas variadas licções de outros que eu sim tinha, porêm mais incompletos. Assim se additou copiosamente o meu Romanceiro.
Mas este achado fez mais do que inriquecer, salvou-o: porque, ao partir para San’Miguel, o deixei em Angra com minha mãe que Deus tem em glória, que desejava distrahir, com essas curiosidades que ella intendia e avaliava com o tacto perfeito e a sensibilidade elegantissima de que era dotada, alguma hora das tantas em que ja lhe pesavam duramente as molestias do último quartel da vida... Molestias aggravadas de muita afflicção e cuidado—nenhum que seus filhos voluntariamente lhe dessem—todos a adorámos e honrámos sempre—mas que lhe davamos, comtudo, pelas circumstâncias fataes da epocha e das confusões politicas em que andavamos mettidos.
Os meus outros papeis, trabalhos de historia consideraveis, fructo de longas visitas ao Museu-Real de Londres e á riquissima livraria portugueza do meu amigo o Sr. Goodeen; uma tragedia que tinha sido julgada valer alguma coisa pelos que a viram—era o assumpto o Infante-Sancto em Fez;—um largo poema com pretenções, antes desejos, de ser Orlando, ja em trinta e tantos cantos—e promettia crescer!—cujo assumpto era o Magriço e os seus Doze;—o segundo volume do tractado Da Educação prompto a entrar no prélo:—quatro livros ou cantos de um romance ou poema—cabia-lhe uma e outra designação—a que dava thema a interessante e romanesca legenda da fundação da casa de Menezes—pedido de minha boa irman que decerto não tinha vaidade, porque sempre lhe sobrou o juizo, mas gôsto sim, de que seus filhos se honrassem com o nome illustre de seu pae:—uma quantidade immensa de estudos e trabalhos sôbre administração pública;—tudo isso veio commigo para S. Miguel e ahi o deixei ao imbarcar, porque era defeso ao pobre soldado levar as suas mallas, e o logar era pouco para as bagagens dos que só eram bagagem. D’ahi me vinha, com outros valores mais substanciaes, e se perdeu tudo em um navio que affundaram as ballas inimigas á entrada do Porto nos derradeiros dias d’esse mesmo anno de 1832.
Descancem em paz no amigo lodo do meu patrio rio! N’outros lodaçaes peiores teriam de cahir talvez se escapassem: o da indifferença pública que porventura mereciam, o de muitos odiosinhos e invejasinhas tolas que não mereciam decerto, porque eram filhos de bom e innocente ânimo, como sempre têem sido os meus.
Assim fossem todos!
Desde 1834, que me voltou a Lisboa o milagrosamente escapado Romanceiro, ainda não passei verão que lhe não désse algumas das horas descuidadas que n’aquella quadra ou se hãode dar a éstas occupações mais leves ou a nenhumas. E n’estes oito annos tem-se locupletado consideravelmente com as contribuições de muitos amigos e benevolentes a alguns dos quaes nem posso ter o gôsto de agradecer aqui o favor recebido, porque incitados pela leitura da Adozinda, me remetteram anonymamente pelo correio o fructo de suas colheitas. A principal parte de um bello romance, um dos mais bellos que jamais vi em collecção alguma nacional ou extrangeira e que hoje inriquece o meu Romanceiro, assim me foi mandada, creio que do Minho. Outro fragmento que vinha nos respigos ajunctados n’esta ceara pelo nosso insigne poeta o Sr. A. F. de Castilho, e que elle teve a bondade de me confiar, veiu dar-lhe o complemento que faltava e restituir á perfeição em que hoje está. É um romance de origem visivelmente franceza, se provençal ou normanda não me atrevo a decidir, em que se conta—um tanto diversa das chronicas antigas e do elegante poema de Millevoix, a historia do secretario Eginard e da muito bondosa filha de seu senhor e amo o poderoso imperador Carlos-Magno. Os nossos Scaldos vulgares lem hoje... não lem tal, mas repettem Gerinaldo, corrupção do que ao principio foi Eginaldo, adoçados em ll os rr francezes, como se fez em Giraldo, Reginaldo, antigamente em Bernal e Bernaldo, e em outros muitos nomes que de la vieram tam duros ou mais.
Mencionei este exemplo entre muitos por cahir em coisa notavel, e para se ajuizar dos outros.
Mr. Pichon, bem conhecido em Lisboa, que foi ultimamente consul francez no Porto e agora creio que em Barcelona, tinha começado a formar em 1832-33 uma pequena colecção de xácaras portuguezas de que tambem me approveitei. Mas o incançavel collector a quem mais obrigações devi em Portugal foi o meu condiscipulo o Sr. Dr. Emygdio Costa, advogado n’esta côrte e ha pouco fallecido, que generosamente me confiou a sua larga collecção principalmente feita nas duas Beiras, n’aquelle verdadeiro coração e amago do Portugal primitivo que occupa a região d’entre Lamego e Serra d’Estrella.
O Sr. Rivara, bibliothecario em Evora, o meu velho amigo o Sr. M. Rodrigues d’Abreu, bibliothecario em Braga, o meu antigo e fiel companheiro o Dr. J. Eloy Nunes-Cardoso, de Montemor-o-Novo, com assentamento dobrado, como diria um bel esprit, um dos cultos de Seiscentos, na Casa Real d’Apollo, por doutor e trovador tambem,—todos estes cavalheiros me têem ajudado com indicações, livros, folhetos antigos e cópias laboriosamente escriptas sob o dictar dos rusticos depositarios das nossas tradições populares.
Os trabalhos e recopilações de D. Agustin Duran sôbre os cancioneiros e romanceiros castelhanos, obra publicada em Madrid em 1832, mas que só por aqui chegou cinco ou seis annos depois, veiu illustrar-me em muita dúvida e ajudar-me a classificar muita coisa difficil. A nova e augmentada edição do Sr. Ochoa, impressa em París em 1838, e que mais depressa nos trouxe a mais habitual conversação e commercio litterario que temos com a França, algum tanto me auxiliou tambem. A traducção elegante de Mr. Lockart que n’aquella tam linda e fastosa edição de Londres de 1841 deu á lingua e á nação ingleza a mais poetica e romantica idea que jamais será possivel dar a um povo extranho e em idioma extranho das immensas riquezas do Nibelungen peninsular, mais que nenhuma coisa me inspirou e animou no meu trabalho, porque é um documento, um monumento grandioso da extraordinaria importancia e valia que este genero de coisas está merecendo á Europa culta.
O Sr. Herculano, bibliothecario da Real bibliotheca da Ajuda, com cuja provada amisade me honro tanto quanto a nação deve gloriar-se de seus escriptos, tambem me tem ajudado não pouco com os preciosos achados que, no seu incessante lavrar das minas archeologicas, tem incontrado e repartido commigo. Por seu favor tornei a examinar, no Ms. original, o famoso cancioneiro ditto do Collegio dos Nobres, hoje na bibliotheca Real; e com éstas e com as collecções allemans e francezas, e creio que com quasi todas as dos povos do Norte, tenho collacionado as nossas rhapsodias populares, muitas das quaes, por este modo vim a conhecer visivelmente, que tinham a mesma commum origem. Os eruditos trabalhos de Mr. Raynouard sôbre a lingua romance ou provençal me allumiaram muita vez n’esta obscura e inredada tarefa.
A interessante e conscienciosa memoria do Dr. Bellermann impressa em Berlim em 1840, e o conhecimento de que a sociedade alleman para a reimpressão dos livros raros estava publicando em portuguez o nosso Cancioneiro de Rezende; o interêsse geral que hoje se tem desenvolvido no mundo pela litteratura popular das nações modernas e especialmente das nossas peninsulares—interêsse que, porfim e emfim, hade vir a reflectir em nós tambem, e despertar-nos para abrir os olhos ás riquezas proprias, ainda que não seja senão pelas ver tam prezadas de extranhos—os conselhos e rogos do meu particular amigo e quasi compatriota nosso, o sr. João Adamson, tudo isto me fez alargar mais o plano da minha obra e collecção.
Resolvi, sob nova denominação de Romanceiro e Cancioneiro-Geral[1], reunir todos os documentos que eu podesse para a historia da nossa poesia popular, desde onde memorias ou conjecturas ha, até á epocha actual, acompanhando-os de explicações e glossas, que vão servindo de nexo, que sejam como a liaça, o nastro que áte estes pergaminhos.
Quem não tem olhado senão á superficie da nossa litteratura, quem cego do brilho classico das nossas tantas epopeas, seduzido pela flauta magica dos nossos bucolicos, enthusiasmado pelo estro tam ricco e variado dos innumeraveis poetas que, nos quartetos e tercetos sicilianos da elegia, da epistola e do soneto, rivalizam, e tantas vezes luctam de vantagem, com o proprio Petrarcha: quem, sôbre tudo—porque n’esse genero é a musa portugueza superior á de todas as linguas vivas—adora em Sá-de-Miranda, Ferreira, Diniz, Garção e Filinto o genio redivivo de Horacio e de Pindaro—não crê, não suspeita, hade ficar maravilhado de ouvir dizer, como eu quero dizer e provar no presente trabalho, que ao pé, por baixo d’essa aristocracia de poetas, que nem a viam talvez, andava, cantava, e nem com o desprêzo morria, outra litteratura que era a verdadeira nacional, a popular, a vencida, a tyrannizada por esses invasores gregos e romanos, e que a todos os esforços d’elles para lhe oblitterarem e confundirem o character primitivo, resistia na servidão com aquella fôrça de inercia com que uma raça vencida, com que a população aborigine de um paiz resiste a igual impenho de seus conquistadores que lhe usurparam a dominação, e que, seculos e seculos depois, quando esses já não são, ou não cuidam ser, senão uma casta privilegiada e patriciana, reagem fortes aquell’outros com o que seus proprios senhores lhes insinaram, regenerados por seu longo martyrio, e extirpam muitas vezes, mas geralmente se contentam de avassallar, os seus antigos oppressores.
É a historia de todos os povos, e por consequencia de todas as litteraturas.
É a historia litteraria de Portugal no segundo quartel d’este seculo: é o que foi ésta reacção vulgarmente chamada romantica, mas que não fez mais do que trazer a renascença da poesia nacional e popular. Nenhuma coisa póde ser nacional se não é popular.
Aqui está o porquê, o como e o paraquê fiz a collecção de que este volume é a primeira parte, ou mais exactamente a introducção, e que apenas contêm o que eu, á mingua de melhor nome, designarei com o titulo de Romances da renascença: são os que resuscitei e como que traduzi das quasi apagadas e mutiladas inscripções que desinterrei da memoria dos povos.
Os textos originaes d’estes, restituidos quanto é possivel, os de muitos outros que appareceram menos imperfeitos na mesma excavação, muitissimos que se têem achado em livros e papeis desprezados hoje, e em collecções Mss., estão promptos, classificados, annotados, e sahirão em seguimento d’este volume, apenas o permittam as difficuldades, sempre recrescentes em Portugal, de se publicar qualquer coisa.
Eu tenho posto termo, ou pelo menos suspensão indefinida a toda a occupação litteraria propriamente ditta, para absolutamente me dedicar, em quanto posso e valho, á conclusão de um trabalho antigo, mas interrompido muitas vezes, que agora jurei acabar; são Vinte annos da historia de Portugal, periodo que começa em 1820 e chega aos dias de hoje, mas que não sei se ja anda mais inredado e confuso do que o dos mais antigos e obscuros seculos da monarchia.
Espero começar a publicá-lo no fim d’este anno[2]; e nenhum tempo ou logar me sobrará portanto para mais nada. O Romanceiro porêm e Fr. Luiz de Sousa estão promptos a entrar no prelo e, quanto é por minha parte, não farão esperar o público.
Lisboa, 12 de Agosto de 1843.
ROMANCEIRO
LIVRO PRIMEIRO
I
ADOZINDA
AO SR. DUARTE LESSA[3]
Eis-ahi vai, meu amigo, o romance em que lhe fallei n’uma das minhas últimas cartas de Portugal. Estava quasi todo copiado; e aqui nem paciencia nem tempo me chegavam para as muitas correcções e alterações que elle precisava; por limar lhe vai, e por limar irá para a imprensa: tanto melhor para quem gostar de dizer mal, que não lhe faltará de quê.
Creio que é ésta a primeira tentativa que ha dous seculos se faz em Portuguez de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior extenção, n’este genero de versos pequenos, octosyllabos, ou de redondilha como lhe chamavam d’antes os nossos. No meu resummo da historia da lingua e da poesia portugueza, que vem no primeiro volume do Parnaso-Lusitano impresso ultimamente em París,—a so coisa minha que ha n’aquella collecção, porque assim na escolha das peças, como na ordem e systema da obra me transtornaram e me inxovalharam tudo com notas pueris, ridiculas, e até malcreadas algumas,—n’esse resummo toquei de leve, e em tudo o mais, sôbre a belleza d’estes nossos versos octosyllabos, que nos são proprios a nós hespanhoes, tanto portuguezes como castelhanos, e, para certos assumptos e certos generos de poesia, mais adequados do que nenhuma outra especie de rhythmo. Boscan gaba-se de haver introduzido na Peninsula os metros toscanos: hoje está averiguado com certeza que não foi comeffeito elle o primeiro que nas duas linguas cultas das Hespanhas compoz dos taes versos hendecasyllabos; mas é certo e alêm de toda a dúvida que do tempo de Boscan e de Garcilasso em Castella, e logo de Sá-de-Miranda e Ferreira em Portugal, começaram aquelles nossos metros primitivos a cahir em mais desuso, a não se impregarem senão em certo genero de poesia ligeira ou, segundo lhe os Francezes chamam, fugitiva. Francisco Rodrigues-Lobo e muito depois D. Francisco Manuel-de-Mello ainda n’elles fizeram romances historicos; Violante do Ceo muitas das suas lindas e agora tam mal appreciadas poesias; ainda se fizeram posteriormente eglogas, e o que os poetas da Phenix-renascida e os campanudos vates das mil e uma academias do seculo XVII e XVIII chamavam romances—que certamente não eram o que hoje strictamente se intende por este nome. Em tempos mui posteriores felicissimamente os reviveu o nosso grande e incomparavel Tolentino na satyra, e no tam faceto e delicadissimo seu proprio e privativo genero da poesia de sociedade.
A nossa poesia primitiva e eminentemente nacional, a que do principio e, para assim dizer, do primeiro balbuciar da nossa lingua, nos foi commum com todos os outros povos que mais ou menos tiveram communhão com a lingua provençal, primeira culta da Europa depois da invasão septentrional, foi seguramente o romance historico e cavalheresco, ingenua e ruda expressão do enthusiasmo de um povo guerreiro. Logo vieram esses trovadores de Provença e nos insinaram modos mais cultos porêm menos originaes e menos cunhados do sêllo popular: era coisa mais de côrte. E como tal não pôde absorver, senão modificar, o que brotára spontaneamente do natural da terra. Mas as duas feições ficaram ambas, e deram assim á poesia portugueza um character talvez unico no mundo,—nas Hespanhas decerto.
Em geral a poesia da meia-edade, singela, romanesca, apaixonada, de uma especie lyrica-romantica que não tem typo nos poetas antigos, comquanto deixou seu cunho impresso no caracter das linguas e poesias modernas de todo o sul e occidente da Europa, não teve comtudo imitadores nem se cultivou e apperfeiçoou nunca mais, quasi desde o completo triumpho dos classicos, senão agora recentemente depois que as balladas de Bürger, os romances poeticos de Sir W. Scott e alguns outros ensaios inglezes e allemães, mas principalmente os do famoso escocez, introduziram este gôsto e o fizeram da moda. Fatigados do grego e romano em architecturas e pinturas, começámos a olhar para as bellezas de Westminster e da Batalha; e o appetite imbotado da regular formosura dos Pantheons e Acropolis, começou, por variar, a inclinar-se para as menos classicas porêm não menos lindas nem menos elegantes fórmas da architectura e da sculptura gothica.
Succedeu exactamente o mesmo com a poesia: infastiados dos Olympos e Gnidos, saciados das Venus e Apollos de nossos paes e avós, lembrámo’-nos de ver com que maravilhoso infeitavam suas ficções e seus quadros poeticos nossos bis e tres-avós; achámos fadas e genios, incantos e duendes,—um stylo differente, outra face de coisas, outro modo de ver, de sentir, de pintar, mais livre, mais excentrico, mais de phantasia, mais irregular, porêm em muitas coisas mais natural. O antiquado agradou por novo, o obsoleto entrou em moda: arte mais fina, gôsto mais delicado e de ingenhos mais cultos o soube impregar habilmente, ‘decalcar n’outra civilização.’ A poesia romantica, a poesia primitiva, a nossa propria, que não herdámos de Gregos nem Romanos nem imitámos de ninguem, mas que nós modernos creámos, a abandonada poesia nacional das nações vivas resuscitou bella e remoçada, com suas antigas galas porêm melhor talhadas, com suas feições primeiras porêm mais compostas. É a mesma selvatica, ingenua, caprichosa e aeria virgem das montanhas que se appraz nas solidões incultas, que vai pelos campos allumiados do pallido reflexo da lua, involta em veos de transparente alvura, folga no vago e na incerteza das côres indistinctas que nem occulta nem patenteia o astro da noite;—a mesma beldade mysteriosa que frequenta as ruinas do castello abandonado, da tôrre deserta, do claustro coberto de hera e musgo, e folga de cantar suas endeixas desgarradas á bôcca de cavernas fadadas—por noite morta e horas aziagas. É a mesma sem dúvida: porêm o gôsto mais puro e fino de seus adoradores, sem alterar a lithurgia, modificou os ritos e os accommodou para espiritos e ouvidos costumados aos hymnos, menos variados porêm mais cadentes, da antiguidade classica. Não ficou menos natural nem menos nacional, porêm muito mais amavel e incantadora a nossa poesia primitiva assim resuscitada agora.
Muito antes do nomeado escocez ja tinha havido tentativas para nacionalizar a poesia moderna e a libertar do jugo da theogonia d’Hesiodo:—mas a propria e verdadeira restauração da poesia dos trovadores e menestreis, sem questão nem disputa, só W. Scott a fez popular e geral na Europa.—Com ella se restauraram tambem os metros simples e curtos que mais naturaes são ao stylo cantavel, essencial ás composições d’aquelle genero.
Depois de muitas tentativas, de exame longo e reflectido, eu por mim convenci-me de que o metro proprio e natural de nossa lingua para este genero de poesia, e para todos os generos populares, não era o hendecasyllabo, o que dizemos vulgarmente heroico. Os portuguezes são uma nação poetica, a sua lingua naturalmente se presta e spontanea se offerece ás fórmas e cadencias metricas; os nossos mais rudos camponezes improvisam em seus serões e festas com uma facilidade que deve de espantar os extrangeiros: mas observe-se que o metro d’estes improvisos é sempre sem excepção alguma o de redondilha de oito syllabas, rara vez o da endexa; acaso farão os versos compostos visivelmente de dois metros, isto é, os alexandrinos ou dittos de arte-maior. A causa é óbvia; aquella é a medição mais natural que lhes offerece a musica da lingua.
Entre as canções antiquissimas conservadas nos dois cancioneiros, o do Collegio dos Nobres (impresso por Sir Charles Stuart em París) e o de Rezende, ha muita variedade de metros; mas outras poesias mais antigas, os romances populares ou xácaras, que por tradição immemorial se conservam entre o povo, principalmente nas aldeias, todos são no metro octosyllabo ou em endexas. Logo direi aqui alguma coisa mais de vagar sôbre éstas curiosissimas, e tam desprezadas mas tam interessantes, reliquias da nossa archeologia.
O genero romantico não é coisa nova para nós. Não fallo em relação aos primeiros seculos da monarchia: restam-nos ainda specimens das canções que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, de Egas Moniz, d’elrei D. Pedro Cru, mas são antiquissimos documentos de certo. As trovas dos Figueiredos, apezar do tam suspeito testimunho de Fr. Bernardo de Brito, creio, por convicção intima, que são das mais antigas composições poeticas da lingua que chegaram até nós. Não alludo porêm a epochas tam remotas e incultas. Depois de introduzido o gôsto classico por Sa-Miranda, e Ferreira principalmente, depois de esquecidas as graças singellas de Bernardim Ribeiro pelos mais ataviados primores de Camões e Bernardes, ainda então houve quem de vez em quando deixasse a lyra de Horacio e a frauta de Theocrito para tocar o alahude romantico dos menestreis. O proprio auctor dos Lusiadas nas canções, que, depois d’aquella, são sua melhor composição, para meu gôsto, n’essas canções tam bellas e tam profundamente sentidas, tam repassadas de melancholia suavissima, em alguns episodios dos mesmos Lusiadas, foi todo romantico, e felicissimamente o foi. Francisco Rodrigues-Lobo, segundo ja observei, em muitas das pequenas peças que se incontram dispersas pelo Pastor-peregrino, pela Primavera, e nos seus romances moiriscos e historicos, é eminentemente romantico. Tal é Jeronymo Cortereal no Naufragio-de-Sepulveda, quando o deixam com a natureza e lhe permittem ter senso commum as loucuras mythologicas com que perdeu tam bem escolhido assumpto, tam bellas scenas.
Deixando outros muitos, dos quaes o menor exame facilmente mostrará o mesmo, citarei aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro, que V. descobriu em Londres com o precioso achado dos papeis e livros do nosso infeliz Oliveira.
Depois que, na extincção dos Jesuitas, e pelos esforços da benemerita Arcadia se restauraram as bellas-letras e a lingua, e o verdadeiro gôsto poetico affugentou os acrostichos e os labyrintos seiscentistas, o genero classico resuscitou mais puro e tam bello nas lyras do elegante e puro Garção, do altissonante Diniz, do sublime Filinto, do numeroso Bocage, do classico Ribeiro-dos-Sanctos, do ingenuo Maximiano Tôrres, do galantissimo Tolentino, do philosopho Caldas; mas o genero romantico injustamente involvido na proscripção do seiscentismo, esse desprezado e perseguido, ninguem curou d’elle, julgaram-n’o sem o intender, condemnaram-n’o sem o ouvir.
No meu poemasinho do Camões aventurei alguns toques, alguns longes de stylo e pensamentos, annunciei, para assim dizer, a possibilidade da restauração d’este genero, que tanto tem disputado na Europa litteraria com aquelloutro, e que hoje coroado dos louros de Scott, de Byron e de Lamartine vai de-par com elle, e, não direi vencedor, mas tambem não vencido.
D. Branca, essa mais decididamente entrou na lice, e com o alahude do trovador desafinou a lyra dos vates; outros dirão, não eu, se com feliz ou infeliz successo.
Não é portanto, em nenhum sentido, novo hoje para a litteratura portugueza o genero romantico, nem me appresento agora com este meu romancesinho ao público portuguez a pedir privilegio de invenção ou patente de introducção. Se reclamo aqui prioridade é somente em ter instaurado as antigas e primitivas fórmas metricas da lingua em uma especie de poesia que tambem foi a primitiva sua, e ao menos a mais antiga de que tradição nos chegou.
De pequeno me lembra que tinha um prazer extremo de ouvir uma criada nossa, emtôrno da qual nos reuniamos nós os pequenos todos da casa, nas longas noites de hinverno, recitar-nos meio cantadas, meio rezadas, éstas xácaras e romances populares de maravilhas e incantamentos, de lindas princezas, de galantes e esforçados cavalleiros. A monotonia do canto, a singelleza da phrase, um não-sei-quê de sentimental e terno e mavioso, tudo me fazia tam profunda impressão e me inlevava os sentidos em tal estado de suavidade melancholica, que ainda hoje me lembram como presentes aquellas horas de gôso innocente, com uma saudade que me dá pena e prazer ao mesmo tempo[4].
Veio outra edade, outros pensamentos, occupações, estudos, livros, prazeres, desgostos, afflicções—tudo o que compõe a variada tea da vida,—e da minha tam trabalhosa e trabalhada vida!—tudo isso passou; e no meio de tudo isso, lá vinha de vez em quando uma hora de solidão e de repouso,—e as noites da minha infancia e os romances incultos e populares da minha terra a lembrarem-me, a lembrarem-me sempre.
Lendo depois os poemas de Walter Scott, ou, mais exactamente, suas novellas poeticas, as ballads allemans de Bürger, as inglezas de Burns, comecei a pensar que aquellas rudes e antiquissimas rhapsodias nossas continham um fundo de excellente e lindissima poesia nacional, e que podiam e deviam ser aproveitadas.
Em París fui ver o cancioneiro do Collegio dos Nobres na defeituosa edição de Sir Charles Stuart; depois voltando a Portugal tornei a percorrer o de Rezende: no primeiro nada, no segundo pouco achei do romance historico ou narrativo. D’ésta última especie não ha impresso mais que esses duvidosos fragmentos conservados por Fr. Bernardo de Brito e por Miguel Leitão.
Recorri á tradição: estava então eu fóra de Portugal; stimulava-me a leitura dos muitos ensaios extrangeiros que n’esse genero íam apparecendo todos os dias em Inglaterra e França, mas principalmente em Allemanha. Uma estimavel e joven senhora de minha particular amizade—a quem por agradecida retribuição é dirigida a introducção do presente romance—foi quem se incumbiu de me procurar em Portugal algumas cópias das xácaras e lendas populares.
Depois de muitos trabalhos e indagações, de conferir e estudar muita cópia barbara, que a grande custo se arrancou á ignorancia e acanhamento de amas-sêccas e lavadeiras e saloias velhas, hoje principaes depositarias d’esta archeologia nacional,—galantes cofres, em que para descobrir pouco que seja é necessario esgravatar como o pullus gallinaceus de Phedro,—alguma coisa se pôde obter, informe e mutilada pela rudeza das mãos e memorias por onde passou; mas emfim era alguma coisa, e forçoso foi contentar-me com o pouco que me davam e que tanto custou.
Assim consegui umas quinze rhapsodias ou, mais propriamente, fragmentos de romances e xácaras que em geral são visivelmente do mesmo stylo, mas de conhecida differença em antiguidade, todavia remotissima em todos. Comecei a arranjar e a vestir alguns com que ingracei mais; e para lhe dar amostra do modo por que o fiz, adeante copio um dos mais curiosos[5], ainda que não dos menos estropiados, e com elle o restaurado ou recomposto por mim, o melhor que pude e soube sem alterar o fundo da historia e conservando, quanto era possivel, o tom e stylo de melancholia e sensibilidade que faz o principal e peculiar character d’estas peças.
A minha primeira idea foi fazer uma collecção dos romances assim reconstruidos e ornados com os infeites singelos porêm mais symetricos da moderna poesia romantica, e publicá-la com o titulo de Romanceiro-portuguez, ou outro que tal, para conservar um monumento de antiguidade litteraria tam interessante, e de que talvez só a lingua portugueza, entre as cultas da Europa, careça ainda; porque de quasi todas sei, e de todas creio, que se não pode dizer tal[6].
Mas sobreveio tanta interrupção, tanta distracção de tam variado genero, mortificações, cuidados, trabalhos mais serios; emfim desisti da impreza.
Ja tinha decorrido muito tempo, e voltado eu a Portugal, lembrando-me sempre de vez em quando este impenho tam antigo e tam fixo; e a occasião a fugir-me. Uma circumstância fatal e terrivel me fez voltar ás minhas queridas antigualhas. Lançado n’uma prisão pela maior e mais patente injustiça que jamais se ouviu[7], voltei-me, para occupar minha solidão e distrahir as amarguras do espirito, aos meus romances populares, que sempre commigo têem andado, como uma preciosidade, que bem sei não avalia ninguem mais, de que muita gente rirá, mas que eu apprecio, e me ponho ás vezes a contemplar, e a estudar como um antiquario fanatico a quem se vão as horas e os dias deante d’um tronco de estatua, d’um capitel de columna, d’um pedaço de vaso etrusco, d’um bronze ja carcomido e informe, desinterrado das ruinas de Pompeia ou de Herculano. Mas quantos Davids e Canovas não faz, quantos Raphaeis e Miguel-Angelos não fez o estudo d’esses fragmentos que despreza porque mais não intende o vulgo ignorante!
Assim passei muitas horas de minha longa e amofinada prisão, suavizando mágoas e distrahindo pensamentos.—Tinha eu começado a ageitar outro romance que originalmente se intitula A Silvana, cujo assumpto notavel e horroroso exigia summa delicadeza para se tornar capaz de ser lido sem repugnancia ou indecencia. Era nada menos que uma nova Myrrha, ou antes o inverso da tragica, interessante, mas abominosa historia da mythologia grega; é um pae namorado de sua propria filha!—A filha joven, bella, virtuosa, sancta emfim.—A difficuldade do assumpto irritou o desejo de luctar com ella e vencê-la se possivel fosse. Dava larga o tempo, pedia extenção a natureza dos obstaculos; o que fôra começado para uma xácara, para uma cantiga, ou, como lhe chamam Allemães e Inglezes, para uma ballada, sahiu um poemeto de quatro cantos, pequenos sim, porêm muito maiores do que eu pensei que fossem, e do que geralmente são taes coisas. Mudei-lhe o titulo e chamei-lhe Adozinda, que soa melhor e é portuguez mais antigo. O fundo da historia, as circumstâncias do desfecho d’ella são conservadas do original; o ornato, o mechanismo do maravilhoso é outro mas accommodado, creio eu, ao genero e á indole do assumpto.
Mando-lhe aqui tambem uma cópia do romance original para ver e combinar. É dos mais mutilados e desfigurados, mas certamente dos que têem mais visiveis signaes de vetustade quasi immemorial[8].
Ora eis-aqui, meu amigo, a historia e origem da minha Adozinda, gerada no exilio, nascida entre sustos, criada na miseria e padecimentos de uma prisão. Entre tudo o que tenha rabiscado de prosas e versos este romancesinho é a composição minha a que tenho mais amor pelas memorias que me lembra, pelas affecções que me desperta.—Que de coisas passaram por mim durante o tempo que o compuz, os intervallos tam longos em que o deixei!—até o nascimento e a morte de uma filha unica, tam querida e para sempre chorada!...
Adeus, meu amigo: não sei o que ahi vai escripto, nem como. São ideas sem nexo, pensamentos desatados, coisas á toa como o espirito de quem as escreve. Lea-as assim, e assim se imprimam se porventura estão em termos d’isso,—do que muito duvido, porque eu por mim, nem que me dessem os louros de Camões, ou me fizessem apotheoses como a Homero, me punha a corrigir, nem siquer a rever o que ahi vai escripto, quer prosa quer versos[9].
Londres, 14 d’Agosto de 1828.