A ELYSA
Campolide, 11 d’Agosto 1827.
Thus, while I ape the measure wild,
Of tales that charmed me yet a child,
Rude though they be, still with the chime
Return the thoughts of early time;
And feelings, roused in life’s first day
Glow in the line, and prompt the lay.
Walter Scott.
Campo da lide é este; aqui lidaram,
Elysa, os nossos quando os nossos eram
Lidadores por glória,—aqui prostraram
Suberbas castelhanas, e—venceram;
Que pelo rei e patria combatendo
Nunca foram vencidos Portuguezes.
—Este terreno é sancto: inda estás vendo
Alli aquelles restos mal poupados[10]
Do tempo esquecedor,
Dos homens deslembrados;
Nobres reliquias são d’altas muralhas
Forradas ja de lucidos arnezes,
De tresdobradas malhas.
Talvez fluctuava alli n’aquelle canto,
Suberbo e vencedor
Das Quinas o pendão victorioso;
E junctos ao redor
D’esse paladio augusto e sacrosancto,
Invencivel trincheira lhe faziam
Toda a flor dos mais nobres e esforçados;
Que á voz da patria (voz que nunca ouviam
Sem sentir redobrados
Do nobre coração os movimentos)
Heroes são todos, facil a victoria,
Faceis as palmas que lh’infeixa a glória.
Ah!—paremos aqui:—ve quaes na frente
As arterias violentas me rebatem:
Febril, descompassado corre e ardente
E me angustia o sangue...—Ah! sim paremos
Aqui... Não, aqui não; esse outeirinho
Depressa o desceremos.
Faz-me bem ésta vista:—essas arcadas[11]
Suberbas, elevadas,
Que uniram monte a monte e serra a serra,
Acaso não serão
Tam illustres talvez,—não lembram guerra,
Glória não lembram; nem com sangue livido
A morte da victoria companheira
Para o erguido padrão
O cimento amassou.
Um rei que amou as artes, rei pacífico,
A quem amor fadou
Que seu fôsse e das musas,—que fugidas
Da pátria ha tanto, á patria as volveria;
Do povo á utilidade
Este sublime monumento erguia.
Para a posteridade
Isto só lhe appurou o nome e a glória,
E lhe ganhou as paginas da historia.
Inda é muita oppressão; inda me acanha
Tanta arte humana o coração no peito.
Tam grandes massas, fábrica tammanha
Absorto deixarão—mas satisfeito
O ânimo, os sentidos?.. Não, Elysa,
Não satisfaz ao homem a arte humana:
Por mais que ella se uffana,
Que aos abysmos o centro opprime e pisa
C’os fundamentos de eternaes pyramides,
Ou c’os erguidos vertices
Ás nuvens rasga o seio tempestuoso.
Nem assim:—á tristeza ou á alegria,
E áquelle estado de innefavel gôso
Que entre a dor e o prazer a alma suspende
Brandamente e se diz melancholia,
Oh! nada d’isso o excita.
Oh! nada d’isso o coração intende!
Oh! nada d’isso o espirito nos move
Se a natureza, a pura natureza
Por sua ingenua attracção nos não commove.
Posso admirar o homem e a grandeza
De suas nobres feituras,
Mas somente admirar;
Mais não póde excitar
Mesquinha creação de creaturas.
Vamos por essa incosta
Subindo.—Eu gósto do alto das montanhas,
Dos picos das erguidas serranias,
O avaro á terra mãe abra as intranhas,
Cave oiro e crimes, com que incurte os dias
Seus e dos seus, e a sombra da virtude
Acabe de varrer da face d’ella.
Mas o que, em paz commigo e co’a existencia,
Ainda ama a innocencia,
Inda se apraz co’a natureza bella,
A seus quadros surri, com seus dons gosa,
Oh! esse venha ao cume do alto monte,
Venha estender a vista saudosa
Pelo valle que á falda lhe verdeja,
A messe que loureja,
E a despenhada fonte
Que vai garrula e trepida saltando
Té que se junta em cava pederneira.
D’onde sai, o arco d’Iris imitando
Na espadana da férvida cachoeira.
Venha na solidão—e o só dos montes
É mais só que nenhum,—o silencioso
Mais augusto, solemne e magestoso!
Venha na solidão
Comsigo conversar, fallar um’hora
Com o seu coração.
—Quantos ha que annos longos hão vivido
C’os outros sempre, sempre c’os de fóra
Sem viverem comsigo nem um dia,
Nem um momento só!
Tenhamos d’elles dó;
Viver não... têem apenas existido.
Tua meiga companhia
É doce, Elysa; e sempre na minha alma
Foi teu brando fallar—e quantas vezes!—
Celeste orvalho que abrandou a calma
De paixões, que adoçou o agro a revezes:
Porêm a minha solidão querida,
De vez em quando, lá quando a alma o pede,
Oh! não m’a tirem que é tirar-me a vida.
Agora conversemos: eu ignoro
A arte das vans palavras que bem soam;
Oiço-as, e não demoro
No ouvido os sons que de per si se escoam.
O sol declina;—temos largamente
Hoje philosophado.
Na viva flor da edade e da saude
Nem de todos sería accreditado
Que tam suavemente
Em austeras conversas de virtude
Nos fôsse o tempo.—Crê-me, Elysa amavel,
Tem muito mais prazeres a amizade
E mais doces que amor:
Para todos os sexos, toda a edade,
Em todo o tempo a mesma, sempre affavel,
Sem o cancro roedor
Do ciume voraz que no mais puro
D’amor, no mais seguro
Suas raizes venenosas lança,
E co’a mais branda flor
Seus mordentes espinhos lhes intrança.
Detestemos, Elysa, essa funesta
Paixão brutal que a tudo e em tudo damna,
Da virtude a tyranna:
Não nos illuda a tam commum cegueira;
Detesta o crime quem amor detesta.
Crimes!—vê a amizade prazenteira,
Que nenhuns tem;—e amor, ai! quantos, quantos!
Honras perdidas, thalamos violados,
Os vinculos mais sanctos
Dos homens e de Deus, da natureza,
Da propria natureza—espedaçados
Por esse amor, que sua tocha accesa
Do vivo fogo traz do averno immundo
Para de crimes abrazar o mundo.
Honesto, justo, sancto, consagrado,
Nada respeita:—o sangue, o altar em meio
De seus desejos não é termo ou freio;
Não ha pomo vedado
No Eden da virtude
Que a mão perversa e rude
Tocar não ouse,—árvore da vida
Que dos gryphos mordida,
Em peçonha de morte não converta,
E a seiva salutar já corrompida
Em lethal beneficio não perverta.
Lembra-te aquella historia
Que ingenuo o povo em seus trabalhos canta,
E de longa memoria
Entre elles perpetuada,
É singella legenda de uma sancta,
Que por brutal amor sacrificada,
Desvalida virtude,
Só do crime escapou no seio á morte?
Eu a canção magoada
Em verso menos rude,
Mais moldado verti, dei novo córte
Ao vestido antiquissimo, á simpleza
Que ha seculos lhe deu
De nossos bons maiores a rudeza.
—Sereno está o ceo,
Tranquillo o vento, a calma descahida;
E, pois que não te infada
A singella toada
Do bardo alahude que sem arte soa
E a rhyma desgarrada
Da popular canção rustico intoa,—
Aqui t’a cantarei, ouve: e se ao pranto
Te commover a saudosa endeixa,
Na selvagem bonina,
Na campainha agreste d’esse mato
Arrociá-lo deixa;
São lagrymas sinceras, propria fonte
Para regar as innocentes flores
Que arte não sabem, nem conhecem arte;
Flores como os meus versos não variados
De refinadas côres,
Em que alma só e coração tem parte,
Não por classica musica modulados
Ao graduado som de grega lyra,
De cithara romana.
A minha é melodia que só mana
Dos intimos accordes só do peito;
Nem ha corda que fira
Em meu alahude rustico
Tom menos natural, mais contrafeito.
Em suberbos canaes, alto impedrados
Por ingenhoso hydraulico,
Vão d’arte subjugados
Os caudaes da torrente conduzindo
Riquezas de preciosa mercancia:
E o arroio, que serpeia entre pedrinhas
Pela relva macia,
Bordado em-tôrno sinuosamente,
Que póde elle levar
Em sua doce e trépida corrente?
—Alguma folha de silvestre rosa
Que, ingenua divagando,
Pastorinha formosa
Lhe foi acaso á margem desfolhando.